quarta-feira, 3 de junho de 2020

Gregório XVI e a epidemia do seu tempo


A cólera, que flagelou a Europa no século XIX, começou, em 1817, nas margens do Ganges, na Índia. O caminho da doença foi lento, mas inexorável. A pandemia estendeu-se até à China e ao Japão, entrou na Rússia e, de lá, espalhou-se aos países escandinavos, à Inglaterra e à Irlanda, de onde, com os navios dos emigrantes, chegou à América, atingindo, nos anos trinta, Canadá, Estados Unidos, México, Peru, Chile. Em 1832, chegou a Paris, depois à Espanha e, finalmente, em Julho de 1835, atravessou as fronteiras do Norte de Itália, em Nizza, Génova, Turim.

O historiador Gaetano Moroni (1802-1883), no seu célebre Dizionario di erudizione, falando do «destruidor e desolador flagelo da Cholera morbus, indiano ou asiático», define-o como «peste» e apresenta-o nos seguintes termos: «Peste significa todo o tipo de flagelos, castigo divino que a todos incute o salutar medo e temor, sacudindo os pecadores obstinados à verdadeira penitência, com efeitos admiráveis, sendo os pecados a perene fonte de cada adversidade» (Dizionario di erudizione storico-ecclesiastica, Tipografia Emiliana, Venezia 1840- 1861, vol. 52, p. 219).

Gregório XVI, eleito em 1831 para o trono papal, enviou, em 1835, uma comissão médica a Paris para ter um relato científico da doença, cuja natureza era desconhecida. Em Itália, no primeiro aparecimento da doença, abrira-se um aceso debate entre duas escolas médicas, os “contagionistas” e os “epidemistas”, para determinar se a cólera era uma doença contagiosa ou epidémica. Os “contagionistas” julgavam que a difusão da doença ocorria por contacto directo ou indirecto com o doente e que, consequentemente, as medidas para contê-la deveriam consistir no estabelecimento de cordões sanitários e quarentenas. Os “epidemistas” afirmavam, por outro lado, que a causa das doenças deveria ser procurada nas más condições de higiene e nos miasmas da atmosfera, e opunham-se às medidas de isolamento e de quarentena, a partir do momento em que é impossível impedir a circulação do ar (Eugenia Tognotti, Il mostro asiatico. Storia del colera in Italia, Laterza, Roma-Bari 2000). Geralmente, os governos monárquicos pendiam para a hipótese contagionista, enquanto que os liberais e os carbonários, que consideravam tirânicas todas as iniciativas lesivas das liberdades individuais, apoiavam a hipótese epidemista e, quando a doença atingiu o Reino das Duas Sicílias, espalharam a notícia de que a cólera teria sido causada por um veneno propagado pelo próprio governo Bourbon.

Gregório XVI, que condenou o liberalismo na encíclica Mirari vos, de 15 de Agosto de 1832, estava inclinado para hipótese contagionista. A 12 de Agosto, a Congregação Sanitária criada pelo Papa publicou um Regulamento e método para a activação dos cordões sanitários para impedir nas fronteiras do Estado Pontifício, e também nalgumas zonas no seu interior, a entrada e saída de homens e de coisas que, de qualquer modo, pudessem transmitir e propagar o contágio. Os cordões sanitários eram constituídos por duas barreiras sucessivas, com largura de uma milha (o cordão “infectado” e o cordão “saudável”), controladas por uma série de sentinelas que impediam rigorosamente o acesso a qualquer pessoa. Entre os dois cordões, havia, pelo menos, três casas onde as pessoas deveriam passar quatorze dias em quarentena. Ao decreto foram anexas ulteriores disposições, entre as quais o uso de “passaportes sanitários”, emitidos para aqueles que, sob controlo, poderiam circular livremente, e a segregação imediata e completa dos municípios «onde, por uma desgraça, eclodisse o mal». Foi então ordenado que se, apesar de todas as precauções, a doença entrasse numa parte da cidade, se deveria “barricar as ruas”, providenciado, ao mesmo tempo, os mantimentos à população. No final, recordava-se a extrema severidade com que seriam punidas as violações de tais disposições: as penas previam até à prisão perpétua em caso de passagem clandestina pelos cordões e a pena de morte para os casos de contágio culpado (Marcello Teodonio, Francesco Negro, Colera, omeopatia ed altre storie, Roma 1837, Fratelli Palombi, Roma 1988, pp. 38-39).

