segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Oração e Missa pelos defuntos

Um outro meio muito eficaz à nossa disposição para elevar as almas do Purgatório é a oração, obra fácil a ser praticada por todos, dado que não exige um grande sacrifício e também pode ser feita durante as acções diárias e com uma simples aspiração de coração.

Conta o P. Rossignoli, na sua obra sobre o Purgatório, que citámos várias vezes, que um religioso tinha o piedoso costume de recitar um Réquiem
æternam cada vez que passava em frente a um cemitério. Mas um dia, estando imerso em graves pensamentos, omitiu esta oração; teve, então, a impressão de ver os mortos saírem das suas sepulturas e segui-lo cantando a estrofe do Salmo: «Et non dixerunt qui præteribant: Benedictio Domini super vos» (Sl 128, 7). A essas palavras, o religioso, confuso e mortificado, respondeu. «Benedicimus vobis in nomine Domini» (Id.), e, então, os mortos regressaram aos seus túmulos suficientemente sufragados por aquela pequena oração.           

A partir deste facto, podemos argumentar qual orvalho de refrigério seja para os mortos até uma simples invocação a Deus em seu sufrágio. Quando, todavia, pretendemos trazer maior alívio e contribuir maiormente para a libertação de uma alma, não devemos iludir-nos de que o podemos fazer com tão pouco, pois, como dissemos algures ao falar da duração das penas do Purgatório, Deus exige um mais considerável resgate, tanto que São Roberto Belarmino chega a dizer que nunca se deve parar de rezar por um defunto, mesmo depois da sua aparição.           

A oração, depois, deve ser perseverante e fervorosa, já que se trata de, com ela, fazer violência ao coração de Deus e de obter, para uma alma, a graça da visão beatífica, graça em relação à qual não existe maior e que não se obtém a não ser com grande perseverança. Nosso Senhor disse um dia a Santa Lutgarda: «Minha filha, fizeste tanta violência ao meu coração que não posso resistir às tuas orações, por isso fica calma, porque a alma pela qual rezas logo se libertará das suas penas». Para além disso, para que a nossa oração seja atendida, é necessário que nos encontremos em estado de graça. Na verdade, aquele que, pelo pecado mortal, se tornou inimigo de Deus, como poderia servir de intermediário entre a justiça divina e as almas do Purgatório? «Scimus quia peccatores Deus non audit» (Jo 9, 31), diz a divina Sabedoria, e se não temos a alma pura de falta grave, são estéreis todas as nossas orações.                 

Através de Radio Roma Libera

domingo, 22 de novembro de 2020

Os animais do Apocalipse e os quatro Evangelistas

«No meio do trono e à volta do trono havia ainda quatro seres viventes cobertos de olhos por diante e por detrás: o primeiro vivente era semelhante a um leão; o segundo era semelhante a um touro; o terceiro tinha uma face semelhante à de um homem e o quarto era semelhante a uma águia em voo» (Ap 4, 6-7).      

Os quatro seres viventes, de que fala João no Apocalipse, devem a sua fisionomia à fusão, feita pelo Evangelista, de duas autorizadas fontes proféticas: Ezequiel, a quem aparece o portentoso e tetramorfo carro do Senhor, e Isaías, cujos serafins alados, pairando ao redor do trono de Deus, entoam o Trisagion, hino de louvor. Serão, depois, os Padres da Igreja, a partir do século II, a reconhecer, nestas criaturas, os símbolos dos Evangelistas, contribuindo grandemente a arte paleocristã na definição e divulgação da sua interpretação canónica.        

Entre as primeiras transposições em imagem da passagem joanina está um dos painéis da porta de madeira da Basílica de Santa Sabina, em Roma. O relevo, obtido na mesa de cipreste, mostra um jovem Cristo triunfante, princípio e fim do mundo – como se vê pelo Alfa e Ómega gravados nos Seus lados –, e fonte de Vida, como indica a amêndoa em que está inscrita a figura. É circundado pelos quatro animais apocalípticos que, lidos em sentido horário, são a águia, o leão, o touro e o homem/anjo.        

O século V, a que remontam os batentes romanos, marcou o início da fortuna deste motivo iconográfico que encontrou a sua ideal localização nas cúpulas, nas semicúpulas e nos arcos da abside, de vez em quando fixado nas diferentes superfícies pelas cores dos frescos ou, ainda mais frequentemente, pelas tesselas de preciosos mosaicos, bizantinos ou não. No Mausoléu de Galla Placidia, em Ravena, por exemplo, a abóbada estrelada mostra, nos pendentes, as figuras do tetramorfo, enquanto o número quatro, quantos são os pontos cardeais, explicita o destino universal da salvífica teofania aqui representada no centro da cúpula com a cruz dourada.     

Que ao leão corresponda Marcos, à águia João, ao homem/anjo Mateus e ao touro Lucas, como codificado, por São Jerónimo, a partir dos incipit dos seus respectivos textos canónicos, a arte revela-o, pela primeira vez, no século VI, nas relativas porções do belíssimo aparato de mosaico do presbitério da Basílica de São Vital, também de Ravena. Sobre o pano de fundo de uma paisagem rochosa verde, os Evangelistas aparecem, individualmente, em forma humana, com o próprio livro nas mãos, cada um encimado pelo seu símbolo. 

Continua João: «Vi um trono no céu e sobre o trono havia alguém sentado. O que estava sentado era, no aspecto, semelhante à pedra de jaspe e de sardónica e uma auréola, de aspecto semelhante à esmeralda, rodeava o trono».     

Os dezasseis grandes nichos historiados que, no interior do Baptistério de Parma, duplicam a planta octogonal, símbolo da eternidade, estão decorados com cenas realizadas entre os séculos XIII e XIV. Sobre o fundo de um céu estrelado, o tetramorfo – de cada lado do qual dois querubins esmagam dragões, significando a vitória do bem sobre o mal – ocupa um deles. E, conforme relatado no último livro do Novo Testamento, circunda o Cristo que abençoa, sentado num trono, o manto vermelho e azul que O distingue.

O real Salvador está inscrito numa amêndoa que, se aqui mostra cores um pouco desbotadas pelo tempo, noutros locais, em temas semelhantes, é tão colorida como um arco-íris, prodigioso instrumento de ligação entre as dimensões humana e divina. A sua tonalidade predominante é o verde, que exprime a esperança da misericórdia e na força de Deus, único Senhor do tempo e da história. As quatro criaturas viventes do Apocalipse têm a tarefa de anunciar esta verdade ao mundo inteiro.    

