quarta-feira, 25 de novembro de 2020

China-Santa Sé: de acordo sobre os bispos, litigam pelos uigures

O Papa pensa nos «pobres uigures», a China responde ressentida negando a perseguição aos uigures, viva o Papa que defende os direitos humanos. Em poucas palavras, é esta a sequência das reacções depois de terem saído algumas antecipações de mais um livro-entrevista do Papa Francisco, que estará nas livrarias a 1 de Dezembro. “Voltemos a sonhar” é o título, a entrevistá-lo foi um dos jornalistas da corte, o britânico Austin Invereigh. A polémica nasce porque o Papa, falando das periferias e das margens da sociedade, afirma: «Muitas vezes, penso nos povos perseguidos: os Rohingya, os pobres Uigures, os Yazidis – o que o ISIS lhes fez foi, verdadeiramente, cruel – ou os cristãos, no Egipto e no Paquistão, mortos por bombas enquanto rezavam na igreja».      

Foi o suficiente para o governo chinês se levantar; assim, ontem, o porta-voz do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Zhao Lijian, respondeu imediatamente, argumentando que as acusações do Papa «não se reflectem nos factos». Mais, na China «povos de todos os grupos étnicos gozam de todos os direitos de existência, desenvolvimento e liberdade de crença religiosa».

Isso foi, obviamente, lançado pelos media um pouco em todo o Mundo: antes de mais, porque o Papa Francisco é a primeira vez que menciona não apenas os uigures, mas, de forma mais geral, algo errado na China (mesmo que o nome China não tenha sido pronunciado); além disso, a pergunta e a resposta ocorrem num período delicado nas relações entre a China e a Santa Sé, visto que o acordo secreto sobre a nomeação dos bispos católicos acaba de ser renovado.    

Obviamente, há quem tenha notado a demora com que o Papa Francisco levantou a questão dos uigures, população muçulmana que vive na província chinesa de Xinjiang e dos quais cerca de um milhão estão nos campos de trabalho e de reeducação. E também há quem tenha notado que, mais uma vez, o Tibete, a região que a China maoísta ocupou em 1950, foi ignorado. Se, depois, esta é a razão, poder-se-iam acrescentar outros grupos perseguidos, como o Falun Gong.        

Mas nessas críticas há, evidentemente, uma expectativa e uma forma distorcida de olhar para o Papa como se ele fosse o Conselho de Direitos Humanos da ONU. O verdadeiro problema é que ignora totalmente que, na China, são perseguidos os cristãos, católicos à frente. O Papa é, antes de tudo, o pastor dos católicos e podemos pensar no estado de espírito dos católicos chineses, que sofrem com a clandestinidade e a perseguição, ao ver que o seu “pai” se preocupa com os muçulmanos e se esquece dos próprios filhos. Como julgaríamos um pai que, precipitando-se ao local do acidente, se desinteressasse do seu filho e se preocupasse, antes de tudo, com as condições dos outros colegas de escola?           

Além disso, a divulgação das antecipações do livro-entrevista do Papa acontece – no que diz respeito à questão chinesa – num momento infeliz, visto que quase chegou contemporaneamente a notícia da ordenação episcopal, na China, de Mons. Thomas Chen Tianhao, para a Diocese de Qingdao, na Província de Shandong. Segundo a declaração oficial da Sala de Imprensa vaticana, trata-se do «terceiro Bispo nomeado e ordenado no quadro normativo do Acordo Provisório entre a Santa Sé e a República Popular da China sobre a nomeação dos Bispos». Na realidade, é preciso dizer que é o primeiro, considerando que a ordenação dos dois precedentes – como já explicámos noutras ocasiões – tinha sido decidida muito antes do acordo.   

Mas, além desse detalhe, o perfil do novo bispo reforça a convicção de que o acordo entre a China e a Santa Sé seja, na verdade, a venda dos católicos ao regime comunista chinês. Como, efectivamente, nota a agência AsiaNews, «o novo bispo é conhecido como um leal funcionário do Estado no que diz respeito à política religiosa». E ainda: «foi presidente da Associação Patriótica de Qingdao e, desde 2010, é membro do Comité Permanente da Associação Patriótica Nacional». Como se não bastasse, a missa de ordenação viu o uso da velha fórmula da consagração, «na qual se cita o mandato do Conselho dos bispos, mas nada se diz sobre o Papa e a Santa Sé».        

Na prática, avança o programa de chinização da Igreja, com a aprovação da Santa Sé, que já pré-anunciou que, «certamente no futuro, se preveem outras consagrações episcopais, porque vários processos para as novas nomeações episcopais estão em andamento».

Portanto, a partir destas notas compreendemos que está tudo a correr bem para o Vaticano na China, exceptuando aquela pequena falha no tratamento dos uigures. A Igreja perseguida deve ser uma invenção da propaganda populista, que não gosta do diálogo, que constrói muros em vez de pontes. 

Riccardo Cascioli        

Através de La Nuova Bussola Quotidiana

terça-feira, 24 de novembro de 2020

À margem do relatório da Secretaria de Estado sobre Theodore McCarrick

Depois de, há cerca de duas semanas, ter emitido uma primeira reacção, o Arcebispo Carlo Maria Viganò, antigo Núncio Apostólico nos Estados Unidos da América, redigiu um longo documento no seguimento do “Relatório McCarrick”, apresentado, pela Secretaria de Estado da Santa Sé, a 10 de Novembro. Assim, o portal Dies Iræ, a pedido de Sua Excelência Reverendíssima, traduziu e disponibiliza a versão lusa do documento.

21 de Novembro de 2020
Apresentação da Virgem Santa Maria

O Relatório McCarrick, publicado, pela Secretaria de Estado, a 10 de Novembro de 2020, foi objecto de múltiplos comentários: alguns apontam as suas lacunas, outros elogiam-no como prova da transparência de Bergoglio e da falta de fundamento das minhas acusações. Gostaria de me deter em alguns aspectos que merecem ser explorados e que não me dizem respeito pessoalmente. O objectivo destas reflexões não é, portanto, apresentar ulteriores provas sobre a falsidade dos argumentos apresentados contra mim, mas, antes, destacar as inconsistências e os conflitos de interesses que existem entre aqueles que julgam e aqueles que são julgados, de forma a invalidar, a meu ver, a investigação, o processo e a sentença.     

A INDEPENDÊNCIA DO ÓRGÃO JUDICIAL          

Afirmo que, ao contrário de um normal processo civil ou penal, nas investigações eclesiásticas existe uma espécie de direito implícito à credibilidade nos depoimentos prestados pelos clérigos. Isto parece-me ter permitido considerar como prova também os testemunhos de Prelados que poderiam encontrar-se numa posição de cumplicidade para com McCarrick e que, consequentemente, não tinham interesse em revelar a verdade: pelo contrário, ter-lhe-iam provocado um dano, bem como à própria imagem. Em suma, para tomar em empréstimo uma imagem de Collodi, é difícil pensar que o Gato (Kevin Farrell) possa desculpar, com credibilidade, a Raposa (Theodore McCarrick); mas isto aconteceu, da mesma forma que foi possível enganar João Paulo II, sobre a conveniência de nomear McCarrick como Cardeal Arcebispo de Washington, ou Bento XVI, sobre a gravidade das acusações que pesavam sobre o purpurado.         

Entende-se, agora, que, com o Argentino, este direito à credibilidade se tornou dogma, talvez o único que não pode ser questionado na igreja da misericórdia, especialmente quando as interpretações alternativas da realidade – que os mortais chamam, prosaicamente, de mentiras – são formuladas, precisamente, por ele.          

Também nos deixa desconcertados pelo facto de que o depoimento de Mons. Farrell, em defesa de McCarrick, tenha sido relatado com ênfase – o Bispo é até mesmo chamado com o título de «Excelentíssimo» –, mas, ao mesmo tempo, o testemunho de James Grein tenha sido completamente omitido, assim como prudentemente se escolheu não fazer depor os Secretários de Estado Sodano e Bertone. Nem se compreende por que motivo foram consideradas válidas e credíveis as palavras de Farrell em defesa do amigo e coinquilino, e não as minhas, que também sou Arcebispo e Núncio Apostólico. O único motivo que consigo identificar é que, embora as palavras de Farrell confirmem a tese de Bergoglio, as minhas refutam e mostram que a mentir não foi apenas o Bispo de Dallas.               

Também se deveria recordar que o Cardeal Wuerl, sucessor de McCarrick na cátedra de Washington, renunciou, a 12 de Outubro de 2018, devido às pressões da opinião pública após as suas repetidas negações de ter tido conhecimento da conduta depravada do seu irmão. Ainda assim, em 2004, Wuerl teve de gerir a denúncia, contra McCarrick, de Robert Ciolek, um ex-sacerdote da Diocese de Metuchen, enviando-a ao então Núncio Apostólico, Mons. Gabriel Montalvo. Em 2009, foi Wuerl a ordenar a sua transferência do Seminário Redemptoris Mater para a Paróquia de São Tomás Apóstolo, em Washington; e, em 2010, foi o próprio Wuerl, juntamente com o Presidente da Conferência Episcopal, o Cardeal Francis George, a desaconselhar a Secretaria de Estado acerca do envio de uma mensagem augural a McCarrick por ocasião do seu 80.º aniversário. No Relatório também é citada a correspondência, entre o Núncio Sambi e Wuerl, sobre o perigo de escândalo em torno da pessoa de McCarrick; o mesmo se diga da correspondência do Cardeal Re, Prefeito da Congregação para os Bispos, na qual se confirma que Wuerl «favoreceu constantemente McCarrick, mesmo quando não vivia no seminário». É, portanto, muito estranho que as graves suspeitas que pesavam sobre o Cardeal antes da minha nomeação, amplamente documentadas no Relatório, sejam consideradas motivos de censura contra mim – apesar de as ter notificado, novamente, à Secretaria de Estado – mas não contra Wuerl; que, mesmo depois da sua renúncia como Arcebispo de Washington, manteve os seus cargos nos Dicastérios romanos, incluindo a Congregação dos Bispos, dentro da qual teve uma palavra a dizer na nomeação dos Prelados.        

