sábado, 9 de maio de 2020

“Homens sentados sobre os seus excrementos”



«Naquele tempo esquadrinharei Jerusalém com lanternas, castigarei os homens que, sentados sobre os seus excrementos, dizem consigo mesmos: “O Senhor não pode fazer nem bem nem mal”» (Sof 1, 12).   

Este é o terrível aviso de Sofonias aos homens que dizem: “Deus não pode nos castigar”. Precisamente sobre eles, continua o profeta, descerá «um dia de ira, dia de angústia e tribulação, dia de desgraça e de desventura, dia de trevas e de escuridão, dia de nuvens e de névoas espessas. Dia de trombeta e de alarme» (Sof 1, 15-16).          

A pandemia do COVID-19 colocou, novamente, na mesa um tema que já nos últimos anos havia estado no centro de acesos debates: os castigos divinos. Deus pode castigar? Os desastres, naturais ou causados pelo homem, podem ser considerados castigos da Providência? Enquanto o Magistério pontifício e o consenso dos Doutores tinha sido claro e constante durante dois mil anos, respondendo afirmativamente às duas perguntas, a mentalidade relativista e ecuménica moderna mudou completamente de registo.     

«Terramotos, furacões e outros desastres que atingem simultaneamente culpados e inocentes nunca são um castigo de Deus. Dizer o contrário significa ofender Deus e os homens», disse o padre Raniero Cantalamessa, pregador da Casa Pontifícia, na homilia, na presença da Papa, no Vaticano, por ocasião da celebração da liturgia da Sexta-feira Santa. Não apenas negou que, em concreto, a actual pandemia deva ser considerada um castigo divino, mas afirmou um princípio geral: “os desastres nunca são uma punição divina”. Implicitamente, rejeitou a própria ideia de castigo. Mas não é o único.       

«A ideia de castigo divino, sobretudo através de uma situação dramática como aquela que estamos a viver, não faz parte da visão cristã», sentencia o Cardeal Angelo Scola, Arcebispo emérito de Milão. «É de pagãos pensar num Deus que envia flagelos», acrescenta o seu sucessor, D. Mario Delpini. «Não é Deus que nos pune», acrescenta o Bispo de San Miniato, D. Andrea Migliavacca. «Muitos questionaram-se se este vírus é um castigo. A resposta é NÃO. Não é um castigo. Jesus, em várias ocasiões, deixou claro que não há uma relação entre a culpa cometida e o mal sofrido», aprofunda D. Angelo Spina, Arcebispo de Ancona-Osimo. «Esta pandemia não é um castigo», encerra D. Paolo Giulietti, Arcebispo de Lucca.   

Os exemplos poder-se-iam multiplicar. Assistimos a uma espécie de competição para ver “quem diz a coisa mais forte” ao contrário. Entram em competição para ver quem nega, em modo mais contundente, que esta epidemia pode ser considerada um castigo divino. Ou melhor, Deus não castiga. Ponto final. E não pode castigar porque, como afirma D. Enrico dal Covolo, ex-Magnífico Reitor da Pontifícia Universidade Lateranense, «Deus é amor... o coronavírus não é um castigo divino».       

Isto está em contradição com o Magistério da Igreja e com o consenso dos Doutores, para não falar das várias aparições reconhecidas pela Igreja em que Nossa Senhora fala explicitamente de castigo. Desde sempre, o pensamento da Igreja levou em consideração, pelo menos como hipótese teologicamente válida, que um desastre também possa ser interpretado como um castigo divino, do qual Deus, então, extrai um bem: a conversão de pecadores arrependidos. As citações dos Papas, Padres, Doutores, Santos e Concílios neste sentido seriam infinitas. Uma por todas. Na audiência geral de 13 de Agosto de 2003, o Papa João Paulo II afirmou: «Deus recorre ao castigo e outras admoestações como meio para congregar na recta via os pecadores surdos».     

Hoje, em vez, existe uma espécie de Inquisição que castiga severamente quem ouse dizer que Deus castiga. Eles podem castigar, Deus não. Porquê este enfurecimento? 

