sexta-feira, 22 de maio de 2020

O juízo de Deus na história (I)


Terra infecta est ab habitatoribus suis,
propter hoc maledictio vastabit terram
Isaías 24, 6

Na época do coronavírus pode-se falar de tudo, mas há certos temas que continuam a ser proibidos, sobretudo no mundo católico. O principal desses temas é talvez o do juízo e da retribuição divina na história. A existência desta censura é uma boa razão para abordar o assunto.             

O Reino de Deus e a sua justiça 

Não parto do Antigo Testamento, onde as referências aos castigos divinos são inúmeras, mas das próprias palavras de Nosso Senhor, que nos diz: «Procurai primeiro o Seu reino e a Sua justiça e tudo o mais se vos dará por acréscimo» (Mt 6, 33).  

Estas palavras do Evangelho são um programa de vida para cada um e recordam-nos uma das bem-aventuranças: «Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados» (Mt 5, 6).            

A noção de justiça é uma das primeiras noções morais da nossa razão: os filósofos definem-na como a inclinação da vontade de dar a cada um o que lhe é devido. O desejo de justiça está no coração de cada homem. Nós não procuramos apenas o que é verdadeiro, bom, bonito, mas também o que é justo. Toda a gente ama a justiça e detesta a injustiça. E como o mundo está cheio de injustiças e a justiça humana, aquela administrada pelos tribunais, é imperfeita, aspiramos a uma justiça perfeita, que não existe na terra e que somente em Deus podemos encontrar.     

O mais célebre processo da história, o de Nosso Senhor Jesus Cristo, sancionou a mais clamorosa injustiça de todos os tempos. Mas Deus é infinitamente justo, porque dá infalivelmente a cada um o seu. A beleza do universo está na sua ordem e a ordem é o reino da justiça, porque a ordem é dar a cada coisa o seu lugar e a justiça é dar a cada um o seu: unicuique suum, como estabelecia o direito romano.                   

Roberto de Mattei            

Através de Corrispondenza Romana

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (XXII)


O primeiro capítulo do Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, de São Luís Maria, foi um crescendo, até aos últimos números, do 47 ao 49, dedicado aos apóstolos dos últimos tempos. No segundo capítulo do Tratado, expõe algumas verdades fundamentais que nos ajudam a compreender em que coisa consiste exactamente a verdadeira devoção a Maria.           

As verdades fundamentais, expostas pelo santo, são as seguintes:     

A primeira verdade (nn. 61-67): Jesus Cristo é o fim último da devoção à Santíssima Virgem.

A segunda verdade (nn. 68-77): nós pertencemos a Jesus Cristo e a Maria na qualidade de escravos.      

A terceira verdade (nn. 78-82): devemos esvaziar-nos do que há de mau em nós, porque «as nossas melhores acções são manchadas e corrompidas pelo mau fundo que há em nós» (n. 78).   

A quarta verdade (nn. 83-86): precisamos de um mediador junto do próprio Mediador, que é Jesus Cristo. «Para ir a Jesus é preciso ir a Maria, é ela a nossa mediadora de intercessão; para ir ao Pai Eterno é preciso ir a Jesus, o nosso mediador de redenção» (n. 86).                  

A quinta verdade (nn. 87-89): é-nos muito difícil conservarmos as graças e os tesouros recebidos de Deus. A fidelidade a Deus é um milagre da graça e esse milagre não é possível sem Maria. Só Maria nos pode ajudar a conservar a graça de Deus.  

Debrucemo-nos sobre a terceira verdade, porque se não nos esvaziamos do que há de mau em nós, se não adquirimos a virtude da humildade, se não abrimos o nosso coração ao Espírito Santo, não podemos avançar na compreensão mais profunda da mensagem do Tratado.        

Os números 78 e 79 estão entre os mais radicais da obra de Montfort, porque contrapõem a verdade do pecado original e das suas consequências à utopia do homem bom difundida pelo humanismo e pelo iluminismo. Leiamos as duras, mas salutares, palavras de São Luís:

«Para nos esvaziarmos de nós mesmos, é preciso, em primeiro lugar, conhecer bem, pela luz do Espírito Santo, o nosso mau fundo, a nossa incapacidade para qualquer bem útil à salvação, a nossa fraqueza em todas as coisas, a nossa inconstância permanente, a nossa indignidade de toda a graça, a nossa iniquidade em toda a parte. O pecado do nosso primeiro pai, a todos e quase por completo, nos estragou, nos azedou, nos inchou e nos corrompeu, como o fermento lançado na massa a faz azedar, inchar e corromper. Os pecados actuais por nós cometidos, quer mortais quer veniais, ainda que já perdoados, aumentaram-nos a concupiscência, a fraqueza, a inconstância e corrupção, e deixaram os seus maus restos na nossa alma» (n. 79).  

Continua o santo: «A tal ponto os nossos corpos estão corrompidos, que são chamados pelo Espírito Santo corpos do pecado, concebidos no pecado, alimentados no pecado e capazes de tudo, corpos sujeitos a mil enfermidades, que se corrompem de dia para dia e que não geram senão corrupção, sarna e vermes».

Antes de falar das nossas almas, o santo fala dos nossos corpos, porque é neles que se veem de forma mais evidente as consequências do pecado original: os sofrimentos físicos, a doença, a morte. O nosso corpo, depois do pecado, tem em si um germe de desintegração física que o leva à decadência e à separação da alma, o seu princípio vital. Nesta separação da alma do corpo consiste a morte e a morte é a consequência do pecado. O pecado introduziu no mundo todos os germes de decomposição e de morte que estão diante dos nossos olhos, mas dos quais, por vezes, temos dificuldade em reconhecer a verdadeira causa.       

Roberto de Mattei      

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Sobre a comunhão eucarística em tempos de coronavírus



O recente acordo sobre o recomeço das celebrações litúrgicas com participação do povo causou, com as suas disposições, inquietação e desorientação em muitos fiéis. Há, portanto, muitas perguntas sobre o comportamento a ser seguido na situação sem precedentes que surgiu desde 18 de Maio de 2020 [em Portugal, as Missas com o povo recomeçarão a 30 de Maio, n. d. r.]. Como o problema tocas múltiplos âmbitos (teológico, jurídico, litúrgico, moral), não é possível fornecer uma única indicação a ser aplicada obrigatoriamente em todos os casos. Partindo de uma constatação incontestável (a ilegitimidade do acordo), tentámos definir alguns pontos fixos que lhe permitirão orientar-se nesta espinhosa circunstância. O autor é um distinto teólogo.     

***

Ocorre, antes de mais, observar que as disposições governativas sobre o recomeço das celebrações com o povo são absolutamente nulas: as autoridades civis não têm competência alguma em matéria de culto religioso; os representantes da Conferência Episcopal, por sua vez, não têm jurisdição nem sobre os bispos, nem sobre os sacerdotes, nem sobre os fiéis. Cada bispo, desde que esteja em comunhão com o Papa, é soberano na sua diocese pelo que compete à sua autoridade; em tal autoridade, todavia, não se enquadra o que é estabelecido pelas rubricas do Missal, que são lei para toda a Igreja e só podem ser modificadas pela Santa Sé, ou por sua própria iniciativa ou em resposta a eventuais pedidos dos bispos (rescriptive). A Santa Sé, por outro lado, tem faculdade apenas sobre os elementos não essenciais dos ritos, não sobre a sua substância imutável. As rubricas do Missal não dizem nada sobre o uso de luvas na celebração da Missa. No rito tradicional, o bispo, na primeira parte da missa pontifical, veste as quirotecas, mas retira-as antes de aceder ao altar para a parte sacrifical. Disto deduz-se que, segundo a Tradição eclesiástica, da qual a liturgia é testemunho qualificado, a Hóstia consagrada pode ser tocada só com as mãos nuas: a razão é que os fragmentos podem permanecer presos aos dedos que a seguram, motivo pelo que, depois da consagração do Pão, o sacerdote mantém unidas as pontas dos dedos do polegar e do indicador até que, terminada a comunhão, os purifique no cálice, bebendo depois o vinho e a água com que os purificou. O uso de luvas de látex, à luz de quanto se expôs, deve ser absolutamente excluído, salvo se se admitir a aberrante ideia de purificá-las no cálice que conteve o Sangue de Cristo. Além disso, o Corpo sacramental do Senhor, sendo o que de mais precioso a Igreja possui em absoluto, não pode certamente ser tocado com material desprezível que será colocado no lixo, mas apenas pelas mãos consagradas do sacerdote que, precisamente por isso, as lava imediatamente antes da Missa e não pode usá-las a não ser para actos bons ou indiferentes. Para além disso, todos os vasos sagrados, por respeito pelo que devem conter, são obrigatoriamente dourados; também disto se deduz que colocar voluntariamente as Espécies Sagradas em contacto com materiais vis é um atentado à sua sacralidade, isto é, um acto sacrílego em sentido amplo.

