terça-feira, 30 de junho de 2020

A Vós, Senhor, eu me confio!



Não desagrada a Deus que, por vezes, vos queixeis suavemente a Ele. Não temais dizer-Lhe: «Porque Vos retirastes para longe, Senhor? (cf Sl 9, 22, LXX) Bem sabeis que Vos amo e que a nada mais aspiro que ao vosso amor. Por caridade, socorrei-me e não me abandoneis».

Se a desolação se prolongar e a vossa angústia se extremar, uni a vossa voz à de Jesus, desse Jesus que morre  na cruz, e dizei, implorando a piedade divina: «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?» (Mt 27, 46). Mas aproveitai esta prova, primeiro para mais vos abaixardes, sabendo que quem ofendeu a Deus não merece consolações; e depois, para avivar ainda mais a vossa confiança, recordai que Deus tem sempre em vista o vosso bem em tudo quanto faz ou permite, e que, por isso, todas as coisas cooperam para o bem (cf Rom 8, 28) da vossa alma. Quanto mais vos sentirdes esmagado pela dor e o desânimo, mais deveis armar-vos de grande coragem e exclamar: «O Senhor é a minha luz e a minha salvação, a quem temerei?» (Sl 26, 1). Sim, Senhor, sois Vós que me iluminais e sereis Vós a salvar-me; confio-me a Vós, «em Vós deposito a minha esperança, não serei confundido para sempre» (Sl 30, 2, LXX).

Deste modo, estabelecei-vos na paz, ciente de que «ninguém esperou no Senhor e foi confundido» (Si 2, 11, Vulg), ninguém se perdeu depois de ter depositado a sua confiança em Deus.

Santo Afonso Maria de Ligório, in Maneira de conversar com Deus    

segunda-feira, 29 de junho de 2020

«A Igreja é uma instituição divina e tudo nela deve partir de Deus» – Viganò



A pedido do Arcebispo Carlo Maria Viganò, o Dies Iræ traduz e publica, em exclusivo para Língua Portuguesa, uma entrevista que Mons. Viganò concedeu a Phil Lawler.

Phil Lawler: Em primeiro lugar, qual é sua opinião sobre o Vaticano II? Que, desde então, as coisas se deterioraram rapidamente é certamente verdade; mas se todo o Concílio é um problema, como é que tal pôde acontecer? Como se concilia essa posição com o que acreditamos na inerrância do Magistério? Como foi possível que todos os Padres Conciliares tenham sido enganados? Mesmo que apenas algumas partes do Concílio (por exemplo, Nostra Aetate, Dignitatis Humanae) são problemáticas, devemos colocar as mesmas questões. Muitos de nós afirmam há anos que o “espírito do Vaticano II” está errado. Vossa Excelência diz agora que esse falso “espírito” liberal reflecte exactamente o próprio Concílio?

Monsenhor Viganò:
Que o Concílio representa um problema, creio que não seja necessário demonstrá-lo: o simples facto de nos questionarmos sobre o Vaticano II e não sobre o Tridentino ou o Vaticano I, parece-me confirmar um dado evidente reconhecido por todos. Na realidade, mesmo aqueles que defendem cegamente o Concílio fazem-no prescindindo de todos os outros Concílios Ecuménicos, dos quais nem sequer um foi definido como concílio pastoral. E note-se: chamam-lhe o Concílio por excelência, quase como se fosse o único de toda a história da Igreja ou, pelo menos, considerando-o um unicum tanto para a formulação da sua doutrina quanto para a autoridade do seu magistério. Uma reunião que, diferentemente das que a precederam, se define precisamente como pastoral e declara que não deseja propor nenhuma nova doutrina, mas que, de facto, cria uma discriminação entre antes e depois, entre Concílio dogmático e Concílio pastoral, entre cânones inequívocos e vãos, entre anathema sit e piscadelas de olhos com o mundo.

Nesse sentido, acredito que o problema da infalibilidade do Magistério – (a inerrância que mencionou diz respeito às Sagradas Escrituras) – nem sequer se coloque, porque o Legislador, ou seja, o Romano Pontífice, em torno do Concílio que convocou, declarou solene e claramente que não queria usar a autoridade doutrinária que, querendo, poderia usar. Gostaria de salientar que nada é mais pastoral do que o proposto como dogmático, uma vez que o exercício do munus docendi na sua forma mais alta coincide com a ordem que o Senhor deu a Pedro de apascentar as Suas ovelhas e os Seus cordeiros. No entanto, essa oposição entre dogmático e pastoral foi feita precisamente por quem, no discurso de abertura do Concílio, quis dar uma severa acepção ao dogma e um significado mais suave, mais conciliador, à pastoral. Também encontramos a mesma abordagem nas intervenções de Bergoglio, onde ele identifica na pastoral uma versão soft do rígido ensinamento católico em matéria de Fé e de Moral, em nome do discernimento. É doloroso reconhecer que o recurso a um léxico equívoco, ou a termos católicos compreendidos em sentido impróprio, entrou na Igreja a partir do Vaticano II, que da leviandade – ou seja, da ambiguidade, a desejada imprecisão da linguagem – é o primeiro e mais emblemático exemplo. Tal aconteceu porque o Aggiornamento, termo também esse ambíguo e ideologicamente seguido pelo Concílio como um absoluto, colocara como principal prioridade o diálogo com o mundo.

Há um outro equívoco que deve ser esclarecido. Se, por um lado, João XXIII e Paulo VI declararam que não queriam comprometer o Concílio na definição de novas doutrinas e queriam que se limitasse a ser apenas pastoral, por outro lado é verdade que externamente – mediaticamente, dir-se-ia hoje – a ênfase dada aos seus actos foi enorme. Serviu para transmitir a ideia de uma presunta autoridade doutrinária, de uma implícita infalibilidade magisterial, que tinham sido claramente excluídas desde o início. Se tal aconteceu, foi para consentir que as suas instâncias, mais ou menos heterodoxas, fossem compreendidas como autorizadas e, portanto, acolhidas pelo clero e pelos fiéis. Mas seria suficiente para desacreditar os autores de tal engano, que ainda hoje se insurgem se se toca na Nostra Aetate, enquanto se calam diante daqueles que negam a divindade de Nosso Senhor ou a virgindade perpétua de Maria Santíssima. Lembremos que o Católico não adora um Concílio, nem o Vaticano II nem o Tridentino, mas a Santíssima Trindade, único Deus verdadeiro; não venera uma declaração conciliar ou uma exortação pós-sinodal, mas a Verdade que esses actos do magistério transmitem.

Pergunta-me: “Como foi possível que todos os Padres Conciliares tenham sido enganados?”. Respondo-lhe com base na minha experiência daqueles anos e nas palavras dos Irmãos com quem me confrontei. Ninguém poderia imaginar que, dentro do corpo eclesial, houvesse forças hostis tão poderosas e organizadas que pudessem rejeitar os esquemas preparatórios, perfeitamente ortodoxos, preparados pelos Cardeais e Prelados de segura fidelidade à Igreja, substituindo-os por um conjunto de erros habilmente dissimulados por trás de discursos extensos e deliberadamente equívocos. Ninguém poderia acreditar que, sob as abóbadas da Basílica Vaticana, se pudessem convocar os estados gerais que decretariam a abdicação da Igreja Católica e a instauração da Revolução (como recordei num escrito precedente, o Cardeal Suenens definiu o Vaticano II o 1789 da Igreja!). Os Padres Conciliares foram objecto de um clamoroso engano, de uma fraude habilmente perpetrada com o recurso aos meios mais subtis: encontraram-se em minoria nos grupos linguísticos, excluídos das reuniões convocadas ao último momento, pressionados a dar o seu placet fazendo-os acreditar que assim o queria o Santo Padre. E aquilo que os inovadores não conseguiam obter na Aula Conciliar, conseguiam-no nas Comissões e nos Conselhos, graças também ao activismo de teólogos e peritos acreditados e aclamados por uma poderosa máquina mediática. Há uma enorme quantidade de estudos e documentos que testemunham esta sistemática mens maliciosa, por um lado, e o optimismo ingénuo ou o descuido dos bons, por outro. A actividade do Coetus Internationalis Patrum poderia ter feito pouco ou nada quando as violações do regulamento por parte dos progressistas eram ratificadas na Sagrada Mesa.

Aqueles que alegaram que o “espírito do Concílio” representava uma interpretação heterodoxa do Vaticano II realizaram uma operação inútil e prejudicial, mesmo se ao fazê-lo eram movidos pela boa fé. É compreensível, para um Cardeal ou um Bispo, o querer defender a honra da Igreja e tentar não desacreditá-la diante dos fiéis e do mundo: pensava-se que o que os progressistas atribuíam ao Concílio fosse, na verdade, uma deturpação indevida, uma violação arbitrária. Mas se à época poderia ser difícil pensar que a liberdade religiosa condenada, por Pio XI, na Mortalium Animos pudesse ser afirmada pela Dignitatis humanae, ou que o Romano Pontífice pudesse ver usurpada a própria autoridade por um fantasmagórico Colégio Episcopal, hoje compreendemos que aquilo que no Vaticano II era habilmente dissimulado hoje é afirmado ore rotundo nos documentos papais, precisamente em nome da aplicação coerente do Concílio.

