quarta-feira, 12 de agosto de 2020

De Spadaro aos jesuítas: por que Bergoglio apoia Draghi



O que pode ligar o peronista (de simpatias juvenis) Jorge Mario Bergoglio ao globalista Mario Draghi? O que podem ter em comum o campeão argentino dos últimos, dos oprimidos, dos pobres, com o representante italiano dos poderes fortes, da oligarquia financeira, da plutocracia globalista? O que tem a partilhar o Pontífice dos pobres com um dos que se tornou responsável pela carnificina socioeconómica europeia, o que tem a ver o Vigário de Cristo com um proeminente expoente do Pensamento Único, da ideologia do politicamente correcto, do novo humanismo europeu?      

A questão é mais do que lícita, visto que o Papa in persona quis nomear Draghi membro da Pontifícia Academia das Ciências Sociais e considerando que só o encontrou algumas vezes na sua vida.      

A primeira ocasião foi a 19 de Outubro de 2013, durante uma audiência pessoal concedida a Mario Draghi e família, enquanto a segunda ocorreu a 6 de Maio de 2016, quando o Papa recebeu o prestigioso Prémio Internacional Carlos Magno – o máximo reconhecimento europeu – na Sala Régia do Palácio Apostólico. Naquele caso, Mario Draghi estava sentado entre os massivos níveis políticos e económicos da União, juntamente com Angela Merkel, Jean-Claude Junker, Martin Schulz e Donald Tusk. Foi precisamente naquela ocasião que Bergoglio, no discurso de agradecimento pelo prémio recebido, disse expressamente «sonhar uma Europa capaz de fazer nascer um novo humanismo assente em três capacidades: a capacidade de integrar, a capacidade de dialogar e a capacidade de gerar». Quem escreveu o discurso ao Papa esqueceu-se de mencionar Jesus Cristo, mas agora há muitos nos Sagrados Palácios que acreditam que o novo conceito de “humanismo” também possa prescindir da figura do Filho de Deus. 

Qual é, então, o fio vermelho que liga Bergoglio a Draghi? Os bem informados identificam-no com um nome e sobrenome: Antonio Spadaro. Sim, o jesuíta director de Civiltà Cattolica, o homem que sussurra ao Papa, a eminência cinza de Francisco I.       

Acontece, de facto, que Mario Draghi se orgulha de ser um ex-aluno do Instituto Massimiliano Massimo, a prestigiosa escola católica romana administrada precisamente pelos jesuítas.       

Não foi por acaso que, a 2 de Novembro de 2019, Civiltà Cattolica, a revista dos jesuítas dirigida por Spadaro, publicou um artigo elogiando Mario Draghi. O artigo, de treze páginas, intitula-se ll contributo di Mario Draghi all’Europa, encontra-se no caderno 4065, pp. 220-233, Ano 2019, Volume IV, e é assinado pelo jesuíta Guido Ruta, doutor em Economia pela New York University. No referido artigo, Mario Draghi é considerado «protagonista de uma das fases mais complexas da história recente da Europa» e o seu serviço como Presidente do Banco Central Europeu é reconhecido como «decisivo para salvar a União Económica e Monetária».          

Segundo a revista dos jesuítas, o precioso contributo de Draghi poderia finalmente representar, hoje, a «extraordinária oportunidade de completar» definitivamente tal união, rejeitando de uma vez por todas as «instância populistas» eurocépticas e implementando as «necessárias reformas» para completar a construção europeia.        

Os elogios ao Super Mario, por parte do jesuíta Ruta, perdem-se: «Em contextos completamente novos, dominados pela incerteza e pelo cepticismo, Draghi soube tomar decisões com base em análises rigorosas, com audácia e orientado por uma visão muito elevada da Europa, unida muito além do dinheiro, como no projecto dos Pais fundadores. Criou, assim, as condições para que o processo de união dos nossos Países chegue a cumprimento».     

No artigo chega-se a pedir o seu envolvimento directo na política: «Mario Draghi surge como policymaker de altíssima estatura: à gratidão acrescenta-se a esperança de que a sua maneira de proceder sem retórica, com aprofundamento e visão, seja assumida em áreas mais amplas da política, seja europeia ou italiana». Seguem-se exaltados elogios ao euro e ataques às «desarticuladas instâncias populistas de um regresso à autonomia monetária», que actualmente se registam em Itália. Se não fosse pela capa, pareceria o Wall Street Journal ou o Financial Times. Seja como for, agora parece suficientemente claro por que Bergoglio nomeou Draghi para a Pontifícia Academia das Ciências Sociais.      

Recordamos que, depois de ter sido Director Executivo do Banco Mundial, como Diretor Geral do Banco de Itália foi o artífice das privatizações das sociedades públicas participadas. Esteve no iate Britannia, da Rainha Isabel, ao largo de Civitavecchia, com os representantes das finanças internacionais para definir o programa de venda ao desbarato do património industrial e empresarial italiano, a começar pelo IRI, pela ENI, pela Telecom, pela Enel, pela Comit e pelo Credit. Em 2002, foi nomeado Vice-Presidente do Goldman Sachs, o maior Banco de investimento privado do mundo. Em 2005, foi nomeado Governador do Banco de Itália e, em 2011, foi nomeado Presidente do Banco Central Europeu. Um currículo estrelar, de todos os aspectos, para delinear o perfil de um “poderoso”.

