quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Breve história do canto gregoriano desde o rei David até aos nossos dias



Poder-se-ia pensar que o chamado canto simples não daria muito tema de conversa. Na realidade, o canto gregoriano é tudo menos simples, porque as suas bonitas melodias foram criadas para serem cantadas sem acompanhamento, nem harmonia, como corresponde à antiga cultura monástica em que nasceram. O que conhecemos como canto gregoriano é uma das formas mais ricas e delicadas de arte na música ocidental; melhor dizendo, na música de qualquer cultura.        

A tradição de cantar as Escrituras, prática conhecida como teamim ou cantilena, nasceu, pelo menos, mil anos antes do nascimento de Cristo. Vários livros do Antigo Testamento, em particular os Salmos e as Crónicas, atestam o papel central da música no culto celebrado no templo. Algumas melodias gregorianas ainda em uso são surpreendentemente parecidas às que se entoavam nas sinagogas, em particular o tonus peregrinus do Salmo 113, In exitu Israel; a antiga tonalidade do Evangelho e a do Prefácio.      

Tendo em conta que o Saltério davídico foi composto com a mesma finalidade de prestar culto a Deus e era considerado o livro messiânico por excelência, observamos que São Pedro, São Paulo e os Padres Apostólicos o citam com muita frequência nas suas pregações. Os primeiros cristãos elegeram espontaneamente o Saltério como livro devocionário. E, assim, a liturgia cristã em geral surgiu da combinação do Saltério e do Sacrifício. O Saltério é o incenso verbal das nossas orações e louvores, uma homenagem prestada pelo nosso intelecto a Deus. O sacrifício sangrento, a morte e a aniquilação de um animal, representa a entrega incondicional do nosso ser a Deus. Ambas as coisas estão maravilhosamente combinadas na Missa, conforme o sacrifício racional que consiste na oferta perfeita de Jesus Cristo no altar, que torna os nossos louvores e orações dignos da Santíssima Trindade.                     

O canto conheceu um desenvolvimento prodigioso durante o primeiro milénio da cristandade. Para a época de São Gregório Magno, que reinou entre 590 e 604, já existia todo um repertório de cantos para o Santo Sacrifício da Missa e as orações diárias (Ofício Divino). Ao dar a sua forma definitiva ao Cânone Romano, que é a marca distintiva do Rito Latino, São Gregório organizou o repertório musical, graças ao qual, desde então, o canto é homenageado com o seu nome: canto gregoriano.                     

Com o tempo, não só se recitavam salmodicamente os salmos e as antífonas, mas também a leitura das Escrituras, orações, intercessões, litanias, instruções (por exemplo, flectamus genua) e, em geral, todo o que tivesse de ser proclamado em voz alta. O núcleo do repertório gregoriano remonta a antes do ano 800; a maior parte foi concluída por volta de 1200.                 

Como o canto era, nem mais nem menos, a música feita à medida, por assim dizer, que se tinha desenvolvido conjuntamente com a liturgia, onde quer que esta chegasse, chegava também a primeira. Ninguém teria pensado dissociar os textos litúrgicos da música; eram algo assim como um composto de corpo e alma ou como um matrimónio feliz. Também se poderia comparar o canto com as vestes sagradas. Uma vez desenvolvida a indumentária cerimonial, ninguém no seu perfeito juízo pensaria em livrar-se da casula, da estola, da alba, do amito ou do manípulo. São os paramentos com os quais os ministros do Rei têm o privilégio de se adornar. E, assim também, o canto é a indumentária que engalana os textos litúrgicos.                     

O Concílio de Trento (1545-1563) corroborou a função do canto na liturgia e desaconselhou o uso de uma polifonia excessivamente complexa, sobretudo quando esta se baseava em melodias seculares.                  

Em todo o caso, com o passar do tempo as melodias tradicionais do canto foram-se abreviando ou corrompendo, porque se viram obrigadas a adaptar-se a um ritmo regular como a música com métrica da época. No início do século XIX, o canto tinha sido objecto de grave deterioração e negligência.                    

Era inevitável que, mais cedo ou mais tarde, se realizasse a restauração de tão imenso tesouro da Igreja, que também é parte integral da sua solene liturgia! Esta restauração foi obra conjunta de um monge e de um pontífice. Dom Prosper Guéranger (1805-1875) fundou, em 1833, a abadia de Solesmes e tornou-a um centro nevrálgico de observância monástica, no qual não faltava o canto do Ofício Divino e a Missa na sua totalidade. Os monges de Solesmes estudaram manuscritos antigos e recuperaram as distintas melodias e ritmos do canto.                        

Pouco depois de ascender ao solo pontifício, São Pio X reuniu-se, em Roma, com os monges de Solesmes e encomendou-lhes a tarefa de publicar todos os livros de canto litúrgico, fazendo as correcções pertinentes à melodia e ao ritmo. Os monges puseram mãos à obra e Pio X colocou o seu selo de aprovação no trabalho realizado. Essa instrução pontifícia deu lugar a uma larga série de publicações influentes de Solesmes ou autorizadas pela referida abadia, a maioria das quais continuam em uso, em particular o Liber usualis, o Graduale romanum e o Antiphonale monasticum.              
Desde Solesmes e Pio X até à constituição sobre a sagrada liturgia Sacrosanctum Concilium, do Concílio Vaticano II, estende-se uma linha directa e lógica. O Concílio disse o seguinte sobre o tema:         

A acção litúrgica reveste-se de maior nobreza quando é celebrada de modo solene com canto. (…) Guarde-se e desenvolva-se com diligência o património da música sacra. Promovam-se com empenho, sobretudo nas igrejas catedrais, as «Scholae cantorum». (…) A Igreja reconhece como canto próprio da liturgia romana o canto gregoriano; terá este, por isso, na acção litúrgica, em igualdade de circunstâncias, o primeiro lugar. Não se excluem todos os outros géneros de música sacra, mormente a polifonia, na celebração dos Ofícios divinos, desde que estejam em harmonia com o espírito da acção litúrgica.                       

O movimento litúrgico original, do qual procedem estas comovedoras palavras, tinha por objectivo restabelecer e recuperar as mais ricas e bonitas tradições da oração católica. Desgraçadamente, uma perigosa combinação de falsa arqueologia e modernismo ávido de novidades fez tudo ao contrário, dando amplo lugar a uma batalha campal de opiniões conflituosas em que ainda estamos envolvidos, em que o canto se tornou uma espécie em via de extinção. Felizmente que se estão a mudar as coisas aqui e ali. O canto nunca morrerá, porque é a música litúrgica perfeita.           

Peter Kwasniewski

Sem comentários:

Publicar um comentário

«Tudo me é permitido, mas nem tudo é conveniente» (cf. 1Cor 6, 12).
Para esclarecimentos e comentários, queira contactar: info@diesirae.pt