A distinção entre a substância (o Corpo de Cristo) e os acidentes (as espécies consagradas) não resolve o problema. Na Eucaristia, por um milagre permanente da omnipotência divina, persistem as aparências do pão e do vinho, mas essas já não permanecem nas respectivas substâncias do pão e do vinho, mas na do Corpo e Sangue do Filho de Deus feito homem e morto na cruz; o substrato ontológico (subiectum) a que pertencem já não é o seu, mas um outro, do qual são a tal ponto inseparáveis
​​que, uma vez destruídas as espécies, já não existe o Sacramento. Portanto, tocar a espécie não significa tocar apenas os acidentes, mas tocar a substância, embora esta última não seja visível em si mesma. Nalguns milagres eucarísticos, mesmo recentes, a espécies do pão mostrou a realidade: tecido muscular cardíaco de um homem sujeito a grave violência. Ora, o fiel que se encontre a assistir a uma Missa em que o sacerdote use luvas de látex para segurar e distribuir o Corpo de Cristo não tem a menor responsabilidade, pois não tem faculdade alguma para evitá-lo e não coopera positivamente naquela acção intrinsecamente má; no entanto, se pode participar facilmente numa Missa em que tal não aconteça, tem o direito de manifestar a sua própria desaprovação, evitando assistir a um acto que escandaliza a sua consciência. Também o sofrimento de ver o Senhor tratado de maneira, ao menos, irreverente é uma razão mais do que válida para ir a outro lugar, podendo fazê-lo, pelo menos depois de ter tentado persuadir o sacerdote a evitar o uso das luvas. A caridade pode sugerir várias maneiras de ajudar os ministros sagrados, com respeito e delicadeza, a tomarem consciência da responsabilidade que deles depende, não apenas para com Deus, mas também para com os fiéis.  

Nem o bispo nem, com muita mais razão, o sacerdote podem impor a comunhão na mão. A lei universal da Igreja estabelece a comunhão na língua como a forma ordinária, que apenas se pode derrogar quando a conferência episcopal o tenha solicitado e obtido licença da Santa Sé. Um bispo ou um sacerdote que imponha a comunhão na mão pode ser denunciado à Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, que tem a obrigação de intervir para chamar a parte interessada a cumprir as normas vigentes. Ninguém se deve sentir forçado na consciência a sofrer um tão grave abuso; se não obtém nada nem com a persuasão, nem com a denúncia, os fiel deve abster-se de comungar e recorrer a um sacerdote de confiança que lhe administre a comunhão na boca fora da Missa.

Não é necessário comungar para cumprir o preceito, nem a participação na Missa é imperfeita sem a comunhão; somente uma vez por ano os católicos têm a obrigação comungar, ou seja, na Páscoa (compreendendo todo o período pascal até ao Pentecostes). Na impossibilidade de receber a Eucaristia duma maneira adequada ao mistério, os fiéis podem fazer a comunhão espiritual. Abster-se da comunhão para não recebê-la na mão não é pecado, dado que não se está a repelir o Senhor, mas a rejeitar um modo de distribuí-Lo que repugna à fé e expõe o Santíssimo Sacramento a uma profanação involuntária que consiste na dispersão acidental de fragmentos. Sendo tal eventualidade altamente provável, é difícil considerá-la totalmente involuntária.          

Em síntese, as normas emitidas sobre o recomeço das celebrações com o povo não obrigam ninguém a nada, nem a nível civil, nem a nível moral ou canónico. O não cumprimento, por parte do sacerdote ou do fiel, não constitui pecado, nem sequer venial, dado não haver alguma racional hipótese de um maior risco de contágio se a Eucaristia for administrada correctamente; a recepção na língua, pelo contrário, continua a ser o método mais seguro também do ponto de vista sanitário, dado que o sacerdote é obrigado a lavar as mãos antes da Missa e deve, em qualquer caso, evitar tocar na língua dos fiéis. Portanto, ninguém se deve sentir obrigado a comungar num modo que a sua consciência não possa aceitar; por outro lado, quem aceita fazê-lo, porque de outra forma não pode aceder ao Sacramento, não comete pecado desde que tenhamo máximo cuidado para evitar a dispersão de fragmentos da Hóstia consagrada. A este propósito, o uso de um lenço de linho ou de um pratinho dourado não é resolutivo, dado que o fiel é obrigado a purificá-los imediatamente dos eventuais fragmentos, mas não tem nem a faculdade nem os meios, enquanto que o sacerdote purifica imediatamente, no cálice, a patena e o prato. Até agora, a perspectiva limitou-se às obrigações morais no sentido estrito; isto não exclui, todavia, que o zelo da fé e o ardor da caridade possam ir além do que é estritamente devido e exijam de alguns uma resposta mais radical: não apenas a rejeição absoluta, mas também a activa luta contra normas totalmente irracionais e ilegais que ultrajam o Santíssimo Sacramento, humilham a Igreja e pisam os direitos dos fiéis. As consequências judiciais e canónicas que tal escolha pode comportar são meios aptos para a obtenção da virtude heróica; de qualquer forma, as sanções civis ou eclesiásticas em que se pode incorrer não valem minimamente o que está em jogo, isto é, o respeito pela Presença Real e a fé dos católicos.    

O zelo autêntico não está separado daquela prudência sobrenatural que faz ter em conta o facto que muitos sacerdotes possam estar subjectivamente de boa fé, convencidos de cumprir a vontade de Deus obedecendo a disposições superiores que supõem, ainda que erroneamente, ter em vista o bem comum; portanto, ninguém se deve sentir autorizado a comportamentos inspirados pela agressividade ou pelo desprezo. Não esqueçamos que o juízo sobre as consciências pertence unicamente a Deus e que as mudanças interiores são sempre possíveis, mas requerem a ajuda da Sua graça; é por isto que nunca se rezará o suficiente pelos ministros sagrados e pelos seus superiores.

Através de Corrispondenza Romana

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (XXI)


O primeiro capítulo do Tratado termina com estas palavras, aplicadas aos apóstolos dos últimos tempos, que merecem ser meditadas com atenção pela força e pela verdade que as inspira:        

«Sabemos, enfim, que serão verdadeiros discípulos de Jesus Cristo, que seguirão as pegadas da sua pobreza, humildade, desprezo do mundo e caridade. Ensinarão o estreito caminho de Deus na completa fidelidade à verdade, segundo o santo Evangelho e não segundo as máximas do mundo, sem se desinquietarem e sem fazerem acepção de pessoas, e não hão-de poupar, escutar nem temer nenhum mortal, por poderoso que seja. Terão nos lábios a espada de dois gumes que é a palavra de Deus, e levarão aos ombros o estandarte sangrento da cruz, o crucifixo na mão direita, o terço na esquerda, os sagrados nomes de Jesus e Maria no coração, a modéstia e a mortificação de Jesus Cristo em toda a sua conduta.

Eis os grandes homens que hão-de vir, mas será Maria a moldá-los, por ordem do Altíssimo, para estender o seu império sobre o dos ímpios, idólatras e maometanos. Mas quando e como acontecerá isto?... Só Deus o sabe. Quanto a nós, apenas nos cabe calar, rezar, suspirar e esperar: Expectans expectavi
» (n. 59).    

A missão dos apóstolos dos últimos tempos é, portanto, uma missão de pregação, São Luís já o disse no número 58, e de ensino, reafirma-o no número 59: pregação e ensino numa sociedade em que a palavra de Deus é abandonada mesmo pelos homens da Igreja, que têm o dever principal de ensinar e de pregar. Os apóstolos dos últimos tempos não pretenderão substituir os homens da Igreja e nem sequer serão presunçosos e exibicionistas nas suas pregações, mas caracterizados por humildade, modéstia e mortificação na sua conduta. Terão, no entanto, na sua boca – é a segunda vez que o santo diz –, a espada de dois gumes da palavra de Deus, a espada da verdade, num mundo em que a lei é a mentira e a hipocrisia. E pregarão a verdade, que não é a sua opinião, mas a palavra de Deus, sem temerem algum mortal, por mais poderoso que seja. 

Com uma mão combaterão, com a outra edificarão, disse no número 48 e agora diz que levarão o crucifixo na mão direita e o terço na esquerda. Uma mão que reza ininterruptamente, que desfia o Rosário, que nunca se separa de Nossa Senhora; a outra mão, erguida, que agita o crucifixo como uma espada contra os inimigos.    

Empunhando o crucifixo, combaterão os ímpios, os idólatras e os maometanos; apertando o Rosário, edificarão o Império de Deus, o Reino de Maria sobre toda a sociedade. São Luís está certo de que isso acontecerá. O que é incerto é apenas quando e como deverá ocorrer. «Só Deus o sabe», diz. «Quanto a nós, apenas nos cabe calar, rezar, suspirar e esperar». 