Por outro lado, quando se fala comumente do espírito de um evento, entende-se exactamente o que desse evento constitui precisamente a alma, a essência. Podemos, portanto, afirmar que o espírito do Concílio é o próprio Concílio, que os erros do pós- concílio estão contidos in nuce nos Actos Conciliares, exactamente como se diz com razão que o Novus Ordo é a Missa do Concílio, mesmo se, na presença dos Padres, se celebrava a Missa que os progressistas chamam de significativamente pré-conciliar. E, uma vez mais: se o Vaticano II realmente não representasse um ponto de ruptura, por que motivo falamos de Igreja pré-conciliar e de Igreja pós-conciliar, como se fossem duas entidades diferentes, definidas, na sua essência, precisamente pelo Concílio? E se o Concílio estivesse realmente alinhado com o Magistério ininterrupto e infalível da Igreja, porquê que é o único que apresenta graves e muito sérios problemas de interpretação, demonstrando a própria heterogeneidade ontológica em relação aos outros Concílios?

Na sua opinião, qual é a solução? Mons. Schneider sugere que um futuro Pontífice deva repudiar os erros; Vossa Excelência considera esta proposta inadequada. Mas, então, como se podem corrigir os erros, de modo a manter a autoridade do magistério de ensinar?

A solução, na minha opinião, está, acima de tudo, num acto de humildade que todos nós, a começar pela Hierarquia e pelo Papa, devemos realizar: reconhecer a infiltração do inimigo no seio da Igreja, a ocupação sistemática dos principais postos-chave da Cúria Romana, dos Seminários e das Universidades, a conspiração de um grupo de rebeldes – incluindo, na linha da frente, a desviada Companhia de Jesus – que conseguiram dar a aparência de legitimidade e de legalidade a um acto subversivo e revolucionário. Devemos também reconhecer a inadequação da resposta dos bons, a ingenuidade de muitos, o temor de outros, o interesse daqueles que, graças a essa conspiração, tiraram alguma vantagem.   

Antes da tripla negação de Cristo no pátio do sumo sacerdote, Pedro “flevit amare”, chorou amargamente. A tradição diz-nos que o Príncipe dos Apóstolos tinha dois sulcos na face por causa das lágrimas que derramou copiosamente durante o resto dos seus dias, arrependido da sua traição. Caberá a um seu Sucessor, ao Vigário de Cristo, na plenitude do seu poder apostólico, retomar o fio da Tradição onde foi cortado. Esta não será uma derrota, mas um acto de verdade, de humildade e de coragem. A autoridade e a infalibilidade do Sucessor do Príncipe dos Apóstolos emergirão intactas e reconfirmadas. De facto, essas não foram deliberadamente invocadas no Vaticano II, ao passo que o serão no dia em que um Pontífice tiver de corrigir os erros que aquela Assembleia permitiu, jogando sobre o equívoco de uma autoridade oficialmente negada, mas sub-repticiamente mostrada aos fiéis por toda a Hierarquia, a começar precisamente pelos Papas do Concílio.

Quero recordar que, para alguns, o acima exposto poderá parecer excessivo, porque colocaria em discussão a autoridade da Igreja e dos Romanos Pontífices. No entanto, nenhum escrúpulo impediu de violar a Bula Quo primum tempore, de São Pio V, abolindo, de um dia para o outro, toda a Liturgia Romana, o venerável tesouro milenar de doutrina e espiritualidade da Missa Tradicional, o imenso património do canto gregoriano e da música sacra, a beleza dos ritos e das vestes sacras, desfigurando a harmonia arquitectónica, inclusive de insignes basílicas, removendo balaustradas, altares monumentais e tabernáculos: tudo se sacrificou no altar do coram populo da renovação conciliar, com a agravante de o ter feito só porque aquela Liturgia era admiravelmente católica e incompatível com o espírito do Vaticano II.

A Igreja é uma instituição divina e tudo nela deve partir de Deus e a Ele voltar. Não está em jogo o prestígio de uma classe dirigente, nem a imagem de uma empresa ou de um partido: aqui trata-se da glória da Majestade de Deus, de não negar a Paixão de Nosso Senhor na Cruz, dos sofrimentos e dos tormentos de Sua Santíssima Mãe, do sangue dos Mártires, do testemunho dos Santos, da eterna salvação das almas. Se, por orgulho ou obstinação infeliz, não soubermos reconhecer o erro e o engano em que caímos, teremos que prestar contas a Deus, que é tão misericordioso com o seu povo quando se arrepende, como implacável na justiça quando segue Lúcifer no non serviam.

† Carlo Maria Viganò

domingo, 28 de junho de 2020

«Quem vos recebe, a Mim recebe»



«Quem acolher este menino em meu nome, é a Mim que acolhe», diz o Senhor (Lc 9, 48). Quanto mais pequeno for esse irmão que se acolhe, mais Cristo estará presente nele. Porque, quando recebemos uma pessoa importante, é muitas vezes por vã glória que o fazemos; mas aquele que recebe um pequenino, fá-lo com uma intenção pura e por Cristo. «Eu era peregrino e recolhestes-Me», disse o Senhor. E ainda: «Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes» (Mt 25, 35.40). Tratando-se de um crente e de um irmão, por mais pequeno que seja, é Cristo que com ele entra. Abre, pois, a porta de tua casa e acolhe-O.   

«Quem recebe um profeta por ele ser profeta, receberá recompensa de profeta». Portanto, aquele que receber a Cristo, receberá a recompensa da hospitalidade de Cristo. Não ponhas em causa estas palavras, confia nelas. Ele próprio no-lo disse: «Neles, sou Eu que apareço». E para que não duvides, o Senhor decreta um castigo para aqueles que não O receberem, e honras para os que O receberem (Mt 25, 31s); ora, não o faria se não fosse pessoalmente tocado pela honra ou pelo desprezo. «Acolheste-Me», diz, «em tua casa, Eu receber-te-ei no Reino de meu Pai. Libertaste-Me da fome, Eu te libertarei dos teus pecados. Visitaste-Me quando estava preso, Eu te farei conhecer a libertação. Acolheste-Me quando era estrangeiro, Eu farei de ti um cidadão dos Céus. Deste-Me pão, Eu te darei o Reino como herança e tua plena propriedade. Ajudaste-Me em segredo, Eu proclamá-lo-ei publicamente, chamando-te meu benfeitor e a Mim, teu devedor». 

São João Crisóstomo, in Homilias sobre os Actos dos Apóstolos, n.º 45; PG 60, 318

sábado, 27 de junho de 2020

«Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa»



Que procuras? A felicidade. [...] Procuras uma coisa boa, mas que não existe neste mundo. [...] Tendo vindo até junto de nós, Cristo encontrou o que nós temos em abundância: penas, dores e a morte; é o que tens, e o que entre nós existe em abundância. Ele comeu contigo o que havia em abundância na pobre casa da tua infelicidade. Ele bebeu vinagre, ele provou fel (Jo 19, 29) – tudo quanto encontrou na tua pobre casa.

Mas convidou-te para a sua mesa magnífica, para a sua mesa do Céu, para a sua mesa dos Anjos, onde Ele mesmo é o pão (Jo 6, 34). Descendo até ti, e encontrando infelicidade na tua pobre casa, não desdenhou de Se sentar à tua mesa, tal como era, e prometeu-te a sua. [...] Assumiu a tua infelicidade, para te dar a sua felicidade. E dar-ta-á, pois prometeu-nos a sua vida.  

E aquilo que realizou é ainda mais incrível: deu-nos em penhor a sua própria morte. É como se nos tivesse dito: Convido-vos para a minha vida, onde ninguém morre, onde se encontra a verdadeira felicidade, onde o alimento não se corrompe, mas restaura, nunca falta e tudo preenche. Vede para onde vos convido: para a terra dos Anjos, para a amizade do Pai e do Espírito Santo, para uma refeição eterna, para a minha amizade fraterna. Enfim, convido-vos para Mim mesmo, convido-vos para a minha própria vida. Duvidais de que vos darei a minha vida? Tendes a minha morte como testemunho.   

Santo Agostinho, in Sermão 231

sexta-feira, 26 de junho de 2020

«Quero, fica purificado»



Tal como o agir, também o sofrimento [sob todas as suas formas] faz parte da existência humana. Este deriva, por um lado, da nossa finitude e, por outro, da súmula de erros que se acumularam ao longo da história e que ainda hoje não cessa de aumentar.

É preciso, obviamente, fazer tudo o que é possível para atenuar o sofrimento: impedir, na medida do possível, o sofrimento dos inocentes; amenizar as dores; ajudar a superar os sofrimentos psíquicos. Tudo isto são deveres, tanto de justiça como de amor, que se inserem nas exigências fundamentais da existência cristã e de todas as vidas verdadeiramente humanas. Na luta contra a dor física, conseguiram-se realizar grandes progressos; mas o sofrimento dos inocentes e também os sofrimentos psíquicos aumentaram no decurso destas últimas décadas.   

