domingo, 11 de novembro de 2018

A vocação da nossa época



Todo o homem tem uma vocação concreta. O que Deus pede a todas as almas, isso é a sua vocação e a maneira específica em que a Providência quer que cada pessoa trabalhe e se desenvolva. Todo o homem tem uma vocação especial porque Deus o ama e o ama de um modo particular. Não há duas criaturas totalmente idênticas, porque a vontade de Deus é distinta para cada criatura e toda a criatura, que saiu do nada, é irrepetível.  

O padre Faber dedica uma das suas conferências espirituais a este tema: Todos os homens têm uma vocação particular, concreta e especial (Spiritual Conferences, Burn& Oates, Londres 1906, pp. 375-396). Toda a pessoa tem uma vocação concreta, distinta da de qualquer outra, porque Deus ama a cada um com um amor personalizado.                       

Em que consiste esse amor especial de Deus por mim? Antes de mais, Deus criou-me infundindo no meu corpo e na minha alma as características e as qualidades que foram do Seu agrado. E não só me criou, como me mantém vivo, dá-me o ser pelo qual existo. Se por um só instante Deus deixasse de infundir-me o ser, diluir-me-ia no nada de que me tirou. E uma vez que nos criou, Deus não nos deixa à mercê do acaso.

Todos os cabelos da nossa cabeça estão contados (Mt 10, 30), nem um só cai sem que o permita o Senhor (Lc 21, 18). Se até o número e a queda dos meus cabelos está calculado, o quê que não estará também calculado na nossa vida?  

Numa palavra: Deus formulou as leis do meu desenvolvimento físico, moral e intelectual e do meu desenvolvimento sobrenatural. Como é que o fez? Por meio de uns instrumentos. Que instrumentos? As criaturas com as quais me encontro na vida. No seu célebre Cristianesimo vissuto, o cartuxo Pollien convida-nos a calcular o número das criaturas que contribuíram para a nossa existência.  

Influências físicas, como o tempo, as estações do ano, o clima, a influência moral dos nossos pais e professores, dos amigos e inimigos que tivemos, cada livro que lemos, as palavras que ouvimos, o que vimos, as situações em que nos encontrámos, nada disso é fruto da casualidade, porque a casualidade não existe; tudo tem uma razão de ser.  

Essas influências e acções são a obra de Deus que actua em nós. Todas essas criaturas, explica o padre Pollien, põe-nas Ele em movimento e em acção e não têm outro efeito em nós que não o que Deus queira que tenham. Tudo acontece no momento determinado, actua no ponto exacto, produz o movimento necessário para exercer uma influência física, moral e intelectual em nós.

Essa influência é a graça actual. A graça actual é a acção sobrenatural que Deus exerce sobre nós em todo o momento e através das criaturas. As criaturas são instrumentos que transmitem a graça. São os meios de que Deus se vale para um único fim: criar santos. Tudo quanto acontece, tudo quando se faz, diz São Paulo, contribui, sem excepção, para uma mesma obra e essa obra é o bem daqueles a quem a vontade de Deus chama à santidade (Rm 8, 28).                     

Como devemos corresponder a essa acção ininterrupta da graça na nossa alma? Perguntaram a um religioso muito ligado a São João Bosco se, no meio das suas inumeráveis obras e da sua vida agitada, Dom Bosco estava alguma vez preocupado. O religioso disse: «Dom Bosco nunca pensou no que estava a ponto de fazer um minuto depois». São João Bosco compreendia a acção da graça e sempre tratou de fazer a vontade de Deus no momento presente. E, por esse caminho, realizou a sua vocação.    

Junto à estação central de Roma ergue-se a Basílica do Sagrado Coração de Jesus, construída por Dom Bosco à custa de enormes sacrifícios pouco antes de morrer. A Basílica foi solenemente consagrada, pelo Cardeal-Vigário, a 14 de Maio de 1887, com a presença de numerosas autoridades civis e religiosas.           