Em Fátima, Nossa Senhora confirmou a certeza de São Luís com a divina promessa: Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará. E também nos revelou o cenário de tragédia, por causa dos pecados do mundo, em que esta promessa se realizará.     

Também nós devemos desejar que isso aconteça, e que aconteça em breve, para a maior glória de Deus. E, para que isso aconteça, é necessário que se difunda uma verdadeira devoção a Maria, mais profunda, mais ardente e eficaz do que todas as devoções a Maria que a humanidade até agora conheceu. O Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem foi escrito para isso.         

Roberto de Mattei      

terça-feira, 19 de maio de 2020

Coronavírus: “Agora é tempo de uma nova internacional”



Desde que Marx e Engels lançaram o seu “Proletários de todos os países, uni-vos!” no Manifesto Comunista, os promotores da internacionalização da luta de classes fizeram várias tentativas para criar uma grande e única rede de subversão mundial. Para eles, as nações não existem; existem apenas duas classes em conflito: a burguesia e o proletariado, ambas globais.

A tentativa mais próxima de alcançar este ideal universalista foi a Terceira Internacional, mais conhecida pela sua abreviação alemã, o famigerado Komintern, que, entre as duas guerras mundiais, espalhou revoluções comunistas em todo o mundo. Inteiramente sujeito aos caprichos do Kremlin, pouco depois da Segunda Guerra Mundial, o Komintern foi oficialmente dissolvido por Stalin para desarmar psicologicamente os seus ex-aliados e, assim, conseguir infiltrar-se mais facilmente com uma revolução cultural de estilo gramsciano.         

Da sua parte, os pequenos grupos trotskistas dissidentes de Moscovo criaram uma efémera IV Internacional que operou entre 1938 e 1963 e depois se dissolveu numa série de cismas. Em vez disso, os anarquistas, herdeiros de Bakunin e das lutas do Maio de 1968, sempre sonharam, mas nunca conseguiram, unir-se numa grande rede internacional: o que é compreensível porque, afinal, são... anarquistas. 

No auge do processo de globalização e dos encontros anuais em Davos, sectores da esquerda radical, ainda chocados com o colapso da URSS, em 2001 lançaram o World Social Forum, que Ignacio Ramonet, diretor do Le Monde Diplomatique, saudou com esperança: «O novo mundo nasceu em Porto Alegre» (a cidade onde se realizou o primeiro encontro). No entanto, aquela alvorada teve vida breve e a última edição do WSF realizou-se em 2013.   

No mesmo ano, Jorge Mario Bergoglio subiu ao trono pontifício e procurou relançar a internacionalização da luta a nível global através de encontros com os chamados Movimentos Populares, dois dos quais realizados no Vaticano e um em Santa Cruz de la Sierra (Bolívia). Tais movimentos, entre os quais o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e os apanhadores de cartão argentinos, já estavam ligados entre si numa iniciativa chamada Via Campesina, mas estavam a perder força quando eis que receberam esta dose de esteroides do apoio e da bênção pontifícia. Aparentemente, a dose foi insuficiente, pois não conseguiram superar o descrédito que os cercava na América Latina devido às violentas actividades de ocupações ilegais de fazendas agrícolas e propriedades urbanas. No entanto, o espectro da miséria, vislumbrado devido ao colapso económico derivante do lockdown, está a mudar radicalmente o clima sociopolítico e a redistribuir as cartas para uma nova rodada de jogo político e cultural. Num artigo publicado no Intercept, a escritora e activista Naomi Klein explicou que aprendeu nas últimas duas décadas que, «durante os momentos de mudança cataclísmica, o que antes era impensável tornou-se imprevisivelmente realidade». Esta afirmação não é um ingénuo desejo da autora de No Logo, um dos livros de mesa de cabeceira do movimento antiglobalização. De facto, Naomi Klein deu o seu contributo para a criação da Internacional Progressista juntamente com o pré-candidato à presidência norte-americana Bernie Sanders, veterano anarquista e estudioso do MIT; com Noam Chomsky; com o ex-presidente equatoriano, em fuga da justiça, Rafael Correa; com o professor de marxismo e ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (esmagado eleitoralmente por Jair Bolsonaro); com o falhado ministro da economia grega Yanis Varoufakis; com a capitã Carola Rackete, taxista marítima dos traficantes de imigrantes no Mediterrâneo, e com muitos outros.   

O evento inaugural da Internacional Progressista ocorreu, por videoconferência, a 15 de Maio, com a participação de cinco membros do Conselho: a Primeira-Ministra islandesa, Katrín Jakobsdóttir; o ex-ministro Yanis Varoufakis; a activista climática ugandense Vanessa Nakate; a advogada guatemalteca dos direitos humanos Renata Ávila; e o escritor e analista político Nanjala Nyabola, do Quénia.

“Unimos, organizamos e mobilizamos forças progressistas em todo o mundo”, afirma o slogan de boas-vindas ao visitante no site da organização. Inspirada nas actividades de Diem25 – um acrónimo de Democracy in Europe Movement 2025, um movimento pan-europeu lançado por Varoufakis – e no Sanders Institute, a nova Internacional Progressista aspira a um mundo igualitário, sustentável, ecológico, plural e pós-capitalista, onde «o culto do trabalho» será abolido. O organograma da organização especifica três áreas de intervenção: mobilização (movimento) para formar activistas e líderes; projecto para a elaboração de uma visão comum de um mundo transformado; e ligação publicitária para divulgar as análises críticas preparadas pelas bases. “Recuperando o mundo do pós-COVID-19” é o título da colectânea inaugural da secção projecto (Blueprint) escrita a seis mãos por Geoff Mann, Thea Riofrancos e David Adler, coordenador-geral do comité executivo da organização.       

Segundo os autores, o terreno nunca foi tão «fértil para o internacionalismo» como agora. «A luta pela ordem social no mundo após o coronavírus já está em andamento», portanto, a Internacional Progressista tem «uma frincha para incidir sobre a arena política e moldar o processo de formulação de políticas públicas». O objectivo é «traçar os componentes de um New Deal verde» de carácter internacional.

Da sua parte, a senhora Katrín Jakobsdóttir diz que é necessário «forjar solidariedades globais e colaborações entre forças progressistas além-fronteira contra uma direita autoritária e populista empenhada em usar a crise para avançar a sua agenda regressiva». Para a Primeira-Ministra do governo de coligação islandês e líder do Partido da Esquerda Verde, «se vez alguma houve tempo para agir, para fazer história, esse tempo é agora».     

Uma leitura particularmente recomendada na introdução da colectânea Blueprint é um artigo de Mike Davis, um sociólogo e historiador californiano que colabora regularmente com uma publicação trotskista inglesa que se define como “socialista internacional” e “marxista-ambientalista”.      

Com o expressivo título C’est la lutte finale (título em francês no original e texto em inglês), após extensas críticas aos governos dos países ricos do Norte e elogios à China (“centro” e “chefe dos bombeiros” da batalha mundial contra o COVID-19), Davis afirma que o inevitável pressuposto para a reconstrução da economia é «a propriedade social de sectores estratégicos, como a produção farmacêutica, os combustíveis fósseis (para formar trabalhadores e fechar poços e minas), os grandes bancos e as infra-estruturas digitais das quais depende a vida do século XXI (banda larga, cloud, motores de pesquisa e redes sociais). Por outras palavras, o regresso do projecto revolucionário socialista». Todavia, o trotskista Davis observa que «as vitórias socialistas num país ou noutro não levarão a um Grande New Deal Verde se não houver um novo internacionalismo» e uma «procura de comunhão com todos aqueles que abraçam os principais valores humanistas». E, acrescenta com devoção: «Actualmente, de facto, existem apenas dois líderes mundiais que invocam constantemente a urgência da solidariedade humana: um é o Dalai-lama e o outro é um adepto do futebol argentino que vive numa casa grande em Roma». Aos seus correligionários que pudessem ser reticentes a uma aliança com o Papa Francisco, Mike Davis recorda que «todos os grandes revolucionários – Paine, Danton, Garibaldi, Marx, Luxemburgo, Lenin, Trotsky e Che Guevara – conceberam a sua missão não apenas como a emancipação das classes trabalhadoras, mas como a libertação de toda a humanidade».

José Antonio Ureta    

Através de Fatima Oggi

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (XX)


Nos números 58 e 59 do Tratado, São Luís continua a fulgurante descrição dos verdadeiros filhos e servos de Maria que a Divina Providência levantará contra os inimigos de Deus nos últimos tempos.    