Sim, devemos fazer tudo para superar o sofrimento, mas eliminá-lo completamente do mundo não está nas nossas possibilidades humanas, simplesmente porque não podemos ultrapassar a nossa finitude e porque nenhum de nós é capaz de eliminar o poder do mal, do erro, que – como constatámos – é uma fonte contínua de sofrimento. Isto só Deus o poderia fazer: só um Deus que entra pessoalmente na História tornando-Se homem e sofrendo nela. Nós sabemos que este Deus existe e que, por isso, este poder que «tira os pecados do mundo» (Jo 1, 29) está presente no mundo. Pela fé na existência deste poder, surgiu na História a esperança da cura do mundo.     

Bento XVI, in Encíclica Spe Salvi, 36

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Viver assentes na rocha da fé


O justo, ou seja, aquele que, no Baptismo, se revestiu do homem novo, criado na justiça, vive, enquanto justo, da fé, da luz que lhe confere o sacramento da iluminação. Quanto mais vive da fé, mais vive uma verdadeira vida sobrenatural, mais realiza em si a perfeição da sua adopção divina. Reparai bem na expressão “ex fide”: o que quer ela dizer exactamente? Quer dizer que a fé deve estar na raiz de todos os nossos actos, de toda a nossa vida. Há almas que vivem “com fé”, “cum fide”; têm fé e não se pode negar que a pratiquem, mas só se recordam eficazmente da sua fé em determinadas ocasiões [...].

Quando, porém, a fé é viva, forte e ardente, quando vivemos de fé, ou seja, quando nos orientamos em tudo pelos princípios da fé, quando a fé se encontra na raiz de todas as nossas acções e é o princípio interior de toda a nossa actividade, nessa altura, tornamo-nos fortes e estáveis, a despeito de todas as dificuldades, contrariedades e tentações que possamos sentir. E porquê? Porque, pela fé, julgamos todas as coisas como Deus as vê, as julga e as avalia, participando da infalibilidade, da imutabilidade e da estabilidade divinas.

É precisamente isso que Nosso Senhor nos diz: «Todo aquele que ouve as minhas palavras e as põe em prática», ou seja, que vive da fé, «é como o homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as torrentes e sopraram os ventos contra aquela casa; mas ela não caiu, porque», acrescenta Jesus, «estava fundada sobre a rocha».

Beato Columba Marmion, in A nossa fé, vitória sobre o mundo

quarta-feira, 24 de junho de 2020

«João não era a luz, mas veio para dar testemunho» (Jo 1, 8)



O facto de o nascimento de João ser comemorado quando os dias começam a diminuir e o do Senhor quando os dias começam a aumentar tem um significado simbólico. Com efeito, o próprio João revelou o segredo desta diferença. As multidões tomavam-no pelo Messias em razão das suas virtudes eminentes, e alguns consideravam que o Senhor não era o Messias, mas um profeta, devido à fragilidade da sua condição corporal. E João declarou: «Convém que Ele cresça e que eu diminua» (Jo 3, 30). E o Senhor cresceu verdadeiramente, porque, quando foi olhado como profeta, deu a conhecer aos crentes do mundo inteiro que era o Messias. João diminuiu, porque aquele que as pessoas julgavam ser o Messias lhes apareceu, não como Messias, mas como anunciador do Messias.

É normal, pois, que a luz dos dias comece a diminuir a partir do nascimento de João, dado que a sua reputação de divindade havia de desaparecer, assim como o seu Baptismo. E também é normal que a luz dos dias recomece a aumentar a partir do nascimento do Senhor, pois Ele veio à Terra trazer aos pagãos as luzes de um conhecimento que, até então, só os judeus possuíam em parte, e difundir por todo o mundo o fogo do seu amor.

S. Beda, o Venerável, in Homilia II, 20; CCL 122, 328-330

terça-feira, 23 de junho de 2020

«O caminho que conduz à vida»


Meus bem-amados, eis o caminho pelo qual encontrámos a salvação: Jesus Cristo, o Sumo Sacerdote que apresenta as oferendas, o protector e auxílio da nossa fraqueza (Heb 10, 20; 7, 27; 4, 15). Por Ele fixamos o olhar no alto dos Céus; por Ele contemplamos, como que num espelho, a face pura e sublime do Pai; por Ele se abriram os olhos do nosso coração; por Ele, a nossa inteligência limitada e obscura desabrocha para a luz; por Ele, quis o Mestre dar-nos a saborear a sabedoria imortal, Ele que é «resplendor da glória do Pai [...], tão superior aos anjos quanto superior ao deles é o nome que recebeu em herança» (Heb 1, 3-4) [...].

Consideremos o nosso corpo: a cabeça não é nada sem os pés, assim como os pés não são nada sem a cabeça; os membros mais insignificantes que temos são necessários e benéficos para todo o corpo; e todos contribuem para a salvação do corpo inteiro, colaborando numa submissão que os unifica (1 Cor 12, 12ss). Asseguremos, portanto, a salvação do corpo místico que formamos em Cristo Jesus, e que cada um de nós se submeta ao seu próximo, segundo o carisma que recebeu. Que o forte se preocupe com o fraco e que o fraco respeite o forte; que o rico ajude o pobre e que o pobre dê graças a Deus que lhe concedeu alguém para o compensar da sua indigência; que o sábio mostre a sua sabedoria não por palavras mas por boas acções; que o humilde não dê testemunho de si mesmo, mas deixe a outro esse cuidado; que aquele que é casto na sua carne não se glorie, sabendo que é outro que lhe concede a continência.

Pensemos pois, meus irmãos, na forma como nascemos: que éramos nós quando viemos ao mundo? De que túmulo, de que escuridão nos tirou Aquele que nos formou, nos criou e nos introduziu neste mundo, que Lhe pertence? Ele já nos tinha preparado os seus benefícios antes mesmo de nascermos. Visto que tudo isto recebemos d’Ele, devemos dar-Lhe graças por tudo.

São Clemente de Roma, in Carta aos Coríntios, §§ 36-38

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Segui o caminho do Céu!



Dia após dia, segui o caminho de Deus, mantendo-O estreitamente ligado a vós pelas suas promessas; com efeito, Ele próprio declarou, por meio dos apóstolos, a todos os que procuram a sua vontade e os seus testemunhos (cf. Sl 118, 31, LXX), que estaria com eles até ao fim do mundo (cf. Mt 28, 20), onde nem caminhos nem vestígios fossem conhecidos (Sl 76, 20), como disse o divino David nos seus cânticos. Porém, está presente de forma invisível aos olhos da inteligência, dando-Se a ver àqueles que têm um coração puro e conversando com eles. Segui, pois, o vosso caminho. [...]       

Tomai as asas do amor de Deus para voardes como as nuvens (cf. Is 60, 8), elevados acima das armadilhas deste mundo. Ungi os vossos pés com o óleo da alegria (cf. Sl 44, 8) e da temperança. Não atravanqueis o caminho estreito do Senhor com os vossos passos preguiçosos. Se, na vossa pusilanimidade, tendes sede, bebei da água da paciência (cf. Ecl 15, 3); se, na vossa atonia espiritual, tendes fome, comei do pão que alimenta e fortifica o coração do homem (cf. Sl 103, 15): a palavra da sabedoria e da coragem. Recolhei o hábito e estai prontos a agir, olhar para o alto e não carregueis sobre vós esses fardos esmagadores que são os vossos maus quereres; pois, àquele que faz a viagem da Terra até ao Céu, basta-lhe seguir o seu caminho com diligência, sem se sobrecarregar com pesos suplementares. [...]       

Sede fortes no Senhor; subi à montanha de Deus, à sua morada santa (cf. Is 2, 3), com Isaías, o profeta da voz poderosa. Que ninguém fique para trás, que ninguém se sente; ajudai-vos uns aos outros, todos enraizados em firme caridade.  

São Teodoro Estudita, in Catequese 11

domingo, 21 de junho de 2020

«O que escutais ao ouvido, proclamai-o sobre os telhados»



Não comecei este trabalho por mim próprio; foi Cristo Senhor que me ordenou que viesse passar o resto dos meus dias junto dos irlandeses pagãos – se o Senhor assim quiser e se Ele me guardar dos maus caminhos. [...] Mas não confio em mim próprio enquanto resido neste corpo de morte (cf 2 Pe 1, 13; Rm 7, 24). [...] Não levei uma vida perfeita como outros fiéis, mas confesso-o ao meu Senhor e não me envergonho na sua presença. Porque eu não minto: depois que O conheci na minha juventude, o amor de Deus cresceu em mim, assim como o seu temor, e até ao presente, pela graça do Senhor, «guardei a fé» (2 Tm 4, 7).   

