sábado, 23 de janeiro de 2021

Jérôme Lejeune, geneticista francês, foi declarado Venerável

A Congregação para as Causas dos Santos promulgou, a 21 de Janeiro, alguns decretos, aprovados pelo Papa Francisco, que reconhecem as virtudes heróicas de diversas figuras. Entre estas está o geneticista Jérôme Lejeune (1926-1994), conhecido, em todo o mundo, por ter descoberto o gene da síndrome de Down, mas também por ter lutado contra todo o tipo de lei a favor do aborto. O Papa autorizou o decreto da Congregação para as Causas dos Santos que reconhece «as virtudes heróicas do Servo de Deus Jérôme Lejeune, fiel leigo; nasceu, a 13 de Junho de 1926, em Montrouge, França, e morreu, em, Paris a 3 de Abril de 1994».  

Lejeune foi o primeiro presidente da Pontifícia Academia para a Vida (embora por apenas dois meses, de Fevereiro de 1994 a 3 de Abril, quando morreu), nomeado por João Paulo II, que se recolheu no seu túmulo, em França, em 1997, por ocasião da Jornada Mundial da Juventude. Muitos se perguntam se foi a luta contra o aborto do Prof. Lejeune a custar-lhe o reconhecimento do Prémio Nobel pela sua descoberta da Trissomia 21.      

Através de Corrispondenza Romana

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

O declínio da democracia

Os recentes factos dos Estados Unidos estão, sem dúvida alguma, entre os mais importantes das últimas décadas. E não me refiro às acusações de fraude nas últimas eleições presidenciais, nem aos graves conflitos que tal facto produzirá nos próximos quatro anos de governo.      

É muito mais importante o que está a acontecer em relação à perda da liberdade de expressão, à imposição ou à rejeição de algumas ideias políticas e à proibição totalitária de determinadas formas de pensamento. Pela primeira vez, manifesta-se, publicamente, um poder oculto e misterioso, que, agora, é o senhor das comunicações globais, que nos quer impor, de forma autoritária, aquilo que podemos ou não podemos expressar publicamente.

Trata-se das chamadas redes sociais, que se autoproclamaram como “a voz de quem não tem voz”, em aberta rebelião contra os grandes meios de comunicação. Em todo o mundo, a TV, os jornais e as principais rádios tornaram-se instrumentos para a divulgação de indizíveis falsidades ou, por dinheiro, colocaram-se ao serviço das piores causas políticas. Pois bem, nos últimos anos, as redes sociais levantaram-se contra os grandes meios e privaram-nos do poder absoluto que exerciam, pois com eles todos podem divulgar as suas próprias análises e notícias, mostrando, ao mundo, realidades silenciadas ou distorcidas pelo monopólio dos grandes meios.      

As redes sociais e a sua grande influência mundial      

O poder e a influência que as redes sociais alcançaram, transformaram-nas num verdadeiro gigante da informação, inclusive os servidores de internet que permitem o seu funcionamento, de tal forma que passaram a influenciar o quotidiano de biliões de pessoas em todo o mundo. Consequentemente, os seus proprietários entraram no selecto e reduzido grupo das pessoas mais poderosas, influentes e ricas do planeta.       

Como era de se esperar, num determinado momento, este poder deveria manifestar-se. De facto, para que serve o poder senão para comandar? E, então, no meio do actual conflito norte-americano, o presidente dos Estados Unidos, considerado o homem mais poderoso do planeta, foi posto de joelhos por estes misteriosos personagens. Agora, são eles a decidir aquilo que as pessoas devem pensar, são eles a impor as ideias que se devem divulgar, censurando, implacavelmente, quem se atreve a contradizê-las. Assim, foram encerradas as contas pessoais do Twitter, Snapchat e Facebook do presidente Trump, juntamente com o seu canal YouTube e todos os outros canais de comunicação do presidente dos Estados Unidos. E também as contas oficiais da presidência dos EUA.         

Estes factos deveriam ser uma gravíssima campainha de alarme

Se fizeram isto com o presidente Trump, o que poderão fazer com cada um de nós? Criou-se um Moloque que manipula, dirige e estabelece, a seu gosto, as regras de funcionamento destes meios, e, agora, este monstro dita o que podemos comunicar através deles. Se não obedecemos às suas directrizes e insistimos em pensar de modo independente, faz-nos desaparecer sem direito a qualquer resposta. E, o que é ainda mais grave, tal Moloque lança raios e setas contra os seus críticos, desencadeando, contra eles, todas as perseguições do poder político e judicial, os seus mais recentes e perigosos aliados.   

Este é o caminho escuro, cheio de perplexidade e apreensões, a que nos conduz este enigmático século XXI. Paradoxalmente, somam-se a isso as consequências da pandemia chinesa do coronavírus, que se apoderou do mundo, pois, diante do terror do contágio, da doença e da morte, o mundo está, gradativamente, a renunciar às suas mais preciosas liberdades.  

Pôs-se fim às viagens, às festas, aos restaurantes e aos bares. Todos os desportos ficaram sem público, assim como os grandes concertos e as manifestações culturais. É-nos imposto que fiquemos em casa e até se chega ao ponto de nos proibirem de ver familiares e amigos. As empresas fecham, os postos de trabalho reduzem-se, a gente comum está em estado de extrema necessidade e o poder dos governantes é cada vez mais arbitrário e ditatorial. No final, a indomável liberdade, que era a essência do mundo contemporâneo, é desfeita e todos acabam por obedecer e respeitar as medidas impostas.  

O nome que damos a esta gigantesca transformação psicológica e psicopolítica pouco importa. Poderíamos chamar-lhe Nova Ordem Mundial, Gran Reset, Engenharia Social, Deep State ou o que for, mas é, sem dúvida, claro que o mundo, tal como o conheceram as gerações adultas, não voltará a ser o mesmo. E, sempre com absoluta certeza, considerando a invasão produzida por tais poderes ocultos que, agora, aparecem com maior força e determinação, a sociedade avança, de forma vertiginosa, para a perda das liberdades.      