Gianfranco Amato      

Através de La Nuova Bussola Quotidiana

terça-feira, 11 de agosto de 2020

«A persona Papae está em cisma com o Papado» – Mons. Viganò a Weinandy



Publica-se, a pedido do Arcebispo Carlo Maria Viganò, uma carta que Sua Excelência Reverendíssima enviou, ontem, ao P. Thomas Weinandy, franciscano capuchinho norte-americano, por ocasião do debate iniciado sobre o Concílio Vaticano II.

10 de Agosto de 2020
São Lourenço, mártir

Reverendo Padre Thomas,        

Li com atenção o seu ensaio Vatican II and the Work of the Spirit, publicado, a 27 de Julho de 2020, em Inside the Vatican (aqui). Parece-me que o seu pensamento pode ser resumido nestas duas frases:           

«Partilho muitas das preocupações expressas e reconheço a validade de algumas problemáticas teológicas e questões doutrinárias enumeradas. Sinto-me, todavia, incomodado em concluir que o Vaticano II seja, de alguma forma, a fonte e a causa directa do actual estado desanimador da Igreja».

Permita-me, Rev. Padre, usar como auctoritas ao responder-lhe a um seu interessante escrito, Pope Francis and Schism, publicado, no passado 8 de Outubro de 2019, em The Catholic Thing (aqui). As suas observações permitem-me evidenciar uma analogia que espero que possa ajudar a esclarecer o meu pensamento e a demonstrar aos nossos leitores que algumas aparentes divergências possam ser resolvidas graças a uma profícua disputatio que tenha como objectivo principal a glória de Deus, a honra da Igreja e a salvação das almas.      

Em Pope Francis and the Schism, você observa, muito oportunamente e com a perspicácia que distingue as suas intervenções, que há uma espécie de dissociação entre a persona Papae e Jorge Mario Bergoglio, uma dicotomia em que o Vigário de Cristo se cala e deixa fazer, enquanto fala e age o exuberante argentino que hoje mora em Santa Marta. Referindo-se à gravíssima situação da Igreja na Alemanha, escreve:       

«Em primeiro lugar, muitos dentro da hierarquia alemã sabem que, tornando-se cismáticos, perderiam a sua voz e a sua identidade católica. Não se podem permitir a tal. Precisam de estar em comunhão com o Papa Francisco, porque foi precisamente ele que promoveu o conceito de sinodalidade que estão a tentar implementar. Ele é, portanto, o seu último protector.  

Em segundo lugar, embora o Papa Francisco possa impedi-los de fazer algo escandalosamente contrário ao ensinamento da Igreja, ele permitirá que façam coisas ambiguamente contrárias, porque tal ensinamento e prática pastoral ambíguos estariam de acordo com os de Francisco. É nisto que a Igreja se encontra numa situação em que nunca esperaria estar
». 

E ainda:       

«É importante recordar que a situação alemã deve ser vista num contexto mais amplo: a ambiguidade teológica dentro de Amoris Laetitia; o avanço não tão subtil da agenda homossexual; a “refundação” do Instituto (romano) João Paulo II sobre o matrimónio e a família, isto é, o enfraquecimento do ensinamento coerente da Igreja sobre os absolutos morais e sacramentais, especialmente no que diz respeito à indissolubilidade do matrimónio, à homossexualidade, à contracepção e ao aborto.        

E, ainda, há a afirmação de Abu Dhabi, que contradiz directamente a vontade do Pai e mina o primado de Jesus Cristo, seu Filho, como Senhor definitivo e Salvador universal.     

Além disso, o actual Sínodo da Amazónia está repleto de participantes solidários e apoiantes de
tudo o que precede. Devemos também levar em conta os muitos cardeais, bispos, sacerdotes e teólogos teologicamente discutíveis
​​que Francisco apoia e promove a altos cargos eclesiais». 

E conclui:    

«Considerando tudo isto, percebemos uma situação, de intensidade cada vez maior, em que, por um lado, a maioria dos fiéis do mundo – tanto clero como leigos – são leais e fiéis ao Papa, porque ele é o seu pontífice, mesmo se são críticos sobre o seu pontificado, e, por outro lado, um grande número de fiéis do mundo – clero e leigos – que apoiam com entusiasmo Francisco precisamente porque permite e promove o seu ensinamento e práticas eclesiais ambíguas.  

Terminar-se-á, portanto, com a Igreja que se encontrará com um papa que é o papa da Igreja Católica e, ao mesmo tempo, o líder de facto, para todos os efeitos práticos, de uma igreja cismática. Por ser ele o chefe de ambas, permanece o aspecto de uma só igreja, quando, na realidade, são duas
».     

Tentemos agora substituir o Papa com o Concílio e Bergoglio com o Vaticano II: penso que você achará interessante o paralelismo, quase servil, resultante. De facto, tanto pelo Papado como por um Concílio Ecuménico, o Católico nutre aquela veneração e aquele respeito que a Igreja lhe pede: por um lado, para com o Vigário de Cristo, por outro, por um acto solene do Magistério em que é a voz de Nosso Senhor que fala através do Romano Pontífice e dos Bispos com ele reunidos. Se pensarmos em São Pio V e no Concílio de Trento, ou em Pio IX e no Vaticano I, não será difícil encontrar a perfeita correspondência entre aqueles Papas e o Papado, e entre aqueles Concílios e o Magistério infalível da Igreja. Melhor, só o pensar numa possível dicotomia recairia justamente em sanções canónicas e ofenderia os piedosos ouvidos dos fiéis.      