No dia 16 de Maio seguinte, o próprio Dom Bosco celebrou a Missa no altar de Maria Auxiliadora; foi a sua única celebração na Igreja do Sagrado Coração e, como recorda uma lápide que se descerrou por motivo do centenário da consagração, a Missa foi interrompida em quinze ocasiões pelos soluços do idoso sacerdote, que entendeu o significado do seu célebre sonho dos nove anos. Naquele momento Deus revelou-lhe que, desde a infância, toda a sua longa vida terrena tinha sido preparada e dirigida por Deus para cumprir a sua missão neste mundo.           

Cada alma tem a sua vocação, porque tem uma função particular a cumprir no Corpo da Igreja. Quem tem vocação religiosa não a tem para si, tem-na para a Igreja.      

Há vocações para solteiros; há vocações para famílias, e não só as naturais, mas também famílias sobrenaturais, com os seus diversos carismas; e também vocações para povos, das quais tanto falou Plinio Corrêa de Oliveira. Toda a nação tem uma vocação específica, que é a missão que lhe é atribuída pela Providência na história. Mas não nascemos apenas numa família e num povo.     

Vivemos também numa determinada época histórica. E dado que a história também é criatura de Deus, Deus pede algo diferente a cada época da história. Cada época histórica tem a sua vocação. A vocação predominante nos primeiros séculos da Igreja foi a disponibilidade para o martírio. Tem também o século XXI a sua vocação particular, dentro da qual podemos descobrir a nossa vocação pessoal?          

A vocação da nossa época é corresponder ao desejo do Céu que a própria Virgem nos manifestou em Fátima: «Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará». É a vocação de quem, esteja no interior de um claustro, na rua, com a oração, por meio de escritos, ou de palavras pronunciadas, com as suas acções combata pelo cumprimento dessa promessa.

O triunfo do Imaculado Coração de Maria será também o triunfo da Igreja, porque o Imaculado Coração de Maria é o próprio coração da Igreja. O triunfo pressupõe uma batalha que o precede. E como será um triunfo social, público e solene, a batalha também será social, pública e solene. Ser santos hoje significa lutar nessa batalha, a qual se combate, acima de tudo, empunhando a espada da verdade. Apenas na verdade se pode construir a vida do Homem e dos povos, sem a verdade, uma sociedade descompõe-se e morre.       

Hoje em dia é preciso reconstruir a sociedade cristã. E para reconstruí-la, a primeira necessidade que se impõe é professar e viver a verdade com espírito combativo. Quando, com a ajuda da graça, o cristão conforma a sua vida aos princípios do Evangelho e combate em defesa da verdade, não há obstáculo que o detenha.      

No seu discurso de 21 de Janeiro de 1945, às Congregações Marianas de Roma, Pio XII afirmou: «O tempo presente exige católicos sem medo, para quem seja perfeitamente natural confessar a sua fé sem escrúpulos, em palavras e acções, cada vez que o requeiram a lei de Deus e o sentimento da honra cristã. Homens de verdade, homens íntegros, firmes e intrépidos! Àqueles que não o são, o mundo descarta-os, rejeita-os e atropela-os».        

«Deus e a Igreja – escreveu o padre Pollien – pedem defensores, mas verdadeiros defensores, daqueles que nunca dão um passo atrás. Dos que sabem ser fiéis, até à morte, às ordens recebidas. Dos que se habituam às disciplinas mais severas a fim de estarem dispostos a realizar todos os actos heróicos que lhes exija o combate».    

Os jovens do século XXI não podem fazer caso das seduções para se comprometerem com o mundo, mas devem pedir à Igreja que os exorte ao heroísmo. Na construção das catedrais medievais participavam arquitectos, pedreiros, ferreiros, carpinteiros, bispos, príncipes e personagens ilustres e desconhecidos, unidos no mesmo desejo de glorificar a Deus com as pedras que se elevavam ao Céu.       

Nós também participamos numa grande obra. Cada um de nós foi chamado a construir, sobre as ruínas do mundo moderno, uma imensa catedral dedicada ao Imaculado Coração de Maria, que não é nada mais que o seu reinado nas almas e na nossa sociedade. Os nossos corações são as pedras e a nossa voz anuncia ao mundo um sonho que se há-de cumprir.                

Roberto De Mattei

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