sábado, 22 de dezembro de 2018

Luz nas trevas



Luz que dissipa e vence as trevas é, com efeito, o Natal do Senhor no seu significado essencial, que o Apóstolo São João expôs e compendiou no sublime exórdio do seu Evangelho, eco da solenidade da primeira página do Génesis ao aparecer da primeira luz. “O Verbo fez-se carne e habitou entre nós; e nós fomos testemunhas da sua glória, daquela glória que o Unigénito recebe do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1, 14). Vida e luz em si mesmo, resplandece nas trevas e concede – a todos aqueles que para Ele abrem os olhos e o coração, àqueles que o recebem e crêem nele – o poder de se tornarem filhos de Deus (cf. Jo 1, 2).         

Não obstante, porém, tão generosa fulguração de luz divina que promana do humilde presépio, deixa-se ao homem o poder tremendo de mergulhar nas antigas trevas, causadas pelo primeiro pecado, nas quais o espírito se estiola com obras aviltantes da morte. Para estes cegos voluntários, que se tornaram tais por haverem perdido ou debilitado a fé, o próprio Natal não conserva outro atractivo senão o de uma festa puramente humana, reduz-se a pobres sentimentos e a recordações puramente terrenas, embora ordinariamente se envolva de carinho, mas como realidade sem conteúdo ou fruto sem substância. Em volta do Radioso berço do Redentor, persistem, portanto, zonas de trevas e movem-se homens de olhos fechados ao celestial fulgor. Não porque o Deus Encarnado não tenha, mesmo no mistério, luz para iluminar cada homem que vem a este mundo, mas porque muitos, deslumbrados pelo efémero esplendor dos ideais e das obras humanas, circunscrevem o olhar aos limites do criado, incapazes de levantá-lo ao Criador, princípio, harmonia e fim de tudo o que existe.           

Pio XII, in Radiomensagem do Natal de 1953

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