No entanto, como você mesmo releva, com Jorge Mario Bergoglio, nas surreais vestes de Sucessor do Príncipe dos Apóstolos, «a única expressão que posso encontrar para descrever esta situação é “cisma dentro do Papado”, porque o Papa, precisamente como Papa, será, efectivamente, o líder de um segmento da Igreja que, através da sua doutrina, do ensinamento moral e da estrutura eclesial, é, em todos os efeitos práticos, cismático».          

Por isso me pergunto: se você admite, caro Padre Thomas – que prova dolorosa a que a Providência submete a Igreja para puni-la pelos pecados dos seus membros mais indignos e, especialmente, dos seus líderes –, que o próprio Papa está em estado de cisma com a Igreja, ao ponto de poder falar de um «cisma dentro do Papado», por que motivo não pode aceitar que o mesmo aconteceu por um acto solene, como um Concílio, e que o Vaticano II representou um caso de “cisma dentro do Magistério”? Se este Papa pode ser, «em todos os efeitos práticos, cismático» – e eu diria também herege –, porquê que não o pode ter sido também aquele Concílio, não obstante ambos terem sido instituídos por Nosso Senhor para confirmar os irmãos na Fé e na Moral? O quê que impede, pergunto-lhe, os Actos do Vaticano II de se desviarem do sulco da Tradição, quando o próprio Supremo Pastor pode renegar o ensinamento dos seus Predecessores? E se a persona Papae está em cisma com o Papado, porquê que um Concílio, que se quis pastoral e que se absteve de promulgar dogmas, não poderia contradizer os outros Concílios canónicos, entrando em cisma de facto com o Magistério Católico?                   

Também é verdade que esta situação é um hapax, um caso em si que nunca se viu na história da Igreja; mas se isto vale para o Papado – num crescendo de Roncalli a Bergoglio –, não vejo por que não deveria valer para o Vaticano II, que, graças aos últimos Pontífices, se configurou como um evento em si mesmo e, como tal, foi usado pelos seus defensores?          

Para retomar as suas palavras, «aquilo com que a Igreja acabará» é um Concílio que é um Concílio da Igreja Católica e, ao mesmo tempo, o primeiro concílio de facto, para todos os efeitos práticos, de uma igreja cismática, ou seja, aquela “igreja conciliar” que se considera nascida do Vaticano II. Visto que o Vaticano II é um Concílio Ecuménico e um conciliábulo, permanece o aspecto de um único Concílio, embora, na realidade, sejam dois. E acrescentaria: um legítimo e ortodoxo, abortado ao nascer com a subversão dos esquemas preparatórios, e um ilegítimo e herético (ou, pelo menos, favens haeresim) ao qual todos os Inovadores se referem, incluindo Bergoglio, para legitimar os seus desvios doutrinários, morais e litúrgicos. Exactamente como «muitos cardeais, bispos, sacerdotes e teólogos teologicamente discutíveis que Francisco apoia e promove a altos cargos eclesiais» argumentam que se deve reconhecer a autoridade do Vigário de Cristo nos actos de governo e de magistério realizados por Jorge Mario, precisamente no momento em que, com aqueles actos, ele se mostra, «em todos os efeitos práticos, cismático».

E se de um lado é verdade que «embora o Papa Francisco possa impedi-los de fazer algo escandalosamente contrário ao ensinamento da Igreja, ele permitirá que façam coisas ambiguamente contrárias, porque tal ensinamento e prática pastoral ambíguos estariam de acordo com os de Francisco», é igualmente verdade – parafraseando as suas palavras – que «embora João XXIII e Paulo VI pudessem ter impedido os modernistas de fazer algo escandalosamente contrário ao ensinamento da Igreja, eles permitiram-lhes que fizessem coisas que são ambiguamente contrárias, porque tal ensinamento e prática pastoral ambíguos estavam de acordo com os de Roncalli e de Montini».      

Parece-me, assim, Rev. Padre, que encontra a confirmação do que afirmei no meu ensaio que esteve na origem da disputatio sobre o Concílio, ou seja, que o “recipiente-concílio” foi usado para dar aparente autoridade a um evento deliberadamente subversivo, exactamente como hoje, diante dos nossos olhos, o Vigário de Cristo é usado para dar aparente autoridade a uma operação deliberadamente subversiva. Em ambos os casos, o senso inato de respeito pela Igreja de Cristo por parte dos fiéis e do Clero foi utilizado como um estratagema infernal – um cavalo de Troia introduzido na Cidadela Sagrada – para dissuadir qualquer forma de obrigatória divergência, qualquer crítica, qualquer legítima denúncia.        

É doloroso observar que esta constatação, longe de reabilitar o Vaticano II, confirma uma profunda crise de toda a instituição eclesiástica, obra de renegados que abusaram da sua autoridade contra a própria Autoridade, do poder papal contra o próprio Papado, da autoridade dos Padres Conciliares contra a Igreja. Uma tortuosa e covarde traição operada de dentro da própria Igreja, como já havia predito e condenado São Pio X na Encíclica Pascendi, indicando os modernistas como os inimigos mais nocivos da Igreja.          