«Serão verdadeiros apóstolos dos últimos tempos, a quem o Senhor dos exércitos dará a palavra e a força para operar maravilhas e arrebatar gloriosos despojos aos seus inimigos. Dormirão sem ouro nem prata e, o que é mais, sem cuidados, no meio de outros sacerdotes, eclesiásticos e clérigos, inter medios cleros; e, no entanto, terão as asas prateadas da pomba, para irem aonde o Espírito Santo os chamar, com a intenção pura da glória de Deus e da salvação das almas, e, nos lugares onde tiverem pregado, deixarão atrás de si o ouro da caridade, que é o pleno cumprimento da lei».      

Os apóstolos dos últimos tempos, segundo São Luís Maria, serão combatentes a quem o Senhor dará a palavra e a força. Diante do mal não se limitarão a calar e a rezar, mas falarão, pregarão, bradarão contra o mundo, trovejarão contra o pecado. E terão do Senhor a força necessária para operar maravilhas e alcançar gloriosas vitórias sobre os seus inimigos: não serão derrotados, serão perseguidos, mas sairão triunfantes da luta.

«Dormirão sem ouro nem prata e, o que é mais, sem cuidados»; viverão sem intranquilidade, sem preocupações; abandonar-se-ão totalmente à Divina Providência: aqui está uma sua outra característica, que encontramos na Oração abrasada do mesmo santo, quando diz que os apóstolos dos últimos tempos, «pelo seu abandono à Providência e pela sua devoção a Maria Santíssima, terão as asas prateadas da pomba: inter medios cleros, pennae columbae deargentatae, isto é, a pureza da doutrina e dos costumes; e douradas as costas: et posteriora dorsi eius in pallore auri, isto é, uma perfeita caridade para com o próximo, para suportar os seus defeitos, e um grande amor a Jesus Cristo, para levar a sua cruz».   

No número 58, as asas prateadas da pomba também significam que se assemelharão ao Espírito Santo, representado pela tradição católica como uma pomba, e serão movidas por Ele. As asas servem para voar e, diz o santo no número 58, «serão nuvens tonitruantes que voarão pelos ares ao menor sopro do Espírito Santo», irão, não para a sua própria glória, mas «aonde o Espírito santo os chamar com a intenção pura da glória de Deus e da salvação das almas». Homens, define-nos na Oração abrasada, como «nuvens elevadas da terra e repletas de orvalho celeste que, sem obstáculos, voem para todos os lados ao sabor do sopro do Espírito Santo».         

No número 35 do Tratado, São Luís disse que, com o Espírito Santo, Maria produziu a maior realidade do passado e do futuro: um homem-Deus; com o Espírito Santo continuará a produzir e a formar os seus filhos. E, no número 36, acrescentou que, quando o Espírito Santo encontra Maria numa alma, «voa até ela, entre nela plenamente e comunica-se a essa alma abundantemente, na mesma medida em que esta alma dá lugar em si à Sua Esposa».           

Serão, portanto, almas cheias do Espírito Santo porque cheias de Maria. E, com estas palavras, São Luís dirige-se ao Espírito Santo na Oração abrasada: «Divino Espírito Santo, lembrai-Vos de produzir e de formar filhos de Deus com a vossa divina e fiel Esposa, Maria. Formastes, com ela e nela, a cabeça dos predestinados, e é com ela e nela que deveis formar todos os seus membros. Vós não engendrais qualquer pessoa divina dentro da Divindade, mas sois Vós apenas que formais todas as pessoas divinas fora da Divindade, e todos os santos que já existiram e que hão-de existir até ao fim do mundo são outros tantos produtos do vosso amor unido a Maria Santíssima».          

Roberto de Mattei

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (XIX)


Os números do Tratado que vão do 56 ao 59 estão entre os mais belos e entusiasmantes de toda a obra. O santo pergunta-se: «Mas quem são esses servos, escravos e filhos de Maria?».  

«Serão – responde – um fogo ardente, ministros do Senhor que por toda a parte atearão o fogo do amor divino. Serão sicut sagittae in manum potentis, setas afiadas na mão da Virgem poderosa para trespassarem os seus inimigos. Serão filhos de Levi, bem purificados no fogo das grandes tribulações e bem apegados a Deus, que trarão no coração o ouro do amor, no espírito o incenso da oração, e no corpo a mirra da mortificação, e que, por toda a parte, serão o bom odor de Jesus Cristo para os pobres e os pequenos, enquanto que para os grandes, os ricos e os mundanos orgulhosos, serão um odor de morte» (n. 56).         

Nesta passagem, São Luís repete, por três vezes, a palavra fogo para caracterizar os apóstolos dos últimos tempos. E dedicar-lhes-á uma outra obra com o significativo título “A oração abrasada”, em que evoca «esse dilúvio de fogo do puro amor» que Deus deve «atear em toda a terra de modo tão suave e tão veemente, que todas as nações, os Turcos, os idólatras e mesmo os Judeu dele se abrasarão e se converterão».  

Os escravos e filhos de Maria serão fogo ardente porque cheios do fogo divino que a devoção a Maria alimenta e propaga.        

E, no número 57, descreve-os, ainda, desta maneira:       

«Serão nuvens tonitruantes que voarão pelos ares ao menor sopro do Espírito Santo. E, sem se apegarem a coisa alguma, nem se admirarem ou inquietarem pelo que quer que seja, espalharão a chuva da palavra de Deus e da vida eterna» (n. 57).  

A sua força não vem, portanto, de si mesmos, mas do Espírito Santo que neles quer continuar a produzir as maravilhas que produziu em Maria. Apenas lhes é solicitado que sejam devotos autênticos de Maria e totalmente abandonados à acção do Espírito Santo, que é amor e que, enquanto amor, nutrirá o seu ódio pelos inimigos de Deus e da Igreja.         

Eles, continua o santo, «trovejarão contra o pecado, bradarão contra o mundo, fulminarão o demónio e seus sequazes. Atravessarão de lado a lado, vivam ou morram, com a sua espada de dois gumes, que é a palavra de Deus, todos aqueles a quem forem enviados pelo Altíssimo» (n. 57).                       

Eles terão na boca a espada de dois gumes da palavra de Deus. Porquê de dois gumes? Porque, dependendo de como é recebida a palavra de Deus, a espada da Verdade traz a salvação eterna ou a condenação eterna. Não é uma agulha que cose, é uma espada afiada que corta sem possibilidade de ajuste e leva à vida ou à morte.       

Não serão, portanto, testemunhas silenciosas e inertes da destruição que ocorre na Igreja de Deus. Romperão o silêncio, trovejando contra o pecado e gritando contra o mundo, empunhando a espada da Verdade. O pecado, nos últimos tempos, não será apenas individual, mas público e social. Quem defender publicamente a virtude e acusar o pecado será perseguido como um perturbador da ordem pública. Mas nada poderá parar os apóstolos dos últimos tempos, que têm Deus por Pai e Maria por Mãe. Eles, disse o santo no número 48, «hão-de combater com uma das mãos e edificar com a outra». Com uma mão derrubarão uma sociedade que se rege pela impiedade, com a outra edificarão o reino de Jesus e de Maria na sociedade.                     

Roberto de Mattei

domingo, 17 de maio de 2020

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (XVIII)


No número 55 do Tratado, São Luís escreve: «Por fim, quer Deus que sua Mãe seja hoje conhecida, amada e honrada mais do que nunca, o que, sem dúvida, acontecerá se os predestinados entrarem, com a graça e a luz do Espírito Santo, na prática interior e perfeita que seguidamente lhes mostrarei» (n. 55).  

Aqui, neste ponto do Tratado, São Luís fala pela primeira vez daquela prática interior e perfeita que dá o título à sua obra: Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem.         

São Luís não se limita a expor razões teológicas para explicar por que devemos amar e honrar a Santíssima Virgem Maria; ele quer explicar como fazê-lo da maneira mais perfeita e eficaz. A sua obra não é apenas um Tratado teológico, mas um manual prático: é uma arma muito poderosa nas mãos de quem entender a sua importância e souber usá-la. Uma arma que São Luís entrega nas mãos dos eleitos, dos predestinados, que são os humildes escravos e filhos que Nossa Senhora suscitará para combater o demónio nos últimos tempos. Esta época da história será tempestuosa e será necessária uma ajuda especial da graça para superar todas as dificuldades sem se ser sugado no turbilhão das insídias do diabo. O Tratado da Verdadeira Devoção não é outro senão isto. Foi escrito, sob inspiração de Nossa Senhora, para aqueles que fazem parte da sua estirpe. Deus quer revelar-lhes uma prática interior e perfeita para realizar o seu grande plano: esmagar a cabeça do demónio e fazer triunfar Jesus e Maria no curso da história. O Tratado foi escrito para isto, para revelar de que modo, através de Maria e dos seus eleitos, Jesus deve reinar no mundo.   