Margherita del Castillo       


Através de La Nuova Bussola Quotidiana

sábado, 21 de novembro de 2020

Um novo genocídio cultural, no Alto Carabaque, contra os arménios?

Em 2015, o Estado Islâmico destruía – ou tentava destruir –, em Palmira, artefactos históricos centenários, e apenas o heroísmo, pago com a vida, do director do Museu de Palmira evitou que os bárbaros, financiados pelo Ocidente, causassem maiores danos. O Mundo inteiro podia assistir à propagação da barbárie em directo e, a 1 de Setembro, a UNESCO declarou que se tratava de crimes contra a civilização.          

Dez anos antes, algo semelhante tinha acontecido no Naquichevão, um território dentro dos limites do Azerbaijão que confina, principalmente, com a Arménia e o Irão. Mas ninguém tinha reivindicado a dúbia honra desta destruição cultural. O episódio passou quase despercebido.        

Foi, porém, o culminar de uma campanha azerbaijanesa para apagar os vestígios de um povo: a transformação do cemitério medieval da cidade de Julfa numa terra deserta. Os arménios viveram em Jugha – como era chamada a cidade – até ao final do século XIV, quando o xá Abas, o Grande, os forçou a transferir-se para o que se tornaria a nova capital da Pérsia Safávida. Em Julfa permaneceram os seus mortos, que homenageavam com enormes esculturas fúnebres, os khachkars. Passaram os séculos e o vento perene soprou implacável; também passou a União Soviética. Cerca de 22.000 khachkars permaneceram de pé; de acordo com outros cálculos, cerca de 10.000. Até 89 igrejas medievais arménias e 5.840 monumentos ainda estavam de pé quando a URSS desapareceu, de acordo com uma pesquisa do especialista local Argam Ayvazyan, que agora vive na Arménia.

Em 2005, a contagem, de acordo com testemunhas oculares especializadas, era, respectivamente, de 0, 0 e 0. Nada mais de khachkars, nem de igrejas, nem de mosteiros. Exactamente como em Palmira, mas sem ruídos ou reclamações.      

A 9 de Novembro, foi anunciado um acordo de paz entre a Arménia e o Azerbaijão para pôr termo ao conflito armado no Alto Carabaque, uma guerra desencadeada pelos azerbaijaneses com o apoio entusiástico dos turcos, os autores do primeiro genocídio do século XX, aquele contra os arménios, que os turcos ainda negam.   

A memória daquela destruição de 2005 ressurgiu depois de o primeiro-ministro arménio, Nikol Pashinyan, ter confirmado a assinatura do acordo com o Azerbaijão, que dá a Bacu grandes porções do território povoado por arménios que, neste momento, estão a emigrar.    

O anúncio foi uma surpresa para Hovhannisián, o abade de Dadivank e pároco de Kalbajar, cidade que será entregue às autoridades azerbaijanas. Hovhannisián restaurou, reconstruiu e manteve utensílios, objectos, khachkars e, até mesmo, os edifícios do mosteiro. Agora que deve regressar ao domínio de Bacu, o religioso teme o pior.     

Após o anúncio, Hovhannisián não fez nada além de recrutar veículos e voluntários para transportar o máximo de objectos possível para Erevan, a capital da Arménia. «Mas a coisa mais importante, que é o mosteiro, não pode ser transportada» Trata-se de um complexo de edifícios que remontam aos séculos IX-XIII e é um dos maiores complexos da Arménia medieval.    

Hovhannisián recorda que o mosteiro, antes de regressar aos arménios, tinha sido usado como estábulo pelos azerbaijaneses. O medo de Hovhannisián do que poderia acontecer à riqueza do complexo de Dadivank nasce do caso mais sensacional que já se verificou: o do cemitério de Julfa, no Naquichevão. Como a área tinha apenas cerca de 4.000 habitantes, escapou dos cenários de guerra, mas os seus tesouros foram constantemente destruídos a título da negação da história e da cultura.   

Marco Tosatti    

Através de Radio Roma Libera

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Santa Missa de Réquiem por Dom Antoine Forgeot (1933-2020)








Cerca de três meses após o falecimento de Dom Antoine Forgeot, Abade emérito da Abadia Beneditina de Notre-Dame de Fontgombault, ocorrido no dia 15 de Agosto, solenidade da Assunção da Virgem Santa Maria, o Superior-Geral do Instituto de Cristo Rei Sumo Sacerdote, Mons. Gilles Wach, rezou, em Gricigliano, uma Santa Missa de Réquiem por Dom Forgeot. Réquiem æternam dona ei, Domine, et lux perpetua luceat ei. Requiescat in pace. Amen.      

Através de Instituto de Cristo Rei Sumo Sacerdote

Eugenia e aborto, Marie Stopes muda de disfarce

Dos Estados Unidos da América ao Reino Unido, é o novo imperativo das organizações anti-vida: obscurecer a ligação entre a eugenia (com os seus corolários racistas) e o aborto. Primeiro, a remoção do nome de Margaret Sanger de uma clínica da Planned Parenthood, em Nova Iorque, para acompanhar o movimento (aliás, abortista) Black Lives Matter e evitar, assim, o fogo amigo. Agora, uma operação de proporções muito maiores, que envolve a Marie Stopes International, uma multinacional do aborto, fundada em Londres, que decidiu remover o nome da britânica Marie Stopes (1880-1958), uma convicta promotora do controlo da natalidade através de esterilizações forçadas e da contracepção.  

Permanecerão, na verdade, as suas iniciais. E, assim, desde o passado dia 17 de Novembro, a gigante, com sede no Reino Unido, chama-se, oficialmente, MSI Reproductive Choices. A nova denominação – “Escolhas Reprodutivas” – é uma perfeita adesão à neolíngua. O jogo de maquilhagem levou à mudança do domínio na Internet, dos endereços de e-mail, das páginas sociais.         

