quinta-feira, 9 de maio de 2019

A profanação das igrejas favorecida pela Santa Sé



Os edifícios mais difundidos no mundo são as igrejas. Pequenas, grandes, magnificentes, sublimes; simples e graciosas, de cidades ou de pequenas aldeias, de grandes aglomerados ou de estradas de campo até se chegar ao topo das montanhas. Deixando de lado os lugares de “culto” modernistas – porque não são “atraentes” para ninguém (em forma de salas de reunião, hangares, garagens, paralelepípedos e cubos anicónicos, assépticos, frios, feios e, muitas vezes, horríveis, que a comissão eclesiástica quis erguer em nome do “sinal dos tempos”, onde a liturgia protestizante é acompanhada pela dessacralização arquitectónica e artística) –, consideremos o que está a acontecer nas Casas de Deus.               

Se na França jacobina e na União Soviética as igrejas eram destruídas, saqueadas ou usadas para usos profanos, hoje, no Ocidente do deus Mamon, as igrejas – uma vez construídas para celebrar o Santo Sacrifício nos altares e, consequentemente, para a maior Glória de Deus e para a salvação das almas – são cada vez mais vazias de fé, de liturgia, de louvor, de clero, de fiéis, por isso sofrem múltiplas transformações: vendidas, alugadas, colonizadas, empobrecidas, profanadas. São, em suma, um suculento instrumento económico.                    

Segundo o filósofo Giorgio Agamben, nascido em 1942, amigo de Elsa Morante e de Pier Paolo Pasolini, «profanar significa restituir ao uso comum o que foi separado na esfera do sagrado» e é, exactamente, o que a Santa Sé está a fazer na pessoa do Cardeal Gianfranco Ravasi, Presidente do Pontifício Conselho para a Cultura. As igrejas tornaram-se um prato suculento para a Igreja inter-religiosa dos nossos dias. 

Se as igrejas eram o coração pulsante de todas as comunidades cristãs, urbanas e rurais, hoje são um problema e, ao mesmo tempo, uma oportunidade. Dessas horríveis, pós-conciliares, pode-se fazer o que se quiser, enquanto que aquelas que estão no centro das atenções das Belas Artes assumem um valor histórico-artístico-turístico muito apetecível.                                 

Quase como São Francisco, que iniciou a sua admirável missão restaurando, com as suas mãos, precisamente as igrejas, a abandonada Igreja de São Damião, para homenagear a Santíssima Trindade: «
A primeira obra a que Francisco lançou mão, ao sentir-se livre do jugo do pai terreno, foi reedificar um templo para o Senhor. Não quis construir um templo novo: restaurou uma igreja antiga, já em ruínas; não arrancou alicerces, edificou sobre eles, deixando a Cristo, sem o advertir, a prerrogativa da sua fundamentação. Ninguém, de resto, poderia estabelecer um outro fundamento além do já estabelecido: Jesus Cristo» (Tomás de Celano, Vida Primeira, Cap. VIII, 18).     

Que diferença com o Pontificado do Papa Francisco! Na Catedral de Milão, por exemplo, a 23 de Novembro de 2018, não se deu maior glória a Deus, mas à cantora pop Giorgia com o alegre apoio do Cardeal Ravasi, como demonstrado pelas entrevistas divulgadas. 

Em Praga, em Londres, em Roma, em toda a parte, há igrejas que se tornaram restaurantes e bares da moda, assim como: salas de concertos, casas nocturnas, ludotecas (como a Igreja holandesa de Arnhem, agora pista de skateboard), escolas (como a Igreja de Saint Paul, em Bristol, agora sede de uma escola de circo), locais de produções televisivas (a Igreja de San Giovanni Battista, em Turim, agora armazém da Nova-T, dos Frades Capuchinhos), locais para conferências, exposições e qualquer outra coisa.      

A arte contemporânea, a mercantilizada, gosta muito desses lugares de prestígio porque dão brilho, como moldura, às suas desoladas e insípidas, quando não escandalosas e horripilantes, propostas. Depois, há as igrejas musealizadas pelo seu alto valor artístico como aconteceu, por exemplo, na de Santa Maria Donna Regina Vecchia, em Nápoles. Mas as referências são agora múltiplas e aumentam a cada mês: um enorme património presente, em maneira capilar, em toda a Europa, onde a Itália se destaca. 

Igrejas reduzidas ao uso profano, portanto em desuso, e igrejas ainda activas que se prestam a liturgias blasfemas e a usos impróprios, porque transformadas em cantinas ou dormitórios para os pobres ou, como aconteceu na Igreja dei
Santi Martiri Gervasio e Protasio de None, em Turim, onde o pároco recebeu Griot Dieng e os seus músicos, que se apresentaram com ritmos tribais, instrumentos de percussão, canções, gritos, troncos nus, danças africanas e um redemoinho de cores, de saltos e de giros.          