Não se compreende por que motivo os redactores do Relatório são tão desenvoltos em julgar João Paulo II, por ter confiado nas palavras do seu secretário em defesa de McCarrick, e tão absolutórios em relação a Bergoglio, apesar de se acumularem dossiês por conta do Tio Ted, ao qual o antecessor pedira para «manter a discrição».

Penso que chegou o momento de esclarecer, de uma vez por todas, a posição do órgão judicial – rectius: deste órgão judicial – em relação ao arguido. 

De acordo com a lei, o juiz deve ser imparcial e, para isso, não deve ter nenhum interesse ou ligação com o arguido. Na realidade, esta imparcialidade falha num dos processos mais clamorosos da história da Igreja, quando os escândalos e os crimes alegados contra o acusado são de tal gravidade que merecem a sua deposição de Cardeal e a redução ao estado laical.     

A AUSÊNCIA DE UMA VERDADEIRA CONDENAÇÃO

Ocorre sublinhar a extrema brandura da pena infligida ao réu, aliás, poderíamos dizer a sua ausência, uma vez que o arguido só foi privado do estado clerical, com procedimento administrativo, pelo tribunal da Congregação para a Doutrina da Fé, homologado, como res iudicata, por Bergoglio. No entanto, teria sido possível condená-lo a uma pena de prisão, como foi feito para o Conselheiro na Nunciatura de Washington, condenado, em 2018, a cinco anos de prisão, no Vaticano, por posse e difusão de pornografia infantil.    

Na verdade, a demissão do estado clerical revela a essência daquele clericalismo – tão deplorado em palavras – que considera o estado laical quase um castigo em si mesmo, enquanto deveria ser a premissa para a imposição da sanção penal. Entre outras coisas, a falta de detenção na prisão, ou, pelo menos, em prisão domiciliária, permite a McCarrick uma total liberdade de movimento e acção que mantém inalterada a sua situação: ele está, portanto, em condições de cometer novos crimes e de continuar a exercer as suas actividades criminosas, tanto na esfera eclesial quanto em âmbito político.         

Por fim, deve-se recordar que o processo canónico não elimina as causas penais contra o ex-cardeal instruídas nos tribunais americanos, que, estranhamente, definham no máximo sigilo, demonstrando, ainda mais, o poder político e a influência mediática de McCarrick, não apenas no Vaticano mas também nos Estados Unidos.     

CONFLITOS DE INTERESSES E OMISSÕES         

É difícil olhar para o “juiz” deste caso sem considerar o facto de que ele se possa encontrar numa situação de dívida de gratidão para com o acusado e os seus cúmplices. Ou seja, que ele se encontre num claro conflito de interesses.         

Se Jorge Mario Bergoglio deve a sua eleição à conspiração da chamada Máfia de São Galo, que incluía Cardeais ultra-progressistas
​​em relacionamento constante e assíduo com McCarrick; se os endorsement de McCarrick ao candidato Bergoglio encontraram audiência nos Eleitores do Conclave e naqueles que têm poder de persuasão no Vaticano, por exemplo, o famoso «Italian gentleman» aludido, pelo Cardeal americano, numa conferência na Villanova University; se a renúncia de Bento XVI foi, de alguma forma, provocada ou favorecida por uma interferência da deep church e do deep state, é lógico supor que Bergoglio e os seus colaboradores não têm intenção de permitir que os nomes dos cúmplices de McCarrick vazem para o Relatório, nem os nomes daqueles que o favoreceram no seu cursus honorum eclesiástico, nem, sobretudo, aqueles que, diante da eventualidade de uma condenação, poderiam, de alguma forma, vingar-se, por exemplo, revelando o envolvimento de personalidades proeminentes da Cúria Romana, se não do próprio Bergoglio.      

Em flagrante contradição com a conclamada pretensão de transparência, o Relatório teve grande cuidado em não divulgar os documentos do processo administrativo. Podemos, assim, perguntar-nos se a defesa de McCarrick tenha concordado em condenar o seu cliente em troca de uma pena irrisória, o que, de facto, deixa o réu de tão graves delitos em total liberdade, evitando que as vítimas tenham de rejeitar o “juiz” e exigir uma justa compensação. Certamente, a anomalia é evidente mesmo para quem não é especialista em Direito.     

CO-PARTICIPAÇÃO ENTRE DEEP CHURCH E DEEP STATE        

Nesta rede de cumplicidades e chantagens, podem-se evidenciar ligações do “juiz” e do acusado também com a política, em particular com o Partido Democrata americano, com a China comunista e, mais genericamente, com movimentos e partidos globalistas. O facto de que, em 2004, McCarrick, então Arcebispo de Washington, tenha boicotado vigorosamente a divulgação da carta do então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Joseph Cardeal Ratzinger, ao Episcopado americano, a propósito de administrar a Comunhão aos políticos favoráveis ao aborto, representa, indubitavelmente, um assist aos políticos democratas ditos católicos, começando com John Kerry para terminar com Joe Biden. Este último, convicto abortista, mereceu o apoio quase unânime da Hierarquia, podendo, deste modo, contar com os votos de um eleitorado que, de outra forma, seria destinado a Trump. Estranhas coincidências, para ser honesto: por um lado, o deep state atingiu a Igreja e Bento XVI com a intenção de eleger Papa um representante da deep church; por outro lado, a deep church atingiu o Estado e Trump com a intenção de eleger um representante do deep state. Julgue o leitor se os planos dos conspiradores alcançaram o propósito pretendido.  

Este conluio com a esquerda mundial é o necessário corolário de um projecto mais vasto, em que as quintas-colunas da dissolução penetrante na Igreja colaboram activamente com o deep state seguindo um único guião (script) sob uma única direcção (direction): os protagonistas desta pièce têm partes diferentes, mas seguem a mesma trama (plot) no mesmo palco.

ANALOGIAS COM A PANDEMIA E AS FRAUDES ELEITORAIS   

Olhando mais de perto, também a pandemia e as fraudes eleitorais nos Estados Unidos apresentam inquietantes analogias com o caso McCarrick e com o que está a acontecer na Igreja. Quem deve decidir entre confinar em casa ou obrigar à vacinação toda a população, vale-se de instrumentos de levantamento pouco confiáveis, justamente porque, por meio destes, consegue falsificar os dados, com a cumplicidade dos media mainstream. Pouco importa se o vírus tem uma mortalidade semelhante à de uma gripe sazonal e se o número dos mortos está em linha com os anos anteriores: alguém decidiu que uma pandemia e que se deve demolir a economia mundial para criar as premissas do Great Reset. Os argumentos racionais, as avaliações científicas, a experiência de cientistas sérios empenhados no cuidado de pacientes, não valem nada diante do guião imposto aos actores. O mesmo acontece com as eleições nos EUA: diante da evidência da fraude – que vai adquirindo os contornos de um verdadeiro golpe de estado por parte de mentes criminosas –, os media insistem em apresentar Joe Biden como o vencedor e os líderes mundiais – incluindo a Santa Sé – são rápidos em reconhecer-lhe a vitória, a desacreditar os oponentes Republicanos, a apresentar Trump como um prepotente solitário que está prestes a ser abandonado pelos seus e pela própria Primeira-Dama. Pouco importa se, na internet, se veem dezenas e dezenas de vídeos com as irregularidades cometidas durante as operações de contagem ou que haja centenas de testemunhos sobre as fraudes: os Democratas, os media e todo o elenco repetem que Biden é o Presidente eleito e que Trump se deve afastar. Porque, no reino da mentira, se a realidade não corresponde à narração, é a realidade que deve ser corrigida e censurada. Assim, não existem milhões de pessoas nas ruas para protestar contra o lockdown ou contra as fraudes eleitorais pelo simples facto de que o mainstream não os mostra na televisão e os censura na internet; e quem denuncia tal acontecimento como fake news é acriticamente considerado como tal.     

