quinta-feira, 9 de maio de 2019

A insciência é petulante!



Hoje, o jornal Notícias de Beja, órgão da alentejana Diocese de Beja, publicou um artigo intitulado “Latim nas Missas” onde o autor, que não assinou o texto, afirma que, «cinquenta anos depois do Concílio Vaticano II», se torna difícil «compreender a pretensão de querer voltar atrás, reintroduzindo aquilo que a Igreja, em Concílio, desaconselhou, ou seja, celebrar a Missa em Latim». Será mesmo assim? Consultando a Sacrosanctum Concilium, a Constituição Conciliar sobre a Liturgia, encontramos a seguinte afirmação: «Deve conservar-se o uso do latim nos ritos latinos, salvo o direito particular» (cf. Sacrosanctum Concilium, n. 36. §1). Ora, como compreenderá o caríssimo leitor, à luz da Constituição citada, nada foi desaconselhado, aliás, o Concílio exorta a que o latim seja conservado.    

No segundo ponto do mesmo número, encontra-se a seguinte referência à língua vulgar: «Dado, porém, que não raramente o uso da língua vulgar pode revestir-se de grande utilidade para o povo, quer na administração dos sacramentos, quer em outras partes da Liturgia, poderá conceder-se à língua vernácula lugar mais amplo, especialmente nas leituras e admonições, em algumas orações e cantos, segundo as normas estabelecidas para cada caso nos capítulos seguintes» (Ibid., §2). Diz-nos este ponto que o que é proposto pelo Vaticano II é que a língua vernácula, neste caso o português, possa ocupar um «lugar mais amplo», mas em momento algum é decretado que deva substituir a língua latina, que é, para os menos atentos, a língua oficial da Santa Igreja. Quem for minimamente conhecedor da Liturgia Tradicional, saberá que, antes do sermão, o sacerdote lê a Epístola e o Evangelho em língua vulgar, para além de que os fiéis – na altura pré-conciliar ainda não haviam, graças a Deus e à fidelidade, sobretudo dos sacerdotes, católicos não-praticantes ou, pior, católicos anónimos, como muitos bispos gostam de afirmar – têm o Missal Quotidiano onde estão presentes todas as orações e leituras em latim e em português – há mesmo casos de Missais em que as orações e as leituras só aparecem em português. Parece-nos, pois, demagógico – ou, então, o autor carece de fontes – proclamar, como faz o autor do artigo, que a celebração da Santa Missa Tradicional se torna «uma “coisa distante”»!     

Um aspecto que não nos passou despercebido, pois tal seria impossível, foi o redactor do artigo ter escrito, referindo-se ao Novus Ordo Miss
æ, que tal «decisão histórica» tem sido «experimentada com grandes frutos na Igreja pós-conciliar». Tal comentário torna-se abusivo se, com seriedade, analisarmos o actual cenário religioso. As igrejas estão praticamente vazias, já poucas são as famílias que têm a preocupação de inscrever os seus filhos na Doutrina, vulgo catequese, pouquíssimos são os Casamentos e, consequentemente, os Baptizados, os seminários são ocupados por meia dúzia de seminaristas e incontável número de moscas. Afinal, quais são os «grandes frutos» de tal feito? Talvez se encontre um, ironicamente apresentado por quem escreveu o artigo, referindo-se ao latim: «se não o aprendem [os sacerdotes], como poderão pronunciá-lo correctamente?!». Inquestionavelmente, um dos frutos, podres, por sinal, do “espírito do Concílio” foi a manifesta negligência na formação dos futuros sacerdotes, e não só no que respeita à língua latina, mas, sobretudo, no que diz respeito, em primeiro lugar, a saberem ser homens para, depois, serem bons católicos e, por fim, santos e exemplares sacerdotes!          

Nesta narrativa desajeitada, imagine-se, ainda há espaço para citar, mesmo que de forma reprovável, a Sagrada Escritura, mais concretamente o décimo quarto capítulo da 1.ª Carta do Apóstolo Paulo aos Coríntios, em que o Apóstolo fala dos carismas na assembleia, explicando que «se não houver intérprete, fiquem calados na assembleia e falem consigo mesmos e com Deus» (cf. 1Cor 14, 28). Na Missa Tradicional, como já afirmámos, há intérprete, que pode ser o acólito, quando chamado a ler a Epístola e o Evangelho em língua vulgar, ou o próprio sacerdote, e também há o aludido Missal Quotidiano. Esta recorrência à Bíblia, por conseguinte, continua a parecer-nos desacertada e excessivamente parcial.                      

No artigo “Latim nas Missas”, que temos estado a analisar, aparece uma espécie de sub-ponto denominado “Reforma Litúrgica Conciliar”, numa alusão ao Motu Proprio Summorum Pontificum (07 de Julho de 2007), do Papa Bento XVI, onde o compositor do escrito opina dizendo que a permissão da celebração da Santa Missa Tradicional exige «muito discernimento pastoral». Mas, afinal, discernimento sobre o quê? Se o Missal de 1962 nunca foi proibido, como é bom que se diga, qual é a matéria passível de discernimento? Sugerimos, a bem da verdade, que deva ser motivo de discernimento a forma, não raras vezes desprezível e apedeuta, utilizada pela esmagadora maioria dos prelados portugueses quando os fiéis, de forma legítima, lhes pedem a celebração do Vetus Ordo nas suas Dioceses. Não será também passível de discernimento a cedência despótica e afrontosa de igrejas e de capelas a seitas protestantes e cismáticas? E o que dizer das execráveis celebrações ecuménicas, realizadas muitas vezes em igrejas católicas e na presença de bispos? No dicionário pós-conciliar, será esta a tão apregoada “solicitude pastoral”? O Evangelho, como sempre, é elucidativo: «Não podeis servir a Deus e ao dinheiro» (cf. Mt 6, 24). Tomemos consciência do que andam a fazer, quer dizer, do que nos andam a fazer!                      

O autor do irreflectido artigo repete fartamente a expressão “gostos pessoais” como se a Liturgia fosse uma questão de gosto pessoal e se aqueles que, ao longo de séculos, se santificaram através da participação na Missa Tradicional, apenas assistissem à Santa Missa por “gosto pessoal”. Atendendo à falta de urbanidade de tantíssimos bispos, quando confrontados com a Santa Missa Tradicional, situação essa que atenta contra a verdadeira «unidade da Igreja diocesana», citando o autor, podemos concluir que a rejeição da Santa Missa de sempre nas suas Dioceses se trata de uma matéria de “gosto pessoal” e, mais, de insipiência litúrgica e de displicência no que respeita ao cuidado das almas que lhes são confiadas. Serão responsabilizados, por Nosso Senhor, por cada alma dispersa e perdida! Aos que procuram a fidelidade, e nada mais do que a fidelidade, deve consolar a Sua garantia: «Et ecce ego vobiscum sum omnibus diebus usque ad consummationem s
æculi» (cf. Mt 28, 20).

Sem comentários:

Publicar um comentário

«Tudo me é permitido, mas nem tudo é conveniente» (cf. 1Cor 6, 12).
Para esclarecimentos e comentários, queira contactar: info@diesirae.pt