As igrejas podem tornar-se locais de agregação ou de novas comunidades com a mudança de culto, como no caso da capela dos antigos hospitais Riuniti de Bérgamo, vendida em leilão pela Região da Lombardia, que, em vez de ser comprada, como se presumia, pela comunidade romeno-ortodoxa, foi legalmente comprada, com uma oferta mais alta, por uma associação muçulmana, contornando, assim, uma norma regional anti-mesquitas exigida pela Liga Norte. Este é o destino de uso das Casas de Deus e não apenas daquelas reduzidas a uso profano.  

Para colocar “ordem” neste caos, chegou a Santa Sé, através do seu Dicastério, o Pontifício Conselho para a Cultura, que produziu um documento, A alienação e a reutilização eclesial de igrejas. Directrizes, linhas dirigidas a todas as comunidades eclesiais para abordar o fenómeno em contínuo aumento. O documento foi assinado pelo Dicastério e pelos delegados das Conferências Episcopais da Europa, Canadá, Estados Unidos da América e Austrália, no final da conferência internacional Deus não vive mais aqui? Alienação de lugares de culto e gestão integrada de bens culturais eclesiásticos, promovida, no final de Novembro do ano passado, na Pontifícia Universidade Gregoriana, pelo Pontifício Conselho para a Cultura, em colaboração com a Conferência Episcopal Italiana e a Universidade dos Jesuítas. 

Para a liderança eclesiástica secularizada e laicizada, politicamente activa e comprometida, ocorre envolver na programação as comunidades cristãs locais e procurar um entendimento com as comunidades civis e todos os sujeitos públicos e privados interessados para que os projectos de transformação, lê-se no documento, «sejam sustentáveis do ponto de vista técnico, económico, social e cultural» e se insiram como peças dentro de «uma história de identidade comunitária historicizada e plural». 

A Igreja inter-religiosa dos nossos tempos renunciou tragicamente à evangelização (o primeiro propósito da Igreja fundada pelo Filho de Deus), como está claro no documento, desprovido de qualquer olhar espiritual e ainda menos sobrenatural, que toca o termo «evangelização», mas para inseri-lo num processo meramente evolutivo: as igrejas «associam, na sua multiplicidade histórica e na sua própria natureza teológica, elementos espaciais seja de continuidade identitária, seja de transformação historicizada: por um lado, a sua estabilidade expressa a plantatio ecclesiae num território, num contexto geográfico, cultural e social; por outro lado, consideradas as transformações históricas dos ritos, da espiritualidade e das devoções, devem poder seguir a vida das comunidades, chamadas a trabalhar com discernimento na dialéctica entre fidelidade à memória e fidelidade ao próprio tempo. Lido à luz de tal dinamismo transformador, o eventual processo de alienação e de reutilização constitui um momento delicado, que se insere como elemento adicional de uma história de identidade comunitária historicizada e plural».                      

Chegando ao concreto, convida-se a colocar as igrejas à disposição das pluralidades eclesiais e sociais: «tanto em âmbito litúrgico (locais de culto para pastorais especializadas) quanto catequético, caritativo, cultural, recreativo, etc. Âmbitos privilegiados para a reutilização das igrejas subutilizadas são, certamente, o turismo e a criação de espaços de silêncio e de meditação abertos a todos», as igrejas, assim, poderão ser confiadas a associações e movimentos laicais «que garantam uma abertura prolongada e uma melhor gestão patrimonial. Em algumas realidades, está-se a fazer a experiência de um uso misto do espaço, destinando uma parte à liturgia e outra a fins caritativos ou sociais; tal solução, no entanto, implica a necessidade de uma revisão do direito canónico». «Cada intervenção não pode continuar a ser um caso isolado: uma visão territorial unitária das dinâmicas sociais (fluxos demográficos, políticas culturais, mercado de trabalho, etc.), das estratégias pastorais […] e das emergências conservativas [...] permite inserir em cada igreja um enredo de valores e estratégias partilhadas».     

Quando Cristo encarnou, não prestou atenção nem aos fluxos demográficos (migratórios), nem às políticas culturais, nem ao mercado de trabalho, nem mesmo os Seus Apóstolos, que percorreram o mundo a celebrar o Santo Sacrifício do altar e a baptizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo; nem mesmo os Padres da Igreja, os Papas e os pastores, por dois mil anos, que levantaram, nas sociedades que tinham cristianizado: santuários, capelas, igrejas, abadias, catedrais, basílicas, santuários para glorificar a Deus na terra e para a salvação eterna das almas. Mas a estes funcionários do Estado do Vaticano tais realidades não interessam: estão no mundo e são do mundo.        

Cristina Siccardi          
Uma tradução de Dies Iræ.

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