sábado, 23 de fevereiro de 2019

Carta do Arcebispo Viganò ao Papa e aos Bispos reunidos no Vaticano



Não podemos deixar de ver como um sinal da Providência que vós, Papa Francisco e Irmãos Bispos que representais toda a Igreja, vos tenhais reunido precisamente no mesmo dia em que celebramos a memória de São Pedro Damião. Este grande monge, no século XI, usou toda a sua força e o seu zelo apostólico para renovar a Igreja do seu tempo, profundamente corrompida pelos pecados de sodomia e simonia. Fê-lo com a ajuda de fiéis Bispos e leigos, em particular com o apoio do Abade Hildebrand, da Abadia de São Paulo fora dos Muros, o futuro Papa São Gregório Magno.        

Permiti que proponha para a vossa meditação as palavras do nosso caro Papa Emérito Bento XVI endereçadas ao povo de Deus na audiência geral de quarta-feira 17 de Maio de 2006, comentando exactamente o excerto do Evangelho de Marcos 8, 27-33 que proclamamos na Missa de hoje.  

“Pedro vive outro momento significativo no seu caminho espiritual nas proximidades de Cesareia de Filipe, quando Jesus faz aos discípulos uma pergunta concreta: «Quem dizem os homens que Eu sou?» (Mc 8, 27). Mas para Jesus não era suficiente a resposta do ter ouvido dizer. Daqueles que aceitaram comprometer-se pessoalmente com Ele pretende uma tomada de posição pessoal. Por isso insiste: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» (Mc 8, 29).         

Responde Pedro também em nome dos outros: «Tu és o Messias» (ibid.), isto é, Cristo. Esta resposta de Pedro, que não veio “da carne e do sangue” dele, mas foi-lhe concedida pelo Pai que está no céu (cf. Mt 16, 17), tem em si, como que em gérmen, a futura confissão de fé da Igreja. Contudo, Pedro ainda não tinha compreendido o conteúdo profundo da missão messiânica de Jesus, o novo sentido desta palavra: Messias.         

Demonstra-o pouco depois, deixando compreender que o Messias que persegue nos seus sonhos é muito diferente do verdadeiro projecto de Deus. Perante o anúncio da paixão escandaliza-se e protesta, suscitando uma reacção enérgica de Jesus (cf. Mc 8, 32-33).          

Pedro quer um Messias “homem divino”, que cumpra as expectativas do povo impondo a todos o seu poder: é também nosso desejo que o Senhor imponha o seu poder e transforme imediatamente o mundo; Jesus apresenta-se como o “Deus humano”, o servo de Deus, que altera as expectativas da multidão encaminhando-se por uma via de humildade e de sofrimento.       

É a grande alternativa, que também nós devemos aprender sempre de novo: privilegiar as próprias expectativas recusando Jesus ou acolhendo Jesus na verdade da sua missão e abandonando as expectativas demasiado humanas.     

Pedro, impulsivo como é, não hesita em repreender Jesus separadamente. A resposta de Jesus abala todas as suas falsas expectativas, quando o chama à conversão e ao seguimento: «Vai-te da minha frente, Satanás, porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens» (Mc 8, 33). Não me indiques tu o caminho, eu sigo o meu percurso e tu põe-te atrás de mim.            

Pedro aprende, desta forma, o que significa verdadeiramente seguir Jesus. É a sua segunda chamada, análoga à de Abraão em Gn 22, depois de Gn 12: «Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Na verdade, quem quiser salvar a sua vida, há-de perdê-la, mas quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, há-de salvá-la» (Mc 8, 34-35). É a lei exigente do seguimento: é preciso saber renunciar, se for necessário, ao mundo inteiro para salvar os verdadeiros valores, para salvar a alma, para salvar a presença de Deus no mundo (cf. Mc 8, 36-37). Mesmo com dificuldade, Pedro aceita o convite e prossegue o seu caminho seguindo os passos do Mestre. 

Parece-me que estas diversas conversões de São Pedro e toda a sua figura são de grande conforto e um forte ensinamento para nós. Também nós sentimos o desejo de Deus, também nós queremos ser generosos, mas também nós esperamos que Deus seja forte no mundo e transforme imediatamente o mundo segundo as nossas ideias, segundo as necessidades que vemos.                  

Deus escolhe outro caminho. Deus escolhe o caminho da transformação dos corações no sofrimento e na humildade. E nós, como Pedro, devemos converter-nos sempre de novo. Devemos seguir Jesus em vez de o preceder: é Ele quem nos indica o caminho.                        

Assim, Pedro diz-nos: Tu pensas que tens a receita e que deves transformar o cristianismo, mas é o Senhor quem conhece o caminho. É o Senhor que diz a mim, diz a ti: segue-me! E devemos ter coragem e humildade para seguir Jesus, porque Ele é o caminho, a Verdade e a Vida”.

Maria, Mater Ecclesiae, Ora pro nobis.       
Maria, Regina Apostolorum, Ora pro nobis.         
Maria, Mater Gratiae, Mater Misericordiae, Tu nos ab hoste protege et mortis hora suscipe.           

 Carlo Maria Viganò            
Arcebispo Titular de Ulpiana      
Núncio Apostólico      

21 de Fevereiro de 2019, memória de São Pedro Damião     

Uma tradução de Dies Iræ. 

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