terça-feira, 19 de maio de 2020

Coronavírus: “Agora é tempo de uma nova internacional”



Desde que Marx e Engels lançaram o seu “Proletários de todos os países, uni-vos!” no Manifesto Comunista, os promotores da internacionalização da luta de classes fizeram várias tentativas para criar uma grande e única rede de subversão mundial. Para eles, as nações não existem; existem apenas duas classes em conflito: a burguesia e o proletariado, ambas globais.

A tentativa mais próxima de alcançar este ideal universalista foi a Terceira Internacional, mais conhecida pela sua abreviação alemã, o famigerado Komintern, que, entre as duas guerras mundiais, espalhou revoluções comunistas em todo o mundo. Inteiramente sujeito aos caprichos do Kremlin, pouco depois da Segunda Guerra Mundial, o Komintern foi oficialmente dissolvido por Stalin para desarmar psicologicamente os seus ex-aliados e, assim, conseguir infiltrar-se mais facilmente com uma revolução cultural de estilo gramsciano.         

Da sua parte, os pequenos grupos trotskistas dissidentes de Moscovo criaram uma efémera IV Internacional que operou entre 1938 e 1963 e depois se dissolveu numa série de cismas. Em vez disso, os anarquistas, herdeiros de Bakunin e das lutas do Maio de 1968, sempre sonharam, mas nunca conseguiram, unir-se numa grande rede internacional: o que é compreensível porque, afinal, são... anarquistas. 

No auge do processo de globalização e dos encontros anuais em Davos, sectores da esquerda radical, ainda chocados com o colapso da URSS, em 2001 lançaram o World Social Forum, que Ignacio Ramonet, diretor do Le Monde Diplomatique, saudou com esperança: «O novo mundo nasceu em Porto Alegre» (a cidade onde se realizou o primeiro encontro). No entanto, aquela alvorada teve vida breve e a última edição do WSF realizou-se em 2013.   

No mesmo ano, Jorge Mario Bergoglio subiu ao trono pontifício e procurou relançar a internacionalização da luta a nível global através de encontros com os chamados Movimentos Populares, dois dos quais realizados no Vaticano e um em Santa Cruz de la Sierra (Bolívia). Tais movimentos, entre os quais o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e os apanhadores de cartão argentinos, já estavam ligados entre si numa iniciativa chamada Via Campesina, mas estavam a perder força quando eis que receberam esta dose de esteroides do apoio e da bênção pontifícia. Aparentemente, a dose foi insuficiente, pois não conseguiram superar o descrédito que os cercava na América Latina devido às violentas actividades de ocupações ilegais de fazendas agrícolas e propriedades urbanas. No entanto, o espectro da miséria, vislumbrado devido ao colapso económico derivante do lockdown, está a mudar radicalmente o clima sociopolítico e a redistribuir as cartas para uma nova rodada de jogo político e cultural. Num artigo publicado no Intercept, a escritora e activista Naomi Klein explicou que aprendeu nas últimas duas décadas que, «durante os momentos de mudança cataclísmica, o que antes era impensável tornou-se imprevisivelmente realidade». Esta afirmação não é um ingénuo desejo da autora de No Logo, um dos livros de mesa de cabeceira do movimento antiglobalização. De facto, Naomi Klein deu o seu contributo para a criação da Internacional Progressista juntamente com o pré-candidato à presidência norte-americana Bernie Sanders, veterano anarquista e estudioso do MIT; com Noam Chomsky; com o ex-presidente equatoriano, em fuga da justiça, Rafael Correa; com o professor de marxismo e ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (esmagado eleitoralmente por Jair Bolsonaro); com o falhado ministro da economia grega Yanis Varoufakis; com a capitã Carola Rackete, taxista marítima dos traficantes de imigrantes no Mediterrâneo, e com muitos outros.   