E São Luís, no número 55, já antecipa em que consiste a perfeita devoção: os apóstolos dos últimos tempos «consagrar-se-ão inteiramente ao seu serviço como seus súbditos e escravos de amor». Aqui está tudo dito: a verdadeira devoção consiste na escravidão de amor a Maria. Graças a esta prática, escreve o santo, os predestinados «chegarão a bom porto apesar das tempestades e dos piratas»; «conhecerão as grandezas desta soberana»; «experimentarão as suas doçuras e bondade maternais, e amá-la-ão ternamente como seus filhos muito queridos»; «compreenderão assim que ela é o meio mais seguro, mais fácil, mais curto e mais perfeito para ir a Jesus, e entregar-se-lhe-ão de corpo e alma, inteiramente e sem reservas, para igualmente pertencerem a Jesus Cristo».        

Esta passagem contém uma verdade que um dia a Igreja formulará como dogma infalível: o dogma de Maria medianeira de todas as graças, um dogma de que São Luís Maria é, podemos dizer, o chantre, como Duns Escoto o foi da Imaculada.    

É uma verdade de imensa importância para a nossa vida espiritual, mas também para toda a humanidade. De facto, sabemos que não podemos fazer nada sem a ajuda de Deus, mas que, ao contrário, com a ajuda de Deus, tudo é possível. Esta ajuda de Deus vem através da sua graça, à qual devemos corresponder com a nossa fé e com as nossas obras. A graça depende de Deus, mas Ele quis a distribuição das graças dependesse de Nossa Senhora. Maria é a medianeira universal através da qual passam todas as graças. Quem pede uma graça a Maria, recebe-a. E São Luís Maria ensina-nos a maneira mais perfeita de pedir.                     

Roberto de Mattei

Nossa Senhora da Misericórdia, oração que se faz arte



“À Vossa protecção recorremos, Santa Mãe de Deus”, Sub tuum praesidium.

Qualquer pintura, afresco ou relevo plástico representando Nossa Senhora da Misericórdia, seja qual for a época a que pertence, parece traduzir visualmente uma das mais antigas composições poéticas litúrgicas, o Sub tuum praesidium, uma invocação mariana, que remonta ao século III, que testemunha o paleocristão costume do povo de se confiar à protecção de Maria.       

São diversas e múltiplas, no entanto, as fontes históricas e devocionais que contribuíram para o nascimento e a difusão da iconografia da Virgem Maria, em cujo abraço era e é possível, para todos, procurar protecção. A própria Virgem, que apareceu em visão a Santa Brígida, disse-lhe: «Sou por todos chamada Mãe da Misericórdia. (...) Fez-me misericordiosa a misericórdia do meu Filho e, com Ele, complacente. Tu, portanto, vem, minha filha, e esconde-te debaixo do meu manto».      

Famosíssima é a versão que do tema deu Piero della Francesca quando, a partir de 1445, por encomenda da homónima Confraria de Sansepolcro, a sua cidade natal, criou o políptico da Misericórdia para o altar-mor da sua igreja. A obra monumental, composta por 23 compartimentos, foi desmembrada durante o século XVII: perdeu-se a moldura original, mas, felizmente, foram conservados todos os painéis, agora guardados no Museu Cívico. O painel de Nossa Senhora da Misericórdia, cercada por santos distribuídos em diferentes registos e pela predela com as Histórias da Paixão, é o coração de toda a composição.        

Hierática e imponente, Maria destaca-se no fundo dourado do quadro, legado da tradição pictórica gótica tardia que aqui acentua a sacralidade da figura cujas formas plásticas seguem, pelo contrário, o exemplo moderno de Masaccio. Inovadoras são também a ilusão do espaço unificado, que o pintor sugere através da invasão de alguns detalhes nos painéis laterais, e a grande profundidade de perspectiva criada pelo hemiciclo dos espectadores ajoelhados e pelos braços abertos de Maria. 

A Virgem, numa posição rigorosamente frontal, é muito maior que os outros personagens. É a Rainha do Céu, a cabeça cercada por uma coroa e uma auréola, equilibrada no oval perfeito do rosto, inconfundível código estilístico do artista. O seu gesto é firme, decidido, de uma maneira poderosa: acolhe no seu ventre, figura da Igreja, homens e mulheres que a ela recorrem para encontrarem protecção. A todos envolve uma sobrenatural luz dourada, dimensão que o olhar solene e concentrado de Maria parece confirmar. 

O seu abraço materno é, portanto, o caminho pelo qual é possível o encontro entre o divino e o humano. Se observamos os devotos adoradores, reconhecemos, de facto, fisionomias individuais, de modo algum genéricas: são homens e mulheres da época, e talvez também do lugar onde foi pintado o políptico, que aqui representam todo o povo de Deus, sem distinções de género, de classe ou de idade. As suas diferentes posturas deixam aberta uma lacuna no centro: é o nosso ponto de observação que ocupa a parte de dentro do manto em que nos sentimos envolvidos também nós.           

Margherita del Castillo       

Através de La Nuova Bussola Quotidiana

sábado, 16 de maio de 2020

Cardeal Zen: «Na China, as pessoas são escravas do Partido Comunista»



O Cardeal Joseph Zen, Arcebispo emérito de Hong Kong e um dos três cardeais que assinaram o recente Apelo para a Igreja e para o mundo, carregou contra a globalização e contra o regime comunista chinês na sua intervenção na conferência deste ano da Rede Internacional de Legisladores Católicos    

«O facto é que se originou uma pandemia na China e se espalhou rapidamente por todo o mundo», assinala Zen, que faz uma dura crítica contra o fenómeno da globalização, ao mesmo tempo que recorda que, «na China, as pessoas são escravas do Partido Comunista».      

Na sua intervenção, o cardeal chinês aproveitou esta peste «de dimensões apocalípticas» para pedir uma revisão das premissas da globalização. A globalização, disse, é um feito com diferentes aspectos. «O Papa João Paulo II distinguia uma “globalização da solidariedade” da “globalização da marginalização”, a primeira aplicada por aqueles que cuidam do verdadeiro bem de todos os seres humanos, a segunda condicionada pelo interesse egoísta de indivíduos e grupos», sustenta Zen. É esta segunda forma de globalização, na qual a China desempenha um papel crucial, o alvo das suas críticas.           

Embora a globalização, como fenómeno, tenha sido inicialmente recebida com entusiasmo, o prelado assegura que «os seus resultados reais foram muito decepcionantes». Para o cardeal, «os países pobres não sentem que tenham tido alguma ajuda da economia globalizada do planeta», já que quem administra esta globalização são «os ricos e os fortes», fazendo menção directa ao Banco Mundial e ao Fundo Monetário Internacional.     

Este tipo de instituições supranacionais, lamenta Zen, «acabam por ajudar os governos dos países pobres, os ricos e poderosos desses países, e não os pobres, porque os pobres dos países pobres não foram convidados a participar activamente no processo».      

Continuando, Sua Eminência referiu-se à perseguição que sofrem os católicos na China e ao pacto secreto assinado pelo Vaticano com a administração comunista. A China, diz Zen, oferece hoje a imagem de um país rico, mas, «num regime totalitário, as pessoas contribuem para a riqueza da nação sem obterem uma parte justa da sua prosperidade. Na China, as pessoas são escravas do Partido Comunista». E aos escravos, acrescenta Zen, «não se lhes permite o luxo da dignidade».           

Carlos Esteban 

Através de InfoVaticana

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (XVII)


O número 54 do Tratado continua assim: «Mas o poder de Maria sobre todos os demónios brilhará particularmente nos últimos tempos, em que Satanás armará ciladas contra o seu calcanhar, ou seja, contra os seus humildes escravos e os seus pobres filhos, que ela há-de chamar para lhe fazerem guerra. Eles serão pequenos e pobres na opinião do mundo, rebaixados perante todos, como o está o calcanhar, calcados e perseguidos, como o é o calcanhar se comparado com os outros membros do corpo. Mas, em contrapartida, serão ricos da graça de Deus, que Maria lhes distribuirá abundantemente; serão grandes e elevados em santidade diante de Deus e superiores a toda a criatura pelo seu zelo ardente; e tão fortemente apoiados pelo socorro divino, que com a humildade do seu calcanhar, e em união a Maria, esmagarão a cabeça do demónio e farão triunfar Jesus Cristo».   

Antecedentemente, São Luís disse: «O que Lúcifer perdeu por orgulho, ganhou-o Maria pela sua humildade; o que Eva condenou e deitou a perder pela desobediência, salvou-o Maria pela obediência» (n. 53). É um tema recorrente do Tratado, desde o número 2, em que recordamos que, falando da vida oculta de Maria, o santo disse que «a sua humildade foi tão profunda que não teve na terra atractivo mais poderoso nem mais contínuo do que ocultar-se diante de si mesma e diante de toda a criatura, para que só Deus a conhecesse». A humildade de Maria é o segredo da sua santidade e do seu papel nos últimos tempos; mas a humildade é também o segredo dos filhos que ela gera ao longo dos séculos e que, com ela, desempenharão um papel decisivo, nos últimos tempos, estabelecendo sobre a terra o reino de Jesus e de Maria, que precederá o do Anticristo.           