A pandemia e os senhores das redes sociais ameaçam a liberdade        

Quando escrevemos uma mensagem nas redes, este poder oculto lê-nos; se falamos ao telefone, ouve-nos; quando saímos para a rua, filma-nos; se viajamos, sabe perfeitamente para onde vamos; se vemos TV, monitoriza-nos para conhecer as nossas preferências; se nos ligamos à internet, sabe o que nos interessa. Embora isto não seja nada de novo, já que se verifica há alguns anos, a grande novidade é que, agora, se começa a perseguir aqueles que não estão em comunhão com o novo sistema que se quer impor ao mundo.           

A consequência do que estamos a viver é que o mundo funcionará assim. Então, para que serve a democracia? Este sistema de governo já está a corroer pelo absoluto descrédito, devido aos níveis de corrupção alcançados pelos seus mais eminentes e reconhecidos representantes. Estas, as elites decadentes da classe política, são as pessoas mais desprezadas em quase todos os países e, cada vez mais, a sua credibilidade é menor. Sem dúvida, o que parecia ser uma das maiores transformações da nossa época é o declínio da democracia. E, com isso, surgirá uma nova e sofisticada forma de totalitarismo, que terá a tecnologia e o controlo das redes sociais como principal instrumento de submissão.          

Eugenio Trujillo          

Através de Fatima Oggi 

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

2021, ano de Stefan Wyszyński, o cardeal do “Non possumus”

O Parlamento polaco declarou 2021 o ano do Cardeal Wyszyński. A resolução, na qual se define Stefan Wyszyński «um dos maiores polacos do século XX», foi aprovada, por uma larguíssima maioria, tanto pelo Sejm (a Câmara baixa) quanto pelo Senado.         

Na resolução da Câmara, lê-se: «Na sua actividade sacerdotal, o Primaz do Milénio prestou atenção à dignidade intrínseca do homem, fonte de todos os seus direitos».        

O Cardeal Wyszyński é conhecido como o Primaz do Milénio porque, como Primaz da Polónia, teve a tarefa de organizar as celebrações nacionais por ocasião do milénio do baptismo da Polónia, que aconteceram em 1966.  

A resolução da Câmara também elogia o cardeal pela sua granítica defesa da independência da Igreja sob o comunismo. É célebre a sua carta, de 1953, ao líder comunista polaco Bolesław Bierut, na qual, recusando-se a subordinar a Igreja às autoridades civis comunistas, escreveu Non possumus! (nós não podemos). Depois disso, foi preso.   

Homem de profunda fé e amor pela Igreja e pela pátria, o cardeal procurou um acordo com as autoridades, mas, quando o regime ameaçou os direitos da Igreja e dos fiéis, não quis chegar a compromissos, pagando pessoalmente. Assim, tornou-se o símbolo de uma inabalável oposição à prepotência do poder secular e ao mal.  

«É impossível – diz a resolução adoptada pelo Senado palaco – descrever detalhadamente os méritos e o papel que o Primaz Stefan Wyszyński teve, naqueles anos, para a Polónia e a Igreja. Ele e João Paulo II foram, juntos, os grandes mestres da nação e apoiaram os polacos nos momentos mais difíceis da história da nossa pátria».      

O cardeal, continua a resolução, «cuidou do destino da Igreja polaca, nos anos mais sombrios do estalinismo, com um cuidado excepcional. Pela sua atitude decidida para com as autoridades comunistas, pela sua oposição à destruição da vida social e eclesial, expressa nas famosas palavras Non possumus, esteve vários anos preso».    

Em 2021, assinala-se o 120.º aniversário do nascimento do Cardeal Wyszyński e o quadragésimo da sua morte.    

Nasceu, a 3 de Agosto de 1901, em Zuzela, a Nordeste de Varsóvia. Antes da Segunda Guerra Mundial, empenhou-se, em actividades educativas e sociais, com os sindicatos cristãos e organizou a União Católica dos Jovens Trabalhadores.  

Durante a guerra, tornou-se membro do Exército Nacional, o movimento de resistência clandestina da Polónia, servindo, como capelão, num hospital para revoltosos, em Laski, perto de Varsóvia.

Em 1946, o Papa Pio XII nomeou-o Bispo de Lublin e, dois anos depois, Arcebispo de Gniezno e Varsóvia.  

Em 1953, foi nomeado cardeal e, no mesmo ano, foi preso; libertado, em 1956, promoveu um acordo entre a Igreja e o governo de Gomulka, evitando, assim, a intervenção armada soviética, que se deu, pouco tempo depois, na Hungria.

A partir de 1957, preparou as solenes celebrações do milénio do cristianismo na Polónia, ocorridas em 1966. Líder da Igreja polaca por mais de trinta anos, esteve à frente da oposição ao comunismo, em defesa dos direitos humanos e dos trabalhadores, e viu reconhecido o seu papel como líder religioso e político com a eleição de João Paulo II. 

O Cardeal Wyszyński serviu como Primaz da Polónia até à sua morte, em Varsóvia, a 28 de Maio de 1981, poucos meses após a fundação do sindicato Solidarnosc, que levaria ao colapso do comunismo polaco em 1989.         

Entrando em conclave quatro vezes (1958, 1963 e duas em 1978), foi considerado, no segundo conclave de 1978, papável, mas, segundo algumas reconstruções, foi ele quem indicou, como sucessor do Papa Luciani, o Arcebispo de Cracóvia, Karol Wojtyła.   

A sua causa de beatificação foi aberta, em 1989, e, a 3 de Outubro de 2019, o Vaticano anunciou a aprovação de um milagre atribuído à intercessão do cardeal.   

O milagre diz respeito à recuperação, cientificamente inexplicável, em 1989, de uma jovem, de dezanove anos, afectada por um cancro da tiróide. Depois de os médicos terem dito que a doença era incurável, um grupo de freiras polacas começou a rezar pela cura, pedindo a intercessão de Wyszyński.         