Dante coloca os fraudulentos no Nono Círculo do Inferno, não o esqueçamos.      

Receba, reverendo e caro Padre Thomas, a minha Bênção.                   

Carlo Maria Viganò, Arcebispo

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

«Se morrer, dá muito fruto»


As proezas gloriosas dos mártires, que por todo o lado ornamentam a Igreja, permitem-nos compreender que «é preciosa, aos olhos do Senhor, a morte dos seus fiéis» (Sl 115, 15). Com efeito, a sua morte é preciosa aos nossos olhos e aos olhos daquele em nome de quem morreram.  

Mas o preço de todas aquelas mortes é a morte de um só, [...] pois, se o grão de trigo não tivesse morrido, não se teria multiplicado! Ouvistes o que Ele disse quando se aproximava a sua Paixão, isto é, a nossa redenção: «Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto». Quando o seu lado foi ferido pela lança, o que dele jorrou foi o preço do Universo (cf Jo 19, 34).         

Os fiéis e os mártires foram resgatados; mas a fé dos mártires deu provas e o seu sangue é disso testemunho. «Cristo deu a sua vida por nós; também nós devemos dar a nossa vida pelos nossos irmãos» (1 Jo 3, 16); e também: «Quando te sentas a uma mesa magnífica, repara bem no que te servem, pois terás de preparar o mesmo» (cf Pr 23, 1). É uma mesa magnífica aquela em que comemos com o Senhor do banquete. Ele é o anfitrião que convida, Ele próprio é o alimento e a bebida. Os mártires prestaram atenção ao que comiam e bebiam, para poderem dar o mesmo. Mas como teriam podido fazê-lo se Aquele que fez a primeira oferta lhes não tivesse dado o que eles depois Lhe dariam?      

Santo Agostinho, in Sermão 329, para a festa dos mártires, 1-2; PL 38, 1454

domingo, 9 de agosto de 2020

«Homem de pouca fé, porque duvidaste?»



Os discípulos são de novo joguete das vagas e cai sobre eles uma tempestade semelhante à primeira (Mt 8, 24); anteriormente, porém, tinham Jesus com eles, enquanto desta vez estão sozinhos e entregues a si mesmos. [...] Penso que o Salvador pretendia reanimar-lhes o coração adormecido; deixando-os cair na angústia, inspirou-lhes um desejo mais vivo da sua presença [...]. Por isso, não foi imediatamente em auxílio deles, mas apenas «na quarta vigília da noite», «caminhando sobre o mar». [...]

Pedro, sempre fervoroso, adiantou-se aos outros discípulos e disse-Lhe: «Se és Tu, Senhor, manda-me ir ter contigo sobre as águas». [...] Não Lhe disse: «Manda-me caminhar sobre as águas», mas «manda-me ir ter contigo», porque ninguém amava Jesus como ele. E fez a mesma coisa depois da ressurreição: não aguentando seguir lentamente com os outros na barca, deitou-se à água para satisfazer o seu amor por Cristo. [...] Descendo, pois, da barca, Pedro avançou para Jesus, mais feliz de se Lhe dirigir do que de caminhar sobre as águas. Mas, depois de superar o perigo maior, o do mar, acabou por sucumbir a um menos grave, o do vento. Tal é a natureza humana: muitas vezes, depois de termos dominado os perigos mais sérios, deixamo-nos abater por outros menos importantes. [...] Pedro não estava ainda totalmente livre do temor [...], apesar da presença de Cristo perto dele. De nada nos serve estarmos ao lado de Cristo se não estivermos próximos dele pela fé. [...]    

«Homem de pouca fé, porque duvidaste?» Se a fé de Pedro não tivesse enfraquecido, ele teria resistido ao vento sem dificuldade. E a prova foi que Jesus o segurou, deixando que o vento continuasse a soprar. [...] Da mesma forma que a mãe sustenta, com as suas asas, o passarinho que saiu do ninho antes do tempo, quando ele vai a cair no chão, e o volta a pôr no ninho, assim fez Cristo a Pedro.

São João Crisóstomo, in Homilias sobre o Evangelho de Mateus

sábado, 8 de agosto de 2020

Membros da TFP polaca defendem estátua de Nosso Senhor Jesus Cristo



Ontem, sexta-feira, 7 de Agosto, uma manifestação LGBT percorreu a Avenida Krakowskie Przedmieście, no centro de Varsóvia, na Polónia. Enquanto gritavam slogans contra a Igreja e a religião, os militantes LGBT profanaram diversas estátuas ao longo do percurso. Chegados à frente da Igreja da Santíssima Trindade, em frente à sede local da TFP polaca, a horda LGBT tentou atacar uma estátua de Nosso Senhor Jesus Cristo que está localizada no adro da igreja.           

Os membros da TFP correram para defendê-la. A eles juntaram-se, imediatamente, alguns transeuntes. O resultado foi uma disputa acirrada, que só se resolveu quando a polícia chegou em força, cercando a estátua e, portanto, impedindo os militantes LGBT de lhe tocar. Naquela noite, os membros da TFP rezaram um Santo Rosário em reparação pelo acto sacrílego, felizmente neutralizado à nascença.  

