domingo, 17 de maio de 2020

Nossa Senhora da Misericórdia, oração que se faz arte



“À Vossa protecção recorremos, Santa Mãe de Deus”, Sub tuum praesidium.

Qualquer pintura, afresco ou relevo plástico representando Nossa Senhora da Misericórdia, seja qual for a época a que pertence, parece traduzir visualmente uma das mais antigas composições poéticas litúrgicas, o Sub tuum praesidium, uma invocação mariana, que remonta ao século III, que testemunha o paleocristão costume do povo de se confiar à protecção de Maria.       

São diversas e múltiplas, no entanto, as fontes históricas e devocionais que contribuíram para o nascimento e a difusão da iconografia da Virgem Maria, em cujo abraço era e é possível, para todos, procurar protecção. A própria Virgem, que apareceu em visão a Santa Brígida, disse-lhe: «Sou por todos chamada Mãe da Misericórdia. (...) Fez-me misericordiosa a misericórdia do meu Filho e, com Ele, complacente. Tu, portanto, vem, minha filha, e esconde-te debaixo do meu manto».      

Famosíssima é a versão que do tema deu Piero della Francesca quando, a partir de 1445, por encomenda da homónima Confraria de Sansepolcro, a sua cidade natal, criou o políptico da Misericórdia para o altar-mor da sua igreja. A obra monumental, composta por 23 compartimentos, foi desmembrada durante o século XVII: perdeu-se a moldura original, mas, felizmente, foram conservados todos os painéis, agora guardados no Museu Cívico. O painel de Nossa Senhora da Misericórdia, cercada por santos distribuídos em diferentes registos e pela predela com as Histórias da Paixão, é o coração de toda a composição.        

Hierática e imponente, Maria destaca-se no fundo dourado do quadro, legado da tradição pictórica gótica tardia que aqui acentua a sacralidade da figura cujas formas plásticas seguem, pelo contrário, o exemplo moderno de Masaccio. Inovadoras são também a ilusão do espaço unificado, que o pintor sugere através da invasão de alguns detalhes nos painéis laterais, e a grande profundidade de perspectiva criada pelo hemiciclo dos espectadores ajoelhados e pelos braços abertos de Maria. 

A Virgem, numa posição rigorosamente frontal, é muito maior que os outros personagens. É a Rainha do Céu, a cabeça cercada por uma coroa e uma auréola, equilibrada no oval perfeito do rosto, inconfundível código estilístico do artista. O seu gesto é firme, decidido, de uma maneira poderosa: acolhe no seu ventre, figura da Igreja, homens e mulheres que a ela recorrem para encontrarem protecção. A todos envolve uma sobrenatural luz dourada, dimensão que o olhar solene e concentrado de Maria parece confirmar. 

O seu abraço materno é, portanto, o caminho pelo qual é possível o encontro entre o divino e o humano. Se observamos os devotos adoradores, reconhecemos, de facto, fisionomias individuais, de modo algum genéricas: são homens e mulheres da época, e talvez também do lugar onde foi pintado o políptico, que aqui representam todo o povo de Deus, sem distinções de género, de classe ou de idade. As suas diferentes posturas deixam aberta uma lacuna no centro: é o nosso ponto de observação que ocupa a parte de dentro do manto em que nos sentimos envolvidos também nós.           

Margherita del Castillo       

Através de La Nuova Bussola Quotidiana

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