A SUJEIÇÃO DE PARTE DA HIERARQUIA

Não surpreende, pois, que a Conferência Episcopal Americana, seguida de perto por Vatican News e por um afectuoso telefonema de Bergoglio para Biden, seja rápida em dar provas de fidelidade ao sistema: estes Eclesiásticos estão intrinsecamente envolvidos e devem conformar-se escrupulosamente à parte que lhes foi confiada. Fizeram o mesmo, a nível global, apoiando as restrições por causa do COVID, com o encerramento das igrejas, ordenando a suspensão das celebrações e, até mesmo, convidando os fiéis a obedecer às autoridades civis. O Arcebispo de Washington permitiu-se criticar a visita oficial do casal presidencial ao Santuário de São João Paulo II e manifestou-se, juntamente com outros Bispos e clérigos, a favor dos BLM: tanta abnegação pela causa mereceu-lhe, precisamente nestes dias, a Sagrada Púrpura. E não é por acaso que a adesão à agenda globalista vem da parte de pessoas amplamente comprometidas em apoiar os movimentos LGBTQ, a começar por Cupich, Tobin, Wuerl, McElroy e Stowe. E é significativo o silêncio ensurdecedor da Santa Sé e do Episcopado mundial face aos problemas éticos colocados pela iminente distribuição de vacinas, nas quais estão presentes células de fetos humanos abortados. Não queira Deus que a especulação das indústrias farmacêuticas sobre a pandemia também veja a deep church destinatária de generosas doações, como já aconteceu com o Acordo entre a China e o Vaticano.     

Os vícios e a corrupção encontram associados deep church e deep state numa fossa de crimes e pecados repugnantes, onde os indefesos e as crianças são as vítimas de exploração, abusos e moléstias cometidos por personagens que, ao mesmo tempo, promovem o aborto, a ideologia de género e a liberdade sexual dos menores, incluindo a de mudar de sexo.    

Mesmo a imigração clandestina – favorecida para desestabilizar as Nações e apagar a sua identidade – encontra concordância entre a esquerda e a igreja de Bergoglio, apesar de estar directamente ligada ao tráfico de menores, ao aumento da criminalidade e à destruição do tecido social. Mais: precisamente por isso querem favorecê-la, assim como se quer favorecer o embate político para as eleições nos Estados Unidos, a crise económica com a gestão criminosa da pandemia e, possivelmente, também a guerra religiosa com os ataques de matriz islâmica e a profanação de igrejas em toda a Europa.     

NECESSIDADE DE UMA VISÃO GERAL      

Também é muito desconcertante que, neste quadro perfeitamente coerente, haja muitos Prelados – senão a quase totalidade – que se limitam a analisar os acontecimentos que afectam a Igreja Católica quase como se fossem distintos, como se não tivessem qualquer relação com acontecimentos políticos e sociais que ocorrem a nível mundial. Há Bispos que formulam algumas tímidas posições diante das palavras de Bergoglio para a legalização das uniões civis ou pelas incongruências e as falsificações que emergem no Relatório McCarrick; mas nenhum deles, mesmo que animado por boas intenções, ousa denunciar a evidência dos factos, ou seja, a existência de um pactum sceleris da parte desviada da Hierarquia – a deep church, precisamente – com a parte desviada do Estado, do mundo das finanças e da informação. Porém, é tão evidente que tem sido objecto de análise por inúmeros intelectuais, principalmente laicos.    

A PERDA DE CREDIBILIDADE  

Isto deve ser denunciado a alta voz: o Relatório, elaborado pela Secretaria de Estado, é uma tentativa indecente e desajeitada de dar uma aparência de credibilidade a uma acólita de pervertidos e corruptos ao serviço da Nova Ordem Mundial. O surreal é que esta operação de impudente mistificação não é realizada pelo acusado, mas por aqueles que devem julgá-lo, e, com isso, devem, paradoxalmente, julgar-se a si próprios, os próprios irmãos, os próprios amigos, aqueles a quem garantiram impunidade, promoções e carreira.     

Esta credibilidade dos redactores do Relatório deveria ser demonstrada na branda condenação de um Prelado orgânico ao sistema, que o próprio Bergoglio enviou como interlocutor da Santa Sé com a ditadura comunista chinesa e que, ao mesmo tempo, desenvolvia encargos oficiais para o Departamento de Estado americano, frequentava os Clinton, Obama, Biden e os Democratas. Esta credibilidade deveria ser confirmada por ter simplesmente privado da dignidade cardinalícia e do estado clerical um homossexual corrupto, um abusador de jovens e crianças, um corruptor de clérigos e seminaristas, sem qualquer pena de prisão e sem excomungá-lo pelos delitos com que se contaminou, incluindo a sollicitatio ad turpia na Confissão, um dos crimes mais hediondos que um sacerdote pode cometer. Neste “processo”, tão sumário quanto omissório, a dimensão espiritual da culpa está totalmente ausente: o culpado não foi submetido à excomunhão, que é uma sanção eminentemente medicinal em ordem à salvação eterna, nem foi exortado à penitência, à pública emenda e à reparação.

UMA COMISSÃO INDEPENDENTE     

Quando, no pós-guerra, foi realizado o julgamento de Nuremberga, contra os crimes do Nazismo, o tribunal foi presidido por um juiz russo, encarregado de julgar a invasão da Polónia, que a Alemanha, como sabemos, partilhou, exactamente, com a Rússia. Não creio que haja muitas diferenças com o que vemos acontecer hoje, na tentativa de colocar a responsabilidade do caso McCarrick em João Paulo II, em Bento XVI e em mim mesmo. O único que, na narração da Secretaria de Estado, não pode ser tocado por qualquer suspeita, por qualquer acusação, mesmo que apenas indirecta, por qualquer sombra de encobrimento, deve, obviamente, ser o Argentino.    

Seria apropriado que se constituísse uma Comissão independente – como já desejou o Episcopado Americano, em Novembro de 2018, e como foi firmemente impedido pela Congregação dos Bispos por ordem de Bergoglio – que investigasse sobre este caso sem ser alvo de influências externas e sem esconder provas decisivas. Contudo, duvido que os improváveis desejos
​​da Conferência Episcopal norte-americana encontrassem audiência, já que entre os purpurados do próximo Consistório está o Arcebispo de Washington, executor das ordens de Santa Marta, que se junta aos fidelíssimos Cupich e Tobin.  

Se fosse verdadeiramente feita luz sobre toda a questão, cairia o castelo de cartas construído nos últimos anos e, com ele, surgiria a cumplicidade de expoentes da Hierarquia a níveis altíssimos, bem como os laços com os Democratas americanos e com a esquerda mundial. Confirmar-se-ia, em suma, o que muitos ainda não se atrevem a admitir, isto é, qual é o papel desempenhado pela deep church, desde a eleição de João XXIII, na criação das premissas teológicas e do clima eclesial que permitiriam tornar a Igreja serva da Nova Ordem Mundial e substituir o Papa pelo falso profeta do Anticristo. Se isto ainda não aconteceu completamente, devemos agradecer apenas à Providência.      

HONESTIDADE INTELECTUAL

Imagino que os moderados – hoje tão silenciosos diante do COVID quanto no deplorar as fraudes eleitorais ou a farsa do Relatório McCarrick – estejam horrorizados ao ouvir chamar à questão o Concílio Vaticano II. Mesmo os Democratas ficam horrorizados ao ouvir críticas às leis graças às quais os Estados Unidos passaram a ver subvertida a vontade dos eleitores. Os ditos especialistas ficam horrorizados quando as suas alegações, que contrastam com a verdade científica e as evidências epidemiológicas, são contestadas. Os apoiantes do acolhimento dos clandestinos ficam horrorizados quando se mostram os índices de homicídios, violações, violência e roubos perpetrados por imigrantes irregulares. Os expoentes do lobby gay ficam horrorizados quando se evidencia que os crimes de matriz predatória cometidos por clérigos afectam uma percentagem altíssima de homossexuais. Neste gesto geral de desespero, gostaria de recordar que bastaria um pouco de honestidade intelectual e um pouco de juízo crítico para enfrentar as evidências, ainda que dolorosas.        

A LIGAÇÃO ENTRE HERESIA E SODOMIA           

Este vínculo intrínseco entre desvio doutrinal e desvio moral emergiu, na sua evidência, por ocasião do choque frontal com os encobridores do caso McCarrick: as pessoas envolvidas são quase sempre as mesmas, com os mesmos vícios contra a Fé e a Moral. Defendem-se, encobrem-se e promovem-se mutuamente, porque fazem parte de um verdadeiro “lobby”, entendido como grupo de poder capaz de influenciar, em próprio proveito, a actividade do legislador e as decisões do governo ou de outros órgãos da administração.

No campo eclesiástico, este lobby actua para anular a condenação moral da sodomia e fá-lo, antes de mais nada, em próprio benefício, sendo composto, principalmente, por sodomitas. Adequa-se à agenda política no legitimar as demandas dos movimentos LGBTQ, promovidas por políticos não menos depravados. E é também evidente o papel que a Igreja Católica teve, nas últimas décadas – ou melhor: a sua parte desviada moral e doutrinalmente –, ao abrir a janela de Overton sobre a homossexualidade, para que o pecado contranatura, que sempre condenou, fosse, de algum modo, rejeitado pela evidência dos escândalos cada vez mais emergentes. Se há quarenta anos era horrível saber dos abusos cometidos por um padre contra um menino, há alguns anos a crónica informou-nos da invasão, por parte Gendarmaria vaticana, ao apartamento do secretário do Cardeal Coccopalmerio, no Palácio do Santo Ofício, onde decorria uma festa de clérigos com droga e prostitutos. Daqui até legitimar a pedofilia, como gostariam alguns políticos, o passo será relativamente breve: as premissas postas pela teorização dos supostos “direitos sexuais” dos menores, a imposição da educação sexual nas escolas primárias, por recomendação da ONU, e as tentativas de legislar nos Parlamentos para reduzir a idade do consentimento vai na mesma direcção. Alguns ingénuos – supondo que ainda se possa falar de ingenuidade – dirão que a Igreja nunca poderá dizer que é a favor da corrupção das crianças, porque isso contradiria o ininterrupto Magistério católico; limito-me a relembrar o que foi dito, há poucos anos, sobre os chamados “matrimónios” homossexuais ou sobre a ordenação de mulheres, o celibato eclesiástico, a abolição da pena de morte e o que, vice-versa, se afirma, hoje, impunemente, com os aplausos do mundo.       

