terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Êxito e fracasso do 68



Enquanto termina 2018, há que dizer uma última palavra sobre a revolução cultural de 68. Uma revolução cujos êxitos e cujos fracassos podemos avaliar cinquenta anos depois.    

O 68 é também conhecido como o Maio Francês, porque foi uma revolta estudantil que alcançou o seu auge na parisiense Universidade de Sorbonne. No entanto, as suas raízes culturais estavam nas universidades norte-americanas de Harvard, Berkeley e San Diego, onde, nos anos sessenta, ensinavam alguns dos mais destacados expoentes da Escola de Frankfurt, como Herbert Marcuse, em cujo pensamento confluíam o pior de Marx e de Freud. Não se pode esquecer, tampouco, a influência que teve o Concílio Vaticano II na revolução de 68. Em Itália, a primeira universidade ocupada por estudantes foi a Católica de Milão e o principal centro difusor do movimento contestatário foi a Faculdade de Sociologia da Universidade de Trento, que era um viveiro de estudantes católicos. Mario Capanna, dirigente do movimento contestatário naqueles anos, recorda: «Nós passávamos noites inteiras a estudar e a comentar teólogos considerados, então, de vanguarda: Rahner, Schillebeeckx, Bultmann; juntamente com os documentos do Concílio». Renato Curcio, fundador das Brigadas Vermelhas, era também um católico de vanguarda que tinha estudado na Universidade de Trento, que transbordava de católicos progressistas.            

O 68 não foi uma revolução política, mas uma revolução de costumes que tinha por objectivo libertar o homem de todo o vínculo com a moral tradicional para construir uma civilização não-repressora, na qual a energia vital pudesse expressar-se espontaneamente numa nova criatividade social. Havia que superar o marxismo porque reduzia a sua ofensiva revolucionária ao aspecto estritamente político, sem influenciar o mais familiar ou pessoal. Era necessário transferir a revolução para a vida diária a fim de alterar a própria essência do homem sem limitar-se à aparência externa e superficial a que parecia condenada a perspectiva marxista clássica. O lema proibido proibir era expressão de rejeição de toda a autoridade e de toda a lei em nome da libertação dos instintos, necessidades e desejos. A liberdade sexual e a droga foram dois ingredientes com que afirmar a nova filosofia vital.          

Ao longo dos cinquenta anos que nos separam de 1968, foi-se realizando, no Ocidente, o programa desta revolução. O 68 teve êxito porque transformou a mentalidade e a forma de vida do homem ocidental e porque os seus artífices ocuparam postos-chave na política, nos meios de comunicação e na cultura. Mas a revolução de 68 estava condenada ao fracasso por causa da dinâmica interna que caracteriza todas as revoluções.

A essência do processo revolucionário não está no que afirma, mas no que nega; não está no que cria, mas no que destrói. A revolução propõe sempre um novo mundo que substitua o antigo. Assim, a revolução protestante apresenta-se como uma reforma religiosa; a Revolução Francesa como uma radical transformação política; e a de 68 como uma revolução moral na vida quotidiana. Há sempre uma novidade histórica para desembainhar as espadas. A revolução é a tensão para um futuro melhor.

A tensão tira forças desse carácter messiânico e utópico da revolução. Crê-se que é possível estabelecer um paraíso na Terra, que está ao alcance da mão. Em certo modo, trata-se de uma negação radical do pecado original ainda que a ideia subjacente à revolução seja propriamente outra: é a ideia, típica de doutrinas gnósticas, de que um Deus mau privou, injustamente, o homem do paraíso terreno que, por direito, lhe pertencia. Assim, com a ajuda do deus bom, a serpente, o homem deve vingar-se e reconquistar o paraíso terreno. Nesse sentido, a revolução é uma reiteração da velha mentira de que sereis como deuses. Todas as revoluções, sejam a protestante, a francesa, a comunista ou a de sessenta e oito, são revoluções falhadas. Ou, como dizem os revolucionários, revoluções incompletas, revoluções traídas.           

O que aconteceu na realidade? A família foi transtornada pela onda pansexualista e o Ocidente secularizado está imerso no hedonismo relativista. Agora, quando o relativismo e o hedonismo alcançam a sua plenitude, perdem a tensão para o futuro, todo o desejo de construir um mundo novo: a sociedade é prisioneira dos seus próprios vícios e torna-se incapaz de pensar em qualquer coisa que transcenda o bem-estar egoísta em que está afundada.          

A revolução de 68 fracassou porque nasceu como um protesto contra a sociedade unidimensional, a sociedade burguesa do bem-estar, mas a sociedade que produziu o 68 – a sociedade contemporânea – é a sociedade, por excelência, do consumo e do hedonismo. É a sociedade relativista que apaga a chama de todo o ideal. A filosofia da praxis foi colocada em prática no Ocidente mediante uma secularização absoluta da vida social. E, quando a filosofia da praxis se realiza politicamente, deixa de ser filosofia e converte-se em pura praxis: o âmbito dos interesses egoístas e materialistas, espaço de puras relações de forças numa sociedade desprovida de todo o ideal porque as suas raízes cristãs foram extirpadas. Mas, nesta sociedade consagrada à fragmentação e à desagregação social, não há lugar para o mito revolucionário do novo mundo, já que a ideia de revolução perde sentido. Hoje, entende-se a realidade como uma dinâmica, sobretudo de forças económicas, não de valores. A força, uma força sem verdade, é o único valor do nosso tempo. O filósofo Augusto Del Noce assinalou que todos os valores estão destinados a englobar-se na categoria da vitalidade. No entanto, uma sociedade que não conheça outro princípio que o da pura expensão, está condenada a dissolver-se. O resultado é o niilismo, que não é outra coisa que a autodestruição da sociedade.

Em Itália, sofremos essa inversão da revolução com a chegada ao poder dos sessantottini. A utopia de sessenta e oito virou-se ao contrário, caindo na praxis relativista, hedonista, cínica e conformista da esquerda, a que não interessa outra coisa que não seja manter as posições de poder que conquistaram.   

A revolução de 68 falhou porque o seu lema era proibido proibir, mas a sociedade contemporânea é uma ditadura sem precedentes na história: a ditadura do relativismo, uma ditadura psicológica e moral, que não destrói os corpos, mas isola, discrimina e mata a alma de quem lhe faz frente. No entanto, actualmente, está a ocorrer uma resistência. Os profetas do 68 anunciavam a morte da família e, hoje em dia, a família está em crise, mas não conseguiram extirpar o desejo natural, que há no coração do homem, de formar uma família que dure para sempre, que se caracterize pela permanência e pela fecundidade. Hoje em dia, surgem, em Itália e por todo o mundo, movimentos de defesa da vida e da família.         

Os profetas do 68 anunciavam a morte do Estado e o Estado está em crise, mas não conseguiram terminar com o desejo, inato no homem, de identidade nacional, de uma identidade cultural enraizada numa Nação e num Estado. Hoje em dia, começam a destacar-se, em Itália e noutros Países da Europa, partidos políticos que defendem a identidade e a soberania dos Estados nacionais.     

Os profetas do 68 anunciavam a morte da religião, mas Deus não morreu, regressou. Dizendo melhor, jamais se afastou; somos nós que estamos a voltar para Ele. E, actualmente, a cultura progressista está em crise e os jovens encontram o seu futuro na Tradição perene da Igreja.                     

Roberto De Mattei

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