Que se ria, pois, e me insulte quem quiser; eu não me calarei nem esconderei «os sinais e as maravilhas» (Dn 6,27) que o Senhor me mostrou muitos anos antes de se terem realizado, pois Ele conhece todas as coisas. Por isso, dou sem cessar graças a Deus, que tantas vezes perdoou os meus disparates e a minha negligência, e não Se irritou uma única vez comigo, a quem fez bispo. O Senhor «teve piedade» de mim «em favor de milhares e milhares de homens» (Ex 20, 6), porque viu que eu estava disponível. [...] Com efeito, muitos foram os que se opuseram a esta missão; falavam mesmo entre si nas minhas costas e diziam: «Porque se lança ele nesta tarefa tão perigosa, entre estrangeiros que não conhecem a Deus?». Não era por malícia que se exprimiam assim; eu próprio, o confirmo: por causa da minha rudeza, não conseguem compreender porque fui nomeado bispo. E eu próprio demorei a reconhecer a graça que estava em mim; mas tudo isso se tornou claro.      

Agora, explico com simplicidade aos meus irmãos e aos companheiros que acreditaram em mim porque preguei e continuo a pregar (2 Cor 13, 2), com o fim de fortificar e confirmar a sua fé. Possais vós ambicionar também as metas mais elevadas e realizar as obras mais excelentes. Isso será a minha glória, porque «um filho sábio é a glória do seu pai» (Pr 10, 1).

São Patrício, in Confissão, 43-47          

sábado, 20 de junho de 2020

O cumprimento da Lei



A graça permaneceu velada no Antigo Testamento, mas foi revelada no Evangelho de Cristo quando chegaram os tempos previstos por Deus para a revelação da sua bondade. […] Comparando estas duas épocas, notamos uma diferença profunda. No sopé do Sinai, o povo, tomado de pavor, não ousava aproximar-se do local onde Deus dava a sua lei (Ex 19); pelo contrário, no cenáculo, o Espírito Santo desceu sobre aqueles que estavam reunidos aguardando a realização da promessa (Act 2). Ali, o dedo de Deus trabalhou em tábuas de pedra (Ex 31, 18); aqui, no coração dos homens (Lc 11, 20). […]         

«A realização perfeita da lei é o amor» (cf. Mt 5,17). Esse amor de caridade não estava escrito nas tábuas de pedra, mas «derramou-se nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Rm 5,5). Portanto, a lei de Deus é a caridade (Rm 13,10). O desejo da carne não se submete à lei de Deus; nem sequer é capaz disso (cf. Rm 8,17). Foi para reprimir o desejo da carne que as obras de caridade foram escritas nas tábuas de pedra; era a lei das obras, a letra que mata aqueles que praticam o mal. Mas, quando a caridade se espalhou no coração dos crentes, apareceu a lei da fé e o Espírito que dá a vida aos que amam.         

Vede como a diferença entre essas duas leis se conjuga perfeitamente com as palavras do apóstolo Paulo: «É evidente que sois uma carta de Cristo, confiada ao nosso ministério, escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo; não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, que são os vossos corações» (2 Cor 3, 6.5). E tudo isso é admiravelmente confirmado pelo profeta Jeremias: «Dias virão em que firmarei uma nova aliança com a casa de Israel e a casa de Judá – oráculo do Senhor. Não será como a Aliança que estabeleci com seus pais. […] Imprimirei a minha lei no seu íntimo e gravá-la-ei no seu coração» (Jr 31, 31s).        

Santo Agostinho de Hipona, in O espírito e a letra, 27-33

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Recebei-me no Vosso divino coração



Agora, meu amor, meu Rei e meu Deus, meu bem-amado Jesus, recebei-me na misericordiosa protecção do Vosso divino coração, e prendei-me ao Vosso amor, para que eu viva inteiramente para Vós. Fazei-me mergulhar no vasto mar da Vossa profunda misericórdia, confiai-me às entranhas da Vossa bondade superabundante. Lançai-me na chama devoradora do Vosso divino amor e fazei-me passar em Vós até queimar e reduzir a cinzas a minha alma e o meu espírito.  E, na hora da minha morte, remetei-me para a providência da Vossa paternal caridade.     

Ó meu doce Salvador, consolai-me pela visão da Vossa dulcíssima presença, reconfortai-me pelo gosto do precioso resgate com que me adquiristes. Chamai-me a Vós com a voz intensa do Vosso amor, recebei-me ao calor do Vosso perdão infinitamente misericordioso. Pelo sopro da doçura do Vosso Espírito, eflúvio de suavidade, atraí-me a Vós, puxai-me para Vós e atraí-me. No abraço da união perfeita, fazei-me mergulhar no gozo eterno de Vós e fazei-me ver-Vos, possuir-Vos e gozar para sempre de Vós na maior felicidade, porque a minha alma foi seduzida por Vós, ó Jesus, mais caro de todos quantos são caros. Ámen.    

Santa Gertrudes de Helfta, in Exercícios IV, SC 127     

19 de Junho – Dia mundial de oração, penitência e jejum



LADAINHA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.

Pai Celeste, que sois Deus, tende piedade de nós.
Filho, Redentor do mundo, que sois Deus, tende piedade de nós.
Espírito Santo, que sois Deus, tende piedade de nós.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.

Coração de Jesus, Filho do Pai eterno, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, formado pelo Espírito Santo no seio da Virgem Mãe, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, unido substancialmente ao Verbo de Deus, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, majestade infinita, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, templo santo de Deus, tende piedade de nós
Coração de Jesus, tabernáculo do Altíssimo, tende piedade de nós
Coração de Jesus, casa de Deus e porta do Céu, tende piedade de nós
Coração de Jesus, fornalha ardente de caridade, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, receptáculo de justiça e de amor, tende piedade de nós
Coração de Jesus, cheio de bondade e de amor, tende piedade de nós
Coração de Jesus, abismo de todas as virtudes, tende piedade de nós
Coração de Jesus, digníssimo de todo o louvor, tende piedade de nós
Coração de Jesus, Rei e centro de todos os corações, tende piedade de nós
Coração de Jesus, no qual estão todos os tesouros da sabedoria e ciência, tende piedade de nós
Coração de Jesus, no qual habita toda a plenitude da divindade, tende piedade de nós
Coração de Jesus, no qual o Pai põe todas as suas complacências, tende piedade de nós
Coração de Jesus, de cuja plenitude todos nós participamos, tende piedade de nós
Coração de Jesus, desejado desde toda a eternidade, tende piedade de nós
Coração de Jesus, paciente e de muita misericórdia, tende piedade de nós
Coração de Jesus, rico para todos que vos invocam, tende piedade de nós
Coração de Jesus, fonte de vida e santidade, tende piedade de nós
Coração de Jesus, propiciação por nossos pecados, tende piedade de nós
Coração de Jesus, saturado de opróbrios, tende piedade de nós
Coração de Jesus, esmagado de dor por causa dos nossos pecados, tende piedade de nós
Coração de Jesus, feito obediente até à morte, tende piedade de nós
Coração de Jesus, atravessado pela lança, tende piedade de nós
Coração de Jesus, fonte de toda a consolação, tende piedade de nós
Coração de Jesus, nossa vida e ressurreição, tende piedade de nós
Coração de Jesus, nossa paz e reconciliação, tende piedade de nós
Coração de Jesus, vítima dos pecadores, tende piedade de nós
Coração de Jesus, salvação dos que em vós esperam, tende piedade de nós
Coração de Jesus, esperança dos que morrem em vós, tende piedade de nós
Coração de Jesus, delícias de todos os santos, tende piedade de nós

Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, perdoai-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, ouvi-nos Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós.

Jesus, manso e humilde de coração. Fazei o nosso coração semelhante ao Vosso.

Oremos
Deus Omnipotente e Eterno, olhai o Coração do Vosso dilectíssimo Filho e os louvores e reparações que pelos pecadores Vos tem tributado; e aos que invocam a Vossa misericórdia, vós, aplacado, sede fácil no perdão, pelo mesmo Jesus Cristo que Convosco vive e reina para sempre, na unidade do Espírito Santo. Ámen.       

ACTO DE CONSAGRAÇÃO AO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

Ó Jesus dulcíssimo, ó redentor do género humano, olhai para nós, humildemente prostrados diante de vosso altar. Nós somos vossos, e vossos queremos ser, e para poder viver mais estreitamente unidos a vós, eis que cada um de nós, hoje, se consagra ao vosso sacratíssimo Coração. Muitos não vos conheceram; muitos, desprezando os vossos mandamentos, repudiaram-vos. Ó benigníssimo Jesus, tende misericórdia tanto de uns quanto de outros; e todos os que atraís ao vosso santíssimo Coração. Ó Senhor, sede o rei não só dos fiéis que nunca se afastaram de vós, mas também dos filhos pródigos que vos abandonaram; fazei que eles voltem, quanto antes, à casa paterna, para não morrerem de miséria e de fome. Sede rei dos que vivem no erro ou que por discórdia estão separados de vós: chamai-os ao porto da verdade e à unidade da fé, para que, dentro em breve, haja um só rebanho sob um só pastor. Sede finalmente o rei daqueles que estão envolvidos nas superstições dos pagãos, e não recuseis tirá-los das trevas para a luz e o reino de Deus. Concedei, ó Senhor, incolumidade e liberdade segura à vossa Igreja, concedei a todos os povos a tranquilidade da ordem: fazei que de uma extremidade à outra da terra ressoe esta única voz: sejam dados louvores àquele Coração divino do qual nos veio à salvação; a ele a glória e a honra pelos séculos dos séculos. Assim seja. 