O motivo do ostracismo em relação à inspiradora e mãe ideal da MSI é brevemente explicado pelo administrador delegado, Simon Cooke: «Marie Stopes foi uma pioneira do planeamento familiar; todavia, também foi uma defensora do movimento eugénico e expressou muitas opiniões que estão em total contraste com os valores e os princípios fundamentais da MSI». Segundo Cooke, a mudança de nome justifica-se com o lançamento de uma «nova estratégia» que visa eliminar, até 2030, qualquer aborto «inseguro» (existe algum que seja seguro?) e garantir, a todos, o acesso à contracepção. Nem mesmo um alienígena que estivesse na Terra há apenas alguns meses aceitaria tal retórica, já que não há nada de “novo” nesta estratégia.

É claro que a MSI não sabe como romper os laços com Marie Stopes sem renunciar ao seu negócio e à sua história. De resto, o próprio Cook recordou, mais à frente, que «a MSI foi fundada, em 1976, pelo Dr. Tim Black, por Jean Black e por Phil Harvey, que assumiram a clínica no local da original “Mothers Clinic”, de Marie Stopes [por ela fundada em 1921, n.d.r], no centro de Londres» e que deram o seu nome à organização em reconhecimento da sua «obra pioneira». A ideia deles era “emancipar” as mulheres com a contracepção e o aborto: e esta visão, acrescenta o administrador, é «tão relevante hoje como o era em 1976».

Portanto, o novo nome é apenas um truque, que nada muda na substância. O aborto de crianças com alguma deficiência – física ou mental, real ou presumida – está intimamente ligado aos princípios da eugenia. A cultura do aborto legal nasce da mesma árvore da contracepção, que se desenvolve por impulso das várias sociedades eugénicas, nascidas, no início do século XX, na onda do darwinismo social, do britânico Francis Galton, que se enraizou de um lado ao outro do Atlântico.

O percurso de vida e ideológico de Marie Stopes, sem dúvida, tem uma extraordinária semelhança com o de Sanger (1879-1966). As duas conheceram-se, pessoalmente, em 1915, depois de a activista americana, que fugiu para a Inglaterra, ter falado sobre contracepção diante dos membros da Fabian Society. Marie Stopes aconselhou-se com Sanger para um capítulo de um seu artigo sobre o controlo da natalidade, tema que “respirava” há já algum tempo.         

Já em criança, a paleontóloga e ensaísta britânica conhecera, através do pai, Galton. Participara, depois, no congresso inaugural, em 1912, da Eugenics Education Society (hoje, Galton Institute), e, em 1921, tornou-se membro. Nesse mesmo ano, fundou a já mencionada Mothers Clinic e, para apoiá-la, uma organização cujo nome diz tudo: Society for constructive birth control and racial progress.       

O progresso racial que Stopes tinha em mente previa, como escreveu em Radiant Motherhood, que «a esterilização daqueles que são totalmente inadequados para a paternidade deve ser imediata, aliás, obrigatória». Entre os inadequados, disse ela, estavam «os depravados, os de mente fraca e os desequilibrados», que «produzem menos do que consomem». Pelo menos publicamente, Stopes declarava-se contra o aborto (em alguns casos, no entanto, mostrara-se favorável em privado), uma vez que acreditava que a contracepção fosse suficiente para construir a raça superior e perfeita – baseada na wise parenthood, “paternidade sábia” – da qual se considerava profetisa. O contraste com a Igreja Católica era gritante.

O controlo da natalidade devia ocorrer, particularmente, entre as classes mais pobres e, não por acaso, a primeira clínica de Marie Stopes nasceu numa zona, à época, indigente de Londres (Holloway, de onde se mudou em 1925). Racismo, sobretudo, social, que está associado àquele em sentido mais estreito das clínicas de Planned Parenthood, nos Estados Unidos, muitas vezes localizadas em bairros de maioria afro-americana.    

De grande pragmatismo, Stopes foi hábil a publicar os seus escritos e a espalhar as suas ideias eugénicas entre os governantes. Na sua concepção de raça entrava também um forte anti-semitismo. E, em Agosto de 1939, poucos dias antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, enviou um livro de poesia (Love Songs for Young Lovers) a Adolf Hitler, com a esperança – segundo parece, desiludida – de que o Führer mandasse distribuir esses poemas nas clínicas alemãs de controlo da natalidade.     

O desprezo por uma vida frágil, ou mesmo minimamente imperfeita, levou Stopes a tentar impedir o casamento do filho, Harris, com Mary Wallis, “culpada” por ter «uma doença ocular hereditária», praticamente uma forma de miopia, e «tenho horror que a nossa linha [genética] esteja contaminada e de crianças pequenas com a miséria dos óculos».       

Estas são as mentes que espalharam a eugenia que, posteriormente, evoluiu, com a ajuda de políticos e dos media, para a indústria do aborto. Refazer o seu visual não basta. É necessário fechá-la.      

Ermes Dovico    

Através de La Nuova Bussola Quotidiana

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Comunicado sobre a conferência “Todos Pobres”

No seguimento da conferência virtual “Todos Pobres, à economia faz bem a conversão, não a utopia”, promovida, ontem, pela Associação italiana Tradição, Família, Propriedade, pelo portal noticioso La Nuova Bussola Quotidiana e pelo Observatório Internacional Cardeal Van Thuân sobre a Doutrina Social da Igreja, publica-se um comunicado sobre as conclusões saídas do evento realizado na véspera da iniciativa promovida pelo Vaticano.   

Uma encíclica: Fratelli tutti (Todos irmãos). Um evento internacional promovido pelo Vaticano: The Economy of Francesco (A Economia de Francisco). Uma reunião do Fórum Económico Mundial: The Great Reset (O Grande Reinício). Os maiores poderes da Terra, eclesiásticos e temporais, reúnem-se para discutir o futuro do nosso Mundo. Não se trata de nada menos do que “reiniciar” a economia e a sociedade, isto é, de eliminar as existentes, abrindo, assim, o caminho para uma nova era histórica. Portanto, aproveitam-se da grande turbulência criada pela pandemia de COVID-19.  

Quais seriam as características desta nova era? Para examinar conteúdos e possíveis consequências, a Associação Tradição, Família, Propriedade, juntamente com La Nuova Bussola Quotidiana e o Observatório Internacional Cardeal Van Thuân sobre a Doutrina Social da Igreja, organizou, a 18 de Novembro, a conferência virtual Poveri Tutti (Todos Pobres), transmitida, em directo, por vários canais online e ainda disponível na rede.   

Moderada por Federico Catani, da TFP italiana, participaram na conferência o economista Ettore Gotti Tedeschi, Julio Loredo, director da TFP italiana, Stefano Fontana, director do Observatório Van Thuân, e Riccardo Cascioli, director de La Nuova Bussola Quotidiana.         