O diabo levantou a cabeça contra Deus; Nossa Senhora esmagará a cabeça do diabo com o seu calcanhar. Os filhos e escravos de Maria deverão imitar a sua humildade, a fim de poderem, com ela e através dela, esmagar a cabeça do diabo e, assim, poderem exaltá-la. A humilde Maria será exaltada pelos seus filhos, que imitarão a sua humildade. Enfrentarão os poderes do mundo, instigados pelo demónio contra eles, mas receberão de Deus, pelas mãos de Nossa Senhora, tais graças que poderão suportar e vencer esta batalha aparentemente desigual, como, outrora, David venceu o poderoso Golias.         

O que é o orgulho? O que é a humildade? A humildade consiste em esquecer-se a si mesmo e erguer o olhar para Deus, referindo-Lhe tudo, confiando apenas em Ele. O orgulho consiste em desviar o olhar de Deus para contemplar apenas nós mesmos, confiando apenas nas nossas forças. E como nada podemos fazer sem Deus, os fracassos dos orgulhosos conduzem-no ao desespero, enquanto o humilde, nos sucessos e nos insucessos, nunca está desesperado, porque confia sempre em Deus: a sua virtude é a confiança. O piedoso cartuxo Dom Francesco Pollien explica-o deste modo: «o orgulho é a tua vida dirigida por ti e para ti, a humildade é a tua vida dirigida por Deus e para Deus. A humildade não consiste em não ter nada, mas em referir tudo. Quanto mais se recebe de Deus, tanto mais se Lhe pode referir; e quanto mais se refere, mais humilde se é».        

As duas cidades de que fala Santo Agostinho, a cidade do demónio e a de Deus, são geradas pelo orgulho, que é o amor-próprio até ao desprezo de Deus; e pela humildade, que é o amor de Deus até ao desprezo de si mesmo. A escolha radical é entre Deus, a quem se une intimamente a humildade, e o diabo, a quem nos vincula o orgulho. Este conflito constitui a essência da história que rebentará, pode-se dizer, nos últimos tempos.       

Roberto de Mattei

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (XVI)


«Jamais Deus – disse São Luís no número 52 do Tratadocriou e formou senão uma inimizade, mas uma que é irreconciliável e que perdurará, e aumentará mesmo, até ao fim: é a que existe entre Maria, sua Mãe digníssima, e o diabo, entre os filhos e servos da Virgem Santíssima e os filhos e sequazes de Lúcifer».   

No número 54 desenvolve este ponto capital, afirmando:           

«Deus não pôs somente uma inimizade, mas inimizades, isto é, não apenas entre Maria e o demónio, mas também entre a descendência da Virgem Santa e a descendência do demónio. Quer isto dizer que Deus instaurou inimizades, antipatias e ódios secretos entre os verdadeiros filhos e servos da Santíssima Virgem e os filhos e escravos do demónio: não há entre eles qualquer amor, e nem pode haver entre eles qualquer ponto interior de correspondência. Os filhos de Belial, os escravos de Satanás, os amigos do mundo (o que é a mesma coisa) sempre perseguiram e continuarão a perseguir mais do que nunca aqueles e aquelas que pertencem à Santíssima Virgem, como outrora Caim perseguiu o seu irmão Abel, e Esaú seu irmão Jacob, figuras que representam todos os réprobos e todos os predestinados. Mas a humilde Maria alcançará sempre a vitória sobre este orgulhoso, e tão grande será a vitória que ela chegará a esmagar-lhe a cabeça, onde reside o seu orgulho. Ela porá sempre a nu a sua malícia de serpente e a descoberto as suas tramas infernais; dissipará os seus conselhos diabólicos e preservará, até ao fim dos tempos, os seus servos fiéis da sua pata cruel» (n. 54).  

Deus, portanto, segundo São Luís, não constituiu apenas uma inimizade, um ódio, uma guerra entre Nossa Senhora e a serpente infernal: mas esta inimizade mortal, este ódio implacável, esta guerra sem quartel, continuará até ao fim dos tempos entre os filhos fiéis da Santíssima Virgem e os filhos e seguidores do demónio. Quem combate esta guerra com Maria vence sempre, porque a humildade de Maria e dos seus filhos terá sempre a vitória contra o orgulho de Satanás e dos seus seguidores. 

Existe, portanto, aquela que o santo chama de progénie, uma estirpe, uma raça: a de Maria e uma progénie, uma estirpe, uma raça, a do diabo: são dois mundos incompatíveis, entre os quais não há compromisso possível. O que caracteriza as estirpes humanas é que não se pode escolher a qual delas pertencer. Nasce-se numa raça ou noutra, independentemente da nossa vontade. 

As raças de que fala São Luís, no entanto, não são biológicas, são espirituais e entra-se ou sai-se livremente delas, mesmo que não seja possível fazê-lo sem o dom da graça. Mas Deus não nega a graça àqueles que a pedem e, por cada homem que nasceu ou nascerá na terra, Jesus Cristo derramou o seu sangue redentor. Podemos escolher se pertencemos à progénie de Maria ou de Satanás, mas esta escolha deve ser renovada todos os dias até ao fim da nossa vida.        

O baptismo arranca-nos das garras do demónio e dá-nos inteiramente a Jesus Cristo, mas os votos do baptismo devem ser renovados com um acto livre e voluntário que nos consagra para sempre a Maria, para pertencermos à linhagem daqueles que lhe são fiéis no tempo e na eternidade. Este acto é, acima de tudo, um acto de humildade, porque somente através da humildade poderemos obter a fé de Maria. É em direcção a este acto de humildade e de amor a Maria que nos está a conduzir São Luís através das páginas inigualáveis
​​do seu Tratado.  

Roberto de Mattei      

Apelo aos Bispos Portugueses sobre a Sagrada Comunhão



O Dies Iræ publica o texto do Apelo que será dirigido aos Bispos Portugueses sobre a possibilidade de os fiéis receberem a Sagrada Comunhão na boca, solicitando a imediata revogação do número 27 das Orientações da Conferência Episcopal publicadas no passado dia 8 de Maio. A coordenação da iniciativa também está a cargo da página, que poderá ser contactada através de info@diesirae.pt.     

Eminências e Excelências Reverendíssimas,             

1. Após dois meses sem se ter podido estar presente na Santa Missa, ficámos a saber, através do comunicado da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) de 2 de Maio p. p., que, possivelmente no próximo dia 30 de Maio, véspera de Pentecostes, serão retomadas as celebrações com assistência da Santa Missa. Seis dias após esta notícia que tanto nos alegrou, considerando que, durante dois meses, fomos impedidos de aceder aos Sacramentos, principalmente aos da Eucaristia e da Penitência, foram publicadas as Orientações da Conferência Episcopal Portuguesa para a celebração do Culto público católico no contexto da pandemia COVID-19, que, tendo merecido a nossa respeitosa atenção, nos causaram profunda mágoa e não pouca perplexidade.

2. Após atenta leitura e reflexão das referidas Orientações da CEP, causa-nos particular consternação  o seu número 27, segundo o qual se determina que «continua a não se ministrar a comunhão na boca» – à semelhança, de resto, do que tinha sido decidido no início da pandemia, tendo-se assistido a sacerdotes recusarem a Sagrada Comunhão a fiéis que, de forma lícita, pretendiam receber a Comunhão na boca, tal como prevê e permite a Santa Igreja e a sua lei universal, além de resultar da salutar reverência  suscitada pela fé na presença real de Nosso Senhor nas sagradas espécies e pelo primeiro mandamento da Lei de Deus.   

3. Por várias vezes, e em conformidade com quanto se acaba de dizer,  a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos reafirmou e sublinhou aquilo que, a este respeito, diz a Instrução Redemptionis Sacramentum, de 25 de Março de 2004, no seu número 92 (remetendo para o n. 161 da Instrução Geral do Missal Romano): «Todo o fiel tem sempre direito a escolher se deseja receber a Sagrada Comunhão na boca», advertindo, no número precedente, que «não é lícito negar a Sagrada Comunhão a um fiel», exceptuando somente aqueles casos em que lhe tenha sido «proibido o direito de receber» a Sagrada Comunhão em geral (n. 91, remetendo para os cânones 843 §1 e 915). Torna-se claro que não é permitido, em circunstância alguma, negar-se a Sagrada Comunhão aos fiéis que a desejem receber na boca, nem mesmo em tempos de epidemia, à semelhança do que aconteceu com o H1N1, altura em que a referida Congregação para o Culto Divino o confirmou em resposta a múltiplas cartas que fiéis de todo o mundo lhe dirigiram. Bem se compreende que assim seja considerando o fundamento do reconhecimento de tal direito, que directamente se liga à fé da Igreja, à virtude da santa religião, com as respectivas implicações em matéria de culto, e, assim, ao primeiro mandamento.        