A beatificação do cardeal estava marcada para 7 de Junho de 2020, em Varsóvia, mas, no final de Abril, decidiu-se adiá-la, para uma data a ser especificada, devido à pandemia de coronavírus.           

Durante o Ângelus dominical de 29 de Maio de 1994, João Paulo II, recém-saído da Policlínica Gemelli (onde esteve internado, durante vinte e nove dias, de 29 de Abril a 27 de Maio, devido à fractura do fémur da perna direita), dirigiu, aos fiéis, palavras, tornadas célebres, que sintetizam bem a sua relação com Wyszyński: «Gostaria que, através de Maria, fosse expressa, hoje, a minha gratidão por este dom do sofrimento ligado, novamente, ao mês mariano de Maio. Quero agradecer por este dom. Compreendi que é um dom necessário. O Papa tinha de estar na Policlínica Gemelli, tinha de se ausentar desta janela por quatro semanas, quatro domingos, tinha de sofrer: como teve de sofrer há treze anos [em 1981, depois do atentado, n.d.r], assim também este ano. Meditei, pensei sobre tudo isso, novamente, durante a minha hospitalização. E reencontrei ao meu lado a grande figura do Cardeal Wyszyński, Primaz da Polónia (cujo décimo terceiro aniversário da morte ocorreu ontem). No início do meu pontificado, ele disse-me: “Se o Senhor te chamou, deves introduzir a Igreja no Terceiro Milénio”. Ele mesmo introduziu a Igreja, na Polónia, no segundo milénio cristão. Assim me disse o Cardeal Wyszyński. E compreendi que devo introduzir a Igreja de Cristo neste Terceiro Milénio com a oração, com várias iniciativas, mas vi que não basta: era necessário introduzi-la com o sofrimento, com o atentado de há treze anos e com este novo sacrifício. Porquê agora, porquê neste ano, porquê neste Ano da Família? Precisamente, porque a família é ameaçada, a família é atacada. Deve ser atacado o Papa, deve sofrer o Papa, para que cada família e o mundo vejam que há um Evangelho, diria, superior: o Evangelho do sofrimento, com o qual se deve preparar o futuro, o terceiro milénio das famílias, de cada família e de todas as famílias».           

É difícil, hoje, não ter nostalgia destes gigantes da fé.     

Aldo Maria Valli          

Através de Radio Roma Libera

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

A conversão, a 20 de Janeiro de 1842, de Afonso Ratisbonne

A fisionomia de Afonso Ratisbonne é de uma pessoa que tomou uma resolução firme. O porte, o corpo, todo o conjunto é de um homem possante, que enfrenta qualquer dificuldade. Até pela postura das mãos e dos braços se percebe um homem de decisão forte.         

Não aparenta introspecção alguma, está completamente posto no mundo exterior, na objectividade, na verdade. Sem devaneios, pois entende que a vida não é feita de ilusões; tem o brio de um gigante na presença de Deus. Estes aspectos revelam a sua grandeza de alma.    

O P. Afonso Ratisbonne tem algo de bíblico, Moisés poderia ser assim. Esta fotografia é benfazeja, como também o é a de São Charbel Makhlouf. Mas a fisionomia de São Charbel lembra a de um profeta, enquanto a de Ratisbonne lembra muito a de um legislador.   

Como legenda desta fotografia, poder-se-ia escrever: o varão a quem apareceu Nossa Senhora do Milagre. Dessa aparição resultou a conversão que impregnou essa fisionomia com algo de exorcizante. Mil morcegos e mariposas da dúvida, da incerteza, da moleza, da introspecção e da cupidez fogem da presença dele.   

Este é um verdadeiro católico, nem um pouco tolo, pois sabe o que deseja. Compreende inteiramente a malícia dos revolucionários e como deve ser o combate aos maus. Era um homem riquíssimo, frequentava a melhor e mais alta aristocracia. A sua conversão do judaísmo ao catolicismo deslocou-o desse ambiente para tornar-se sacerdote. O amor que ele tinha a si mesmo, transferiu-o a Deus Nosso Senhor com todas as suas potencialidades colocadas inteiramente ao serviço do amor de Deus.      

Plinio Corrêa de Oliveira, in Catolicismo, n.º 841, Janeiro de 2021      

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Canadá, hospício rejeita a eutanásia. Despejo está próximo

O título poderia ser “Ou mata ou fecha”, mas descreveria apenas em parte o absurdo da história. Na Colúmbia Britânica, a mais ocidental das províncias do Canadá, há um hospício de inspiração cristã que foi forçado a enviar avisos de despedimento aos seus funcionários porque se recusa a praticar a eutanásia e está em processo de despejo. Falamos do Irene Thomas Hospice, uma estrutura, com dez camas, localizada na cidade de Delta e administrada pela Delta Hospice Society (DHS).     

O terreno onde fica o hospício, que opera desde 2010, é propriedade da Fraser Health – a autoridade sanitária local que atende cerca de 1,8 milhão de pessoas –, com a qual a DHS havia assinado, na época, um contrato de arrendamento e de serviço, com uma duração de 35 anos, incluindo empréstimos anuais para cobrir boa parte dos custos de funcionamento. Em 2020, a Fraser Health anunciou o cancelamento dos efeitos do referido contrato a partir de 25 de Fevereiro deste ano. E isto acontece, como explicaram os responsáveis da DHS, num comunicado à imprensa, «simplesmente porque nos recusamos a eutanasiar os nossos pacientes». 

A controvérsia surgiu na sequência da aprovação, em Junho de 2016, da chamada “Medical assistance in dying” (Maid), ou seja, a lei nacional sobre a eutanásia e o suicídio assistido. É prevista, no papel, uma forma genérica (não absoluta) de objecção de consciência, mas as províncias e os territórios do Canadá também podem fornecer regras adicionais em relação aos termos gerais da lei, desde que não entrem em conflito com o código penal (ver aqui).      