«A economia é um instrumento que deveria servir para satisfazer as necessidades humanas – começou Gotti Tedeschi –, mas, por isso mesmo, pode ser usada para não as satisfazer, mais, para assustar e influenciar». A economia não é uma ciência, continuou o conhecido economista. Portanto, quando é usada para fins “políticos”, ou seja, destinados a influenciar, pode ser tentada a inventar utopias. Se, então, for usada para fins “morais” e inventar utopias que são incorporadas no magistério da Igreja, o risco é que estas utopias se tornem heresias. Em Fratelli tutti, estão implícitas mais utopias económicas. Tudo isso está em claro contraste com a encíclica Caritas in veritate, do Papa Bento XVI, segundo a qual, quando as coisas não funcionam, não são os instrumentos que devem ser mudados, mas o coração do Homem. Se em vez da conversão do Homem, a Igreja propõe utopias, podemos prever tornar-nos Todos Pobres, economicamente e também espiritualmente.     

Na sua intervenção, Julio Loredo explicou como um são consumismo é o verdadeiro motor de uma sociedade, tanto no campo económico quanto no cultural e espiritual. «O Homem precisa de consumir – disse o director da TFP –, ou seja, de ter tudo o que convém ao próprio bem-estar ditado pelos apetites da sua natureza». O consumo estimula a trabalhar e a desenvolver-se. Obviamente, alguns trabalharão mais e, portanto, terão mais para consumir. Isto é um bem, pois, deste modo, a sociedade tira benefício dos mais capazes, dos mais eficientes, dos mais produtivos, enfim, dos melhores. Caso contrário, a sociedade perece, cai no anticonsumismo, caindo na pobreza crónica, preguiçosa e esclerosada. Uma sociedade nestas condições, concluiu Loredo, tende, em última análise, para a barbárie.      

Stefano Fontana examinou duas palavras-chave da Igreja de hoje: fraternidade e sinodalidade, dois caminhos pelos quais deveria encontrar o Mundo e levar a mensagem da salvação de Jesus Cristo. A fraternidade, em particular, é o tema específico da encíclica Fratelli tutti, do Papa Francisco. Mas as coisas não são tão simples como são propostas, hoje, pela Igreja e na Igreja. É necessário verificar se o conceito de fraternidade que a Igreja, hoje, propõe está de acordo com a sua doutrina ou não é, pelo contrário, fruto de uma ideologia mundana. Fontana esclareceu, em seguida, o verdadeiro significado da palavra fraternidade na Doutrina Social da Igreja para, posteriormente, examinar como o mesmo conceito é assumido e desenvolvido na encíclica do Papa Francisco. Por fim, o director do Observatório Van Thuân tratou da fraternidade como espaço de diálogo com as outras religiões, que a encíclica propõe fortemente na esteira da declaração de Abu Dhabi. Da análise emergiu que a fraternidade da encíclica Fratelli tutti apresenta consideráveis elementos
​​de descontinuidade com a concepção tradicional da Igreja e da recta razão e que o diálogo sobre este tema com outras religiões é muito difícil e perigoso, precisamente, pela radical diversidade no modo de considerar a fraternidade.         

Concluindo, Riccardo Cascioli, director de La Nuova Bussola Quotidiana, abordou o tema da ecologia, um leitmotiv da esquerda ambientalista e também do pontificado do Papa Francisco. Esta ecologia implica uma viragem antropológica que consiste no facto de o Homem se conceber dentro de uma “comunidade vivente” mais ampla, perdendo, assim, a sua especificidade ontológica. Por muito tempo, mesmo no mundo católico, cresceu um pensamento que indica a raiz dos desequilíbrios ambientais no antropocentrismo judaico-cristão, acusando-o de justificar a pilhagem dos recursos da terra que, pelo contrário, pertencem a todas as criaturas. Na realidade, trata-se de uma visão distorcida do pensamento católico: reconhecer que o Homem é o ápice da Criação, o único ser vivente criado à imagem e semelhança de Deus, significa, antes de tudo, que a chave do equilíbrio está na relação entre o Homem e Deus. Quando é vivido correctamente, segundo a Revelação cristã, também o relacionamento com o resto da Criação se torna saudável.        

A conferência foi transmitida ao vivo e já está disponível nos canais das associações promotoras.

A mártir que a falsa literatura feminista identificou com Hipácia

De Santa Catarina de Alexandria, cuja memória litúrgica facultativa ocorre a 25 de Novembro, provavelmente nascida em 287 e morta, como mártir, em Alexandria do Egipto, por volta de 305, há poucas informações documentais, motivo pelo qual nasceram várias tradições, inclusive populares. As fontes escritas são todas posteriores à sua vida: a mais antiga é uma Paixão, em grego, do século VI-VII, seguida por outra do século XI e a Legenda Áurea, que data do século XIII.         

Era, com certeza, uma bela jovem egípcia. A Legenda Áurea especifica que era filha do rei Costa, que a deixou órfã muito jovem, e que foi educada, desde a infância, nas artes liberais, como eram definidos os estudos secundários na Idade Média. Catarina foi pedida em casamento por vários homens de relevante importância, mas teve, em sonho, a visão de Nossa Senhora com o Menino que lhe colocava o anel no dedo fazendo-a sponsa Christi.         

Em 305, um imperador romano realizou grandes festejos, em própria honra, em Alexandria. Mesmo que a Legenda Áurea fale de Maxêncio (278 - 312), muitos acreditam que se trata de um erro de transcrição e que o imperador em questão fosse Maximino Daia (c. 285 - 313), que, precisamente em 305, foi proclamado César para o Oriente. Foi naquela ocasião que Catarina se apresentou no palácio imperial durante as celebrações, no seguimento das quais se celebravam ritos pagãos com sacrifícios de animais em adoração aos deuses, nos quais também participavam muitos cristãos por medo das perseguições. Catarina não apenas recusou aqueles actos, mas pediu ao imperador que reconhecesse Jesus Cristo como redentor da humanidade, argumentando o seu convite com conhecimento dos factos, profundidade filosófica e capacidade oratória, tanto que o imperador, impressionado com a beleza e a cultura da jovem nobre, convocou um grupo de retóricos para que a persuadissem a honrar os deuses e pediu-a, inclusive, em casamento. Mas os retóricos não conseguiram convertê-la, chegando ao ponto de ser eles, graças à eloquência e à santidade de Catarina, a converter-se ao Cristianismo. Foi assim que o imperador ordenou a sua condenação à morte e, depois de mais uma recusa de Catarina, condenou-a ao suplício da roda dentada; mas o instrumento de tortura partiu-se e Maximino decidiu, sucessivamente, mandá-la decapitar. Do corpo, em vez de sair sangue, jorrou leite, símbolo da sua pureza.         

