quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Gomorra no século XXI. O alerta de um Cardeal e historiador da Igreja



“A situação é comparável à da Igreja nos séculos XI e XII”. Como notável historiador da Igreja e como Presidente do Pontifício Comité das Ciências Históricas, entre 1998 e 2009, o Cardeal Walter Brandmüller, de 89 anos, não tem dúvidas quando vê a Igreja actual “sacudir-se até nos seus fundamentos”, por causa da propagação de abusos sexuais e da homossexualidade, “em forma quase epidémica entre o clero e, inclusive, na hierarquia”.    

“Como se pôde chegar a este ponto?”, pergunta-se o Cardeal. A sua resposta está num amplo e fundamentado artigo publicado nestes dias no mensário alemão “Vatican Magazin”, dirigido por Guido Horst (versão alemã e versão italiana).                     

Brandmüller remete para os séculos em que os bispados e mesmo o papado se tinham convertido em tal fonte de riqueza que, por isto, “se combatia e se comercializava para tomar posse dela”, com a pretensão dos governantes temporais atribuírem a si mesmos os cargos na Igreja. O efeito foi que ocuparam o cargo de pastores personagens moralmente dissolutos, ocupados com o património mais que no cuidado das almas, por nada inclinados a viver uma vida virtuosa e casta. 

Não só o concubinato, mas também a homossexualidade estava cada vez mais difundida entre o clero, de tal forma que São Pedro Damião, em 1049, entregou ao recém-eleito Papa Leão IX, conhecido como reformador zeloso, o seu livro ‘Liber Antigomorrhianus’, redigido em forma epistolar e que, na essência, era um alerta para salvar a Igreja da “imundice sodomítica que se insinua como um cancro na ordem eclesiástica, mais ainda, como uma besta sedenta de sangue e raivosa no redil de Cristo”. Sodoma e Gomorra, no livro do Génesis, são as duas cidades que Deus destruiu, com fogo, por causa dos seus pecados.     

Mas o mais digno de destacar, escreve Brandmüller, foi que “quase contemporaneamente se constituiu um movimento laical dirigido não só contra a imoralidade do clero, mas também contra o apoderamento dos cargos eclesiásticos por parte dos poderes laicais”. 

“O que surgiu foi um vasto movimento popular chamado ‘pataria’, conduzido por membros da nobreza de Milão e por alguns membros do clero, mas apoiado pelo povo. Colaborando estreitamente com os reformadores próximos de São Pedro Damião, e logo com Gregório VII, com o bispo Anselmo de Lucca, importante canonista que posteriormente chegou a ser o papa Alexandre II, e com outros também, os ‘patarinos’ solicitaram, recorrendo também à violência, a realização da reforma, que a continuação tomou, a partir de Gregório VII, o nome de ‘gregoriana’: por um celibato do clero vivido fielmente e contra a ocupação de dioceses por parte de poderes seculares”.      

Certamente, a continuação da ‘pataria’ dispersou-se em correntes pauperistas e anti-hierárquicas, à beira da heresia, só em parte depois reintegradas na Igreja “graças à acção pastoral com visão de futuro de Inocêncio III”. Mas o “aspecto interessante” sobre o qual Brandmüller insiste é que “esse movimento reformador explodiu, quase simultaneamente, nos máximos ambientes hierárquicos em Roma e entre a vasta população laica lombarda, em resposta a uma situação considerada insustentável”.           

Agora, o que há de semelhante e de diferente na Igreja de hoje, em respeito à de então? Semelhante, adverte Brandmüller, é que então, como hoje, quem protesta e reclama uma purificação da Igreja são, sobretudo, estratos do laicado católico, especialmente norte-americanos, no sulco da “maravilhosa homenagem ao papel importante do testemunho dos fiéis em matéria de doutrina” trazido à luz, no século XIX, pelo beato John Henry Newman.  

Igual a então, também hoje estes fiéis encontram ao seu lado alguns pastores zelosos. Mas há que reconhecer – escreve Brandmüller – que o apaixonado pedido às altas hierarquias da Igreja e, finalmente, ao Papa, de unir-se a eles para combater a peste da homossexualidade entre o clero e os bispos, não encontra hoje respostas igualmente adequadas, ao contrário dos séculos XI e XII.        

Também nas lutas cristológicas do século IV – faz notar Brandmüller – “durante largos períodos o episcopado manteve-se inactivo”. E, sim, também hoje permanece da mesma forma em respeito à difusão da homossexualidade entre os ministros sagrados, “pode depender do feito que a iniciativa pessoal e a consciência da própria responsabilidade de pastor do bispo individual se tornaram mais difíceis pelas estruturas e pelos aparatos das conferências episcopais, com o pretexto da colegialidade ou da sinodalidade”.    

Quanto ao Papa, Brandmüller imputa, não só ao actual, mas também em parte aos predecessores, a debilidade de confrontar as correntes de teologia moral segundo as quais “o que ontem era proibido, hoje pode ser permitido”, actos homossexuais incluídos.

É verdade – reconhece Brandmüller – que a encíclica ‘Veritatis Splendor’, de 1993, de João Paulo II, – “em que a contribuição de Joseph Ratzinger não foi, todavia, reconhecida devidamente” – reconfirmou “com grande claridade as bases dos ensinamentos morais da Igreja”. Mas “chocou com a ampla rejeição dos teólogos, talvez porque foi publicada apenas quando a decadência teológica e moral já tinha avançado demasiado”.

É também verdade que “alguns livros sobre a moral sexual foram condenados” e “a dois professores foi-lhes retirada a licença para ensinar, respectivamente em 1972 e 1986”. “Mas – prossegue Brandmüller – os hereges verdadeiramente importantes, como o jesuíta Josef Fuchs, que entre 1954 e 1982 foi docente na Pontifícia Universidade Gregoriana, e Bernhard Häring, que ensinou no Instituto dos Redentoristas em Roma, assim como o mais influente teólogo moral de Bonn, Franz Böckle, ou o de Tubinga, Alfons Auer, puderam espalhar, sem ser perturbados, à vista de Roma e dos bispos, a semente do erro. A atitude da Congregação para a Doutrina da Fé nestes casos é, vista em retrospectiva, simplesmente incompreensível. Viu chegar o lobo e permaneceu a assistir enquanto ele invadia o rebanho”.     

O risco é que, por causa desta falta de iniciativa das altas hierarquias, também o laicado católico mais comprometido, abandonado, possa “não mais reconhecer a natureza da Igreja fundada sobre a Ordem Sagrada e se encaminhe, ao protestar contra a inépcia da hierarquia, até um cristianismo comunitário evangélico”. Mas, pelo contrário, se mais se sentirem os bispos, desde o Papa em diante, sustentados pela activa vontade dos fiéis para renovar e reviver a Igreja, muito mais se poderá fazer uma verdadeira limpeza.          

Conclui Brandmüller ao dizer: “É na colaboração de bispos, sacerdotes e fiéis, no poder do Espírito Santo, que a crise actual pode e deve converter-se em ponto de partida da renovação espiritual – e, em consequência, também da nova evangelização – de uma sociedade pós-cristã”.          

Brandmüller é um dos quatro cardeais que, em 2016, apresentou ao Papa Francisco as suas “dubia” sobre as variações dos feitos da Igreja, sem que nunca tenha recebido uma resposta. Desta vez o Papa Francisco escutá-lo-á e tomá-lo-á seriamente em consideração, como fez Leão IX com São Pedro Damião?        

[Fonte: Sandro Magister, L’Espresso – 5 de Novembro de 2018]

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