O evento inaugural da Internacional Progressista ocorreu, por videoconferência, a 15 de Maio, com a participação de cinco membros do Conselho: a Primeira-Ministra islandesa, Katrín Jakobsdóttir; o ex-ministro Yanis Varoufakis; a activista climática ugandense Vanessa Nakate; a advogada guatemalteca dos direitos humanos Renata Ávila; e o escritor e analista político Nanjala Nyabola, do Quénia.

“Unimos, organizamos e mobilizamos forças progressistas em todo o mundo”, afirma o slogan de boas-vindas ao visitante no site da organização. Inspirada nas actividades de Diem25 – um acrónimo de Democracy in Europe Movement 2025, um movimento pan-europeu lançado por Varoufakis – e no Sanders Institute, a nova Internacional Progressista aspira a um mundo igualitário, sustentável, ecológico, plural e pós-capitalista, onde «o culto do trabalho» será abolido. O organograma da organização especifica três áreas de intervenção: mobilização (movimento) para formar activistas e líderes; projecto para a elaboração de uma visão comum de um mundo transformado; e ligação publicitária para divulgar as análises críticas preparadas pelas bases. “Recuperando o mundo do pós-COVID-19” é o título da colectânea inaugural da secção projecto (Blueprint) escrita a seis mãos por Geoff Mann, Thea Riofrancos e David Adler, coordenador-geral do comité executivo da organização.       

Segundo os autores, o terreno nunca foi tão «fértil para o internacionalismo» como agora. «A luta pela ordem social no mundo após o coronavírus já está em andamento», portanto, a Internacional Progressista tem «uma frincha para incidir sobre a arena política e moldar o processo de formulação de políticas públicas». O objectivo é «traçar os componentes de um New Deal verde» de carácter internacional.

Da sua parte, a senhora Katrín Jakobsdóttir diz que é necessário «forjar solidariedades globais e colaborações entre forças progressistas além-fronteira contra uma direita autoritária e populista empenhada em usar a crise para avançar a sua agenda regressiva». Para a Primeira-Ministra do governo de coligação islandês e líder do Partido da Esquerda Verde, «se vez alguma houve tempo para agir, para fazer história, esse tempo é agora».     

Uma leitura particularmente recomendada na introdução da colectânea Blueprint é um artigo de Mike Davis, um sociólogo e historiador californiano que colabora regularmente com uma publicação trotskista inglesa que se define como “socialista internacional” e “marxista-ambientalista”.      

Com o expressivo título C’est la lutte finale (título em francês no original e texto em inglês), após extensas críticas aos governos dos países ricos do Norte e elogios à China (“centro” e “chefe dos bombeiros” da batalha mundial contra o COVID-19), Davis afirma que o inevitável pressuposto para a reconstrução da economia é «a propriedade social de sectores estratégicos, como a produção farmacêutica, os combustíveis fósseis (para formar trabalhadores e fechar poços e minas), os grandes bancos e as infra-estruturas digitais das quais depende a vida do século XXI (banda larga, cloud, motores de pesquisa e redes sociais). Por outras palavras, o regresso do projecto revolucionário socialista». Todavia, o trotskista Davis observa que «as vitórias socialistas num país ou noutro não levarão a um Grande New Deal Verde se não houver um novo internacionalismo» e uma «procura de comunhão com todos aqueles que abraçam os principais valores humanistas». E, acrescenta com devoção: «Actualmente, de facto, existem apenas dois líderes mundiais que invocam constantemente a urgência da solidariedade humana: um é o Dalai-lama e o outro é um adepto do futebol argentino que vive numa casa grande em Roma». Aos seus correligionários que pudessem ser reticentes a uma aliança com o Papa Francisco, Mike Davis recorda que «todos os grandes revolucionários – Paine, Danton, Garibaldi, Marx, Luxemburgo, Lenin, Trotsky e Che Guevara – conceberam a sua missão não apenas como a emancipação das classes trabalhadoras, mas como a libertação de toda a humanidade».

José Antonio Ureta    

Através de Fatima Oggi

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