A “FIEIRA” DE MCCARRICK      

O que se deve notar no Relatório não é tanto o que contém, mas o que silencia e esconde sob uma montanha de documentos e testemunhos, por mais horríveis que sejam. Muitos jornalistas e muitíssimos clérigos sabiam da vida escandalosa do “homem do chapéu vermelho”, mas, mesmo assim, consideravam-no maquiavelicamente útil aos interesses do Partido Democrata, expressão do deep state, e do progressismo católico, expressão da deep church. Escrevia, em 2004, o Washingtonian: «Com um controverso católico na corrida presidencial [John Kerry], o cardeal é visto, por muitos, como o homem do Vaticano em Washington – e pode desempenhar um papel importante na escolha do próximo Papa» (aqui). Um papel que afirmou, com orgulho, no discurso que proferiu, a 11 de Outubro de 2013, na VIllanova University, e que, hoje, com o Cardeal Farrell elevado a Camerlengo da Santa Romana Igreja, por nomeação de Bergoglio, poderia voltar a acontecer. Dadas as relações de lealdade que se consolidam entre os membros da “lavender mafia”, é, pelo menos, razoável pensar que McCarrick ainda possa intervir na eleição do Pontífice, não só graças à rede de amigos e cúmplices, alguns dos quais Cardeais eleitores, mas também activamente nos procedimentos do Conclave e na sua própria preparação.

Poderíamos surpreender-nos se, após termos constatado as fraudes eleitorais na eleição do Presidente dos Estados Unidos, “alguém” também tentasse manipular a eleição do Sumo Pontífice? Não nos esqueçamos que, como já observado por diversos partidos, na quarta votação do segundo dia, no último Conclave, surgiu uma irregularidade na contagem dos votos, sanada com uma nova votação em derrogação do previsto pela Constituição Apostólica Universi Dominici Gregis, promulgada, em 1996, por João Paulo II.

Todavia, é significativo que, embora McCarrick esteja agora afastado das suas funções e resida num local secreto (onde pode continuar a sua actividade para-diplomática, sem ser perturbado, por conta do deep state e da deep church, sob o anónimo disfarce de leigo), por outro lado, ainda estão no seu lugar, aliás, são promovidos aqueles que, graças a McCarrick, fizeram carreira na Igreja: todos personagens que ele favoreceu por causa de um estilo de vida comum e de comuns intenções; todos chantageáveis e chantagistas pelos segredos que vieram a conhecer graças à sua posição; todos prontos para apresentar nomes, circunstâncias e datas se alguém ousasse tocar-lhes. Alguns até poderiam ser forçados a obedecer ao Sr. McCarrick, se ele puder chantageá-los ou suborná-los com o desmedido dinheiro à sua disposição, mesmo agora que já não é um Príncipe da Igreja.

A “fieira”, a que este Cardeal deu origem, pode, hoje – como vemos –, interferir e operar na vida da Igreja e da sociedade, com a vantagem de ter descarregado, sob um conveniente bode expiatório, as culpas de toda a “lavender mafia”, e aparecer estranha às acusações de abusos. Mas basta cruzar os portões da Porta Angélica para encontrar personagens não apresentáveis, alguns dos quais chamados ao Vaticano para serem salvos das investigações que estavam pendentes sobre eles no exterior; outros são até assíduos em Santa Marta ou exercem funções directivas, consolidando a rede de conivências e cumplicidade sob o olhar indulgente do Príncipe. Por outro lado, a ênfase sobre o papel moralizador de Bergoglio estilhaça-se sobre a dura realidade de que nada realmente mudou por trás das altas Muralhas Leoninas, dada a protecção de que gozam, entre outros, Peña Parra e Zanchetta.          

A AUSENTE CONDENAÇÃO DA SODOMIA

Alguns comentadores destacaram, acertadamente, um dado desconsolador: os crimes pelos quais McCarrick foi intimado dizem respeito apenas aos abusos de menores, enquanto os relacionamentos contranatura, cometidos, de forma consentida, com adultos, são silenciosamente aceites e tolerados, quase como se fossem de deplorar não os actos imorais e sacrílegos da sodomia de um clérigo, mas a sua imprudência por não ter sabido mantê-los no segredo das paredes de casa. Também disto, na devida altura, se deverá pedir contas aos responsáveis. Acima de tudo, considerando a vontade, cada vez mais clara, de Bergoglio, de aplicar uma abordagem pastoral laxista – segundo o método experimentado de Amoris l
ætitia – em derrogação da condenação moral da sodomia.       

OS CULPADOS E AS VÍTIMAS DOS ESCÂNDALOS       

O paradoxo que emerge dos escândalos do Clero é que a última preocupação do círculo mágico de Bergoglio é fazer justiça às vítimas, não apenas indemnizando-as (que, aliás, não o fazem os culpados, mas as Dioceses, com os bens doados pelos fiéis) mas também punindo, de modo exemplar, os responsáveis. E dever-se-ia punir não apenas os delitos reconhecidos como crimes pelas leis dos Estados, mas também os morais, através dos quais as pessoas adultas foram induzidas em pecado grave por ministros sagrados. Quem curará as feridas da alma, as manchas na pureza de tantos jovens, entre os quais seminaristas e sacerdotes? Por outro lado, parece que aqueles que foram descobertos e expostos à execração pública se sentem verdadeiras vítimas: sentem-se afectados nos seus interesses, nos seus tráficos, nas suas intrigas; enquanto que os que denunciaram os escândalos, os que pedem justiça e verdade, são considerados culpados, a começar pelos sacerdotes que foram transferidos ou privados do cuidado das almas por terem ousado informar o seu Bispo das perversões de um dos seus irmãos.        

A SANTA IGREJA É VÍTIMA DOS CRIMES DOS SEUS MINISTROS      

Mas há uma outra vítima, completamente inocente, destes escândalos: a Santa Igreja. A imagem da Esposa de Cristo foi maculada, ultrajada, humilhada e desacreditada, porque aqueles que cometeram estes crimes agiram explorando a confiança pelo hábito que vestem, utilizando a sua função de sacerdote ou de Prelado para enredar e corromper as almas. Também responsáveis
​​por este descrédito da Igreja são aqueles que, no Vaticano, nas Dioceses, nos conventos, nas escolas católicas e nas organizações religiosas – pensemos nos Escuteiros –, não erradicaram esta praga pela raiz, mas esconderam-na e negaram-na. É agora evidente que esta invasão de homossexuais e pervertidos foi programada e desejada: não se trata de um acontecimento fortuito que ocorreu apenas por omissão de controlos, mas um preciso plano de infiltração sistemática da Igreja para demoli-la por dentro. E por isto responderão ao Senhor aqueles a quem Ele confiou o governo da Sua Esposa.      

Em tudo isto, todavia, os nossos adversários esquecem que a Igreja não é um grupo de pessoas sem rosto que obedecem cegamente a mercenários, mas um Corpo vivo com uma Cabeça divina, Nosso Senhor Jesus Cristo. Pensar em poder matar a Esposa de Cristo, sem que o Esposo intervenha, é um delírio que só Satanás pode crer possível. Pelo contrário, dar-se-á conta de que, precisamente, ao crucificá-la, ao cobri-la de injúrias e de golpes de flagelo, como crucificou, há dois mil anos, o Salvador, está a assinar a sua própria derrota definitiva. O mors, ero mors tua: morsus tuus ero, inferne.     

Carlo Maria Viganò, Arcebispo

segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Oração e Missa pelos defuntos

Um outro meio muito eficaz à nossa disposição para elevar as almas do Purgatório é a oração, obra fácil a ser praticada por todos, dado que não exige um grande sacrifício e também pode ser feita durante as acções diárias e com uma simples aspiração de coração.

Conta o P. Rossignoli, na sua obra sobre o Purgatório, que citámos várias vezes, que um religioso tinha o piedoso costume de recitar um Réquiem
æternam cada vez que passava em frente a um cemitério. Mas um dia, estando imerso em graves pensamentos, omitiu esta oração; teve, então, a impressão de ver os mortos saírem das suas sepulturas e segui-lo cantando a estrofe do Salmo: «Et non dixerunt qui præteribant: Benedictio Domini super vos» (Sl 128, 7). A essas palavras, o religioso, confuso e mortificado, respondeu. «Benedicimus vobis in nomine Domini» (Id.), e, então, os mortos regressaram aos seus túmulos suficientemente sufragados por aquela pequena oração.           

A partir deste facto, podemos argumentar qual orvalho de refrigério seja para os mortos até uma simples invocação a Deus em seu sufrágio. Quando, todavia, pretendemos trazer maior alívio e contribuir maiormente para a libertação de uma alma, não devemos iludir-nos de que o podemos fazer com tão pouco, pois, como dissemos algures ao falar da duração das penas do Purgatório, Deus exige um mais considerável resgate, tanto que São Roberto Belarmino chega a dizer que nunca se deve parar de rezar por um defunto, mesmo depois da sua aparição.           