ORAÇÕES DE FÁTIMA

Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não creem, não adoram, não esperam e não Vos amam.      

Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Uma alma pura tem enorme poder



Não há coisa tão bela como uma alma pura. Quem o compreender, tudo fará para não perder a pureza. Uma alma pura é como uma pérola de grande beleza: enquanto está escondida dentro da ostra, no fundo do mar, não é admirada por ninguém; mas, quando é mostrada à luz do sol, brilha e atrai o olhar. A pureza vem do Céu; temos de pedi-la a Deus. Se Lha pedirmos, Ele conceder-no-la-á. E temos de ter o cuidado de não a perder. Para tal, fechemos o coração ao orgulho, à sensualidade e a todas as outras paixões.

Meus filhos, não imaginais o poder que tem uma alma pura aos olhos de Deus: ela obtém tudo o que quer. Uma alma pura é, diante de Deus, como um filho diante de sua mãe; Deus acaricia-a e beija-a, como faz a mãe a seu filho.

Três coisas há que nos permitem manter a pureza: a presença de Deus, a oração e os sacramentos.          

São João Maria Vianney, in Pensamentos Selectos

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Encantar o coração de Deus



Alma devota, grava profundamente no teu espírito o seguinte ensinamento, que é comum a todos os mestres da vida espiritual: após teres cometido uma infidelidade, regressa imediatamente a Deus, mesmo que caias cem vezes ao dia; e fica em paz. [...] Entre amigos que se amam de todo o coração, não é raro que um pequeno conflito, reparado com um pedido humilde de desculpas, reforce ainda mais a amizade. Que o mesmo aconteça entre ti e Deus: utiliza as tuas faltas para tornar ainda mais estreita a tua união de amor com Ele.          

Por vezes, sentes dificuldade em tomar uma decisão ou em dar um conselho. Uma vez mais, não temas nem deixes de agir com Deus, como fazem os amigos fiéis uns com os outros, consultando-se em todas as ocasiões: consulta a Deus, pede-Lhe que te sugira a solução que estiver mais de acordo com a sua vontade. «Senhor, ponde nos meus lábios a palavra que devo dizer e no meu coração a decisão que devo tomar» (Jdt 9, 18). Sugeri-me o que quereis que eu faça ou responda, e assim farei. «Falai, Senhor, que o vosso servo escuta» (1 Sm 3, 10).

Dá a Deus outro testemunho de confiança amiga, não Lhe falando apenas das tuas coisas, mas também das coisas do próximo. Que prazer não dás ao seu coração quando, esquecendo as tuas preocupações, Lhe recordas os interesses da sua glória e os infortúnios dos outros! [...] Meu Deus, que sois digno de todo o amor, dai-Vos a conhecer e fazei-Vos amar. Que o vosso reino seja adorado e bendito por todos, que o vosso amor reine em todos os corações! [...]      

Em conclusão: se queres encantar o coração amante de Deus, procura falar-Lhe com a maior frequência possível, e até continuamente, com a maior e a mais confiante liberdade. Ele não deixará de te responder e de manter a conversa do seu lado.   

Santo Afonso Maria de Ligório, in Maneira de conversar com Deus    

terça-feira, 16 de junho de 2020

O “conspiracionismo” à luz da doutrina católica



O Secretário-Geral da ONU, o ex-Presidente da Internacional Socialista António Guterres, deu uma entrevista ao Osservatore Romano, que há cerca de 160 anos funciona como órgão oficioso da Santa Sé. À pergunta de como enfrentar o sentimento de pânico que se tem difundido ultimamente entre as pessoas, o alto dignitário respondeu que «nas últimas semanas houve um aumento das teorias da conspiração e dos sentimentos xenófobos», fazendo uma referência velada às acusações levantadas contra o governo comunista da China. O alimento do pânico seria «uma epidemia de desinformação», uma verdadeira «montanha de histórias e publicações enganosas reproduzidas nas redes sociais».

Para rectificar a informação, Guterres informa ter «lançado uma iniciativa das Nações Unidas de resposta às comunicações chamada Verified, com o objectivo de fornecer às pessoas informações precisas e baseadas em factos», e encoraja os líderes religiosos a utilizar as próprias redes de comunicação para «apoiar os governos na promoção das medidas de saúde pública recomendadas pela Organização Mundial de Saúde – do distanciamento físico a uma boa higiene – e para desmentir falsas informações e rumores»[1].

O que a entrevista deixa claro é que há, actualmente, um entrechoque entre duas visões da chamada “crise do coronavírus”, que melhor seria chamá-la de “crise do confinamento”: uma é a versão oficial, amplamente disseminada pela grande media, e a outra é a versão alternativa, restringida às redes sociais. Mas esta versão alternativa está de tal maneira a ganhar adeptos que a ONU se viu obrigada a montar uma dupla ofensiva de descrédito: o sistema Verified de monitoramento e réplica àquilo que se diz nas redes sociais e a etiqueta infamante de “conspiracionismo” para os que questionam a versão oficial. Uma etiqueta que serve o mesmo propósito que o velho rótulo de “fascista”: denigrar e silenciar os opositores.

Já antes dessa entrevista de Guterres, a expressão tinha sido usada pelos bispos alemães para qualificar o Apelo promovido pelo Arcebispo Carlo Maria Viganò, mero estratagema vergonhoso para fugir do debate com os Cardeais e Prelados que o assinaram.

Qual é o valor dessa etiqueta? Tem algum cabimento, desde o ponto de vista da doutrina católica, a hipótese de uma conjuração anticristã? Como interpretar a “nova normalidade” pós-confinamento: uma evolução espontânea ou o resultado da maior operação de engenharia social e de transbordo ideológico da história, como denunciou recentemente o Instituto Plinio Corrêa de Oliveira?

São os três aspectos da questão que mereceriam um livro, mas que abordaremos o mais sumariamente possível no presente artigo.


Qual é o valor científico do rótulo “conspiracionista” e dos estudos sociológicos sobre as “teorias da conspiração”

Os sociólogos que popularizaram o conceito de “Teorias da Conspiração” descrevem-nas como explicações simplistas de eventos naturais ou humanos que resultariam da acção maligna de um grupo de pessoas – uma minoria ou todo um “sistema” – que agem em segredo para um fim distinto da versão “oficial” ou “óbvia”. Aos olhos dos adeptos da teoria, a trama oculta ficaria ao descoberto vinculando diversos eventos ou detalhes desconexos, mas discrepantes com a versão geralmente admitida (ou não explicáveis por ela), e que só se esclareceriam caso se admitisse a hipótese de uma maquinação.

Segundo tais sociólogos, os inventores e os seguidores de tais explicações seriam pessoas ofuscadas pela complexidade da realidade ou, pior, espíritos paranoides que julgam que a força motriz por trás dos eventos da história não é o operar livre das pessoas ou o azar, mas uma conspiração de dimensão apocalíptica, fruto da luta entre o bem absoluto e o mal absoluto, diante da qual tais espíritos doentios se sentem vítimas impotentes.

A popularidade das teorias da conspiração seria também o resultado da ansiedade experimentada pelas sociedades ocidentais contemporâneas diante dos cenários inquietantes da actualidade: catástrofes ecológicas, terrorismo, fragmentação e complexidade crescentes da realidade, rapidez das mudanças, velocidade da informação, riscos associados às novas tecnologias, etc. Contribuiria igualmente para tal sucesso a sensação da perda de valores éticos e religiosos e de regras sociais claras, conduzindo a uma desconfiança em relação às instituições sociais existentes e à impressão de não ter controlo sobre o entorno em que a pessoa vive.

Daí o número elevado de pessoas que hoje acreditam em diversas “conspirações”: desde as que teriam provocado o assassinato de John Kennedy (atribuído à CIA ou à máfia siciliana), a morte de Lady Di (tramada pelos serviços secretos britânicos) e o atentado islamista às Torres Gémeas (supostamente organizado pelo Mossad israelense ou a CIA), até as fantasiosas teses de que a chegada do homem à lua foi uma fotomontagem ou de que a Terra na realidade é plana.

Dois aspectos são contestáveis nesse conceito sociológico de “teorias da conspiração” e da etiqueta “conspiracionista” esgrimida contra aqueles que questionam a versão oficial ou a explicação mediática de algum acontecimento ou realidade.