Desde que ocorreram tais mudanças, que viraram o paradigma de cuidado do paciente, a Fraser Health tem procurado impor a Maid, nas várias estruturas que se enquadram no seu raio de acção, com tácticas de “bullying”, como foram chamadas. Mesmo profissionais de destaque tiveram de se adaptar ou mudar de área. Como o Dr. Neil Hilliard que, a 19 de Dezembro de 2017, renunciou ao cargo de director do programa de cuidados paliativos da Fraser Health, não a partilhando a sua viragem mortífera e, em particular, a imposição da eutanásia mesmo nas unidades de cuidados paliativos e nos hospícios. Na carta com que agradecia aos colegas pelo apoio recebido em quatro anos de trabalho, Hilliard citou seja o pai dos cuidados paliativos no Canadá, Balfour Mount (ainda vivo e fortemente contrário à manipulação contida na expressão “morte medicamente assistida”), seja a fundadora dos modernos hospícios, a inglesa Cicely Saunders (+2005), que defendia a necessidade de uma autêntica relação de cuidado até à morte natural.

Voltando ao caso da Delta Hospice Society, o seu conselho de administração referiu que se, por um lado, «o fornecimento da Maid é, no Canadá, um serviço de escolha legal», por outro, «nada na legislação canadiana, no entanto, exige que a morte medicamente assistida esteja disponível em qualquer lugar, a qualquer hora e para todos». A mostrar o quão especiosa e persecutória é a acção contra a liberdade do hospício, há o facto de que, a poucos passos – menos de quinhentos metros –, está o Hospital Delta, que já pratica (infelizmente) a eutanásia. Em vez disso, «a Constituição da nossa Sociedade privada – explica a DHS – e o nosso compromisso com os cuidados paliativos impede-nos de oferecê-la [a eutanásia, n.d.r]. Nem o conselho de administração da DHS, nem a esmagadora maioria dos nossos pacientes e membros querem mudar isso», isto é, os princípios do hospício.

Precisamente à luz de tal cultura da vida, a DHS tentou obter o reconhecimento, pela via judicial, da possibilidade de rejeitar os pedidos dos doentes que pretendam aceder à estrutura, mas que sejam favoráveis à obtenção da “morte assistida” e, logo, em desacordo com a moral cristã, que está na base do mesmo hospício. Mas, até agora, foi uma tentativa em vão (em Novembro de 2020, o caso foi perdido no Tribunal de Apelo provincial), conforme refere o Vancouver Sun.    

Esta história recorda o abismo que traz consigo a ideia de que a morte procurada – isto é, o suicídio/homicídio – seja um “direito”. A alegada liberdade de uma minoria, quer dizer, a institucionalização da sua escolha (onde esta não seja imposta ao paciente) por um mal intrínseco – seja a eutanásia ou outras alegadas “conquistas” da sociedade moderna – traduz-se, gradualmente, numa obrigação generalizada, típica das ditaduras, de fazer o mal. Pelo menos, enquanto não houver uma providencial inversão de direcção.                     

Ermes Dovico    

Através de La Nuova Bussola Quotidiana       

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

O absurdo acontece

A pedido do próprio, o portal Dies Iræ publica uma mensagem que Artur Mesquita Guimarães, que ficou conhecido por, tal como é seu dever enquanto pai, não permitir que os seus filhos, brilhantes alunos, frequentassem a diabólica “disciplina” de “Cidadania e Desenvolvimento”. Como resultado, os estudantes foram reprovados por faltas e, desde então, tem-se arrastado um longo processo judicial. Rezamos por esta família e pedimos a todos os leitores que também o façam!

Brufe, Vila Nova de Famalicão, 10 de Janeiro de 2021

São inúmeras as pessoas que assistem com expectativa ao caso relacionado com os nossos filhos e a escola, que suscitou diversos artigos e notícias ao longo de todo o verão passado, pelo facto de os nossos filhos não frequentarem as aulas da disciplina, recentemente criada (ano lectivo de 2018/2019), de “Cidadania e Desenvolvimento”, conforme indicação que demos à escola oportuna e atempadamente – todo o desenvolvimento deste processo pode ser apreciado em www.plataforma-rn.org.        

Muitos dos nossos amigos e outras pessoas têm procurado saber qual a situação do processo!           

De facto, nós, sensivelmente de Outubro a esta parte, mantivemos silêncio sobre o assunto por respeito a uma tentativa de conciliação promovida pelo Tribunal Administrativo e Fiscal de Braga, onde intentamos uma acção contra o Ministério da Educação e o Agrupamento de Escolas Camilo Castelo Branco, de Vila Nova de Famalicão, tentativa cujas diligências decorreram ao longo de quase dois meses, sem que, efectivamente, fosse alcançado qualquer acordo.        

No âmbito deste processo, mercê das providências cautelares interpostas em simultâneo, foi suspensa a retensão e retrocesso do Tiago e do Rafael para o ano lectivo que frequentaram em 2018/2019 (do qual haviam transitado com média de “5”), conforme determinara o Despacho emitido pelo Sr. Secretário de Estado Adjunto e da Educação, Dr. João Costa.      

Até aqui, tudo previsível e nada de novo.     

Pela nossa parte, de consciência plenamente tranquila, aguardamos serenamente que se faça justiça!         

Agora, a novidade é que, curiosamente, fomos confrontados com um processo instaurado pela CPCJ no Ministério Público, pouco depois da caricata notícia vinda a público no Observador a 9 Setembro 2020[1] (nosso pronto comentário a esta notícia[2]) em que pouco mais de duas mãos cheias de deputados do PS se mostraram indignados por nem todos alinharmos na sua cartilha! O preço a pagar pela defesa dos nossos direitos, liberdades e garantias!