A oração, depois, deve ser perseverante e fervorosa, já que se trata de, com ela, fazer violência ao coração de Deus e de obter, para uma alma, a graça da visão beatífica, graça em relação à qual não existe maior e que não se obtém a não ser com grande perseverança. Nosso Senhor disse um dia a Santa Lutgarda: «Minha filha, fizeste tanta violência ao meu coração que não posso resistir às tuas orações, por isso fica calma, porque a alma pela qual rezas logo se libertará das suas penas». Para além disso, para que a nossa oração seja atendida, é necessário que nos encontremos em estado de graça. Na verdade, aquele que, pelo pecado mortal, se tornou inimigo de Deus, como poderia servir de intermediário entre a justiça divina e as almas do Purgatório? «Scimus quia peccatores Deus non audit» (Jo 9, 31), diz a divina Sabedoria, e se não temos a alma pura de falta grave, são estéreis todas as nossas orações.                 

Através de Radio Roma Libera

domingo, 22 de novembro de 2020

Os animais do Apocalipse e os quatro Evangelistas

«No meio do trono e à volta do trono havia ainda quatro seres viventes cobertos de olhos por diante e por detrás: o primeiro vivente era semelhante a um leão; o segundo era semelhante a um touro; o terceiro tinha uma face semelhante à de um homem e o quarto era semelhante a uma águia em voo» (Ap 4, 6-7).      

Os quatro seres viventes, de que fala João no Apocalipse, devem a sua fisionomia à fusão, feita pelo Evangelista, de duas autorizadas fontes proféticas: Ezequiel, a quem aparece o portentoso e tetramorfo carro do Senhor, e Isaías, cujos serafins alados, pairando ao redor do trono de Deus, entoam o Trisagion, hino de louvor. Serão, depois, os Padres da Igreja, a partir do século II, a reconhecer, nestas criaturas, os símbolos dos Evangelistas, contribuindo grandemente a arte paleocristã na definição e divulgação da sua interpretação canónica.        

Entre as primeiras transposições em imagem da passagem joanina está um dos painéis da porta de madeira da Basílica de Santa Sabina, em Roma. O relevo, obtido na mesa de cipreste, mostra um jovem Cristo triunfante, princípio e fim do mundo – como se vê pelo Alfa e Ómega gravados nos Seus lados –, e fonte de Vida, como indica a amêndoa em que está inscrita a figura. É circundado pelos quatro animais apocalípticos que, lidos em sentido horário, são a águia, o leão, o touro e o homem/anjo.        

O século V, a que remontam os batentes romanos, marcou o início da fortuna deste motivo iconográfico que encontrou a sua ideal localização nas cúpulas, nas semicúpulas e nos arcos da abside, de vez em quando fixado nas diferentes superfícies pelas cores dos frescos ou, ainda mais frequentemente, pelas tesselas de preciosos mosaicos, bizantinos ou não. No Mausoléu de Galla Placidia, em Ravena, por exemplo, a abóbada estrelada mostra, nos pendentes, as figuras do tetramorfo, enquanto o número quatro, quantos são os pontos cardeais, explicita o destino universal da salvífica teofania aqui representada no centro da cúpula com a cruz dourada.     

Que ao leão corresponda Marcos, à águia João, ao homem/anjo Mateus e ao touro Lucas, como codificado, por São Jerónimo, a partir dos incipit dos seus respectivos textos canónicos, a arte revela-o, pela primeira vez, no século VI, nas relativas porções do belíssimo aparato de mosaico do presbitério da Basílica de São Vital, também de Ravena. Sobre o pano de fundo de uma paisagem rochosa verde, os Evangelistas aparecem, individualmente, em forma humana, com o próprio livro nas mãos, cada um encimado pelo seu símbolo. 

Continua João: «Vi um trono no céu e sobre o trono havia alguém sentado. O que estava sentado era, no aspecto, semelhante à pedra de jaspe e de sardónica e uma auréola, de aspecto semelhante à esmeralda, rodeava o trono».     

Os dezasseis grandes nichos historiados que, no interior do Baptistério de Parma, duplicam a planta octogonal, símbolo da eternidade, estão decorados com cenas realizadas entre os séculos XIII e XIV. Sobre o fundo de um céu estrelado, o tetramorfo – de cada lado do qual dois querubins esmagam dragões, significando a vitória do bem sobre o mal – ocupa um deles. E, conforme relatado no último livro do Novo Testamento, circunda o Cristo que abençoa, sentado num trono, o manto vermelho e azul que O distingue.

O real Salvador está inscrito numa amêndoa que, se aqui mostra cores um pouco desbotadas pelo tempo, noutros locais, em temas semelhantes, é tão colorida como um arco-íris, prodigioso instrumento de ligação entre as dimensões humana e divina. A sua tonalidade predominante é o verde, que exprime a esperança da misericórdia e na força de Deus, único Senhor do tempo e da história. As quatro criaturas viventes do Apocalipse têm a tarefa de anunciar esta verdade ao mundo inteiro.    

Margherita del Castillo       


Através de La Nuova Bussola Quotidiana

sábado, 21 de novembro de 2020

Um novo genocídio cultural, no Alto Carabaque, contra os arménios?

Em 2015, o Estado Islâmico destruía – ou tentava destruir –, em Palmira, artefactos históricos centenários, e apenas o heroísmo, pago com a vida, do director do Museu de Palmira evitou que os bárbaros, financiados pelo Ocidente, causassem maiores danos. O Mundo inteiro podia assistir à propagação da barbárie em directo e, a 1 de Setembro, a UNESCO declarou que se tratava de crimes contra a civilização.          

Dez anos antes, algo semelhante tinha acontecido no Naquichevão, um território dentro dos limites do Azerbaijão que confina, principalmente, com a Arménia e o Irão. Mas ninguém tinha reivindicado a dúbia honra desta destruição cultural. O episódio passou quase despercebido.        

Foi, porém, o culminar de uma campanha azerbaijanesa para apagar os vestígios de um povo: a transformação do cemitério medieval da cidade de Julfa numa terra deserta. Os arménios viveram em Jugha – como era chamada a cidade – até ao final do século XIV, quando o xá Abas, o Grande, os forçou a transferir-se para o que se tornaria a nova capital da Pérsia Safávida. Em Julfa permaneceram os seus mortos, que homenageavam com enormes esculturas fúnebres, os khachkars. Passaram os séculos e o vento perene soprou implacável; também passou a União Soviética. Cerca de 22.000 khachkars permaneceram de pé; de acordo com outros cálculos, cerca de 10.000. Até 89 igrejas medievais arménias e 5.840 monumentos ainda estavam de pé quando a URSS desapareceu, de acordo com uma pesquisa do especialista local Argam Ayvazyan, que agora vive na Arménia.

Em 2005, a contagem, de acordo com testemunhas oculares especializadas, era, respectivamente, de 0, 0 e 0. Nada mais de khachkars, nem de igrejas, nem de mosteiros. Exactamente como em Palmira, mas sem ruídos ou reclamações.      

A 9 de Novembro, foi anunciado um acordo de paz entre a Arménia e o Azerbaijão para pôr termo ao conflito armado no Alto Carabaque, uma guerra desencadeada pelos azerbaijaneses com o apoio entusiástico dos turcos, os autores do primeiro genocídio do século XX, aquele contra os arménios, que os turcos ainda negam.   

A memória daquela destruição de 2005 ressurgiu depois de o primeiro-ministro arménio, Nikol Pashinyan, ter confirmado a assinatura do acordo com o Azerbaijão, que dá a Bacu grandes porções do território povoado por arménios que, neste momento, estão a emigrar.    

O anúncio foi uma surpresa para Hovhannisián, o abade de Dadivank e pároco de Kalbajar, cidade que será entregue às autoridades azerbaijanas. Hovhannisián restaurou, reconstruiu e manteve utensílios, objectos, khachkars e, até mesmo, os edifícios do mosteiro. Agora que deve regressar ao domínio de Bacu, o religioso teme o pior.     

Após o anúncio, Hovhannisián não fez nada além de recrutar veículos e voluntários para transportar o máximo de objectos possível para Erevan, a capital da Arménia. «Mas a coisa mais importante, que é o mosteiro, não pode ser transportada» Trata-se de um complexo de edifícios que remontam aos séculos IX-XIII e é um dos maiores complexos da Arménia medieval.    

Hovhannisián recorda que o mosteiro, antes de regressar aos arménios, tinha sido usado como estábulo pelos azerbaijaneses. O medo de Hovhannisián do que poderia acontecer à riqueza do complexo de Dadivank nasce do caso mais sensacional que já se verificou: o do cemitério de Julfa, no Naquichevão. Como a área tinha apenas cerca de 4.000 habitantes, escapou dos cenários de guerra, mas os seus tesouros foram constantemente destruídos a título da negação da história e da cultura.   

Marco Tosatti    

Através de Radio Roma Libera

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Santa Missa de Réquiem por Dom Antoine Forgeot (1933-2020)








Cerca de três meses após o falecimento de Dom Antoine Forgeot, Abade emérito da Abadia Beneditina de Notre-Dame de Fontgombault, ocorrido no dia 15 de Agosto, solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria, o Superior-Geral do Instituto de Cristo Rei Sumo Sacerdote, Mons. Gilles Wach, rezou, em Gricigliano, uma Santa Missa de Réquiem por Dom Forgeot. Réquiem æternam dona ei, Domine, et lux perpetua luceat ei. Requiescat in pace. Amen.      