Sem julgar as intenções, seja-nos permitido levantar uma hipótese.   

Rigorosamente falando, o pecado só pode ser cometido por uma pessoa dotada de responsabilidade moral. Pode-se, todavia, falar analogicamente de pecado colectivo ou social. «Pode-se e deve-se falar em sentido analógico de pecado social e também de “pecado estrutural” – dado que o pecado é propriamente um acto da pessoa», ensinava o Papa João Paulo II no discurso final da VI Assembleia-Geral do Sínodo dos Bispos, a 29 de Outubro de 1983. Um exemplo seria o aborto. Um lado é o pecado pessoal que cometem aqueles que praticam ou induzem ao aborto – a mulher, o médico, os profissionais de saúde, a assistente social que direccionou a mulher para o aborto e assim por diante – um outro lado é o pecado de uma sociedade em que o aborto se tornou lei do Estado, com direito a financiamento público e a facilidades. Isto constitui, analogicamente, um “pecado social”.    

Segundo a doutrina da Igreja, magnificamente exposta, por exemplo, por Santo Agostinho, este tipo de pecado social ou estrutural merece uma punição nesta terra, pois as sociedades não têm uma alma imortal e, portanto, não podem ser recompensadas ou castigadas após a morte. As guerras e os desastres, por exemplo, podem constituir castigos divinos pelos pecados colectivos dos homens, através dos quais Deus os chama, amorosamente, à conversão.      

Em Fátima, Nossa Senhora falou claramente das duas guerras mundiais do século passado, e depois do comunismo, como «castigos pelos pecados da humanidade».     

Que pecado colectivo estaria a atrair toda esta série de castigos?         

Não é difícil identificá-lo na situação criada em consequência desta crise, já plurissecular, a que Papas e pensadores católicos chamaram Revolução. Uma Revolução de carácter liberal e igualitário que, afundando as raízes no mais profundo da alma humana, se estende a todos os aspectos da personalidade do homem contemporâneo e a todas as suas actividades. Esta crise, infelizmente, também penetrou no recinto sagrado da Santa Madre Igreja, precipitando-a naquele processo de “auto-demolição” denunciado pelo Papa Paulo VI.           

Em tal contexto, “converter-se” significaria rejeitar este processo revolucionário plurissecular, proclamando, em vez, o seu exacto oposto. «Se a Revolução é a desordem, a Contra-Revolução é a restauração da Ordem – explica Plinio Corrêa de Oliveira. E por Ordem entendemos a paz de Cristo no Reino de Cristo. Ou seja, a civilização cristã, austera e hierárquica, sagrada nos seus fundamentos, anti-igualitária e anti-liberal».      

Isto, porém, implicaria repudiar aspectos dominantes da muito venerada “modernidade” e da sua versão eclesiástica, o “aggiornamento”. E isso, claramente, não se quer. Depois, “tudo ficará bem”, “Deus não castiga”. É um pacto infame entre as instâncias seculares e algumas eclesiásticas para manter a nossa sociedade nos trilhos da Revolução. O que diria profeta Sofonias?           

Da nossa parte, devemos aproveitar a pandemia para bater no peito e rezar: «Meu Deus, arrependo-me e lamento de todo o coração pelos meus pecados, porque, pecando, mereci os Vossos castigos e muito mais porque Vos ofendi, Vós que sois infinitamente bom e digno de ser amado acima de todas as coisas. Proponho, com a Vossa santa ajuda, nunca mais Vos ofender e fugir das ocasiões próximas de pecado. Senhor, misericórdia, perdoai-me!».      

Julio Loredo      

Através de Fatima Oggi

1 comentário:

  1. Em Fátima, a partir de hoje, 9/5/2020, a demonocracia portuguesa destacou cerca de 3500 militares da GNR e outros para impedir o acesso de peregrinos aquele santuário. É suposto que a nossa república tem um presidente católico que, contudo, nada diz sobre manifestações da Abrilada mas sobre Fátima é o que se vê. Esta notícia é dada por um site francês (medias catolique) porque aqui na nossa demonocracia isto é assunto sem interesse. Espantoso como tudo se cala!

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