4. A juntar-se a esta indicação eclesiástica, são muitos os acreditados profissionais de saúde que têm referido que não existe qualquer particular perigo de contágio ao administrar-se a Comunhão na boca do fiel.              

5. Posto isto, nós, fiéis católicos subscritores deste Apelo, solicitamos a Vossas Eminências e Excelências Reverendíssimas que o ponto 27 das Orientações da CEP seja imediatamente revogado, permitindo-se que o fiel possa livremente escolher receber a Sagrada Comunhão na boca, caso contrário estar-se-á a cometer um gravíssimo atentado contra as normas universais da Santa Madre Igreja, as quais, em conformidade com a reverência devida ao augustíssimo Sacramento, lhes reconhecem um preciso direito.                  

Aproveitando a ocasião para assegurarmos as nossas orações a Vossas Excelências, somos, muito dedicados, em Jesus e Maria.              

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Schneider: «um dia, a História recordará com pesar os clérigos do regime»



A 8 de Maio de 2020, foi publicado um texto intitulado Apelo para a Igreja e para o mundo – aos fiéis Católicos e aos homens de boa vontade. Entre os primeiros signatários estavam, entre outros, três Cardeais, nove Bispos, onze médicos, vinte e dois jornalistas e treze advogados. 

É surpreendente como os representantes do establishment eclesiástico e político e dos media desacreditaram, em uníssono, segundo o pensamento mainstream, a preocupação do Apelo com o argumento demolidor (“knock-out argument”) da “teoria da conspiração”, de modo a cortarem pela raiz qualquer discussão ulterior. Recordo uma semelhante forma de reacção e de linguagem no tempo da ditadura soviética, quando os dissidentes e os críticos da ideologia e da política dominante eram acusados
​​de cumplicidade com a teoria da conspiração do Ocidente capitalista.       

Os críticos do Apelo recusam-se a tomar nota das evidências, como, por exemplo, a comparação entre os dados oficiais da taxa de mortalidade do mesmo período para a época gripal de 2017/18 e a actual epidemia do COVID-19 na Alemanha, onde a taxa de mortalidade é muito menor. Há Países com moderadas medidas de segurança e prevenção para o Coronavírus que, por este motivo, não têm uma taxa de mortalidade mais elevada. Se o reconhecimento de factos óbvios e a sua discussão é rotulado como uma “teoria da conspiração”, então os motivos de preocupação acerca da existência de subtis formas de ditadura na nossa sociedade são bem fundamentados para todas as pessoas que ainda pensam autonomamente. Como é sabido, a eliminação ou o descrédito do debate social e das vozes não alinhadas é uma característica principal de um regime totalitário, cuja principal arma contra os dissidentes não são os argumentos factuais, mas o recurso a uma retórica demagógica e populista. Somente as ditaduras temem debates objectivos em caso de divergências de opinião.

O Apelo não nega a existência de uma epidemia e a necessidade de combatê-la. No entanto, algumas das medidas de segurança e prevenção implicam a imposição forçada de formas de vigilância total das pessoas, que, sob o pretexto de uma epidemia, violam as liberdades civis fundamentais e a ordem democrática do Estado. Também é extremamente perigosa a anunciada vacinação obrigatória, que exclui qualquer alternativa, com as consequências previsíveis da restrição das liberdades pessoais. Consequentemente, os cidadãos estão-se a habituar às formas de uma tirania tecnocrática e centralizada, com a consequência de que a coragem cívica, o pensamento independente e, acima de tudo, qualquer resistência estão seriamente paralisadas. 

Um aspecto das medidas de segurança e prevenção, implementado analogamente em quase todos os Países, consiste na proibição drástica do culto público, que em tal implacabilidade existia apenas em tempos de uma sistemática perseguição dos Cristãos. A coisa absolutamente nova é também o facto de que as autoridades estatais, em alguns lugares, até prescrevem normas litúrgicas à Igreja, como o modo de distribuir a Sagrada Comunhão: uma interferência em questões que pertencem à responsabilidade imediata da Igreja. Um dia, a História recordará com pesar os clérigos do regime do nosso tempo que aceitaram servilmente tais interferências da parte da autoridade estatal. A História sempre deplorou o facto de que, em tempos de grande crise, a maioria permaneceu em silêncio e as vozes dos dissidentes foram abafadas. Ao Apelo para a Igreja e para o Mundo deveria ser dada, com equidade, pelo menos, a oportunidade de iniciar um debate honesto, sem medo de represálias sociais e morais, como é exigido numa sociedade democrática.                

† Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Maria Santíssima em Astana       
13 de Maio de 2020

Comunicado do Arcebispo Carlo Maria Viganò



No passado dia 8 de Maio, três Cardeais e nove Bispos, juntamente com médicos, jornalistas, advogados, intelectuais e profissionais de todo o mundo, lançaram um Apelo para sensibilizar a opinião pública, os governantes, a comunidade científica e os media sobre os sérios perigos para as liberdades individuais determinados em concomitância com a propagação do COVID-19.     

Nalgumas Nações estes perigos foram mais sentidos, noutras menos; mas é necessário, em toda a parte, chamar a atenção dos fiéis Católicos e dos homens de boa vontade para que, num momento tão difícil, se possa compreender colectivamente o que está a acontecer: considerar apenas os aspectos sanitários da epidemia, sem ver as implicações sociais, económicas, políticas e religiosas, pode conduzir o mundo a um futuro em que a Autoridade dos Estados e da Igreja seja enfraquecida ou absorvida por poderes auto-referenciais e que têm objectivos, no mínimo, pouco claros.          

O projecto de uma Nova Ordem Mundial, em que Nações e cidadãos perdem toda a sua identidade e são controlados por uma elite, poderia parecer uma ideia absurda até há poucos anos, enquanto que hoje é afirmado e até propagandeado como um bem para a sociedade e para os indivíduos. Tal plano, promovido por organizações supranacionais, deve ser desmascarado, conhecido e denunciado: deveria ser este o objectivo da informação, de modo a que cada um de nós esteja ciente do que está a acontecer e possa expressar-se claramente como pessoa, como crente e como membro da comunidade.    

O objectivo do Apelo é, justamente, este: romper o silêncio mediático que pesa sobre o nosso presente, especialmente no que diz respeito às liberdades individuais e aos direitos da pessoa, ameaçados por formas de censura e de controlo; exigir igual dignidade de discussão na comunidade científica, sem se deixarem guiar por interesses económicos ou ideológicos; recordar aos Governantes as suas graves responsabilidades para o bem comum. 

O Apelo conseguiu, sem dúvida, suscitar algum debate. Na Alemanha, numerosos membros do Episcopado limitaram-se a rejeitar genericamente o seu conteúdo como “teorias da conspiração”, sem refutarem nada e, pelo contrário, confirmando o próprio alinhamento acrítico ao pensamento dominante. Respondendo a uma entrevista no Die Tagespost, o Cardeal Gerhard Müller (entre os signatários) observou corajosamente que, actualmente, se induziu a «chamar todos aqueles que pensam diversamente como teóricos da conspiração». Também disse: «Aqueles que não fazem distinção entre oportunidade e perigos associados à globalização, estão a negar a realidade. O Papa Francisco também se opõe ao facto de que os estados e as organizações internacionais imponham o aborto aos povos pobres de maneira neocolonialista, revogando as ajudas ao desenvolvimento se o recusarem. No Peru, durante o período Fujimori, eu próprio falei com mulheres e homens que foram inconscientemente esterilizados e que foram enganados com dinheiro e falsas promessas sobre a saúde e a felicidade na vida. Seria isto “teoria da conspiração”?». Assim como não se pode acusar de conspiração «conjecturar a vacinação de sete biliões de pessoas, mesmo se o fármaco ainda não tenha sido adequadamente testado, limitando os direitos fundamentais para quem não aceita a vacina. Ninguém pode ser forçado a acreditar que poucos filantropos bilionários tenham os melhores programas para melhorar o mundo pelo simples facto de terem conseguido acumular uma enorme riqueza privada».        

O Bispo Athanasius Schneider também tem semelhantes posições: «É surpreendente como os representantes do establishment eclesiástico e político e dos media desacreditaram, em uníssono, segundo o pensamento mainstream, a preocupação do Apelo com o argumento demolidor (“knock-out argument”) da “teoria da conspiração”, de modo a cortarem pela raiz qualquer discussão ulterior. Recordo uma semelhante forma de reacção e de linguagem no tempo da ditadura soviética, quando os dissidentes e os críticos da ideologia e da política dominante eram acusados
​​de cumplicidade com a “teoria da conspiração” do Ocidente capitalista».          