Através de Instituto de Cristo Rei Sumo Sacerdote

Eugenia e aborto, Marie Stopes muda de disfarce

Dos Estados Unidos da América ao Reino Unido, é o novo imperativo das organizações anti-vida: obscurecer a ligação entre a eugenia (com os seus corolários racistas) e o aborto. Primeiro, a remoção do nome de Margaret Sanger de uma clínica da Planned Parenthood, em Nova Iorque, para acompanhar o movimento (aliás, abortista) Black Lives Matter e evitar, assim, o fogo amigo. Agora, uma operação de proporções muito maiores, que envolve a Marie Stopes International, uma multinacional do aborto, fundada em Londres, que decidiu remover o nome da britânica Marie Stopes (1880-1958), uma convicta promotora do controlo da natalidade através de esterilizações forçadas e da contracepção.  

Permanecerão, na verdade, as suas iniciais. E, assim, desde o passado dia 17 de Novembro, a gigante, com sede no Reino Unido, chama-se, oficialmente, MSI Reproductive Choices. A nova denominação – “Escolhas Reprodutivas” – é uma perfeita adesão à neolíngua. O jogo de maquilhagem levou à mudança do domínio na Internet, dos endereços de e-mail, das páginas sociais.         

O motivo do ostracismo em relação à inspiradora e mãe ideal da MSI é brevemente explicado pelo administrador delegado, Simon Cooke: «Marie Stopes foi uma pioneira do planeamento familiar; todavia, também foi uma defensora do movimento eugénico e expressou muitas opiniões que estão em total contraste com os valores e os princípios fundamentais da MSI». Segundo Cooke, a mudança de nome justifica-se com o lançamento de uma «nova estratégia» que visa eliminar, até 2030, qualquer aborto «inseguro» (existe algum que seja seguro?) e garantir, a todos, o acesso à contracepção. Nem mesmo um alienígena que estivesse na Terra há apenas alguns meses aceitaria tal retórica, já que não há nada de “novo” nesta estratégia.

É claro que a MSI não sabe como romper os laços com Marie Stopes sem renunciar ao seu negócio e à sua história. De resto, o próprio Cook recordou, mais à frente, que «a MSI foi fundada, em 1976, pelo Dr. Tim Black, por Jean Black e por Phil Harvey, que assumiram a clínica no local da original “Mothers Clinic”, de Marie Stopes [por ela fundada em 1921, n.d.r], no centro de Londres» e que deram o seu nome à organização em reconhecimento da sua «obra pioneira». A ideia deles era “emancipar” as mulheres com a contracepção e o aborto: e esta visão, acrescenta o administrador, é «tão relevante hoje como o era em 1976».

Portanto, o novo nome é apenas um truque, que nada muda na substância. O aborto de crianças com alguma deficiência – física ou mental, real ou presumida – está intimamente ligado aos princípios da eugenia. A cultura do aborto legal nasce da mesma árvore da contracepção, que se desenvolve por impulso das várias sociedades eugénicas, nascidas, no início do século XX, na onda do darwinismo social, do britânico Francis Galton, que se enraizou de um lado ao outro do Atlântico.

O percurso de vida e ideológico de Marie Stopes, sem dúvida, tem uma extraordinária semelhança com o de Sanger (1879-1966). As duas conheceram-se, pessoalmente, em 1915, depois de a activista americana, que fugiu para a Inglaterra, ter falado sobre contracepção diante dos membros da Fabian Society. Marie Stopes aconselhou-se com Sanger para um capítulo de um seu artigo sobre o controlo da natalidade, tema que “respirava” há já algum tempo.         

Já em criança, a paleontóloga e ensaísta britânica conhecera, através do pai, Galton. Participara, depois, no congresso inaugural, em 1912, da Eugenics Education Society (hoje, Galton Institute), e, em 1921, tornou-se membro. Nesse mesmo ano, fundou a já mencionada Mothers Clinic e, para apoiá-la, uma organização cujo nome diz tudo: Society for constructive birth control and racial progress.       

O progresso racial que Stopes tinha em mente previa, como escreveu em Radiant Motherhood, que «a esterilização daqueles que são totalmente inadequados para a paternidade deve ser imediata, aliás, obrigatória». Entre os inadequados, disse ela, estavam «os depravados, os de mente fraca e os desequilibrados», que «produzem menos do que consomem». Pelo menos publicamente, Stopes declarava-se contra o aborto (em alguns casos, no entanto, mostrara-se favorável em privado), uma vez que acreditava que a contracepção fosse suficiente para construir a raça superior e perfeita – baseada na wise parenthood, “paternidade sábia” – da qual se considerava profetisa. O contraste com a Igreja Católica era gritante.

O controlo da natalidade devia ocorrer, particularmente, entre as classes mais pobres e, não por acaso, a primeira clínica de Marie Stopes nasceu numa zona, à época, indigente de Londres (Holloway, de onde se mudou em 1925). Racismo, sobretudo, social, que está associado àquele em sentido mais estreito das clínicas de Planned Parenthood, nos Estados Unidos, muitas vezes localizadas em bairros de maioria afro-americana.    

De grande pragmatismo, Stopes foi hábil a publicar os seus escritos e a espalhar as suas ideias eugénicas entre os governantes. Na sua concepção de raça entrava também um forte anti-semitismo. E, em Agosto de 1939, poucos dias antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, enviou um livro de poesia (Love Songs for Young Lovers) a Adolf Hitler, com a esperança – segundo parece, desiludida – de que o Führer mandasse distribuir esses poemas nas clínicas alemãs de controlo da natalidade.     

O desprezo por uma vida frágil, ou mesmo minimamente imperfeita, levou Stopes a tentar impedir o casamento do filho, Harris, com Mary Wallis, “culpada” por ter «uma doença ocular hereditária», praticamente uma forma de miopia, e «tenho horror que a nossa linha [genética] esteja contaminada e de crianças pequenas com a miséria dos óculos».       

Estas são as mentes que espalharam a eugenia que, posteriormente, evoluiu, com a ajuda de políticos e dos media, para a indústria do aborto. Refazer o seu visual não basta. É necessário fechá-la.      

Ermes Dovico    

Através de La Nuova Bussola Quotidiana

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Comunicado sobre a conferência “Todos Pobres”

No seguimento da conferência virtual “Todos Pobres, à economia faz bem a conversão, não a utopia”, promovida, ontem, pela Associação italiana Tradição, Família, Propriedade, pelo portal noticioso La Nuova Bussola Quotidiana e pelo Observatório Internacional Cardeal Van Thuân sobre a Doutrina Social da Igreja, publica-se um comunicado sobre as conclusões saídas do evento realizado na véspera da iniciativa promovida pelo Vaticano.   

Uma encíclica: Fratelli tutti (Todos irmãos). Um evento internacional promovido pelo Vaticano: The Economy of Francesco (A Economia de Francisco). Uma reunião do Fórum Económico Mundial: The Great Reset (O Grande Reinício). Os maiores poderes da Terra, eclesiásticos e temporais, reúnem-se para discutir o futuro do nosso Mundo. Não se trata de nada menos do que “reiniciar” a economia e a sociedade, isto é, de eliminar as existentes, abrindo, assim, o caminho para uma nova era histórica. Portanto, aproveitam-se da grande turbulência criada pela pandemia de COVID-19.  

Quais seriam as características desta nova era? Para examinar conteúdos e possíveis consequências, a Associação Tradição, Família, Propriedade, juntamente com La Nuova Bussola Quotidiana e o Observatório Internacional Cardeal Van Thuân sobre a Doutrina Social da Igreja, organizou, a 18 de Novembro, a conferência virtual Poveri Tutti (Todos Pobres), transmitida, em directo, por vários canais online e ainda disponível na rede.   

Moderada por Federico Catani, da TFP italiana, participaram na conferência o economista Ettore Gotti Tedeschi, Julio Loredo, director da TFP italiana, Stefano Fontana, director do Observatório Van Thuân, e Riccardo Cascioli, director de La Nuova Bussola Quotidiana.         

«A economia é um instrumento que deveria servir para satisfazer as necessidades humanas – começou Gotti Tedeschi –, mas, por isso mesmo, pode ser usada para não as satisfazer, mais, para assustar e influenciar». A economia não é uma ciência, continuou o conhecido economista. Portanto, quando é usada para fins “políticos”, ou seja, destinados a influenciar, pode ser tentada a inventar utopias. Se, então, for usada para fins “morais” e inventar utopias que são incorporadas no magistério da Igreja, o risco é que estas utopias se tornem heresias. Em Fratelli tutti, estão implícitas mais utopias económicas. Tudo isso está em claro contraste com a encíclica Caritas in veritate, do Papa Bento XVI, segundo a qual, quando as coisas não funcionam, não são os instrumentos que devem ser mudados, mas o coração do Homem. Se em vez da conversão do Homem, a Igreja propõe utopias, podemos prever tornar-nos Todos Pobres, economicamente e também espiritualmente.     