A cólera ainda não tinha atingido Roma, mas, a 20 de Setembro de 1836, o Cardeal Antonio Domenico Gamberini, Ministro do Interior do Estado Pontifício, publicou um decreto em que, em nome de Gregório XVI, notificava que, para fazer «tudo o que a prudência humana aconselha» e «tornar menos danosa a invasão da doença», se «esta, sob pena dos nossos pecados, nos fosse reservada», era criada, em Roma, uma «Comissão extraordinária de segurança pública», presidida pelo Cardeal Giuseppe Sala e composta por seis membros, três religiosos e três leigos, apoiados por um Conselho Médico permanente. Roma foi dividida em 14 secções sanitárias, correspondentes às enfermarias, cada uma dotada de uma Comissão Particular, composta por médicos, cirurgiões e enfermeiros. Cada Comissão tinha como tarefa a limpeza das ruas, a venda de alimentos e bebidas, a ajuda aos pobres, o socorro aos coléricos. As farmácias deveriam fornecer gratuitamente os medicamentos aos doentes, enquanto que os médicos deveriam manter um registo diário dos casos. O padre Gioacchino Pecci, futuro Leão XIII, que naquele mesmo ano tinha obtido o seu doutoramento em teologia e direito canónico, ajudava o Cardeal Sala na sua missão de superintendente de todos os hospitais da cidade.

A 7 de Janeiro de 1837, a Comissão Militar instituída por Gregório XVI comunicou que havia condenado seis pessoas a prisão perpétua, culpadas por terem rompido o cordão sanitário, e, a 14 de Janeiro, entre os protestos de muitos, foi publicado um decreto com o qual era proibida a celebração do histórico carnaval romano. Na quarta-feira de cinzas, o Cardeal Odescalchi recordava aos romanos de «querer aplacar com jejuns, orações e outras obras de piedade a ira do Omnipotente, causada pelas graves culpas, a fim de afastar os flagelos que nos ameaçam».

Em Julho de 1837, anunciavam-se os primeiros casos de cólera em Roma. A opinião pública dividiu-se entre os que admitiam e os que negavam a existência da epidemia. No entanto, a cólera aumentou entre Julho e Setembro. Enquanto que os círculos liberais continuavam a espalhar o boato de que o governo pontifício teria espalhado deliberadamente a doença, Gregório XVI ordenou o reforço dos cordões sanitários e a suspensão de todos as festas, feriados e todo o tipo de ajuntamento. Foram mobilizadas as tropas, fechadas as fronteiras e os desembarques, e dadas ordens aos corpos de cavalaria para baterem os lugares mais remotos. A 6 de Agosto, foi feita uma solene procissão com o ícone de Nossa Senhora de São Lucas, da Basílica de Santa Maria Maior à Igreja de Jesus, onde a imagem miraculosa permaneceu exposta oito dias. A Nossa Senhora, precedida por um piquete de dragões a cavalo, prestou homenagem, ao longo do percurso, o Papa com todo o Sacro Colégio e o governo romano.

As crónicas registam a abnegação do clero, secular e regular, e a «dedicação evangélica do Pontífice, que não hesitava em ir aonde a doença mais assolava e também a suprir pessoalmente as necessidades materiais e espirituais das vítimas» (Paolo Dalla Torre, L’opera riformatrice ed amministrativa di Gregorio XVI, in Gregório XVI, Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma 1948, vol. II, p. 70). Entre os sacerdotes que se destacaram na heróica assistência aos doentes e no socorro aos moribundos, estavam São Vicente Pallotti e São Gaspar de Búfalo.

Segundo o Diario di Roma da época, no espaço de três meses, de 28 de Julho a 9 de Outubro de 1837, os afectados pela cólera na Cidade Eterna foram 8090 e 4446 os mortos. Também morreu, a 28 de Dezembro, São Gaspar de Búfalo, a cuja morte assistiu São Vicente Palotti, vendo que a sua alma subia ao céu como uma chama. Entre os afectados pela cólera em forma benigna, estava o abade beneditino de Solesmes, Dom Prosper Guéranger, que se encontrava em Roma para obter a aprovação oficial da sua fundação. Uma vez recuperado e obtido o reconhecimento por Gregório XVI, Dom Guéranger tentou regressar a França, mas o seu biógrafo diz que as comunicações do Estado Pontifício com o resto do mundo estavam suspensas e o cordão sanitário bloqueava o porto de Civitavecchia e todas as outras estradas. Só a 4 de outubro é que Dom Guéranger conseguiu deixar o Estado Pontifício e, após uma interminável viagem, conseguiu finalmente chegar a Paris (Dom Guy-Marie Oury, Dom Guéranger moine au coeur de l’Eglise, Editions de Solesmes, 2000, pp. 158 -160).

A epidemia, entretanto, desapareceu lentamente e, a 15 de Outubro, nas três Basílicas Patriarcais de São João, São Pedro e Santa Maria Maior e em todas as igrejas paroquiais, cantou-se solenemente o Te Deum, com indulgência plenária, em agradecimento pelo fim da cólera.

Doze anos depois, em 1849, o furacão da República Romana, muito pior que a epidemia de cólera, varreu a cidade de Roma, constituindo uma nova etapa no processo revolucionário que chega aos nossos dias.

Só em 1884 é que o vibrião responsável pela cólera foi identificado por Robert Koch e, no ano seguinte, foi possível a realização da primeira vacina pelo médico espanhol Jaime Ferran.

Roberto de Mattei      

Através de Corrispondenza Romana

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