terça-feira, 5 de maio de 2020

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (VI)


Deus Pai comunicou a Maria a sua fecundidade, afirma São Luís no número 17 do Tratado, para lhe dar «o poder de gerar o seu Filho e todos os membros do seu Corpo místico».           

Maria recebeu de Deus o poder de gerar, que é o poder pelo qual as criaturas se assemelham mais ao seu Criador. O poder de gerar é chamado fecundidade. A fecundidade por excelência é a de uma mãe que dá à luz um filho. Este acto é como que um reflexo do acto criador. A mãe, naturalmente, não cria o bebé que tem no peito, porque é Deus que infunde, ao microscópico ser que ela concebeu, a alma que lhe dá a vida, mas o acto da concepção refere-se ao da criação, porque, graças a ele, um filho de Deus é tirado do nada.

A fecundidade é a mais alta expressão do amor. São Tomás de Aquino diz que «Bonum est diffusivum sui»: o bem, o amor, é, por si só, fecundo, difusivo, tende, pela sua natureza, a expandir-se. E Deus, sumo bem, é imensamente difusivo e fecundo.

A Santíssima Trindade é o mistério de um Deus que manifesta a sua fecundidade ad intra, internamente, através do movimento que associa o Pai ao Filho através do Espírito Santo, mas que depois manifesta, ad extra, essa fecundidade com a criação do universo.       

Deus, para ser fecundo, não tem necessidade alguma de criar, mas a criação, que é um acto gratuito, não necessário, da sua parte, expressa a fecundidade do Amor divino. Desde a eternidade, que não é um momento no tempo, mas é o eterno presente, Deus decidiu e quis criar um mundo no qual pudesse manifestar o seu amor e a sua glória. E toda a criação é, poderíamos dizer, ordenada à Encarnação do Verbo.      

No número 20, São Luís diz: «Sendo o Espírito Santo estéril em Deus, isto é, não gerando nenhuma outra Pessoa divina, tornou-se fecundo por Maria, sua esposa. Foi com ela, nela e dela que formou a sua obra-prima: um Deus feito homem, e que forma todos os dias até ao fim dos séculos, os predestinados e os membros do corpo».    

Entramos no coração do Tratado: o Espírito Santo produz, em Maria e por meio de Maria, Jesus Cristo e os membros do Corpo Místico. É o mistério da Encarnação, «mistério de graça – escreve São Luís – escondido mesmo aos mais sábios e mais espirituais entre os cristãos» (n. 21).         

Nossa Senhora, com o seu Fiat, participou activamente na realização deste mistério. De facto, Deus pediu a Maria o consentimento para realizar o seu místico matrimónio com o Espírito Santo. Não se tratou de um acto puramente formal. No espaço de um momento, um momento longo como a eternidade, o momento que se seguiu ao anúncio do Arcanjo Gabriel, Maria viu o futuro, mas não viu apenas a imensa grandeza da sua missão; também viu a lancinante dor da Paixão. Naquele momento, foi-lhe pedido, pelo Anjo, o consentimento para todas as dores que ela e seu divino Filho sofreriam. Foi uma mística paixão da alma aquela que precedeu o seu Fiat. Foi, antes mesmo que a espada de Simeão trespassasse o seu coração no templo, o momento em que ela aceitou ser a mulher das dores, a Dolorosa, para cumprir a missão que Deus lhe designara. Mas toda a dor desapareceu na imensidão de sua alegria. O Fiat de Maria foi um acto de heróica conformidade à vontade de Deus e foi também o mais perfeito acto livre da história. Porque não há verdadeira liberdade fora do Bem e do Verdadeiro e Maria, com o seu Fiat, abraçou o imenso bem, a Verdade infinita com todo o amor de que uma criatura nunca fora capaz. Acto de perfeita liberdade, mas também de perfeita dependência de Deus, que teria tido consequências extraordinárias: porque este acto gerou o Homem-Deus e o Seu Corpo Místico, a Santa Igreja. Mereceu ser co-redentora.       

Roberto de Mattei

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