O absurdo acontece: os nossos filhos, Tiago e Rafael, foram efectivamente tomados como reféns pelo Despacho acima referido, emitido pelo Sr. Secretário de Estado Adjunto e da Educação, Dr. João Costa, num processo sem precedentes que até contraria a apregoada sensibilidade do Sr. Ministro da Educação do mesmo Governo quanto à discriminação dos jovens que, por qualquer motivo, fiquem retidos no ano lectivo!        

Lamentavelmente, por nos nortearmos pelos princípios da vida civilizada, vemo-nos a braços com acções de perseguição e de caracter intimidatório, perpetradas por organismos do Estado. No caso, na primeira linha esteve o Agrupamento de Escolas Camilo Castelo Branco, de Vila Nova de Famalicão que, ao contrário de se colocar ao serviço dos pais e das famílias, os tratam como inimigos.

Um escândalo!      

Pois bem, a todos os que nos acompanham e se preocupam com este processo, que afecta directamente a nossa família de forma séria e grave (chegará o momento em que alguém terá de responder por isto!), queremos manifestar o nosso sincero agradecimento e dizer-vos que o vosso estímulo nos anima, conforta e fortalece. 

Esperamos estar à altura das nossas responsabilidades e de sermos capazes de defender os nossos direitos, liberdades e garantias, pela obrigação que temos de proteger o bem e o melhor para os nossos filhos.      

Continuamos a contar com todo o vosso apoio.     

Artur Mesquita Guimarães



[1] https://observador.pt/2020/09/09/ps-questiona-intervencao-da-comissao-de-protecao-de-jovens-no-caso-da-disciplina-de-cidadania-e-desenvolvimento/

[2] https://www.plataforma-rn.org/2020/09/11/noticias-e-artigos-que-merecem-resposta/

A verdadeira mensagem cristã das catacumbas

Pela palavra “catacumbas” entende-se, muitas vezes, uma época da história; os três primeiros séculos da Igreja, quando os cristãos foram perseguidos, até que o Édito de Milão, do imperador Constantino (313 d.C.), lhes deu plena liberdade para praticar e difundir a própria fé. Os católicos progressistas contrapõem a Igreja das catacumbas, pobre e sofredora, à Igreja constantiniana, poderosa e conquistadora. Nessa linha, a 16 de Novembro de 1965, poucas semanas antes da conclusão do Vaticano II, foi assinado, por 42 Padres Conciliares, nas Catacumbas de Domitila, um “Pacto para uma Igreja serva e pobre”, de cunho filocomunista. O “Pacto das Catacumbas” foi publicamente comemorado, a dia 20 de Outubro de 2019, no mesmo lugar, por um grupo de bispos e leigos, que propuseram à Igreja um novo “Pacto das Catacumbas pela casa comum. Por uma Igreja com rosto amazónico, pobre e servidora, profética e samaritana”. O pacto sociopolítico da década de 60 tornou-se, assim, o pacto sócio-cósmico da era do Papa Francisco e de Greta Thunberg.

Do lado oposto, alguns conservadores elaboraram uma “filosofia das catacumbas”, segundo a qual, diante do inimigo que ataca, não se deve combater, mas esconder-se, como fizeram os cristãos dos primeiros séculos, que se teriam refugiado nas catacumbas para escapar das perseguições. Na realidade, os primeiros séculos da Igreja foram uma época de perseguições e de martírio, mas foram, precisamente por isso, uma época de luta, conduzida, primeiro, pelos Apóstolos e, depois, pelos seus sucessores, para cumprir o mandato de Cristo, que era o de difundir, abertamente, o Evangelho até aos confins da terra. A Igreja dos primeiros séculos não foi uma Igreja oculta ou clandestina; os cristãos eram conhecidos como tal, as autoridades (bispos, sacerdotes, diáconos) eram conhecidas, as ideias eram manifestas.          

Os cristãos viviam nas próprias famílias, exerciam as suas profissões, pagavam os impostos, serviam no exército, respeitavam as leis e rezavam pelo poder constituído, mas não veneravam o Imperador e não estavam dispostos a sacrificar aos ídolos pagãos. Esta foi a razão pela qual foram julgados “inimigos do Estado” (hostes publici) e perseguidos. As catacumbas não eram lugares escondidos onde os cristãos se ocultavam, mas cemitérios, áreas sepulcrais onde eram sepultados. O direito romano, de facto, reconhecia, indiscriminadamente a todos, o Jus sepulchri, mesmo aos condenados, cujos restos mortais o juiz poderia mandar entregar a quem os solicitasse para o sepultamento.    

O termo catacumbas vem do grego katà (próximo) e kumbas (lugar profundo) e surge do facto de que, no início do século III, um grupo de cristãos conseguiu escavar, numa depressão do terreno da Via Ápia, regina viarum, uma rede de galerias subterrâneas para estabelecer um cemitério. Toda a zona era chamada “perto do vale” e o nome “catacumbas” vem, por isso, do aspecto do lugar. Aqui foi deposto o mártir São Sebastião e, desde o ano 258, venera-se uma memória dos Apóstolos Pedro e Paulo. Depois do século IV, a palavra catacumbas passou a indicar, genericamente, os cemitérios cristãos, onde os defuntos aguardavam, na terra, o supremo despertar. O dogma da ressurreição, que constituía o fulcro da fé da Igreja nascente (1 Cor 15, 5-8), era um dos conceitos mais difíceis para os pagãos, como nos atesta Tertuliano (De ressurrectione carnis, 2: Migne, PL 2, 843).

O desenvolvimento das primeiras comunidades cristãs de Roma é documentado pela multiplicação dos seus cemitérios nas estradas consulares. As catacumbas de São Calisto, na Via Ápia, como as de São Sebastião, foram o cemitério oficial da Igreja de Roma no século III. Cerca de meio milhão de cristãos foram nele enterrados, incluindo centenas de mártires e dezasseis pontífices. O seu nome vem do diácono que, no início do século III, foi preposto, pelo Papa Zeferino (199-217), «guardião e administrador da catacumba» (cf. Antonio Baruffa, Le catacombe di San Callisto. Storia-Archeologia-Fede, 5.ª ed., Libreria Editrice Vaticana, Cidade do Vaticano, 2004). Além disso, na primeira metade do século III, Roma foi dividida em sete regiões eclesiásticas. Cada uma delas recebeu locais de culto e diversas catacumbas para o sepultamento dos cristãos. Aumentavam as galerias, mas como eram limitadas as áreas em superfície, abriam-se novas escadas para descer ainda mais profundamente no terreno.      