Segundo uma outra versão, o corpo de Catarina foi transportado, pelos Anjos, para o Monte Sinai, onde, no século VI, o imperador Justiniano (482-565) fundou o mosteiro, originalmente denominado “da Transfiguração”, e, posteriormente, a ela dedicado, o célebre “Mosteiro de Santa Catarina de Alexandria”.

Somente a partir do século IX é que a devoção à santa se tornou muito popular e tal é atestado, de modo particular, pelos testemunhos iconográficos.   

No período em que se desenvolveu o pensamento iluminista-ateísta ou agnóstico, lançaram-se muitas sombras sobre a historicidade da personagem. A escritora feminista e historiadora da arte inglesa Anna Brownell Jameson (1794 - 1860) formulou a hipótese segundo a qual havia algumas características comuns entre Santa Catarina de Alexandria e Hipácia, nascida entre 350 e 370, matemática e filósofa pagã, também morta, em 415, em Alexandria do Egipto, por monges parabolanos, membros de uma seita que se dedicava ao cuidado dos enfermos, especialmente das vítimas da peste, e ao sepultamento dos mortos. Mas a hipótese de Brownell Jameson é falsa, tanto que não há qualquer fonte documentada que demonstre a sobreposição entre Santa Catarina e Hipácia.        

Na década de 1960, teve início um reexame de muitas figuras de santos dos primeiros séculos do Cristianismo; o espírito positivista, de facto, penetrou na Igreja e o cientificismo historicista prevaleceu sobre a tradição da própria Igreja, tanto que Santa Catarina de Alexandria, juntamente com outras figuras, não foi mais digna de reentrar no Martirológio Romano e decidiu-se eliminá-la entre 1962 e 2002, sem, todavia, jamais proibir a sua veneração, devido à enorme devoção a ela dirigida, ao longo dos séculos, em toda a catolicidade. Em 2003, Santa Catarina, com justiça, foi reinserida, entre os mártires, no Martirológio pelo Papa João Paulo II (1920-2005).        

Cristina Siccardi          


Através de Radio Roma Libera

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

As forças secretas que agem na história

As forças secretas existem e agem na história. O simples dinamismo das paixões e dos erros humanos não é suficiente para explicar o processo revolucionário que, desde há séculos, ataca a Igreja e a Civilização Cristã que por ela foi gerada. Este processo é liderado por agentes, muitas vezes ocultos, mas reais. O pensamento católico dos séculos XIX e XX procurou sempre, de maneira rigorosa e documentada, a existência desta trama, que pode ser definida como um “conluio” ou “conspiração”, se por este termo se entende a existência de forças que alcançam os seus fins em segredo e, muitas vezes, com métodos ilícitos e imorais. Mons. Henri Delassus (1836-1921) dedicou um importante livro à La conjuration antichrétienne: le temple maçonnique voulant s’élever sur les ruines de l’Eglise catholique (Paris 1910, 3 vols., com uma carta de prefácio do Cardeal Rafael Merry del Val). As sociedades secretas que guiam a Revolução, explica Plinio Corrêa de Oliveira, têm como meta a instauração de uma utópica “República Universal” em que todas as legítimas diferenças entre os povos, as famílias, as classes sociais, se dissolveriam num amálgama igualitário, confuso e refervente (Rivoluzione e Contro-Rivoluzione, Sugarco, Milano 2009, p. 117).

A existência deste “conluio” é confirmada pelos documentos pontifícios e, especialmente, pela encíclica Humanum genus, de Leão XIII, de 20 de Abril de 1884, na qual o Papa denuncia o conluio diabólico da Maçonaria, que tem como «seu propósito último o completo derrubamento de toda a ordem religiosa e política do mundo que o ensinamento Cristão produziu e a substituição por um novo estado de coisas de acordo com as suas ideias, das quais as fundações e leis devem ser obtidas do mero naturalismo» (Enc. Humanum genus, de 20 de Abril de 1884, ASS, vol. 16 (1883-1884), pp. 417-48). A identidade dos conspiradores pode variar, mas o director permanente do processo revolucionário é Satanás, o anjo caído, sempre rebelde e sempre derrotado. Os Papas e os autores contra-revolucionários não deixam de realçar a essência satânica da Revolução que, aparentemente, “constrói”, mas, na realidade, destrói. Visa desfazer a obra da criação e da redenção para construir o Reino social do demónio, um inferno na terra que prefigura o da eternidade, assim como o Reino social de Cristo, a Civilização Cristã, prefigura o Reino do Paraíso celestial. Nesse sentido, a Revolução tem a sua essência na desordem, enquanto a Civilização Cristã é a ordem por excelência.