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

«São cegos a guiarem cegos»



Quando, nos últimos dias, o Verbo de Deus nasceu de Maria revestido de carne e Se mostrou neste mundo, aquilo que se via d’Ele não era o que a inteligência podia discernir. Ver a sua carne era para todos, mas o conhecimento da sua divindade era dado apenas a alguns. Do mesmo modo, quando o Verbo de Deus Se dirige aos homens através da Lei antiga e dos profetas, apresenta-Se coberto de vestes adequadas. Na sua encarnação, vestiu-Se de carne; nas Sagradas Escrituras, está vestido com o véu das letras. O véu das letras é comparável à sua humanidade e o sentido espiritual da Lei à sua divindade. No livro do Levítico, encontramos os ritos do sacrifício, as diversas vítimas, o serviço litúrgico dos sacerdotes [...]; bem-aventurados os olhos que veem o Espírito divino oculto no interior do véu. [...]     

Quando alguém se vira para o Senhor, diz o apóstolo Paulo, o véu é tirado, pois «onde está o Espírito do Senhor há liberdade» (2 Cor 3, 17). É, portanto, ao próprio Senhor, ao próprio Espírito Santo, que devemos rezar, para que Se digne remover toda a obscuridade e possamos contemplar em Jesus o admirável sentido da Lei, como aquele que disse: «Abri os meus olhos para que possa contemplar as maravilhas da vossa Lei» (Sl 118, 18).

Orígenes, in Homilia 1 sobre o Levítico; PG 12, 405

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo



«Transfigurou-Se diante deles». Molda-te como a cera, segundo o modelo desta figura, a fim de imprimires a imagem de Cristo, sobre o qual está dito: «o seu rosto ficou resplandecente como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz». Nesta passagem, há quatro coisas a considerar: o rosto, o sol, as vestes e a luz. Na parte anterior da cabeça, que se chama o rosto do homem, há três sentidos, que estão ordenados e dispostos de maneira admirável; são eles a vista, o olfato e o paladar. De maneira análoga, no rosto da nossa alma, temos a visão da fé, o olfacto da discrição e o gosto da contemplação.  

No sol, há claridade, brancura e calor. A claridade do sol convém na perfeição à visão da fé, que, com a claridade da sua luz, percepciona e crê nas realidades invisíveis. Que o rosto da nossa alma resplandeça como o sol. Que aquilo que vemos pela fé brilhe nas nossas obras; que o bem que percepcionamos com o nosso olhar interior se realize no exterior, na pureza das nossas acções; que aquilo que saboreamos de Deus na contemplação se transforme em calor no amor ao próximo. Assim, à semelhança do de Jesus, o nosso rosto ficará «resplandecente como o sol».           

Santo António de Lisboa, in Sermão do Domingo da Septuagésima

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Um Cardeal eminente, mas não muito prudente



O Cardeal Joseph Zen Ze-kiun é um eminente Prelado que ama sinceramente a sua pátria e a Igreja. Nascido, em 1932, em Xangai, foi ordenado sacerdote, em 1961, na Congregação Salesiana; foi nomeado Bispo, em 1996, por João Paulo II, e, em 2006, criado Cardeal por Bento XVI. Foi Coadjutor, entre 1996 e 2002, e, depois, Bispo da Diocese de Hong Kong. Ninguém como ele conhece a complexidade da situação política e religiosa da China.    

A 9 de Janeiro de 2016, o Cardeal Zen, hoje Bispo emérito de Hong Kong, expressou uma severa crítica à política vaticana em relação à China desenvolvida durante o pontificado do Papa Francisco. O vaticanista Sandro Magister resume a situação nos seguintes termos: «Desde que está no poder, o Partido Comunista Chinês quis dotar-se de uma Igreja sujeita a si e separada de Roma, com bispos indicados por si, ordenados sem a aprovação do Papa, enfeudados a uma Associação Patriótica Católica Chinesa que Bento XVI definiu “irreconciliável” com a doutrina católica. Uma Igreja “oficial”, portanto, no limite do cisma. Entrelaçada a uma Igreja “subterrânea” dirigida por Bispos não reconhecidos por Pequim e fidelíssimos ao Papa que, no entanto, pagam todos os preços da clandestinidade: assédio, perseguições, prisões, sequestros».

O Cardeal Zen é, hoje, a voz mais representativa desta Igreja “subterrânea”. «São a voz dos sem voz não apenas para protestar contra as autoridades comunistas. Também o são para fazer certas questões às autoridades romanas. Nos últimos anos, têm sido realizados actos directamente contra a doutrina e a disciplina da Igreja: bispos ilegítimos e excomungados que pontificam solenemente, que conferem a sagrada ordem mesmo mais de uma vez; Bispos legítimos que tomam parte em consagrações episcopais ilegítimas até quatro vezes e a participação quase total dos bispos da comunidade oficial na Assembleia dos Representantes dos Católicos Chineses. Não se ouviu a voz de Roma. Os nossos irmãos na China não têm o direito de se admirar e fazer perguntas?».   