Um precioso calendário ilustrado, denominado Cronógrafo de 354, contém dois elencos ditos depositio Episcoporum e depositio Martyrum, nos quais, com exactas indicações topográficas, são indicados os locais e os dias das comemorações litúrgicas dos mártires cristãos. Entre os cemitérios cristãos de Roma são mencionados os de Balbina, Bassilla, Massimo, Ponziano, Pretestato, Trasone, correspondendo a nomes de privados cristãos que colocaram a área sepulcral de família à disposição dos fratres. Desde a primeira pregação, efectivamente, o Evangelho havia penetrado em algumas famílias nobres e ricas que dividiram, caridosamente, os seus túmulos, bastante amplos, para acolher a sua nova parentela espiritual.        

Roma acolhe, em quase todos os cemitérios, as testemunhas da fé cristã: mártires são aqueles que deram testemunho de Cristo com o sacrifício da vida, confessores são aqueles que, salvando-se, proclamaram a própria fé.       

Foi dito que os cemitérios cristãos de Roma são o monumento mais notável da caridade exercida pela comunidade primitiva. Tertuliano escrevia, no seu Apologeticum, que a comunidade cristã recolhia as ofertas espontâneas dos fiéis (egenis alendis humandisque) e Hipólito, que dedica um parágrafo inteiro da sua Apostolica Traditio aos cemitérios, recomenda não cobrar uma taxa alta demais para o sepultamento, porque o cemitério pertence a todos os pobres e o bispo deve manter aqueles que cuidam deste lugar, para que não dependam dos que ali estão depostos. Lactâncio declara, por sua vez: «Jamais toleraremos que uma criatura feita à imagem de Deus seja lançada aos animais ou às aves de rapina, mas restitui-la-emos à terra de onde foi tirada; também para um desconhecido cumpriremos o ofício que caberia aos seus familiares, porque, na sua ausência desses, toma o lugar a caridade» (Divin
æ Institutiones VI, 12: Migne, PL 4, 682).          

Roberto de Mattei      

Através de Radio Roma Libera

domingo, 17 de janeiro de 2021

A história de Santo André, em afresco, em Roma

«No dia seguinte, João encontrava-se de novo ali com dois dos seus discípulos. Então, pondo o olhar em Jesus, que passava, disse: “Eis o cordeiro de Deus!”. Ouvindo-o falar desta maneira, os dois discípulos seguiram Jesus» (Jo 1, 35-37).     

Sant’Andrea della Valle é uma basílica do centro histórico de Roma, construída onde se encontrava a Igreja de São Sebastião Mártir, local presumido da sua primeira sepultura. Vangloriando-se da categoria de basílica menor, existe o homónimo título cardinalício e é oficiada, hoje como então, pelos Clérigos Regulares Teatinos, uma ordem, nascida nas primeiras décadas do século XVI, para restaurar as primitivas regras da vida apostólica. Na verdade, é intitulada a um apóstolo: André, irmão de Simão Pedro, que foi discípulo de João Baptista antes mesmo de o ser de Jesus.      

A construção do espaço interior, com nave única com transepto e capelas laterais, mostra-se como um típico exemplo do espírito contra-reformista, enquanto a sua decoração deve ser considerada uma perfeita expressão do barroco romano: especialmente na zona do presbitério onde, na segunda década do século XVII, trabalharam dois mestres, ambos emilianos, Domenico Zampieri, conhecido como o Domenichino, e Lanfranco. E se a este último se deve a extraordinária vista da cúpula, mérito do primeiro são os afrescos da abóbada e do arco absidal.

A iminente celebração do Jubileu de 1625 foi a ocasião em que o Cardeal Alessandro Peretti Montalto, sobrinho de Sisto V, encomendou os afrescos ao bolonhês Zampieri que, tendo montado os andaimes em 1623, os removeu, definitivamente, em 1628. Domenichino distribuiu as histórias de André, como se fossem quadros, dentro de partituras definidas por preciosos estuques dourados, conferindo uma precisa ordem à narração. A Glorificação do Santo, na luneta, é a conclusão de uma vida vivida no seguimento de Cristo, pelo amor de Quem André passou pela experiência do martírio, devidamente referido pelo fresquista. Tudo começou, porém, num preciso instante, no momento em que ele viu Jesus pela primeira vez.

Como acontece sempre, é outra pessoa que nos diz para onde olhar: no centro da cena, o Baptista, sentado sobre uma rocha, com o braço direito estendido para Cristo, que aparece nas costas, mostra a André e a um outro discípulo Quem seguir. A outra mão, batendo no peito, torna explícita esta mensagem: já não ele, mas um Outro, Aquele que se vê ao longe. Um cordeiro aos pés de João faz ecoar, em primeiro plano, as suas conhecidas palavras: “Ecce Agnus Dei!”.

A paisagem rochosa, o verde escuro dos ramos da árvore, entre os quais se avista o leito do rio Jordão, o céu sulcado por um turbilhão de nuvens carregadas de chuva, amplificam a gravidade do momento em que a presença de um anjo em voo, por pouco realista, confere a certeza da presença divina.       

Que André compreende, como se pode ver pelos seus braços estendidos em sinal de total confiança. A Verdade, quando a encontramos, reconhece-se e não se pode silenciar: o gesto do apóstolo envolve, de facto, o seu companheiro mais hesitante, para que também ele, finalmente, veja.   