Também os acontecimentos do coronavírus devem ser analisados nesta perspectiva de teologia da história, mas com a condição de seguir as lições dos grandes mestres do pensamento católico, que nunca desistiram do bom uso da razão. O pensamento tem regras estabelecidas por uma disciplina conhecida como lógica. O objecto da lógica é, como explica São Tomás, a actividade da razão (Commento agli analitici posteriori di Aristotele, vol. I, I lect. 1.) A lógica é uma análise dos processos do pensamento para compreender a sua estrutura e as leis nos diversos momentos. Todavia, não é possível conservar a lógica sem a ajuda da graça. Há, portanto, necessidade da graça divina, que ilumina a inteligência do homem e fortalece a sua vontade, para que ele, com a ajuda do sobrenatural, possa fazer o que a sua natureza não é capaz. De facto, continua Corrêa de Oliveira, «mesmo que a inteligência seja lógica por natureza, o homem nunca pode ser completamente lógico sem o auxílio da graça. Por dois motivos: primeiro, porque a inteligência humana não é infalível, (...); em segundo lugar, porque o homem encontra mil obstáculos interiores que se opõem à lógica». «Quais são esses obstáculos interiores? Acontece, muitas vezes, que a lógica mostra verdades desagradáveis ou deveres árduos e, nesse caso, a pessoa tenta evitar a lógica. Não existe coisa mais natural no mundo. Procura-se escapar e fechar os olhos diante da lógica» (R. de Mattei, Plinio Corrêa de Oliveira, Apostolo di Fatima. Profeta del Regno di Maria, Fiducia, Roma 2017, pp. 30-31). A renúncia ao uso da lógica leva à atrofia da razão e ao triunfo da imaginação, que é uma forma de pensamento que não segue regras fixas ou ligações lógicas, mas é, muitas vezes, determinada por um estado emocional. A imaginação é um sentido interno, o mais nobre dos sentidos internos, mas o que mais facilmente nos leva ao erro. Para compreender completamente uma história tão complexa como a eclosão da pandemia do coronavírus, é necessário usar, com atenção, o instrumento da lógica iluminada pela fé. É preciso ter cuidado com os falsos mestres, vindos das fileiras da Revolução, que pretendem explicar o que está a acontecer sem a luz da fé e fazendo um mau uso da razão. Em Itália, um desses péssimos professores é o aspirante a filósofo Diego Fusaro, que, desde o início, pretendeu explicar o coronavírus como uma conspiração ocidental contra a China comunista. A 26 de Fevereiro de 2020, na RadioRadio, Fusaro afirmava que a hipótese «que apresenta maiores pontos de consistência é aquela segundo a qual há, de alguma forma, a longa manus norte-americana em tudo isso. Esta hipótese começa, certamente, do facto de o vírus ter partido dos laboratórios da China, mas permite-nos entender que este vírus pode ter sido libertado de várias maneiras. Mas, acima de tudo, este cenário permite-nos responder a uma questão que, de outra forma, fica sem resposta: quem se beneficia com tudo isto? Certamente, não ajuda a China que, hoje, vive a pior crise de joelhos, justamente porque estava a triunfar economicamente e até a superar os Estados Unidos da América».

No dia 8 de Março, na mesma emissora RadioRadio, Fusaro afirmara que «Itália, nos últimos dois anos, era o país que mais se estava a aproximar da China a nível económico, recordar-se-ão da Rota da Seda e da assinatura de Di Maio naquele projecto. Isso despertou a ira de Washington, que foi imediatamente capaz de expressar a sua decepção a respeito da proximidade de Itália à China. Quais são os países mais afectados? China, Irão e Itália. Não se deve esquecer o facto que são países que não estão alinhados com Washington, aliás, já há algum tempo na mira da monarquia do dólar». Fusaro insinua, por conseguinte, que os Estados Unidos criaram a pandemia para enfraquecer a China e os países que lhe são próximos, como Itália e alguns do Terceiro Mundo. Este pseudo-raciocínio é falacioso, não apenas porque foi clamorosamente negado pelos factos, mas porque tem em si mesmo o carácter do sofisma. O facto é que a pandemia foi uma das principais causas da derrota eleitoral de Trump e se, hoje, algum país está de joelhos após dez meses de coronavírus, são, precisamente, os Estados Unidos e a Europa, enquanto a China parece estar a sair da crise sanitária não apenas ilesa, mas economicamente próspera.

O sofisma está em substituir o nexo causal, que deve caracterizar cada operação da razão, por um nexo de carácter puramente temporal, que se resume no conhecido sofisma Post hoc, ergo propter hoc (depois disso, portanto, por causa disso). Um sofisma que substitui a ordem lógica pela cronológica, supondo que, se um acontecimento for seguido por um outro, então o primeiro deve ser a causa do segundo. Na realidade, é necessária uma sucessão temporal para que haja uma relação causal, visto que cada efeito deve ser precedido por uma causa, mas esse vínculo temporal não é suficiente para provar nada.

Fusaro, aluno de Costanzo Preve (1943-2013), teórico da Refundação Comunista, é um neo-comunista que pretende libertar-se da análise socioeconómica de Marx, mas não renuncia à sua visão dialéctica, baseada na negação do princípio de não contradição. O que preocupa não são as suas fracas teses, mas o sucesso que parecem ter nos círculos conservadores e tradicionalistas que, mesmo sem se referir explicitamente a ele, misturam, na prática, as suas teorias antiamericanas com as da seita anticatólica QAnon, que afirma a existência de um projecto criminoso, arquitectado por uma elite globalista, para subjugar, através de uma ditadura sanitária, toda a humanidade. O coronavírus seria apenas uma modesta gripe e as medidas recomendadas pelos governos progressistas ou conservadores de todo o Mundo, como os bloqueios, as máscaras e o distanciamento social, seriam instrumentos e símbolos desse conluio para anular as liberdades individuais e, por fim, exterminar toda a humanidade. É preciso dizer com firmeza que estas hipóteses nada têm a ver com a grande tradição do pensamento católico que, quando fala da existência de uma conspiração anticristã, fundamenta cada afirmação com documentação precisa e, sobretudo, nunca substitui a fé e a razão pela imaginação. Às vezes, a impressão que se tem é a de se encontrar diante de fenómenos de dissonância cognitiva, onde a realidade é deformada por uma condição emocional ou de apofenia, um estado psíquico que insta a estabelecer conexões significativas entre acontecimentos privados de qualquer relação causal.

Todas as formas de protecção e distanciamento social deveriam ser abolidas para combater o “conluio”? Gennaro Malgieri, que escreveu a história da invasão do coronavírus num lúcido diário, observa justamente: «são francamente ridículos aqueles que contestam o único sistema de protecção que temos à disposição, mas têm o cuidado de não indicar um alternativo» (Sotto il segno del pipistrello. Dentro la pandemia. Un diario, Fergen, Roma 2020, p. 14).