O primeiro aspecto contestável é que esse conceito atribui a teses ridículas e carentes de provas que circulam em grupúsculos insignificantes o mesmo nível intelectual que a estudos de grande calibre científico produzidos por intelectuais ou instituições de renome. Assim, por exemplo, a etiqueta “teoria da conspiração” permite desqualificar intelectualmente os milhares de cientistas que, desde diferentes áreas de investigação, questionam, com dados fundamentados, as previsões ou conclusões do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. Ou, então, as denúncias muito bem fundamentadas das associações de pais que se inquietam pelos programas educativos visando impor a ideologia de género no currículo escolar dos seus filhos, uma evolução que tem claramente por detrás o poderoso lobby LGBT.

O segundo aspecto contestável desse conceito sociológico é que as “teorias da conspiração”, assim ridicularizadas, são, na sua imensa maioria, “de direita” e raramente “de esquerda”. E isso apesar de que nos meios ditos progressistas seja oficialmente ensinado que a burguesia está alinhada com os políticos para explorar os proletários, ou que os homens se articulam entre si para impedir o desmantelamento do patriarcado e a libertação das mulheres ou, ainda, que as grandes companhias petrolíferas compram políticos, órgãos da media e cientistas para promover o actual modelo de desenvolvimento industrial não sustentável. Porquê dois pesos e duas medidas, se é notória a existência de grupos de pressão nos dois sentidos? Por que seria “teoria da conspiração” somente a denúncia daquilo que vai contra a doxa oficial ou mediaticamente correcta e não as denúncias diametricamente opostas formuladas pelas correntes de esquerda contra os representantes e os defensores da ordem actual?

A conspiração anticristã é uma realidade ou uma hipótese paranoica?

A teologia e a filosofia da história são as ciências que fornecem elementos para responder à pergunta em epígrafe, de grande actualidade. Que há no curso da história humana uma luta entre a Cidade de Deus e a Cidade do Homem é uma convicção ensinada pela Igreja desde os tempos de Santo Agostinho. Mas, pergunta-se: tal luta implica, necessariamente, numa conspiração por parte das forças do mal?

Vários teólogos, filósofos e historiadores católicos têm-se debruçado sobre o assunto tendo chegado a um consenso, pelo menos genérico, da existência de uma “conjuração anticristã”, para assumir o título da conhecida obra de Mons. Henri Delassus.

As razões teológicas são assaz evidentes e resume-as muito apropriadamente o Pe. Henri Ramière S.J. no seu trabalho O Reino de Jesus Cristo na história – Introdução ao estudo da Teologia da História. Após demostrar que Deus teve um fim ao criar e segue um plano no governo do mundo («o Reino de Jesus Cristo, eis a expressão que melhor resume o plano divino e que melhor exprime a restauração e a recapitulação universal que São Paulo nos mostra como termo de todos os desígnios de Deus (Ef 1, 10)»), o grande promotor da devoção ao Sagrado Coração de Jesus passa a estudar «o plano satânico»[2] que visa vingar na Terra a derrota que o chefe dos espíritos rebeldes sofreu no Céu. «É o que indica o nome Satanás, que significa adversário», pois ele «só tem luz, energia e poder para se opor ao Bem e lutar contra o divino Amor».

Segundo o Pe. Ramière, Satanás não visa apenas entravar e destruir o plano divino, mas ambiciona executar uma sua contrafacção: «O sonho do seu ódio é arrastrar os filhos de Deus como escravos, para poder, na pessoa deles, insultar Aquele que o venceu». Mas, para isso, o demónio «precisa, como Jesus Cristo, de apóstolos, de soldados, de confessores, de padres e até de mártires».

No paganismo da Antiguidade, já ele tinha, à imitação de Deus, templos de sacrifícios, oráculos, mistérios, sacerdotes e adoradores. Mas, «assim como a Igreja verdadeira estava ainda apenas no esboço, também a igreja diabólica não tinha recebido a última organização» e, além do mais, «os homens ainda não estavam suficientemente esclarecidos para chegar ao grau de perversidade necessário a Satanás para a execução completa dos seus pavorosos objectivos». Os idólatras só o reconheciam como deus porque não conheciam o Deus verdadeiro, mas ele quer aderentes que se unam a ele com inteiro conhecimento de causa e por um mistério de iniquidade:

«Quando o homem chega ao ponto de considerar a obediência voluntariamente prestada a Deus como a pior das infelicidades, fica capaz de se ligar a um amor aparente por aquele que o leva à revolta e que procura ajudá-lo com todo o seu poder. O ódio à ordem produz, ao mesmo tempo, o ódio ao amor e o amor ao ódio. É a perversidade completa».

E, assim como a santidade consiste em amar a Deus até ao esquecimento de si, a perfeita iniquidade consiste em amar o mal ao ponto de se sacrificar pelos seus interesses.

Para realizar os seus desígnios maléficos de contrafacção e melhor desenvolver os seus planos de perdição, Satanás procura copiar a hierarquia da Igreja de Jesus Cristo, estabelecendo poderes diversos que sobem de grau em grau para dirigir a obra do mal. «À medida que as dificuldades de comunicação entre os diferentes povos foram vencidas pelas descobertas científicas e que o plano de Satanás se tornou mais compreendido pelos seus seguidores, facilitou-se a acção uniforme e conjugada da perversidade», acrescenta o P. Ramière. «Este exército também aprendeu, hoje, uma disciplina que antes lhe era desconhecida. Obedece, de facto, com espantosa pontualidade a palavras de ordem, ora ficando imóvel, ora retrocedendo, ora avançando com ímpeto furioso. Todos os meios de que dispõe disparam ao mesmo tempo e atacam sem descanso os alvos que lhes são designados».

Esse plano diabólico, passando pelas vicissitudes da História, deverá atingir a sua plenitude no Fim do Mundo com a chegada «do homem que deverá ser a manifestação suprema do ódio satânico e para oferecer à adoração dos outros homens o mal encarnado na sua pessoa». Esse homem do pecado «será o Anticristo por excelência e completará a obra que todos os anticristos parciais esboçaram», produzindo aquilo que São Paulo chamou a suprema «apostasia» (2 Ts 2, 3). No entanto, «esse supremo êxito de Satanás trará a intervenção suprema d’Aquele que já o venceu, no momento em que ele triunfava no mundo inteiro», conclui o P. Ramière.

Com base no anterior, pode-se afirmar, sem reticências, que negar a possibilidade de uma conjuração anticristã implica negar dados incontrovertíveis da fé: a rebelião de Lúcifer e a sua obra de perdição, as nefandas consequências do pecado e o mistério de iniquidade ao qual ele conduz, a vida humana como um campo de batalha cujo desenlace final dar-se-á na Parusia, entre outras.

Algum leitor de mentalidade liberal poderia objectar que isso é válido em tese, mas que, na prática, pela diversidade de caracteres e a oposição de interesses, dificilmente um grupo de homens chegará a conjurar-se para fazer o mal de modo universal.

Dom Bosco, o grande pedagogo e conhecedor das profundidades da alma humana, verificou exactamente o contrário daquilo que os liberais pressupõem:

«No que se refere aos maus, direi apenas uma coisa, que talvez pareça inverossímil, mas que é verdade certa, tal qual a digo: suponhamos que entre 500 alunos de um colégio haja um de vida depravada; chega depois um novo aluno pervertido; são de regiões e lugares diferentes, até de nacionalidades diversas, estão em cursos e lugares diferentes, nunca se viram nem se conheceram; apesar de tudo isto, no segundo dia de permanência no colégio, e talvez após algumas horas, vê-los-eis juntos durante o recreio. Parece que um espírito mau os faz adivinhar quem está manchado do seu mesmo negrume, ou, então, é como se um ímã demoníaco os atraísse para travar íntima amizade. O “diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és” é um meio facílimo de dar com as ovelhas sarnentas antes que se transformem em lobos vorazes»[3].

Comentando esse trecho, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira observou que, atingido um certo nível de profundidade, o mal dota as almas más de uma penetrante agudeza de vistas e de uma recíproca atraçcão. A união que daí resulta acentua nessas almas as suas características más e aumenta o seu ódio ao bem, incitando-as à luta para modificar o ambiente, o que, por sua vez, as conduz ao proselitismo e à combinação de esforços, de cuja articulação resulta uma organização:

«Oculta como a maçonaria, semi-oculta como o jansenismo ou o modernismo, declarada como o luteranismo ou o comunismo, esta associação propõe-se ao combate em todos os terrenos – ideológico, artístico, político, social, económico, etc. – para a conquista dos seus objectivos. Numa palavra, faz revolução»[4], observa o ilustre pensador brasileiro.

Uma Revolução que tem sido a espinha dorsal dos acontecimentos nos últimos séculos, conforme a luminosa descrição feita por Pio XII do misterioso “inimigo” que tem ameaçado há séculos a Igreja e o mundo inteiro:

«Ele encontra-se em todo o lugar e no meio de todos: sabe ser violento e astuto. Nestes últimos séculos tentou realizar a desagregação intelectual, moral, social, da unidade no organismo misterioso de Cristo. Ele quis a natureza sem a graça; a razão sem a fé; a liberdade sem a autoridade; às vezes, a autoridade sem a liberdade. É um “inimigo” que se tornou cada vez mais concreto, com uma ausência de escrúpulos que ainda surpreende: Cristo sim, a Igreja não! Depois: Deus sim, Cristo não! Finalmente, o grito ímpio: Deus está morto; e, até, Deus jamais existiu. E eis, agora, a tentativa de edificar a estrutura do mundo sobre bases que não hesitamos em indicar como principais responsáveis pela ameaça que pesa sobre a humanidade: uma economia sem Deus, um Direito sem Deus, uma política sem Deus»[5].