Deve-se notar que o Apelo – para além das óbvias críticas daqueles que querem deturpar o seu significado apenas para não terem de enfrentar as numerosas incongruências do que está a acontecer diante dos nossos olhos – obteve o apoio de personalidades importantes do laicado e de eminentes expoentes do mundo da ciência e da informação. Também Robert Francis Kennedy Jr se expressou a seu favor. Em menos de uma semana, o Apelo reuniu quase 40.000 assinaturas e também se está a difundir nos Países de Leste.

Emerge, inquestionavelmente, a percepção de uma espécie de fenda – que o Apelo tem o mérito de ter tornado visível – entre os fiéis e os líderes da Hierarquia: isto é também confirmado pela planificação, claramente globalista, da Jornada de Oração «Pray for Humanity», convocada pelo Alto Comité para a Fraternidade Humana dos Emirados Árabes Unidos, para invocar o fim da pandemia, à qual a Santa Sé, infelizmente, se uniu imediatamente.     

Esta visão, recentemente ratificada com a Declaração de Abu Dhabi, é claramente inspirada na ideologia relativista do pensamento maçónico. Como tal, não tem nada de católico e é, pelo menos, inquietante que os hierarcas da Igreja se prestem a agir como “braço espiritual” da Nova Ordem Mundial, que é ontologicamente anticristã.          

† Carlo Maria Viganò, Arcebispo, Núncio Apostólico  

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (XV)


São Luís escreveu o seu Tratado para todos os devotos de Maria que, ao longo dos séculos, o tivessem lido, mas, sobretudo, para aqueles que ele define como os “apóstolos dos últimos tempos”, as «almas grandes, cheias de graça e de zelo – disse no número 48 –, serão escolhidas para se oporem aos inimigos de Deus». O primeiro capítulo da sua obra, do número 51 ao número 59, conclui-se com a descrição destes apóstolos a partir do versículo do Génesis: «Farei reinar a inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta esmagar-te-á a cabeça ao tentares mordê-la no calcanhar» (Gn 3, 15).       

Leiamos o comentário de São Luís a este versículo:         

«Jamais Deus criou e formou senão uma inimizade, mas uma que é irreconciliável e que perdurará, e aumentará mesmo, até ao fim: é a que existe entre Maria, sua Mãe digníssima, e o diabo, entre os filhos e servos da Virgem Santíssima e os filhos e sequazes de Lúcifer, de sorte que o maior dos inimigos criados por Deus contra o demónio é Maria, Sua Mãe Santíssima. Desde o paraíso terrestre, ainda que então ela apenas existisse na sua ideia, Deus conferiu-lhe tanto ódio contra aquele maldito inimigo de Deus, e deu-lhe tanta indústria para descobrir a malícia daquela antiga serpente, tanta força para vencer, abater e esmagar aquele ímpio orgulhoso, que o demónio a teme não só mais a todos os anjos e homens, mas, num certo sentido, mais que ao próprio Deus. Não que a ira, o ódio e o poder de Deus não sejam infinitamente maiores que os da Virgem Santa, pois que as perfeições de Maria são limitadas, mas: em primeiro lugar, porque Satanás, que é orgulhoso, sofre infinitamente mais por ser vencido e esmagado por uma pequena e humilde serva de Deus; e a sua humildade humilha-o mais do que o poder divino; depois, porque Deus deu a Maria um tão grande poder contra os demónios que, como por diversas ocasiões foram obrigados a confessar, mau grado seu, e pela boca dos próprios possessos, eles temem mais um só dos seus suspiros por alguma alma do que as orações de todos os santos, e uma só das suas ameaças contra eles do que todos os seus outros tormentos» (n. 52).         

São Luís já definiu Nossa Senhora como «um exército em ordem de batalha» contra o diabo e os seus seguidores. Esta batalha teve início no momento da rebelião dos Anjos e, desde então, Deus confiou a Maria a missão de liderar esta batalha, de ser ela a esmagar a cabeça da serpente infernal. Lúcifer rebelou-se porque, pelo seu imenso orgulho, rejeitou o plano divino da Encarnação do Verbo. Será aquela que acolheu o Verbo divino no seu seio a esmagar a cabeça do orgulhoso e Deus deu a Maria tanto ódio contra o amaldiçoado inimigo, tanta indústria para descobrir a sua malícia, tanta força para derrotá-lo, que ele a teme, de certa maneira, ainda mais que a Deus.        

A ira o ódio que São Luís atribui a Nossa Senhora não são defeitos, mas perfeições nela presentes em imensa medida, mas sempre limitada, porque ela é uma criatura. Estas perfeições estão, em vez, presentes de maneira ilimitada em Deus.   

Um apologista dos primeiros séculos, Lactâncio, escreveu uma obra intitulada De ira Dei, “a ira de Deus”, na qual explica que Deus, sendo infinito amor, também é infinito ódio, ou seja, total separação de qualquer mínimo vestígio de mal. O inferno é uma prova da raiva que Ele guarda eternamente contra aqueles que pecam eternamente. E Maria, espelho perfeito de Deus, é, como Ele, capaz de um só ódio, o ódio contra o mal e o pecado, contra o diabo e as suas obras. 

Roberto de Mattei

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (XIV)


São Luís expõe sete razões pelas quais Deus deve revelar o papel reservado a Maria nos últimos tempos.    

Nas duas últimas razões, ele explica que a Santíssima Virgem não foi criada apenas para ser a Mãe do Salvador, mas também para ser a Mãe dos Filhos de Jesus Cristo e, nesta maternidade carinhosa, ela manifestará a sua glória apoiando-os nas batalhas que, até ao fim dos tempos, deverão travar contra os filhos das trevas.  

Maria, diz o santo: «deve brilhar mais do que nunca em misericórdia, em força e em graça, nestes últimos tempos; em misericórdia, para reconduzir e receber amorosamente os pobres pecadores e extraviados, que se converterão e regressarão à Igreja Católica; em força, contra os inimigos de Deus, idólatras, cismáticos, maometanos, judeus e ímpios empedernidos, que se revoltarão terrivelmente, para seduzir e fazer cair, por meio de promessas e ameaças, todos os que lhes forem contrários; e, finalmente, ela deve brilhar em graça, para animar e suster os valorosos soldados e fiéis servos de Jesus Cristo, que combaterão pelos seus interesses» (n. 50).

A última razão pela qual ela deve ser revelada é a seguinte: «por fim, Maria, para o diabo e seus sequazes, deve ser terrível como um exército em boa formatura e pronto para a batalha, sobretudo nestes últimos tempos, porque o diabo bem sabendo que já lhe resta pouco tempo, muito menos do que nunca, para deitar as almas a perder, redobra cada dia os seus esforços e ataques. Muito em breve, suscitará perseguições cruéis e armará ciladas terríveis aos servos fiéis e aos verdadeiros filhos de Maria, a quem consegue vencer com muito mais dificuldade do que aos demais» (ibid.).       

O papel de Maria é, portanto, o de liderar uma grande batalha que caracterizará os últimos tempos. Maria deve resplandecer em misericórdia para acolher, nos seus braços, os pecadores arrependidos; em força para lutar contra os inimigos de Deus que o santo mais uma vez enumera: são os idólatras, ou seja, aqueles que prestam culto a ídolos e falsos deuses; os cismáticos, isto é, aqueles que, mesmo professando o nome cristão, se separam da Santa Igreja Romana; os maometanos, que seguem o Corão; os judeus, que não reconhecem Jesus Cristo como verdadeiro Messias; e os empedernidos, ateus e incrédulos de toda a espécie que odeiam Deus, Jesus Cristo e a sua Igreja. Mais uma vez, notamos que o santo não fala de heresias, mas de hereges, não de cismas, mas de cismáticos, e assim por diante, porque o mal é espalhado por homens concretos e deve ser combatido por homens concretos que defendem o bem.          

Por isso, Maria deve, por fim, resplandecer em graça para animar e sustentar os servos fiéis que, em nome dela e de Jesus, travarão a batalha, porque nenhuma vitória é possível sem a ajuda de Deus e esta ajuda vem através de Maria.

A visão conclusiva é a de Maria que, terrível como um exército em ordem de batalha, enfrenta os inimigos de Deus: terribilis ut castrorum acies ordinata, segundo a imagem do Cântico dos Cânticos (6, 3).          

Diz uma oração composta por São João Bosco: «Ó poderosa Virgem Maria. Vós, grande e ilustre protecção da Igreja; Vós, Auxílio maravilhoso dos Cristãos; Vós, terrível como um exército em ordem de batalha; Vós que, sozinha, destruístes cada heresia em todo o mundo, nas nossas angústias, na nossa luta, nas nossas necessidades, defendei-nos do inimigo e, na hora da morte, acolhei a nossa alma no Paraíso. Amen».       

Roberto de Mattei