A conservação da vida é o princípio fundador de cada comunidade e quem deve tutelar este princípio é quem decide sobre o “estado de excepção”. «Tendo questionado tal princípio, é muito fácil abrir o caminho para a dissolução social» e render-se «ao caos permanente da ferocidade desencadeada pela rejeição da legalidade e da legitimidade» (ibid., pp. 147-148). Não há dúvida de que as forças secretas, que agem e operam, procuram tirar proveito da situação de emergência em que se encontra a humanidade, certamente querida por Deus, porque, como ensina Santo Afonso de Ligório, «tudo o que acontece, acontece por vontade de Deus» (Dell’uniformità alla volontà di Dio, Roma 1874, p. 12). Mas a Divina Providência, que orienta sempre a história, converte o mal em bem e, precisamente hoje, esta situação de emergência pode favorecer a batalha dos defensores da ordem cristã. Nunca um momento histórico foi tão propício para fazer uma crítica cerrada ao processo revolucionário e mostrar que não há outra solução possível senão um regresso à ordem natural e cristã. As épocas de quarentena sanitária, que a humanidade tantas vezes viveu na sua história, são épocas em que a alma não deve cair no domínio da fantasia, mas deve afirmar o primado da razão e da vontade, elevando o olhar para Deus, como ensinava São Paulo da Cruz: «Sede solitários o mais que puderdes, mesmo com o corpo, para que as criaturas não vos roubem o recolhimento» (Lettere, Roma 1924, vol. II, p. 509); «Deus quer-vos no deserto da mais profunda solidão para vos dizer palavras de vida e vos ensinar a ciência dos santos» (ibid., vol. III, p. 515).

Roberto de Mattei

Através de Corrispondenza Romana

terça-feira, 17 de novembro de 2020

O relatório McCarrick e a “homo-eresia na Igreja”

No passado dia 12 de Novembro, a Santa Sé dedicou um extenso e documentado relatório ao caso McCarrick, a história que terminou com a redução ao estado laical do cardeal americano culpado de actos de pedofilia. Entre os inúmeros comentários, um dos razoáveis ​​é o de Riccardo Cascioli, em La Nuova Bussola Quotidiana, de 13 de Novembro: «Enquanto se aguardam novos aprofundamentos específicos sobre a história do ex-cardeal arcebispo de Washington Theodore McCarrick, – escreve Cascioli – há duas questões que saltam à vista, ambas ligadas à homossexualidade: a primeira é a tolerância da prática homossexual, mesmo entre o clero; a segunda está na ocultação da existência de um lobby gay e de um sistema que favorece a “carreira” de eclesiásticos com tendência.    

Em relação ao primeiro ponto, embora emerja do relatório a figura de um McCarrick predador em série, a grande reacção é desencadeada apenas quando, em 2017, chega a primeira denúncia de abusos de um menor. E isso está bem sublinhado em vários pontos do relatório, mas também é o dado sobre o qual insiste o director da comunicação vaticana, Andrea Tornielli, no seu editorial de apresentação do relatório, publicado no portal Vatican News. Depois de anos de rumores, cartas anónimas e acusações “sem fundamento”, referentes a “comportamentos imorais com adultos” – explica Tornielli –, “tudo muda com o surgimento da primeira denúncia de abuso de um menor. A resposta é imediata. A disposição gravíssima e inédita da demissão do estado clerical surge na conclusão de um rápido processo canónico”.        

Na prática, dizem-nos que os “comportamentos imorais com adultos” não são, certamente, uma coisa boa, mas, no final, são tolerados; o alarme real, aquele que também prevê sanções pesadas, só é accionado com a menor idade do abusado. Como se as dezenas e dezenas de futuros padres que partilharam a cama com McCarrick e, portanto, em grande parte condenados a uma vida sacerdotal, no mínimo, desequilibrada, não contassem muito. Como se a devastação moral e de fé provocada por um bispo predador – vocações perdidas, sacerdotes que, por sua, vez repetirão os abusos, nomeações episcopais distorcidas por laços mórbidos – fossem um problema menor. Claro, os rumores persistentes desaconselhavam a promoção de McCarrick a sedes de prestígio, mas a armadilha só é accionada quando, entre os acusadores, aparece um menor. É uma abordagem gravíssima que ignora o facto de que o segundo crime – abusos sobre menores – é filho do primeiro.       

Quanto ao segundo aspecto, a reconstrução do caso McCarrick acredita a ideia de que se trata de uma página negra para a Igreja, sim, mas, em todo caso, um episódio que, graças a todas as medidas tomadas, sobretudo, pelo Papa Francisco, será mais difícil de voltar a acontecer. “Uma história triste com a qual toda a Igreja aprendeu”, diz Tornielli.        

É duvidoso, acima de tudo, porque se ignorou, deliberadamente, que o que permitiu a irresistível ascensão de McCarrick foi um sistema de poder também chamado de lobby gay, que favorece a nomeação e a carreira de bispos com determinadas características. Da leitura do relatório, publicado ontem, poder-se-ia pensar que o caso McCarrick seja o resultado de uma combinação infeliz de diferentes factores: a personalidade exuberante (para usar um eufemismo) do personagem, a falta de regras claras, a imprecisão das acusações, o erro, de boa-fé, de um Papa, a fraqueza do governo de um outro. Claro, estes também são elementos que tiveram o seu peso, mas o verdadeiro problema é que, sem a existência de uma rede de relações e de cumplicidades a diversos níveis, certas carreiras seriam quase impossíveis
».      

Subscrevo as observações de Cascioli e limito-me a reler o que escrevi, em Corrispondenza Romana, a 3 de Julho de 2013, quatro meses depois da eleição do Papa Francisco, após ter utilizado o termo ‘lobby gay’: «A atitude de certas autoridades eclesiásticas é estupefaciente. Quando tomam conhecimento da existência de uma situação imoral numa paróquia, num colégio, num seminário, não procedem para averiguar a verdade, afastar os culpados, eliminar a sujidade, mas manifestam aborrecimento, senão reprovação, para com os que denunciaram o mal e, no melhor dos casos, limitam-se a levar em consideração o que pode ser do interesse da justiça civil, por medo de serem envolvidos em questões jurídicas. Fazem silêncio sobre o que tem uma pura relevância moral e canónica. O slogan poderia ser “tolerância zero” para os pedófilos, “tolerância máxima” para os homossexuais. Estes últimos continuam, tranquilamente, a ocupar os seus cargos de párocos, bispos, reitores de colégios, formando a “homo-máfia” que o Papa Francisco define como “lobby gay”.   

