sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Entrevista ao Superior Geral da FSSPX




No último sábado, 15 de Dezembro de 2018, o Superior Geral da Fraternidade São Pio X, Padre Davide Pagliarani (PDP), concedeu uma admirável entrevista ao jornal austríaco Salzburger Nachrichten (SN).       

SN: O fundador da Fraternidade São Pio X, Dom Marcel Lefebvre, foi excomungado, em 1988, por ter ordenado quatro Bispos sem permissão. No ano de 2009, Bento XVI levantou estas excomunhões. O que é que isso significa para si?           
PDP:
Para nós, não mudou nada, porque nunca consideramos que essas excomunhões tivessem fundamento. No entanto, algumas pessoas sentiram-se encorajadas a juntar-se a nós, coisa que, até então, não ousavam fazer. Isso facilitou, igualmente, as nossas relações com alguns Bispos e com parte do Clero, sobretudo com os padres mais jovens.

SN: Francisco também fez algumas concessões. O que é que o senhor ainda espera?                       
PDP:
Esperamos aquilo que todos os católicos pedem à Igreja no seu Baptismo: a Fé. A revelação divina está encerrada, é dever do Papa transmitir fielmente o depósito da fé. O Papa deve, pois, pôr fim à terrível crise que agita a Igreja há 50 anos. Esta crise foi desencadeada por uma nova concepção da Fé centrada na experiência subjectiva de cada um: julga-se que o indivíduo é o único responsável pela sua Fé e pode, livremente, optar por qualquer religião, sem distinção entre o erro e a verdade. Ora, isso contradiz a lei divina objectiva.

SN: A Fraternidade São Pio X pode, por sua vez, mostrar-se conciliadora no que se refere ao Papa?       
PDP:
A Fraternidade Sacerdotal São Pio X, mesmo quando se opõe aos erros do Concílio Vaticano II, está profundamente ligada ao Sucessor de Pedro. No entanto, estamos verdadeiramente consternados com uma característica fundamental deste pontificado: a aplicação completamente nova do conceito de Misericórdia. Este conceito foi reduzido a uma panaceia para todos os pecados, sem levar a uma verdadeira conversão, à transformação da alma pela graça, mortificação e oração. Na sua Exortação apostólica pós-sinodal, Amoris laetitia, o Papa estende aos católicos a possibilidade de decidir, caso por caso, segundo as suas consciências pessoais, questões de vida moral no Matrimónio. Isso contradiz, muito nitidamente, a orientação necessária e clara dada pela Lei de Deus. Nós vemos nisso um eco da espiritualidade de Lutero: um cristianismo sem exigência de renovação moral, um subjectivismo que não reconhece mais nenhuma verdade universalmente válida. Isso causou uma confusão profunda entre os fiéis e o Clero. Todos os homens procuram a verdade. Mas, para isso, tem necessidade da direcção de um Padre, como o aluno tem necessidade da direcção do Professor.

SN: O que representou, nesse sentido, o Ano Lutero 2017?      
PDP:
Desde o século XVI, a Igreja Católica dirigiu-se aos protestantes para convertê-los e reconduzi-los à verdadeira Igreja. O ano Lutero não serviu para esse objectivo primordial de procurar o retorno dos protestantes. Pelo contrário, foram confirmados no seu erro. A razão disso é que, desde o Concílio Vaticano II, a Igreja pensa que todos os homens podem encontrar Deus na sua religião. É uma premissa que reduz a Fé a uma experiência pessoal e interior, uma vez que a Fé não é mais considerada como a adesão da inteligência à revelação divina.     

SN: Nas outras religiões encontramos muitos que vivem moralmente bem na sua alma e consciência. Deus reconhecerá os seus méritos?         
PDP:
A Igreja é essencialmente missionária. Cristo disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Os homens somente serão salvos por meio de Nosso Senhor. Ele fundou uma única Igreja, que é a Igreja Romana. Esta verdade teológica deve ser proclamada, assim como a rectidão moral e o esplendor da Missa Tradicional no Rito Tridentino. A procura sincera pela verdade nas outras religiões não basta para produzir a verdade. É preciso, portanto, ajudar essas almas a salvarem-se. Se uma alma puder ser salva fora da Igreja Católica, isso ocorrerá apesar dos erros nos quais se encontra, e não graças a eles e, em todo o caso, somente por Jesus Cristo.          

SN: O seu predecessor, Bernard Fellay, qualificou os judeus, maçons e modernistas como inimigos da Igreja. Os judeus também têm de se converter à Igreja Católica, como o senhor afirmou que devem fazer os protestantes?
PDP:
O modernismo é um dos erros mais perigosos. Assim, até ao Concílio Vaticano II, a Igreja ordenava a todos os Padres fazerem um juramento anti-modernista, que eu mesmo fiz. Quanto ao judaísmo, seria um pecado imperdoável excluir o povo judeu dos bens e tesouros da Igreja Católica. A missão salvífica da Igreja é universal e não pode deixar de lado nenhum povo.                       

SN: O senhor rejeita os documentos essenciais do Concílio Vaticano II, tais como os que versam sobre a liberdade religiosa e o ecumenismo. Trata-se apenas de uma divergência de interpretação ou o senhor rejeita completamente esses textos do Concílio?
PDP:
O Vaticano II apresentou-se, ele mesmo, como um Concílio puramente pastoral. No entanto, algumas decisões dogmáticas maiores foram tomadas, como as que o senhor mencionou. Isso levou a uma transformação completa da fé. O Papa Bento XVI estimou que as divergências entre Roma e a Fraternidade Sacerdotal São Pio X se limitavam a um problema de interpretação dos textos do Concílio, de modo que bastaria debruçar-se sobre esses textos para que um acordo fosse possível. Ora, não é essa a nossa posição. A Fraternidade São Pio X rejeita do Concílio Vaticano II tudo o que não está de acordo com a Tradição católica. O Papa deveria declarar que o decreto sobre a liberdade religiosa é erróneo e corrigi-lo de seguida. Estamos convencidos de que um dia um Papa o fará e retornará à pura doutrina que era a referência antes do Concílio. Questões como liberdade religiosa, ecumenismo e constituição divina da Igreja foram tratadas pelos Papas antes do Vaticano II. Basta retomar os seus ensinamentos Não se pode conceber que a Igreja se tenha enganado por dois milénios e que somente tenha encontrado a verdade sobre estas questões nos anos do Concílio, entre 1962 e 1965. 

SN: Pesa-lhe na consciência o facto de que, desde o ponto de vista Romano, o senhor esteja em estado de cisma com a Igreja?           
PDP: Na verdade, Roma não nos considera como cismáticos, mas como “irregulares”. Em todo o caso, se eu não tivesse a certeza de trabalhar na Igreja Católica Romana e em proveito dela, imediatamente abandonaria a Fraternidade. 

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