Margherita del Castillo       

Através de La Nuova Bussola Quotidiana   

sábado, 16 de janeiro de 2021

Quando os bispos portugueses decidiram hibernar...

No passado dia 14 de Janeiro, um dia depois de terem sido comunicadas, pelo Governo português, as medidas para o novo “confinamento geral” e quando a Igreja, segundo a liturgia tradicional, fazia memória de Santo Hilário, corajoso bispo do século IV, os, pelo contrário, temerosos bispos portugueses, por meio de um comunicado do Conselho Permanente da supervacânea Conferência Episcopal, ordenaram a suspensão ou o adiamento, «para momento mais oportuno, quando a situação sanitária o permitir»[1], dos Baptismos, dos Crismas e dos Matrimónios. Mesmo que o Governo socialista (pasme-se!) tenha “permitido” as celebrações religiosas, os lânguidos prelados optaram, «conscientes da gravíssima situação de pandemia que vivemos neste momento»[2], por se tornar, uma vez mais, subservientes aos poderes mundanos, descurando, assim, por completo, a reverência e a obediência que devem a Deus e que juraram aquando da ordenação sacerdotal. Já se percebeu que, desafortunadamente, os bispos lusos, sem qualquer excepção, preferem dar-se bem com todos em detrimento da defesa dos direitos divinos e da salvação das almas. De mais a mais, não foi por acaso que, por ocasião da protestantizante “reforma litúrgica”, a festa de Cristo Rei, que até então se celebrava no último domingo de Outubro, foi mudada para o final do ano litúrgico. Há muito que, para estes clérigos, a realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo foi mandada para canto.      

Procurando “escudar-se” com a desculpa do COVID-19, que dá imenso jeito para muita coisa, os bispos privam as crianças de serem baptizadas, esquecendo-se, supõe-se, que a salvação das almas não ficou suspensa enquanto esta «gravíssima situação de pandemia»[3] se mantiver. Bem pelo contrário, esta é mais uma oportunidade que Deus nos dá para nos arrependermos e convertermos. Por acaso, alguém se esqueceu dos tantos doentes que morreram sem os últimos Sacramentos? Onde estava a Conferência Episcopal quando os capelães hospitalares foram proibidos de administrar os Sacramentos aos enfermos e moribundos? Onde estava a Conferência Episcopal quando os párocos, salvo raras e edificantes excepções, fecharam as suas igrejas e se evaporaram das comunidades que lhes foram confiadas? É a esse “cheiro a ovelha” que se referem? Nesse caso, ao contrário daquilo que disse Nosso Senhor, os pastores preferiram, em nome da saúde do corpo, abandonar à própria sorte o seu rebanho, comprometendo, deste modo, e em muitos casos irremediavelmente, a saúde da alma! Falharam, falharam em toda a linha e só voltaram, de forma sorrateira, quando se aperceberam da enorme quebra económica que os atingiu. De vez em quando, convém avivar a memória: «Está escrito: A minha casa há-de chamar-se casa de oração, mas vós fazeis dela um covil de ladrões» (Mt 21, 13). E o que dizer, então, da suspensão ou do adiamento dos Baptismos? Como me dizia um sacerdote, por ocasião da publicação do ominoso texto episcopal, teria sido esta a ocasião adequada para se fazer catequese e consciencializar os pais e educadores das crianças para o dever de as baptizarem mesmo na ausência de um sacerdote. Diz o Código de Direito Canónico, na versão de 1983: «Na ausência ou impedimento do ministro ordinário, baptiza licitamente o catequista ou outra pessoa para tal designada pelo Ordinário do lugar, e mesmo, em caso de necessidade, qualquer pessoa movida de intenção recta; os pastores de almas, em especial o pároco, sejam solícitos em que os fiéis aprendam o modo correcto de baptizar» (861 § 2). Ora, os pastores não só não consciencializaram os fiéis deste dever moral, como não falam dele. Pecam por omissão, assim como peca contra a caridade todo aquele que condena uma criança a viver na incerteza do seu destino último!                    

Como se pode constatar, os bispos decidiram hibernar e, a par disso, optaram por confinar os Sacramentos, principalmente aquele que é imprescindível para a salvação da alma. Desgraçadamente, estão mais preocupados com o COVID-19 do que com os 48 milhões de bebés que, em 2020, foram brutalmente assassinados, pelo aborto, no ventre materno. Logo, o que mais importa, pelo que vemos, é ser submisso ao príncipe das trevas do que ao Rei dos Reis! Oportunas são, nesta ocasião, as palavras do já aludido Santo Hilário: «Tu combates contra Deus, tu desembestas-te contra a Igreja, tu persegues os santos, os pregadores de Cristo, tu esmagas a religião, tirano não mais em matéria profana, mas em matéria religiosa»[4]. A Santíssima Virgem, porta do céu, nos livre de, em momento algum, estas palavras nos serem dirigidas!                

D.C. 



[1] http://www.conferenciaepiscopal.pt/v1/comunicado-do-conselho-permanente-da-cep-sobre-o-novo-confinamento-c-audio/

[2] Idem.

[3] Idem.

[4] Contra Constantium Augustum liber.

Quatro lições a tirar, à esquerda, da violência no Capitólio

A violência no Capitólio já entrou na história como um evento dramático e de carácter emotivo. O debate sobre as temáticas e os detalhes envolvidos ainda enfurece. Todavia, no tribunal da opinião pública, a narrativa final reflecte-se, negativamente, sobre o presidente Trump e os seus apoiantes.

Independentemente do valor das questões em discussão, é possível tirar deste incidente algumas lições à esquerda. Estas lições deveriam orientar a acção futura, pois as regras do jogo da futura administração exigirão aos conservadores que ajam com sabedoria e discernimento. A forma como a esquerda capitalizou este incidente deveria servir para tornar mais cautelosa a direita.