A afirmação do Papa vai além da grave denúncia da “sujidade na Igreja”, feita pelo Cardeal Ratzinger, na Sexta-Feira Santa de 2005, na véspera da sua eleição para o Pontificado. Também nesse caso, o futuro Bento XVI quis, certamente, referir-se a esse flagelo moral que se espalha na Igreja sob a forma de pedofilia, efebofilia ou, mais simplesmente, de homossexualidade. Mas o alcance da declaração de Francisco é mais amplo e alcança o de Paulo VI quando, na sua homilia de 29 de Junho de 1972, afirmou que, “de alguma fenda”, tinha entrado “a fumaça de Satanás no templo de Deus”. O que está a acontecer é, justamente, a consequência daquela fumaça de Satanás que, hoje, envolve e sufoca a Igreja. Intervirá o Papa Francisco? É esta a pergunta aflita de todos aqueles que rezam e combatem por uma autêntica reforma doutrinal e moral do Corpo Místico de Cristo
».        

Fazíamos essa pergunta em Julho de 2013. Oito anos se passaram e, sob o pontificado do Papa Francisco, a situação piorou. O lobby gay, que ele parecia deplorar, foi por ele encorajado e as únicas intervenções da Santa Sé, como aquela contra o cardeal McCarrick, diziam respeito a casos de pedofilia, não de homossexualidade. Teria sido mais útil um relatório de 450 páginas não sobre o caso McCarrick, mas sobre o que um estudioso polaco deste fenómeno, o P. Dario Oko, define como a agora crescente ‘homo-eresia’ na Igreja.   

Roberto de Mattei      

Através de Radio Roma Libera

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

McCarrick e homossexualidade, há um problema doutrinal

O “Relatório McCarrick”, da Secretaria de Estado, foi, até agora, analisado do ponto de vista da reconstrução dos factos. Tal é perfeitamente compreensível, dado que se trata de especificar as responsabilidades pessoais dos vários actores do caso. No entanto, não se deve descurar uma outra dimensão mais ampla, ainda que jornalisticamente menos atraente, que funciona como contexto para situar a procura das responsabilidades e a compreensão do ocorrido.     

Refiro-me à dimensão doutrinal a respeito da avaliação moral e religiosa da prática homossexual. Na verdade, é plausível pensar que se a avaliação da Igreja sobre os actos homossexuais muda e a sua condenação do ponto de vista doutrinal é enfraquecida, então mesmo a tolerância prática pode encontrar maiores justificativas. Este enfraquecimento do rigor é muito evidente no Relatório, apesar das suas parcialidades e lacunas.       

Esta passagem do exame da questão, com base em critérios de política eclesiástica, para o nível doutrinal deve, pois, ser feita, porque, entre outras coisas, certamente aqui também há responsabilidades. Questiona-se se é mais censurável um reitor de seminário que faz silêncio sobre certos acontecimentos imorais dentro do próprio seminário ou um professor/teólogo desse mesmo seminário que, nas suas aulas, apoia como admissível e lícita a prática homossexual. Um bispo deve ser considerado responsável por omissão somente quando não intervém sobre um sacerdote da sua diocese ou mesmo quando mantém no seu lugar teólogos que, desde a cátedra, negam e perturbam a doutrina moral da Igreja sobre estes temas?          

Bento XVI chamou à atenção precisamente para esta dimensão quando, a 11 de Abril de 2019, fez as suas observações sobre a Igreja e os abusos sexuais. De 21 a 24 de Fevereiro precedente, realizara-se o encontro dos presidentes de todas as Conferências Episcopais do Mundo, um evento mais de propaganda do que de conteúdo que desviou a atenção dos problemas reais. Bento XVI, por outro lado, centrou-se no problema, falando do «colapso da teologia moral católica», ocorrido nas décadas de 1960-1980, um «processo inaudito, de uma ordem de grandeza quase sem precedentes na história», segundo o qual «os critérios válidos em termos de sexualidade falharam completamente». Seguiu-se, progressivamente, outro colapso, o da «forma até então vigente» da preparação nos seminários.     

Esta transformação da teologia moral católica e da moral sexual ainda hoje está a ocorrer e, depois de Amoris laetitia, recebeu um novo impulso de cima. Se a situação dos divorciados recasados, como diz a Exortação do Papa Francisco, não se presta a uma avaliação moral em si mesma como uma acção intrinsecamente má, mas deve ser avaliada «caso a caso», através do método do «discernimento», não se percebe por que razão estes critérios também não podem ser aplicados à situação de um sacerdote, de um bispo ou de um cardeal que se entregaram a práticas homossexuais. Se a pastoral do discernimento substitui a da doutrina, porquê lamentar-se dessas ondas de imoralidade no clero?      

A transformação da teologia moral, em curso há décadas, contida com grande dificuldade pela Veritatis splendor, de João Paulo II, e agora assumida e confirmada autoritariamente de cima, crê que a norma moral seja rígida e abstracta se não for feita pela consciência, que terá, portanto, um valor «criativo» da mesma norma. Considera que o discernimento não deve ser aplicado apenas às boas acções, mas também às intrinsecamente más – como o adultério ou a actividade homossexual –, na verdade, elimina a própria noção de acções intrinsecamente más. Considera que as circunstâncias que delineiam a situação em que se actua não são apenas acidentais, mas que contribuem para determinar a bondade ou não da acção, de que deriva o método «caso a caso», ou seja, a impossibilidade de definir o adultério ou o exercício da homossexualidade como acções más em si mesmas e, por conseguinte, sempre reprováveis e condenáveis.          

Mas há algo ainda mais preocupante. Se lermos Amoris laetitia, veremos que a primeira preocupação não é proteger os Sacramentos na fé da Igreja, mas proteger as pessoas envolvidas nos acontecimentos existenciais. Então, analogamente, mesmo em casos de comprovada imoralidade sexual de sacerdotes, pode-se proceder não com o propósito de defender a fé em primeiro lugar, mas as pessoas envolvidas. Esta distorção na forma de ver as coisas torna muito difícil a aplicação do Código de Direito Canónico, como aconteceu nos casos de homossexualidade, que já não são vistos como delitos contra a fé, mas situações a serem avaliadas caso a caso na garantia dos sujeitos envolvidos. Se a norma moral também é feita pela consciência e construída na procura, já não será possível entendê-la como objectiva, absoluta e – para a moral católica – fundada nas duas rochas da lei natural e da revelação.    

Quando procuramos avaliar os factos relativos ao caso McCarrick, também na sequência do recente relatório do Vaticano, não esqueçamos que neles existe uma disputa não só de carácter personalista, com eclesiásticos que tentam proteger-se, mas doutrinal. Poderemos, assim, entender melhor os factos singulares.          

Stefano Fontana          

Através de La Nuova Bussola Quotidiana