A Igreja subterrânea chinesa foi sacrificada sobre o altar de uma estratégia política que representa o retorno ao apogeu da Ostpolitik vaticana. Numa intervenção, a 13 de Fevereiro de 2018, em Asia News, Zen afirmou que o Secretário de Estado Parolin «ama a diplomacia da Ostpolitik do seu mestre Casaroli e despreza a fé genuína daqueles que, com firmeza, defendem a Igreja, fundada por Jesus sobre os Apóstolos, de qualquer ingerência de poder secular».     

Numa sucessiva carta a todo o Colégio Cardinalício de 27 de Setembro de 2019, o purpurado chinês acusou a Secretaria de Estado de incentivar «os fiéis na China a entrarem numa Igreja cismática (independente do Papa e às ordens do Partido Comunista)», concluindo com uma pergunta dramática: «podemos assistir passivamente a este assassinato da Igreja na China por parte de quem deveria protegê-la e defendê-la dos inimigos?».

Com estas declarações, o Cardeal Zen colocou-se na linha de tantas corajosas testemunhas da fé, a começar pelo Cardeal József Mindszenty, que, a 1 de Novembro de 1973, resistiu diante de Paulo VI, opondo uma respeitosa recusa ao seu pedido de renúncia da cátedra primacial de Esztergom. A 18 de Novembro do mesmo ano, Paulo VI removeu-o do cargo, mas o Cardeal não se calou e denunciou a Ostpolitik vaticana nas suas Memórias. Está em andamento a sua causa de beatificação.     

O Cardeal Zen enfraqueceu, no entanto, a lógica das suas afirmações quando, numa recente entrevista à CNA, quis advertir contra o “perigo” de interpretações polémicas do Concílio Vaticano II, afirmando que, depois de cinquenta anos, «a luz do Concílio conduz ainda hoje a Igreja na escuridão do seu caminho». A Ostpolitik que o Cardeal Zen critica é, de facto, filha e fruto do Concílio Vaticano II. Esta é uma evidência histórica que não admite negações.           

Nos anos em que se realizou o Vaticano II, de 1962 a 1965, o comunismo representou uma ameaça para a Igreja e para humanidade nunca conhecida na história. A assembleia dos Padres Conciliares, que se reuniu para discutir as relações entre a Igreja e o mundo moderno, não disse uma palavra sobre o comunismo, apesar de centenas deles terem pedido uma condenação pública e solene deste flagelo. O Cardeal Zen pediu para se redescobrir os textos do Concílio, que definiu os verdadeiros frutos do Vaticano II. «Através desses documentos sente-se a verdadeira voz do Espírito Santo», disse, e «o Espírito Santo de hoje não contradiz o Espírito Santo de ontem». No entanto, o Espírito Santo não levantou a sua voz contra o comunismo no Concílio. Então, talvez muitos teólogos e historiadores tenham razão, de Mons. Gherardini ao Cardeal Brandmüller, segundo os quais o valor magisterial e a autoridade vinculativa dos textos conciliares ainda se devem discutir, sem excluir que muitos desses documentos podem, um dia, terminar num cesto do lixo. Mas o que é mais importante é que o Concílio Vaticano II é um evento histórico que não pode ser reduzido a textos pesados
​​e ambíguos. A sua nota distintiva é o espírito que o moveu: um espírito segundo o qual mais importante que a doutrina era o modo pelo qual a doutrina deveria ser apresentada aos fiéis.

Afirma o Cardeal Zen: «Creio que seria muito profícuo ler o discurso de abertura do Vaticano II do Papa João XXIII, onde explica o verdadeiro significado de “aggiornamento”: diante de todas as ameaças da civilização moderna, a Igreja não deve ter medo, mas encontrar os meios adequados para mostrar ao mundo o verdadeiro rosto de Jesus, o Redentor do homem». Pois bem, naquele discurso, que abriu o Vaticano II, a 11 de Outubro de 1962, João XXIII explicou que «uma coisa é a substância do “depositum fidei”, isto é, as verdades contidas na nossa doutrina, e outra é a formulação com que são enunciadas, conservando-lhes, contudo, o mesmo sentido e o mesmo alcance». O modo diferente era a passagem “do anátema ao diálogo”. No caso do comunismo, era necessário pôr de lado décadas de condenações para passar à nova estratégia da mão estendida. A convicção era que a colaboração com o inimigo teria produzido melhores resultados do que a luta contra ele. E o discurso de João XXIII, que agrada ao Cardeal Zen, foi a magna charta da política de “détente” que lhe desagrada.    

A primeira expressão da Ostpolitik, simbolizada pelo então Mons. Agostino Casaroli, foi o “compromisso” assumido pela Santa Sé com o governo soviético de não condenar de nenhuma forma o comunismo. Era esta a condição exigida pelo Kremlin para permitir a participação de observadores do Patriarcado de Moscovo no Vaticano II.         

Não há necessidade de grande sagacidade para compreender que a Ostpolitik em relação à Rússia foi fruto de uma precisa escolha política de João XXIII e de Paulo VI, assim como a Ostpolitik em relação à China é fruto da estratégia política do Papa Francisco. Os Secretários de Estado são executores das indicações dos Pontífices e os Pontífices assumem, porém, a responsabilidade das escolhas políticas da Santa Sé. A este respeito, João XXIII e Paulo VI, como o Papa Francisco hoje, cometeram relevantes erros pastorais e políticos.    