Defende a Igreja o anti-maçonismo primário de algumas correntes de direita laica?

Na construção desse mundo sem Deus, a Maçonaria tem desempenhado um papel relevante, que a própria reconhece.

Na visita que François Hollande fez, em Paris, à principal loja do Grande Oriente em ocasião dos 300 anos de existência da Maçonaria no país, o então presidente gaulês exaltou o seu trabalho dizendo enfaticamente: «A República sabe o que vos deve». Segundo ele, «a Maçonaria não fez a Revolução Francesa, mas preparou-a», já que «muitos maçons foram os artesãos dos grandes textos desta Revolução».


Igualmente, reconheceu que a maioria «das leis de liberdade adoptadas entre 1870 e 1914 foram amadurecidas e trabalhadas nas lojas», entre as quais a famosa lei de separação da Igreja e do Estado. Depois de três séculos, acrescentou, são sempre os mesmos valores que a Maçonaria promove: «Primeiramente, a liberdade. A liberdade contra o obscurantismo, contra o fanatismo, contra o fundamentalismo. A liberdade absoluta de consciência, contra os dogmas. A liberdade de pensamento contra aqueles que pretendem censurar». (Referência preocupante porque foi em nome da luta pela liberdade e contra o “obscurantismo” e o “fanatismo” que milhares de sacerdotes católicos foram guilhotinados, fuzilados, afogados, encarcerados e banidos do território durante a Revolução Francesa, de cuja preparação as lojas se orgulham...).

Esse reconhecimento eloquente do papel da Maçonaria na descristianização da França não impediu François Hollande de denunciar os «conspiracionistas» que põem em destaque dito rol: «Basta clicar na Internet para fazer ressurgir os conspiradores, ou seja, todos aqueles que pensam que vós estais aqui a preparar não sei que conspiração, não sei que organização, não sei que preparação. Tudo isso é perfeitamente disparatado», afirmou. Não parece tão disparatado, uma vez que pouco adiante afirma que, na questão temível do «trans-humanismo», a utopia de um homem «aumentado», «o olhar da Maçonaria é uma bussola preciosíssima neste período e uma luz que ajuda a entender os desafios e a dar-lhes uma resposta»[6].

Visto que membros ou amigos da Maçonaria, como François Hollande, reconhecem o seu papel central no avanço da descristianização do Ocidente, é legítimo indagar se um católico deve aceitar sem hesitações as denúncias de um certo anti-maçonismo laico ou pagão que atribui às lojas um plano meramente político ou económico de dominação mundial e a cada mudança política, económica ou social uma intervenção delas directa.

O aspecto deficiente desse anti-maçonismo simplório – que abre o flanco para a acusação aviltante de “conspiracionismo” – é que evacua inteiramente da sua visão da realidade o aspecto religioso explicado acima. Ou seja, o papel do demónio e das más paixões que levam os homens a afastar-se de Deus.

Para Plinio Corrêa de Oliveira, a força propulsora mais dinâmica da Revolução é aquela das paixões desordenadas e nomeadamente do orgulho e da sensualidade, que levam o homem à revolta contra a ordem que Deus colocou no universo e a sonhar com uma utopia anárquica, na qual coexistam a plena igualdade e a plena liberdade. Dessas tendências profundas de rebeldia – expressas em mil aspectos da vida quotidiana e nos ambientes e costumes de uma sociedade – emergem, depois, ideias revolucionárias que as justificam e que preparam os espíritos para uma mudança na situação concreta dos factos, que pode ser súbita e radical ou lenta e gradual, dependendo do estado de apodrecimento moral e religioso daquela sociedade. Noutros termos, aquilo que, segundo Antonio Gramsci, tem sido chamado de Revolução Cultural é, de longe, o factor mais importante do processo revolucionário, sem o qual a Revolução, nas ideias e nos factos, não poderia desenvolver-se ou fracassaria.

O anti-maçonismo primário desconhece inteiramente essa realidade mais profunda do processo revolucionário e leva os seus adeptos a pensar que esse resulta exclusivamente das más ideias espalhadas na sociedade e das manobras políticas de grupos de pressão ocultos.

Outra diferença fundamental reside no facto deste anti-maçonismo primário acreditar que a finalidade última desses lobbies é apenas a conquista de um poder absoluto para submeter a população a uma escravidão universal e, assim, obter para si grandes riquezas e uma situação privilegiada. Na realidade, como vimos acima, o que as forças coligadas dos maus procuram – às vezes com o sacrifício dos próprios interesses – é o afastamento das almas de Deus e a conquista delas pelo demónio, assim como a construção de um mundo cuja desordem e vulgaridade sejam uma ofensa contínua ao divino Criador.

Dessa diferença abissal entre uma visão religiosa e moral do processo revolucionário e dos seus agentes e uma visão laica e exclusivamente política resulta, posteriormente, uma total disparidade no foco da atenção e nas hipóteses de interpretação dos factos.

A “crise do coronavírus” à luz do conceito católico de conjuração anticristã

A crise ocasionada pela difusão, a partir de Wuhan, do vírus Sars-Cov-2 é um bom study case para ver, na prática, a diferença entre a visão católica e contra-revolucionária da acção dos agentes da Revolução e a visão laica e simplória de alguns adeptos do anti-maçonismo.

Hoje é provado que as projecções da OMS e do Imperial College sobre o eventual número de vítimas do COVID-19 resultavam de modelos matemáticos falhados e com base em índices exagerados da letalidade do vírus. Já estamos quase no fim da sua difusão e o número global de mortos é 5 vezes inferior às previsões menos alarmistas, não havendo indícios de uma segunda onda expansiva. É voz comum que o estrondo publicitário feito em torno dessas previsões apocalípticas provocou pânico na população, o que, por sua vez, levou a imensa maioria dos governantes a tomar medidas drásticas de confinamento, sob pena de ser estigmatizados como irresponsáveis, quando não genocidas. É patente que a brusca e prolongada redução da actividade económica já está a ter efeitos desastrosos para o desemprego e para a sobrevivência de milhares de pequenas e médias empresas, requerendo uma intervenção massiva do Estado na economia, para alegria da esquerda e dos ecologistas, que aproveitam para exigir que os planos de resgate sejam condicionados à aceitação de um novo modelo de desenvolvimento sustentável. Igualmente, os defensores de um governo mundial apontam para o facto de que apenas uma resposta solidária e global é capaz de resolver uma crise global.

Por outras palavras, o grande beneficiário da “nova normalidade” é a Revolução anticristã, de que os seus corifeus sempre sonharam com uma República Universal cujos contornos foram mudando com o tempo e agora se apresentam como uma sociedade aberta, multicultural, socialista e ecológica.

Porém, a visão católica e matizada da conjuração anticristã e a sua caricatura laica e simplória tiram observações e conclusões muito diferentes a respeito dessa imensa manobra de engenharia social e de baldeação ideológica da humanidade.

O “conspiracionismo” simplista fixa a sua atenção na suspeita de que o vírus teria sido produzido intencionalmente, num laboratório de Wuhan, como parte de um programa de fabricação de armas biológicas, ou que, pelo menos, teria escapado de lá após uma manipulação errada. Por outro lado, desenterra estudos de antecipação de crise ou romances de ficção científica que já evocavam, em caso de uma nova pandemia, medidas estritas de distanciamento social, os quais, segundo eles, provariam que os governantes que as aplicaram não fizeram mais que obedecer a um plano detalhado de antemão; e, finalmente, conjecturam que as mudanças têm como objectivo prioritário impor a vacinação obrigatória à população mundial, em benefício do Big Pharma e como preparação para a inserção subcutânea, em todo o género humano, de microchips colectores de informações, com vista a transformá-los em zombies de uma Nova Ordem Mundial.

O foco das hipóteses e análises de uma visão autenticamente contra-revolucionária é absolutamente outro.


Primeiramente, procura esquadrinhar as causas culturais remotas da atitude da população face à epidemia, assim como dos condicionamentos psicológicos que levaram as autoridades a tomar atitudes imediatas, ainda que desastrosas a longo prazo. Pelo facto de dar prevalência aos factores religiosos e morais, põe em relevo o abandono da pregação dos quatro novíssimos – morte, juízo, céu e inferno – e a sua concomitância com a queda gradual da prática religiosa e, acima de tudo, com a difusão, na sociedade, de uma concepção pagã e hedonista da vida, que transformou a saúde no valor supremo da existência e passou a considerar a morte como um mistério incompreensível e maléfico, facilitando as atitudes de pânico.