Na sua intervenção, Julio Loredo explicou como um são consumismo é o verdadeiro motor de uma sociedade, tanto no campo económico quanto no cultural e espiritual. «O Homem precisa de consumir – disse o director da TFP –, ou seja, de ter tudo o que convém ao próprio bem-estar ditado pelos apetites da sua natureza». O consumo estimula a trabalhar e a desenvolver-se. Obviamente, alguns trabalharão mais e, portanto, terão mais para consumir. Isto é um bem, pois, deste modo, a sociedade tira benefício dos mais capazes, dos mais eficientes, dos mais produtivos, enfim, dos melhores. Caso contrário, a sociedade perece, cai no anticonsumismo, caindo na pobreza crónica, preguiçosa e esclerosada. Uma sociedade nestas condições, concluiu Loredo, tende, em última análise, para a barbárie.      

Stefano Fontana examinou duas palavras-chave da Igreja de hoje: fraternidade e sinodalidade, dois caminhos pelos quais deveria encontrar o Mundo e levar a mensagem da salvação de Jesus Cristo. A fraternidade, em particular, é o tema específico da encíclica Fratelli tutti, do Papa Francisco. Mas as coisas não são tão simples como são propostas, hoje, pela Igreja e na Igreja. É necessário verificar se o conceito de fraternidade que a Igreja, hoje, propõe está de acordo com a sua doutrina ou não é, pelo contrário, fruto de uma ideologia mundana. Fontana esclareceu, em seguida, o verdadeiro significado da palavra fraternidade na Doutrina Social da Igreja para, posteriormente, examinar como o mesmo conceito é assumido e desenvolvido na encíclica do Papa Francisco. Por fim, o director do Observatório Van Thuân tratou da fraternidade como espaço de diálogo com as outras religiões, que a encíclica propõe fortemente na esteira da declaração de Abu Dhabi. Da análise emergiu que a fraternidade da encíclica Fratelli tutti apresenta consideráveis elementos
​​de descontinuidade com a concepção tradicional da Igreja e da recta razão e que o diálogo sobre este tema com outras religiões é muito difícil e perigoso, precisamente, pela radical diversidade no modo de considerar a fraternidade.         

Concluindo, Riccardo Cascioli, director de La Nuova Bussola Quotidiana, abordou o tema da ecologia, um leitmotiv da esquerda ambientalista e também do pontificado do Papa Francisco. Esta ecologia implica uma viragem antropológica que consiste no facto de o Homem se conceber dentro de uma “comunidade vivente” mais ampla, perdendo, assim, a sua especificidade ontológica. Por muito tempo, mesmo no mundo católico, cresceu um pensamento que indica a raiz dos desequilíbrios ambientais no antropocentrismo judaico-cristão, acusando-o de justificar a pilhagem dos recursos da terra que, pelo contrário, pertencem a todas as criaturas. Na realidade, trata-se de uma visão distorcida do pensamento católico: reconhecer que o Homem é o ápice da Criação, o único ser vivente criado à imagem e semelhança de Deus, significa, antes de tudo, que a chave do equilíbrio está na relação entre o Homem e Deus. Quando é vivido correctamente, segundo a Revelação cristã, também o relacionamento com o resto da Criação se torna saudável.        

A conferência foi transmitida ao vivo e já está disponível nos canais das associações promotoras.

A mártir que a falsa literatura feminista identificou com Hipácia

De Santa Catarina de Alexandria, cuja memória litúrgica facultativa ocorre a 25 de Novembro, provavelmente nascida em 287 e morta, como mártir, em Alexandria do Egipto, por volta de 305, há poucas informações documentais, motivo pelo qual nasceram várias tradições, inclusive populares. As fontes escritas são todas posteriores à sua vida: a mais antiga é uma Paixão, em grego, do século VI-VII, seguida por outra do século XI e a Legenda Áurea, que data do século XIII.         

Era, com certeza, uma bela jovem egípcia. A Legenda Áurea especifica que era filha do rei Costa, que a deixou órfã muito jovem, e que foi educada, desde a infância, nas artes liberais, como eram definidos os estudos secundários na Idade Média. Catarina foi pedida em casamento por vários homens de relevante importância, mas teve, em sonho, a visão de Nossa Senhora com o Menino que lhe colocava o anel no dedo fazendo-a sponsa Christi.         

Em 305, um imperador romano realizou grandes festejos, em própria honra, em Alexandria. Mesmo que a Legenda Áurea fale de Maxêncio (278 - 312), muitos acreditam que se trata de um erro de transcrição e que o imperador em questão fosse Maximino Daia (c. 285 - 313), que, precisamente em 305, foi proclamado César para o Oriente. Foi naquela ocasião que Catarina se apresentou no palácio imperial durante as celebrações, no seguimento das quais se celebravam ritos pagãos com sacrifícios de animais em adoração aos deuses, nos quais também participavam muitos cristãos por medo das perseguições. Catarina não apenas recusou aqueles actos, mas pediu ao imperador que reconhecesse Jesus Cristo como redentor da humanidade, argumentando o seu convite com conhecimento dos factos, profundidade filosófica e capacidade oratória, tanto que o imperador, impressionado com a beleza e a cultura da jovem nobre, convocou um grupo de retóricos para que a persuadissem a honrar os deuses e pediu-a, inclusive, em casamento. Mas os retóricos não conseguiram convertê-la, chegando ao ponto de ser eles, graças à eloquência e à santidade de Catarina, a converter-se ao Cristianismo. Foi assim que o imperador ordenou a sua condenação à morte e, depois de mais uma recusa de Catarina, condenou-a ao suplício da roda dentada; mas o instrumento de tortura partiu-se e Maximino decidiu, sucessivamente, mandá-la decapitar. Do corpo, em vez de sair sangue, jorrou leite, símbolo da sua pureza.         

Segundo uma outra versão, o corpo de Catarina foi transportado, pelos Anjos, para o Monte Sinai, onde, no século VI, o imperador Justiniano (482-565) fundou o mosteiro, originalmente denominado “da Transfiguração”, e, posteriormente, a ela dedicado, o célebre “Mosteiro de Santa Catarina de Alexandria”.

Somente a partir do século IX é que a devoção à santa se tornou muito popular e tal é atestado, de modo particular, pelos testemunhos iconográficos.   

No período em que se desenvolveu o pensamento iluminista-ateísta ou agnóstico, lançaram-se muitas sombras sobre a historicidade da personagem. A escritora feminista e historiadora da arte inglesa Anna Brownell Jameson (1794 - 1860) formulou a hipótese segundo a qual havia algumas características comuns entre Santa Catarina de Alexandria e Hipácia, nascida entre 350 e 370, matemática e filósofa pagã, também morta, em 415, em Alexandria do Egipto, por monges parabolanos, membros de uma seita que se dedicava ao cuidado dos enfermos, especialmente das vítimas da peste, e ao sepultamento dos mortos. Mas a hipótese de Brownell Jameson é falsa, tanto que não há qualquer fonte documentada que demonstre a sobreposição entre Santa Catarina e Hipácia.        

Na década de 1960, teve início um reexame de muitas figuras de santos dos primeiros séculos do Cristianismo; o espírito positivista, de facto, penetrou na Igreja e o cientificismo historicista prevaleceu sobre a tradição da própria Igreja, tanto que Santa Catarina de Alexandria, juntamente com outras figuras, não foi mais digna de reentrar no Martirológio Romano e decidiu-se eliminá-la entre 1962 e 2002, sem, todavia, jamais proibir a sua veneração, devido à enorme devoção a ela dirigida, ao longo dos séculos, em toda a catolicidade. Em 2003, Santa Catarina, com justiça, foi reinserida, entre os mártires, no Martirológio pelo Papa João Paulo II (1920-2005).        

Cristina Siccardi          


Através de Radio Roma Libera

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

As forças secretas que agem na história

As forças secretas existem e agem na história. O simples dinamismo das paixões e dos erros humanos não é suficiente para explicar o processo revolucionário que, desde há séculos, ataca a Igreja e a Civilização Cristã que por ela foi gerada. Este processo é liderado por agentes, muitas vezes ocultos, mas reais. O pensamento católico dos séculos XIX e XX procurou sempre, de maneira rigorosa e documentada, a existência desta trama, que pode ser definida como um “conluio” ou “conspiração”, se por este termo se entende a existência de forças que alcançam os seus fins em segredo e, muitas vezes, com métodos ilícitos e imorais. Mons. Henri Delassus (1836-1921) dedicou um importante livro à La conjuration antichrétienne: le temple maçonnique voulant s’élever sur les ruines de l’Eglise catholique (Paris 1910, 3 vols., com uma carta de prefácio do Cardeal Rafael Merry del Val). As sociedades secretas que guiam a Revolução, explica Plinio Corrêa de Oliveira, têm como meta a instauração de uma utópica “República Universal” em que todas as legítimas diferenças entre os povos, as famílias, as classes sociais, se dissolveriam num amálgama igualitário, confuso e refervente (Rivoluzione e Contro-Rivoluzione, Sugarco, Milano 2009, p. 117).