O relativismo moral da esquerda         

A primeira lição a aprender é que as formas de funcionamento da esquerda são diferentes daquelas da direita. O relativismo moral da esquerda permite-lhe que seja selectiva ao qualificar algo como errado. A esquerda radical ensinou sempre que o fim justifica os meios. Os seus seguidores acreditam que não exista, objectivamente, certo ou errado. Tudo o que faz avançar a sua revolução é moral e louvável; tudo o que estorva a revolução deve ser desprezado e caluniado.

Logo, o ataque ao Capitólio foi um acto errado que deve ser censurado. Porém, não esperem que esta censura seja aplicada a todos os actos desse género. Não serve de nada confrontar o incidente no Capitólio com as centenas de revoltas, “geralmente pacíficas”, aprovadas pela esquerda e que causaram danos, estimados em 2 biliões de dólares, durante o Verão. Os conservadores apontarão em vão milhares de citações e vídeos inflamados de políticos esquerdistas que justificam e corroboram a agitação civil durante 2020. Para a esquerda, não fará diferença alguma, já que aquelas acções favoreceram a sua revolução.

Este é o modo de agir da esquerda. Não é correcto, mas é assim.       

Não esperem que a esquerda seja coerente, porque o seu relativismo moral permite-lhe que escolha o que defende. Não esperem que estejam comovidos com as feridas e as mortes das vítimas conservadoras, pois esses pobrezinhos não têm valor algum na sua narrativa revolucionária.

Portanto, os conservadores dever-se-iam comportar sabendo que os seus actos serão injustamente examinados e que a esquerda infringirá as regras impunemente.    

Para a esquerda, apenas a direita deve ser responsabilizada         

A segunda lição é que o relativismo moral da esquerda desaparece quando se julgam as acções da direita. Na verdade, a esquerda radical cravará a direita aos mais altos padrões da moralidade cristã (nos quais não acredita nem segue). O seu nível de indignação moral para com os erros da direita será sempre inversamente proporcional à sua indiferença para com a violência de esquerda. A esquerda não apenas tomará nota de cada erro da direita, mas também fará com que uma boa crise não seja desperdiçada.    

Quando a direita fizer algo de errado ou ilegal, esperem que os media e a esquerda hipócritas caiam, sob estas acções, com fúria e que rasguem as vestes. Nenhuma quantidade de desculpas será suficiente para redimir seja quem for. Nenhuma quantidade de respeitos dirigidos aos media liberal os fará esquecer.

A esquerda sabe que a direita não é moralmente relativista e admitirá os próprios erros como tal. Portanto, os conservadores deveriam agir sabendo que serão julgados de acordo com este duplo padrão. Verificando-se um erro, deveriam admiti-lo com calma, mas sem permitir que isso oprima e domine o debate.          

Não responder do mesmo modo           

A terceira lição é que a direita nunca pode adoptar a táctica e o modus operandi da esquerda. Tais acções são contrárias às suas convicções morais e estão destinadas ao fracasso. Qualquer falha no relativismo moral priva os conservadores da força da sua causa, que reside na estrita adesão à lei moral.           

À vista disso, se a esquerda recorre a mentiras, vulgaridades e insultos para difamar indivíduos ou causas, a direita não pode responder do mesmo modo. Tais meios actuam em sentido oposto aos fins que deveriam orientar as suas acções. Os conservadores não podem recorrer a revoltas e violências simplesmente porque a esquerda se serve de tais crimes.         

Deve ser mantida uma oposta política de discurso civil e cortês. Esta política não exclui respostas firmes, enérgicas e até apaixonadas. Todavia, deve ser sempre regida pela razão. Na verdade, adoptar uma atitude forte eleva o debate e atrai a opinião pública.         

Os mais altos padrões de comportamento  

Finalmente, a melhor maneira de os conservadores vencerem o debate é estar à altura dos mais altos padrões de comportamento. Não devem dar pretextos à outra parte para atacá-los. O melhor modo de promover a causa é fazer um apelo racional a fortes princípios morais. Uma nobre reacção impressionará sempre mais o público do que uma multidão alquebrada. 

Por este motivo, quanto mais clara for a mensagem, melhor. Quanto mais baseada em princípios for uma posição, maiores são as possibilidades de sucesso. Quanto menos pessoal for o ataque, maior será o impacto que terá. Não se deveriam secundar nem os absurdos politicamente correctos, nem a identity politics (n.d.r.: políticas a favor das minorias activistas como LGBT, Black Lives Matter, Cancel Culture, etc.).       

A esquerda continua a esconder os seus objectivos e a obscurecer a sua nefasta mensagem. A melhor maneira para a vitória é insistir na mensagem. A esquerda perde quando os seus objectivos são denunciados (como tirar os fundos à polícia ou promover o socialismo). Os conservadores devem perseverar em discutir estes objectivos e as doutrinas a eles associadas. Devem evitar os debates que degeneram em ataques ou insultos pessoais em série.        

Uma atitude ponderada de acção deliberada        

O que é necessário é uma atitude ponderada de acção deliberada com um tom “washingtoniano” (n.d.r.: George Washington era conhecido pelo seu tom elevado e sóbrio). O futuro pertence àqueles que não têm medo de afirmar (e praticar) a moral cristã, denunciar os esquemas socialistas e desafiar o politicamente correcto.    

O establishment esquerdista e os media afirmam que estas posições são retrógradas e pouco atraentes. Não obstante, se apresentadas de modo enérgico e sem complexos, têm um imenso fascínio, pois baseiam-se na natureza humana e na lei moral. A condição humana é adequada e atraída pelo comportamento moral, já que conduz à unidade e à harmonia. O pecado e o vício agem contra a natureza enquanto levam à desarmonia e à autodestruição.  

No meio da crise que a América está a enfrentar, torna-se mais crucial do que nunca confiar em Deus. Dado que o pecado agora domina a sociedade, as soluções meramente humanas falharão. Apelar a Deus e à sua Santíssima Mãe é o único modo para se afastar do caminho para o desastre. Qualquer outra estratégia política que exclua este apelo está destinada a falhar.          

John Horvat II 

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