Até o filósofo agnóstico Luc Ferry, ex-Ministro da Educação de França entre 2002 e 2004, o reconhece numa coluna recente do jornal Le Figaro. Comparando a reacção da população diante da pandemia actual e a de gripe de Honk Kong, de 1968-1969 (que não alarmou quase ninguém apesar de ter feito um número similar de vítimas mortais que o COVID-19), deduziu que, nesses cinquenta anos, houve uma mudança na relação à morte, que deixa os agnósticos ou os menos religiosos numa situação trágica: «Eles são, ao mesmo tempo, menos protegidos pelas promessas das grandes religiões diante da morte, mas também mais expostos do que nunca por causa da afectividade que cresceu exponencialmente na família moderna. Para a maioria deles, o céu ficou vazio, não há cosmos ou divindades que possam dar o menor significado à morte de um ente querido». Não resta a esses agnósticos outra alternativa a não ser «meter o pé a fundo no freio diante da morte, o que explica, na minha opinião, a nova escala estritamente inédita de reacções de ansiedade e de contenção que observamos diante da pandemia»[7].

Em segundo lugar, a visão autenticamente contra-revolucionária destaca o impacto que essa mudança profunda nas tendências teve no campo das ideias, cujas conclusões serviram, por sua vez, de guia para as decisões adoptadas para frear a epidemia. Ou seja, como o medo neo-pagão da morte favoreceu aquilo que o filósofo americano Matthew Crawford rotulou de “precaucionismo”: «Uma tendência que vem ganhando força há décadas e que, hoje, está a passar por um momento de triunfo por causa do vírus. Trata-se de uma determinação a eliminar todos os riscos da vida e corresponde claramente a uma sensibilidade burguesa». O precaucionismo leva a um paradoxo : «Quanto mais seguros estamos, mais mais o risco nos parece intolerável».

Para Crawford, «a facilidade com que recentemente aceitamos o poder dos especialistas em saúde de mudarem os contornos da nossa vida comunitária – talvez permanentemente – deve-se ao facto de o precaucionismo ter suplantado amplamente outras sensibilidades morais que lhe possam oferecer alguma resistência. (...) A precaução tornou-se um meio de intimidação moral
»[8].

Uma intimidação dos espíritos que, por sua vez, acarretou uma mudança de paradigma em matéria de segurança sanitária, que teve como gatilho a transferência do antigo temor de uma conflagração atómica – evanescido após o colapso da URSS – ao medo em face de riscos emergentes, tais como um ataque bioterrorista ou novas doenças infecciosas particularmente letais ou resistentes.

Se até ao fim do século XX as políticas de prevenção tentavam calcular as probabilidades reais de uma ameaça sanitária, com base em dados seguros das epidemias passadas, na passagem do milénio entrou em vigor um novo critério: o princípio da preparedness (preparação); ou seja, a convicção de que um país deve estar em condições de enfrentar qualquer eventualidade, até a pior, levando os responsáveis pela segurança sanitária a concentrar os seus exercícios de antecipação em acontecimentos de escassa probabilidade, mas de consequências catastróficas.

Esse deslizamento intelectual foi muito bem analisado por Patrick Sylberman, professor de História da Saúde na Escola Superior de Estudos de Saúde Pública de Paris, num livro publicado, em 2013, sob o título Tempêtes microbiennes.
Essai sur la politique de sécurité sanitaire dans le monde transatlantique (Tempestades micróbicas. Ensaio sobre a política de segurança sanitária no mundo transatlântico).

O autor identificou três eixos principais na mudança de paradigma do conceito de segurança sanitária: 1.º a importância crescente atribuída a cenários fictícios para imaginar respostas e treinar os reflexos; 2.º a preferência sistemática pela lógica do pior como critério de racionalidade, mesmo sabendo que os eventos raramente ocorrem como se imagina e que, portanto, a fixação no pior obstaculiza o pensamento para chegar a uma avaliação realista; e 3.º a tentação de impor um civismo superlativo à população, na esperança de fortalecer a adesão às instituições políticas e a aceitação de quarentenas, vacinações ou a constituição de grandes reservas sanitárias[9].

«A segurança sanitária é, hoje, o objecto ou o pretexto de uma decadência vertiginosa na ficção», concluía, em 2013, o professor Zylberman. E acrescentava: «Cifras exageradas, analogias sem fundamento, cenários de terror biológico são exemplos assinalados dessa decadência»[10]. Como declaravam os antigos filmes, qualquer semelhança com a actualidade é mera coincidência...

De tudo isto se depreende que as medidas de confinamento radical da população e a actual chantagem consiste em oferecer uma libertação parcial da “prisão domiciliária” em troca de um maior controlo da vida privada das pessoas (com aplicativos nos telefones ou registos de visitas nos restaurantes e outros lugares públicos) não são apenas a execução de um plano de filme de science fiction (um punhado de conspiradores à procura de imensos ganhos financeiros ou políticos), mas o resultado de um longo processo psicológico e ideológico a partir do neo-paganismo hedonista que se disseminou no Ocidente depois da Segunda Guerra Mundial. As forças que favoreceram essa evolução não a criaram ex nihilo, mas cavalgaram, orientaram e exacerbaram – por meio do cinema, da televisão, da arte, da cultura, etc. – as tendências mais profundas da população, favorecidas pelas paixões desordenadas e as tentações diabólicas.

Como afirma Plinio Corrêa de Oliveira, já no seu início, o processo revolucionário possuía «as energias necessárias para reduzir a actos todas as suas potencialidades, que nos nossos dias conserva bastante vivas para causar, por meio de supremas convulsões, as destruições últimas que são o seu termo lógico». Tais destruições últimas são, hoje, os restos de civilidade e de ordem que serão varridos pela “nova normalidade” miserabilista e ecológica.

Esse processo revolucionário segue, por vezes, caminhos bem sinuosos, mas sem deixar de progredir incessantemente para o seu trágico fim. Porque, no seu curso, é influenciado e condicionado, em sentidos diversos, «por factores extrínsecos de toda a ordem – culturais, sociais, económicos, étnicos, geográficos e outros», afirma o autor de Revolução e Contra-Revolução.

O que importa destacar para a boa intelecção do tema que nos ocupa, ou seja, como distinguir a verdadeira denúncia da conjuração anticristã do falso “conspiracionismo”, é que os agentes da Revolução – a Maçonaria e as demais forças secretas – são apenas um desses fatores extrínsecos, mas não a principal força propulsora, que permanecem as paixões desordenadas do orgulho e a sensualidade. Convém repeti-lo até a saciedade: a Revolução não é um mero processo político; ela resulta de uma imensa crise religiosa e moral.

É verdade, porém, que sem o concurso desses agentes a Revolução não conseguiria chegar à vitória que almeja. Pensar que sem eles a Revolução teria chegado ao estado em que se encontra ou que pode avançar ainda mais, «é o mesmo que admitir que centenas de letras atiradas por uma janela poderiam dispor-se espontaneamente no chão, de maneira a formar uma obra qualquer, por exemplo, a “Ode a Satã”, de Carducci», conclui o saudoso fundador da TFP.

Uma visão teologicamente e historicamente fundamentada e tão equilibrada do papel limitado dos agentes da Revolução, merece o rótulo depreciativo de “conspiracionismo”? Claro que não. Surge, então, a pergunta: A quem favorece a disseminação de várias “teorias da conspiração”, das quais as melhores são simplistas e as piores são simplesmente ridículas, senão aos próprios agentes da Revolução, que passam a ter maior liberdade de acção pelo descrédito em que fica a denúncia de uma conjuração anticristã, rotulada de “conspiracionista”?

Por infelicidade, nesta matéria, mais do que em muitas outras, «os filhos deste mundo são mais prudentes do que os filhos da luz» (Lc 16, 8).         

José António Ureta    

Através de Fatima Oggi



[1] https://www.vaticannews.va/it/vaticano/news/2020-05/intervista-osservatore-romano-antonio-guterres.html
[2] Ed. Civilização, Porto, 2001, pp. 95-106.
[3] Biografia S.D.B. - B.A.C. – Madrid, 1955 – pp. 457-458
[4] https://www.pliniocorreadeoliveira.info/OUT_1959_Elcruzadoespanhol.html
[5] http://www.vatican.va/content/pius-xii/it/speeches/1952/documents/hf_p-xii_spe_19521012_uomini-azione-cattolica.html
[6] https://iatranshumanisme.com/2017/03/04/francois-hollande-declare-que-la-franc-maconnerie-est-une-boussole-precieuse-face-au-transhumanisme/ 
[7] https://www.lefigaro.fr/vox/societe/luc-ferry-notre-rapport-a-la-mort-a-change-20200506
[8] https://www.lefigaro.fr/vox/monde/matthew-crawford-le-precautionnisme-refus-de-tout-risque-de-la-vie-connait-un-moment-de-triomphe-20200526
[9] https://www.20minutes.fr/livres/1146107-20130511-20130427-tempetes-microbiennes-essai-politique-securite-sanitaire-monde-transatlantique-patrick-zylberman-chez-gallimard-paris-france
[10] https://laviedesidees.fr/Scenarios-de-catastrophes-sanitaires.html