A existência deste “conluio” é confirmada pelos documentos pontifícios e, especialmente, pela encíclica Humanum genus, de Leão XIII, de 20 de Abril de 1884, na qual o Papa denuncia o conluio diabólico da Maçonaria, que tem como «seu propósito último o completo derrubamento de toda a ordem religiosa e política do mundo que o ensinamento Cristão produziu e a substituição por um novo estado de coisas de acordo com as suas ideias, das quais as fundações e leis devem ser obtidas do mero naturalismo» (Enc. Humanum genus, de 20 de Abril de 1884, ASS, vol. 16 (1883-1884), pp. 417-48). A identidade dos conspiradores pode variar, mas o director permanente do processo revolucionário é Satanás, o anjo caído, sempre rebelde e sempre derrotado. Os Papas e os autores contra-revolucionários não deixam de realçar a essência satânica da Revolução que, aparentemente, “constrói”, mas, na realidade, destrói. Visa desfazer a obra da criação e da redenção para construir o Reino social do demónio, um inferno na terra que prefigura o da eternidade, assim como o Reino social de Cristo, a Civilização Cristã, prefigura o Reino do Paraíso celestial. Nesse sentido, a Revolução tem a sua essência na desordem, enquanto a Civilização Cristã é a ordem por excelência.

Também os acontecimentos do coronavírus devem ser analisados nesta perspectiva de teologia da história, mas com a condição de seguir as lições dos grandes mestres do pensamento católico, que nunca desistiram do bom uso da razão. O pensamento tem regras estabelecidas por uma disciplina conhecida como lógica. O objecto da lógica é, como explica São Tomás, a actividade da razão (Commento agli analitici posteriori di Aristotele, vol. I, I lect. 1.) A lógica é uma análise dos processos do pensamento para compreender a sua estrutura e as leis nos diversos momentos. Todavia, não é possível conservar a lógica sem a ajuda da graça. Há, portanto, necessidade da graça divina, que ilumina a inteligência do homem e fortalece a sua vontade, para que ele, com a ajuda do sobrenatural, possa fazer o que a sua natureza não é capaz. De facto, continua Corrêa de Oliveira, «mesmo que a inteligência seja lógica por natureza, o homem nunca pode ser completamente lógico sem o auxílio da graça. Por dois motivos: primeiro, porque a inteligência humana não é infalível, (...); em segundo lugar, porque o homem encontra mil obstáculos interiores que se opõem à lógica». «Quais são esses obstáculos interiores? Acontece, muitas vezes, que a lógica mostra verdades desagradáveis ou deveres árduos e, nesse caso, a pessoa tenta evitar a lógica. Não existe coisa mais natural no mundo. Procura-se escapar e fechar os olhos diante da lógica» (R. de Mattei, Plinio Corrêa de Oliveira, Apostolo di Fatima. Profeta del Regno di Maria, Fiducia, Roma 2017, pp. 30-31). A renúncia ao uso da lógica leva à atrofia da razão e ao triunfo da imaginação, que é uma forma de pensamento que não segue regras fixas ou ligações lógicas, mas é, muitas vezes, determinada por um estado emocional. A imaginação é um sentido interno, o mais nobre dos sentidos internos, mas o que mais facilmente nos leva ao erro. Para compreender completamente uma história tão complexa como a eclosão da pandemia do coronavírus, é necessário usar, com atenção, o instrumento da lógica iluminada pela fé. É preciso ter cuidado com os falsos mestres, vindos das fileiras da Revolução, que pretendem explicar o que está a acontecer sem a luz da fé e fazendo um mau uso da razão. Em Itália, um desses péssimos professores é o aspirante a filósofo Diego Fusaro, que, desde o início, pretendeu explicar o coronavírus como uma conspiração ocidental contra a China comunista. A 26 de Fevereiro de 2020, na RadioRadio, Fusaro afirmava que a hipótese «que apresenta maiores pontos de consistência é aquela segundo a qual há, de alguma forma, a longa manus norte-americana em tudo isso. Esta hipótese começa, certamente, do facto de o vírus ter partido dos laboratórios da China, mas permite-nos entender que este vírus pode ter sido libertado de várias maneiras. Mas, acima de tudo, este cenário permite-nos responder a uma questão que, de outra forma, fica sem resposta: quem se beneficia com tudo isto? Certamente, não ajuda a China que, hoje, vive a pior crise de joelhos, justamente porque estava a triunfar economicamente e até a superar os Estados Unidos da América».

No dia 8 de Março, na mesma emissora RadioRadio, Fusaro afirmara que «Itália, nos últimos dois anos, era o país que mais se estava a aproximar da China a nível económico, recordar-se-ão da Rota da Seda e da assinatura de Di Maio naquele projecto. Isso despertou a ira de Washington, que foi imediatamente capaz de expressar a sua decepção a respeito da proximidade de Itália à China. Quais são os países mais afectados? China, Irão e Itália. Não se deve esquecer o facto que são países que não estão alinhados com Washington, aliás, já há algum tempo na mira da monarquia do dólar». Fusaro insinua, por conseguinte, que os Estados Unidos criaram a pandemia para enfraquecer a China e os países que lhe são próximos, como Itália e alguns do Terceiro Mundo. Este pseudo-raciocínio é falacioso, não apenas porque foi clamorosamente negado pelos factos, mas porque tem em si mesmo o carácter do sofisma. O facto é que a pandemia foi uma das principais causas da derrota eleitoral de Trump e se, hoje, algum país está de joelhos após dez meses de coronavírus, são, precisamente, os Estados Unidos e a Europa, enquanto a China parece estar a sair da crise sanitária não apenas ilesa, mas economicamente próspera.

O sofisma está em substituir o nexo causal, que deve caracterizar cada operação da razão, por um nexo de carácter puramente temporal, que se resume no conhecido sofisma Post hoc, ergo propter hoc (depois disso, portanto, por causa disso). Um sofisma que substitui a ordem lógica pela cronológica, supondo que, se um acontecimento for seguido por um outro, então o primeiro deve ser a causa do segundo. Na realidade, é necessária uma sucessão temporal para que haja uma relação causal, visto que cada efeito deve ser precedido por uma causa, mas esse vínculo temporal não é suficiente para provar nada.

Fusaro, aluno de Costanzo Preve (1943-2013), teórico da Refundação Comunista, é um neo-comunista que pretende libertar-se da análise socioeconómica de Marx, mas não renuncia à sua visão dialéctica, baseada na negação do princípio de não contradição. O que preocupa não são as suas fracas teses, mas o sucesso que parecem ter nos círculos conservadores e tradicionalistas que, mesmo sem se referir explicitamente a ele, misturam, na prática, as suas teorias antiamericanas com as da seita anticatólica QAnon, que afirma a existência de um projecto criminoso, arquitectado por uma elite globalista, para subjugar, através de uma ditadura sanitária, toda a humanidade. O coronavírus seria apenas uma modesta gripe e as medidas recomendadas pelos governos progressistas ou conservadores de todo o Mundo, como os bloqueios, as máscaras e o distanciamento social, seriam instrumentos e símbolos desse conluio para anular as liberdades individuais e, por fim, exterminar toda a humanidade. É preciso dizer com firmeza que estas hipóteses nada têm a ver com a grande tradição do pensamento católico que, quando fala da existência de uma conspiração anticristã, fundamenta cada afirmação com documentação precisa e, sobretudo, nunca substitui a fé e a razão pela imaginação. Às vezes, a impressão que se tem é a de se encontrar diante de fenómenos de dissonância cognitiva, onde a realidade é deformada por uma condição emocional ou de apofenia, um estado psíquico que insta a estabelecer conexões significativas entre acontecimentos privados de qualquer relação causal.

Todas as formas de protecção e distanciamento social deveriam ser abolidas para combater o “conluio”? Gennaro Malgieri, que escreveu a história da invasão do coronavírus num lúcido diário, observa justamente: «são francamente ridículos aqueles que contestam o único sistema de protecção que temos à disposição, mas têm o cuidado de não indicar um alternativo» (Sotto il segno del pipistrello. Dentro la pandemia. Un diario, Fergen, Roma 2020, p. 14).

A conservação da vida é o princípio fundador de cada comunidade e quem deve tutelar este princípio é quem decide sobre o “estado de excepção”. «Tendo questionado tal princípio, é muito fácil abrir o caminho para a dissolução social» e render-se «ao caos permanente da ferocidade desencadeada pela rejeição da legalidade e da legitimidade» (ibid., pp. 147-148). Não há dúvida de que as forças secretas, que agem e operam, procuram tirar proveito da situação de emergência em que se encontra a humanidade, certamente querida por Deus, porque, como ensina Santo Afonso de Ligório, «tudo o que acontece, acontece por vontade de Deus» (Dell’uniformità alla volontà di Dio, Roma 1874, p. 12). Mas a Divina Providência, que orienta sempre a história, converte o mal em bem e, precisamente hoje, esta situação de emergência pode favorecer a batalha dos defensores da ordem cristã. Nunca um momento histórico foi tão propício para fazer uma crítica cerrada ao processo revolucionário e mostrar que não há outra solução possível senão um regresso à ordem natural e cristã. As épocas de quarentena sanitária, que a humanidade tantas vezes viveu na sua história, são épocas em que a alma não deve cair no domínio da fantasia, mas deve afirmar o primado da razão e da vontade, elevando o olhar para Deus, como ensinava São Paulo da Cruz: «Sede solitários o mais que puderdes, mesmo com o corpo, para que as criaturas não vos roubem o recolhimento» (Lettere, Roma 1924, vol. II, p. 509); «Deus quer-vos no deserto da mais profunda solidão para vos dizer palavras de vida e vos ensinar a ciência dos santos» (ibid., vol. III, p. 515).

Roberto de Mattei

Através de Corrispondenza Romana