domingo, 16 de dezembro de 2018

Porquê que as pessoas deixam a Igreja?



Desde há algumas décadas que assistimos a uma constante diminuição do número de católicos na América Latina. Muitos dos que abandonam a Igreja, não o fazem por deixar de crer em Deus, mas para juntar-se a outros grupos religiosos, principalmente a seitas pentecostais.       

Em alguns Países, os dados são especialmente dramáticos: só 46% se declaram católicos na Guatemala e 66% no Brasil. Recordemos que, há não muitas décadas, eram Países em que mais de 90% da população era católica.   

Como se pode explicar este fracasso da pastoral da Igreja em Países de antiga condição católica? Naturalmente, a nossa resposta entra no terreno da conjectura. Mais que uma causa, há um conjunto de causas que explicam este fenómeno. Mas, agora, interessa assinalar a mais importante delas. E isto, é claro, depende daquele que opina.

Pessoalmente, penso que as pessoas procuram, na religião, na sua fé, segurança espiritual e sentido claro para a sua existência. Crenças sólidas que vêm de Deus e foram experimentadas positivamente ao longo dos séculos. Por sua vez, os católicos, desde há décadas, geralmente encontram, nos Bispos e nos Sacerdotes, relativismos, não certezas de fé: dúvidas e interpretações demasiado pessoais que diluem a verdade revelada por Deus e a fé partilhada pela comunhão da Igreja através dos séculos.     

Uma pessoa, que vive da fé católica, procura, além de solidez, uma harmonização entre esta fé e a razão. Esta fé «explicada» e «razoável» torna-se monolítica através da oração e dos sacramentos, a partir dos quais o relacionamento com Deus é aprofundado. Neste diálogo constante com o Senhor, vai-se crescendo na firmeza da fé que, por sua vez, se começa a transmitir aos demais quando os vemos vacilantes, desconcertados ou titubeantes.            

O relativismo e a formação doutrinal pobre – ainda que, por vezes, sofisticada – diluiu as certezas da fé e a intensidade da vida espiritual entre nós. A Igreja precisa de voltar à solidez doutrinal de outras épocas, se não quer desagregar-se ou sangrar em mil seitas, mesmo que estas subsistam dentro de si. 

É verdade que Jesus prometeu proteger a Igreja até ao final dos tempos. Mas também nos preveniu que, no Seu regresso, a fé de muitos se teria apagado e a Igreja se veria reduzida a um pequeno rebanho, a um punhado que conseguiu escapar à desagregação espiritual e doutrinal. A nós, compete-nos, em cada tempo, ser fiéis a Cristo e, assim, atrair ao mundo inteiro a luz da fé.    

Muitos, de forma errada, focalizaram-se no diálogo Igreja-mundo. Nós não fizemos nenhum favor ao mundo quando fomos para esse diálogo com as mesmas perplexidades deles. Um diálogo assim transforma-se, com frequência, numa troca de dúvidas.       

Onde realmente se realiza este diálogo com o mundo é nos nossos próprios corações, quando consideramos as coisas à luz da luminosidade de Cristo. Nós, cristãos, somos o mesmo mundo sacralizado, orientado para Deus e, por isso, pleno e feliz.  

Não me refiro ao mundo de que fala São João quando diz que três são os inimigos que temos: o mundo, o demónio e a carne. O mundo, neste caso, significa toda a criação que, todavia, ainda não foi redimido no coração do cristão por obra da graça.

Temos de viver como filhos de Deus e auxiliar os nossos irmãos, os demais homens, com esse conhecimento do Pai e do Seu enviado, Jesus Cristo, pelo Qual nos faz participar na vida eterna. O esplendor da verdade da fé deve ver-se reflectido na nossa conduta e explicado com razoabilidade no nosso diálogo com os outros homens. Além disso, precisamos de cultivar um tratamento humano que se preocupe com todas as coisas num espírito de simples convivência e sem pretender «pontificar» outras pessoas desde o primeiro encontro. Chegará o momento e as maneiras para que lhes possamos sugerir um encontro amável com as verdades que nos sistematiza o Catecismo da Igreja Católica ou, mais resumidamente, o Compêndio do Catecismo.      

Quando contribuímos, com as verdades de Deus, para o diálogo com os homens, a maioria respeita as nossas convicções e agradece pela nossa paz interior. Acontece, então, que vamos dialogar com o mundo a partir da verdade de que somos possuidores, não porque é nossa, mas porque é do nosso Pai e, portanto, de todos nós igualmente. A experiência mostra que, quando somos fiéis à verdade do Evangelho, em toda a sua plenitude e certeza, os homens começam a regressar à Igreja, da qual só saíram porque não encontraram alimento suficiente para as suas vidas. Cumpramos, então, o que o Senhor nos confiou: “Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura”.           

† Rogelio Livieres     

[Bispo, falecido em 2015, que, em 2014, foi injustamente afastado do seu Ministério, na Diocese de Ciudad del Este, no Paraguai, por parte do Papa Francisco.]

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