Não é a primeira vez na história que isto acontece. O ralliement de Leão XIII à terceira República maçónica foi um erro desastroso, do qual, hoje, os historiadores destacam as graves consequências. Mas criticar as escolhas estratégicas e pastorais de um Papa é legítimo e o Cardeal Zen fá-lo criticando a política, de ontem e hoje, da Santa Sé em relação ao comunismo. Se alguém lhe objectasse que os Papas são sempre guiados pelo Espírito Santo, ele poderia facilmente replicar que um Papa pode errar, como aconteceu e poderá ainda acontecer na história. E também nós estamos convencidos de que o Espírito Santo não assiste a Ostpolitik do Papa Francisco, mas ilumina as críticas do Cardeal Zen à Ostpolitik. Se, no entanto, um Papa pode errar, tal pode, por maioria de razão, valer para um Concílio, que continua a ser um Concílio válido. Válido, sim, mas catastrófico, como foi o vigésimo primeiro Concílio Ecuménico da Igreja. Se, por outro lado, devemos aceitar acriticamente o espírito e os textos deste Concílio, também seremos obrigados a aceitar a política de Francisco em relação à China, expressa pelas palavras de Mons. Marcelo Sánchez Sorondo, Chanceler da Pontifícia Academia das Ciências e da Pontifícia Academia das Ciências Sociais: «Neste momento, os que melhor colocam em prática a doutrina social da Igreja são os chineses [...]. Os chineses procuram o bem comum, subordinam as coisas ao bem geral». A China «está a defender a dignidade da pessoa». E, com a louvável China, é urgente encontrar as melhores relações.    

Mons. Sánchez Sorondo é um homem de confiança do Papa Francisco, enquanto que o Cardeal Zen foi severamente criticado pelo establishment vaticano pela posição que assumiu sobre o acordo entre a Santa Sé e a China comunista. Diante destas críticas, no passado dia 29 de Fevereiro, o Arcebispo Carlo Maria Viganò escreveu uma carta de apoio ao Cardeal Zen, na qual recorda que «o Vaticano fez tudo e mais alguma coisa para entregar nas mãos do Inimigo a Igreja Mártir Chinesa: fê-lo assinando o pacto secreto; fê-lo legitimando “bispos” excomungados, agentes do regime; fê-lo com a demissão de Bispos legítimos; fê-lo exigindo que os Sacerdotes fiéis se registassem na igreja dominada pela ditadura comunista; fá-lo diariamente calando sobre a fúria persecutória que, a partir daquele infeliz Acordo, entrou num crescimento sem precedentes. Fá-lo agora com esta ignóbil missiva a todos os Cardeais com o objectivo de acusá-lo, denegri-lo e isolá-lo. Nosso Senhor assegura-nos que nada nem ninguém poderá jamais arrancar da Sua mão aqueles que resistem ao inimigo infernal e aos seus acólitos, triunfando sobre eles “pelo sangue do Cordeiro e pelo testemunho da sua palavra” (Ap 12, 11)».     

Mons. Viganò é o mesmo Prelado que, com Mons. Athanasius Schneider, abriu recentemente um debate sobre o Concílio Vaticano II. Se o Cardeal Zen não partilha da utilidade deste debate, teria sido mais prudente que se tivesse calado, porque as suas declarações de acrítica exaltação do Vaticano II não lhe valeram nenhum apoio, mas correm o risco de fazê-lo perder muitos e, sobretudo, ofendem a verdade e tiram credibilidade à sua sacrossanta crítica da Ostpolitik vaticana.         

Roberto de Mattei      

Através de Corrispondenza Romana            

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Comunhão na boca: caminho aberto por Bento XVI (4.ª e última parte)


Um outro aspecto do livro do P. Bortoli de que falámos no artigo precedente, que confirma a posição de Mons. Laise, é a atitude do Papa Bento XVI e as declarações dos altos Prelados do Culto Divino em apoio à sua posição.

É oportuno recordar que Bento XVI reintroduziu, a partir do Corpus Domini de 2008, na liturgia papal, a administração exclusivamente na língua da Sagrada Comunhão.

A explicação de tal decisão é feita pelo Departamento das Celebrações Litúrgicas do Sumo Pontífice e publicada no site do Vaticano: recorda-se que, desde a época dos Padres, se começa a privilegiar a Comunhão na boca, essencialmente por dois motivos: para evitar ao máximo a dispersão dos fragmentos eucarísticos e favorecer o crescimento da devoção dos fiéis à presença real de Cristo na Eucaristia. Faz-se referência ao ensinamento de São Tomás de Aquino, que afirma que, por respeito ao Santíssimo Sacramento, a Eucaristia não deve ser tocada por nada que não seja consagrado, portanto, para além dos vasos sagrados e do corporal, só as mãos do sacerdote têm tal faculdade. Além disso, sublinha-se a necessidade de adorar o Senhor antes de recebê-lo, como recorda Santo Agostinho, e o estar de joelhos favorece precisamente essa atitude. Por fim, faz-se referência à advertência de João Paulo II de que nunca se corre o risco de exagerar quando se trata do cuidado do Mistério Eucarístico.           

