quinta-feira, 7 de maio de 2020

No pós-pandemia, algo mudará?



Ninguém sabe quando e como terminará esta pandemia do COVID-19. Uma coisa, no entanto, parece óbvia: muitas coisas mudarão na nossa vida quotidiana e na sociedade. Haverá um Ante-Coronam e um Post-Coronam.

Alguns, como se fosse um mantra, repetem obsessivamente: “Nada será como antes!”. Embora este presságio me pareça um tanto exagerado, a sociedade que emergirá desta pandemia será, sem dúvida, diferente da actual em muitos aspectos, alguns dos quais não secundários. Serão transformações permanentes? Ninguém tem a bola de cristal. Todavia, do modo como estão a evoluir as coisas, talvez não seja prematuro começar a levantar algumas questões.     

Ressurgem alguns valores familiares. Observando os meus vizinhos e falando com amigos em todo o País, impressionou-me o modo como uma grande parte das famílias italianas conseguiu adaptar-se ao confinamento forçado, em particular aquelas com crianças. Pensei que muitas pessoas cederiam à depressão, caindo mesmo em desespero, provocando um aumento na violência doméstica e nas crises matrimoniais. Embora se tenham verificado casos deste tipo, a regra geral parece ter sido o contrário. Muitas famílias estão a redescobrir as alegrias simples da vida quotidiana: comem juntas, brincam, conversam, vêem filmes, organizam teatros, realizam tarefas, pintam e assim por diante. Das camadas mais profundas das suas almas, onde estavam sepultados, sob as maneiras da sociedade moderna, estão a emergir alguns valores familiares, enraizados na natureza humana. E, com eles, a ideia, ou devo dizer a experiência, de uma sociedade mais orgânica. Será algo duradouro? Ou este sobressalto de organicidade evaporar-se-á assim que as coisas voltarem à “normalidade”? É difícil dizê-lo. A minha suspeita é que, uma vez ressurgidos, estes valores subsistirão como uma voz interior que recordará constantemente às pessoas: é possível um mundo diferente!  

Percepção do tempo. Se queremos definir a sociedade moderna, podemos resumi-la numa palavra: frenética. Somos constantemente absorvidos pelo turbilhão de uma intemperança frenética, que impõe os seus ritmos frenéticos em todos os campos da actividade humana: da economia à cultura e à religião. Isso fez-nos perder o contacto com as nossas raízes interiores e com os verdadeiros propósitos da vida. Já não apreciamos o que somos, mas o que fazemos, e quanto mais rápido, melhor. Já não avaliamos a essência, mas a existência, sob a forma de resultados materiais, que, depois, são subvertidos por novas empresas. Essa intemperança frenética transtornou profundamente o espírito humano, distinguindo a nossa era moderna de todas as precedentes. Hoje, todavia, quando a vida social, cultural e económica é interrompida devido ao confinamento, a própria percepção do tempo e, portanto, do ritmo da vida, está a mudar em muitas pessoas. Em vez de se embriagarem com ritmos, com actividades frenéticas e com experiências emocionantes, agora precisam de preencher longas jornadas com leituras, pensamentos, conversas e passatempos domésticos, como outrora. Consequentemente, a pressão psicológica da intemperança frenética parece ter diminuído, enquanto alguns contrafortes psicológicos da sociedade orgânica tradicional parecem recuperar maior vigor. Uma vez mais, tudo isto resultará numa mudança permanente de paradigma? É prematuro dizê-lo.

Vida espiritual. Em muitas pessoas, a vida espiritual parece experimentar um despertar. Não quero entrar na discussão se esta pandemia pode ser considerada ou não um “castigo” divino. Parece, no entanto, óbvio que se está a tornar uma oportunidade de conversão. As situações difíceis, seja no campo individual ou no social, abalam as nossas consciências, fazendo-nos compreender, ou melhor, tocar com a mão, a fragilidade da nossa natureza humana, da sociedade e do mundo em geral. Tudo pode desaparecer num instante. São sofrimentos misericordiosamente permitidos pela Providência que nos convidam a livrar-nos do orgulho e da auto-suficiência, confiando-nos, pelo contrário, à misericórdia de Deus. Em tais circunstâncias, é mais fácil dirigir-se a Deus através de Nossa Senhora. São ocasiões para pedir perdão pelos nossos pecados e para implorar a graça divina para curar as nossas almas. Por outras palavras: são ocasiões de purificação e de conversão. Em Itália, enquanto o alto clero, com poucas excepções, praticamente abandonou os fiéis, há uma infinidade de orações, homilias, missas, adorações e outras cerimónias religiosas online. As visitas a sites, blogues e canais de inspiração religiosa aumentaram quase 300%. Serão sinais de uma conversão? Por ora, não parece, pelo menos em relação à profundidade e ao tipo solicitados por Nossa Senhora, em 1917, em Fátima. O tempo o dirá. No entanto, vejo nestes desenvolvimentos pequenas centelhas que a graça divina pode, eventualmente, transformar em fogo, se as pessoas abrirem as suas almas ao influxo do Espírito Santo.   

Mudança de atitude em relação à ditadura. Uma outra mudança profunda que noto na opinião pública italiana é a da atitude em relação à ditadura. Aqui, a própria palavra “ditadura” lembra o período fascista, que a maioria dos italianos afirma abominar. A nossa sociedade moderna, dizem, baseia-se nas “liberdades” e nos “direitos” do indivíduo, o exacto oposto de uma ditadura. O nosso sistema jurídico até proíbe a “apologia do fascismo”, que, na realidade, inclui qualquer defesa de um Estado autoritário. Esta atitude parecia estar a mudar. Enquanto o Estado liberal mostrava os seus defeitos – por exemplo, a sua incapacidade de controlar a imigração clandestina e os pequenos crimes –, uma crescente maioria dos italianos desejava um Estado mais forte. Sondagens recentes mostravam que 30% dos italianos estavam abertos à possibilidade de uma ditadura provisória. Pois bem, a ditadura chegou, embora de um modo diferente. O governo de Conte impôs-nos restrições que nem Mussolini no auge do seu poder teria imaginado. E quase ninguém protestou. Compreenderam que era para o bem comum.