Mas o próprio Bento XVI explicou esta escolha do seguinte modo: «Fazendo que a Comunhão seja recebida de joelhos e administrada na boca, quis dar um sinal de profundo respeito e colocar um ponto de exclamação sobre a presença real... queria dar um sinal forte; isto deve ser claro: “É qualquer coisa de particular! Aqui está Ele, é diante d’Ele que caímos de joelhos. Estai atentos! Não se trata de um ritual social em que se pode participar ou não”» (Bento XVI, Luce del mondo. Il Papa, la Chiesa e i segni dei tempi. Uma conversa com Peter Seewald, LEV, Cidade do Vaticano 2010, p. 219).       

A 10 de Abril de 2009, o Cardeal Antonio Cañizares Llovera, já nomeado Prefeito da Congregação para o Culto Divino, mas também Administrador Apostólico da Arquidiocese de Toledo, durante a celebração, na Catedral, da Santa Missa in Coena Domini, anunciou aos fiéis que, a partir daquele dia, no momento da Comunhão, seria colocado um genuflexório para convidar os fiéis a comungarem como deseja o Papa, colocando esta decisão numa tentativa de recuperar o sentido do sagrado na liturgia. A 27 de Julho de 2011, foi publicada, na ACI Prensa/EWTN Noticias, uma entrevista ao Prelado com o título: “Es recomendable comulgar en la boca y de rodillas” (“É recomendável comungar na boca e de joelhos”).         

O Cardeal Ranjith, sobretudo no período em que foi Arcebispo Secretário da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, em 2008, por exemplo, constatando como a prática da Comunhão na mão se tornara, de facto, a prática regular para toda a Igreja, acredita que chegou a hora de considerar a possibilidade de abandoná-la, constatando todas as consequências negativas que trouxe, reconhecendo com muita humildade ter-se errado ao introduzi-la, esperando que a Comunhão na boca e de joelhos se tornasse a prática habitual para toda a Igreja.

Mas, além destas citações, o livro de Mons. Laise recebe posterior e autorizada confirmação do prefácio do Prefeito do Culto Divino, Card. Robert Sarah, ao texto do P. Federico Bortoli: é uma bela defesa da posição dos Papas Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI. Detemo-nos em algumas frases: «Vejamos agora como a fé na presença real pode influenciar o modo de receber a Comunhão e vice-versa. Receber a Comunhão na mão comporta, indubitavelmente, uma grande dispersão de fragmentos; pelo contrário, a atenção às mais pequenas migalhas, o cuidado a purificar os vasos sagrados, não tocar a Hóstia com as mãos suadas, tornam-se profissões de fé na presença real de Jesus, mesmo nas partes mais pequenas da espécie consagrada: se Jesus é a substância do pão eucarístico e se as dimensões dos fragmentos são apenas acidentes do pão, não importa quão grande ou pequeno é o pedaço de Hóstia! A substância é a mesma! É Ele! Pelo contrário, a falta de atenção aos fragmentos faz perder de vista o dogma: lentamente pode prevalecer o pensamento: “Se até o pároco não presta atenção aos fragmentos, se ele administra a Comunhão de modo que os fragmentos possam ser dispersos, então quer dizer que neles não está Jesus, ou está ‘até um certo ponto’”. “Porquê que insistimos em comungar em pé e na mão? Porquê esta atitude de falta de submissão aos sinais de Deus? Que nenhum sacerdote ouse pretender impor a própria autoridade sobre esta questão recusando ou maltratando aqueles que desejam receber a Comunhão de joelhos e na boca: venhamos como as crianças e recebamos humildemente de joelhos e na boca o Corpo de Cristo».                      

«O Senhor conduz o justo por “caminhos rectos” (cf. Sb 10, 10), não por subterfúgios; portanto, para além das razões teológicas mostradas acima, também a maneira como a prática da Comunhão na mão se espalhou parece ter-se imposto não de acordo com os caminhos de Deus». E conclui o Cardeal: «Possa este livro encorajar aqueles sacerdotes e aqueles fiéis que, também comovidos pelo exemplo de Bento XVI – que nos últimos anos do seu pontificado quis distribuir a Eucaristia na boca e de joelhos –, desejam administrar ou receber a Eucaristia deste último modo, muito mais adequado ao próprio Sacramento. Espero que possa haver uma redescoberta e uma promoção da beleza e do valor pastoral desta forma. Segundo a minha opinião e o meu juízo, esta é uma questão importante sobre a qual a Igreja de hoje deve reflectir. Este é mais um acto de adoração e de amor que cada um de nós pode oferecer a Jesus Cristo. Satisfaz-me muito ver tantos jovens que optam por receber Nosso Senhor tão reverentemente de joelhos e na boca».                 

Para terminar, gostaria de acrescentar um testemunho até agora inédito, a carta que Mons. Laise escreveu ao Papa Bento (com quem ele teve um longo relacionamento por tê-lo visitado várias vezes como Cardeal Prefeito da Doutrina da Fé) em 2005: «Creio também que o Sínodo sobre a Eucaristia deveria deter-se num exame de consciência sobre a extensão da permissão para dar a Comunhão na mão a quase todas as Igrejas locais, quando, em 1969, fora apenas concedida a algumas Igrejas europeias através de pedido específico dos seus pastores».   

P. Nicola Bux     

Através de La Nuova Bussola Quotidiana