Em determinadas circunstâncias, o bem comum exige que certas liberdades sejam temporariamente suspensas. Esta é a essência de uma ditadura. E o povo italiano parece tê-la aceitado. É um desenvolvimento positivo ou negativo? Penso que tem os dois lados. Por um lado, é positivo que a ideia de liberdade ilimitada, como marca distintiva da sociedade moderna, esteja a mudar. Por outro lado, é fortemente negativo porque esta ditadura, em concreto, é exercida por forças políticas que não escondem o próprio desígnio revolucionário.           

Sem entrar na discussão sobre se esta pandemia é ou não o fruto de uma conspiração, como alguns propõem, é óbvio que os governantes estão a usá-la como experimento social para verificar até que ponto a opinião pública está pronta para aceitar determinadas imposições. Após uma fase selvaticamente liberal, ou melhor, libertária, do processo revolucionário, estamos a entrar numa nova fase em que prevalecerá o seu lado tirânico? Mais uma vez, é muito cedo para responder. Mas a questão deve ser colocada.

Quando o pastor abandona o rebanho. A pandemia do COVID-19 também mostrou o pior lado da crise que, há mais de meio século, assola a Santa Madre Igreja: o abandono consciente e voluntário da sua missão salvífica por parte de muitos pastores. Os italianos ficaram surpreendidos quando a CEI suspendeu o culto público antes mesmo de o Governo decretar o seu bloqueio, privando, assim, os fiéis dos Sacramentos. Ao lockdown social juntou-se o espiritual, muito mais implacável. Temos hoje a situação bizarra em que estão abertos os supermercados e as tabacarias, mas as cerimónias religiosas são proibidas. Enquanto as pessoas podem tranquilamente ir às compras ou adquirir cigarros, muitos estão a morrer sem o auxílio da Penitência e da Unção dos enfermos. Mais de um bispo emitiram normas que proíbem que os sacerdotes se exponham para assistirem os doentes. O exacto contrário do que a Igreja fez em dois mil anos.      

Alguns sacerdotes corajosos, desafiando as imposições da CEI, tentaram celebrar a Missa com algumas pessoas presentes, em perfeita obediência às normas sanitárias. Foram severamente punidos com multas pesadas e até mesmo ameaçados de prisão. Chegou-se ao escândalo da invasão de algumas igrejas pelas Forças de Segurança, com a interrupção sacrílega do Santo Sacrifício. Não apenas as autoridades eclesiásticas não protestaram contra estes actos de perseguição religiosa, mas também se alinharam com o Governo, censurando os sacerdotes “rebeldes”. Provavelmente, nunca na história de Itália a Igreja se tenha mostrado assim tão submissa ao Estado.

Quando, cedendo ao clamor dos fiéis escandalizados, a CEI começou finalmente a levantar um pouco a voz em defesa da liberdade religiosa, foi imediatamente silenciada pelo Papa Francisco, que, da cátedra de Santa Marta, instou os bispos a «obedecerem às disposições do Governo».

A esta atitude servil em relação a César, devemos acrescentar os esforços de tantos pastores para negar qualquer significado espiritual à pandemia. É um castigo divino? O pensamento católico tradicional tê-lo-ia considerado, pelo menos, como uma hipótese. É inegável que a Providência às vezes usa, como causas secundárias, eventos naturais como “punições” pelos pecados da humanidade. Em Fátima, por exemplo, Nossa Senhora definiu explicitamente as duas guerras mundiais como punições. Hoje, porém, esta palavra é absolutamente excluída do vocabulário católico. O Bispo de Fátima, o Cardeal António Marto, chegou ao ponto de dizer: «Falar desta pandemia como punição é ignorância, fanatismo ou loucura». Recusam-se a falar do pecado público. Recusam-se a chamar os fiéis à conversão. Recusam-se, enfim, a cumprir o próprio dever como pastores de almas.

A responsabilidade da China comunista. Entre as consequências desta pandemia do COVID-19, devemos mencionar a mudança de atitude da opinião pública em relação à China comunista. Por muito tempo, com o pretexto de produzir bens a baixo custo, obtendo assim mais lucro, o Ocidente investiu massivamente na economia chinesa até fazê-la tornar-se um gigante, mas depois descobriu que este gigante não é assim tão gentil. Alimentamos a China esquecendo-nos que é governada por um Partido Comunista que nunca ocultou o seu intento expansionístico-revolucionário.           

Hoje, com as responsabilidades cada vez mais evidentes da China na actual pandemia, estamos a passar de uma ingénua paixão para um julgamento mais realista: o comunismo chinês representa uma ameaça para o Ocidente. Enquanto a arrogância de Pequim atinge níveis surreais, muitos ocidentais começam a questionar-se se não seguiram o caminho errado. «A China infecta-nos, compra-nos e agradecemos-lhe», resumiu a situação o filósofo Massimo Cacciari. Talvez tenha chegado o momento de repensarmos a nossa estratégia em relação à China comunista. Amanhã será demasiado tarde. Teremos coragem? Também aqui, apenas o tempo poderá dizê-lo.          

De qualquer forma, acrescentando estes e outros aspectos, parece claro que a sociedade que emergirá desta pandemia será um tanto diferente da precedente.      

Julio Loredo      

Através de Fatima Oggi

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