segunda-feira, 4 de maio de 2020

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (V)


No primeiro capítulo do Tratado da Verdadeira Devoção, São Luís reafirma um ponto fixo. A Bem-aventurada Virgem Maria é uma criatura de Deus e «é menor que um átomo, ou melhor, não é nada em comparação com a Majestade divina, visto que só Deus é “Aquele que é”» (n. 14).      

No entanto – acrescenta –, desde que Deus começou e realizou as suas maiores obras através da Santíssima Virgem, «é de crer que nunca mais mudará de comportamento depois de a ter criado, pois é Deus, imutável na sua conduta e nos seus sentimentos» (n. 15).    

Quais são as maiores obras que Deus iniciou e realiza com Maria? São Luís explicá-lo-á, amplamente, imediatamente depois: Deus escolheu Maria para realizar a Encarnação e a Redenção; Deus continua a realizar, a cada dia, através dela, a salvação dos homens; Deus reserva para Maria um papel especial nos últimos tempos: os tempos do Reino de Jesus na história. Este ponto do Tratado é muito importante.      

Deus, Aquele que é, não muda. É igual a si mesmo: n’Ele não há segundas intenções ou contradições. Quando inicia uma obra, leva-a até ao fim, porque n’Ele não há início nem fim, tudo é presente para Ele.           

E no número 22 da sua obra, São Luís repetirá: «O procedimento que as três Pessoas da Santíssima Trindade tiveram na Encarnação e primeira vinda de Jesus Cristo, mantêm-no ainda todos os dias, de maneira invisível, na Santa Igreja, e assim será, até à consumação dos séculos, na última vinda de Jesus Cristo».     

São Luís desenvolve, a partir do número 16 do Tratado, o seu pensamento: «O Filho de Deus fez-se homem para nos salvar, mas foi em Maria e por Maria». Todavia – acrescenta –, «Deus Espírito Santo formou Jesus Cristo em Maria, só depois de lhe ter pedido o consentimento através de um dos primeiros ministros da sua corte». É o grandioso mistério da Anunciação. Deus escolheu Maria para cumprir a sua obra, mas quer o consentimento de Maria para a Paixão e morte de seu Filho Jesus; Deus quer o consentimento de Maria para a obra da Redenção da humanidade do pecado de Adão. E a solicitação deste consentimento acontece através de «um dos primeiros ministros da sua corte», o Arcanjo Gabriel.      

Também os Anjos são criaturas, simples criaturas que constituem um nada diante da infinita Majestade de Deus, mas Deus serve-se dos Anjos para realizar os seus planos de infinita Justiça e de infinita Misericórdia. São Miguel, que derrotou a serpente infernal, é a expressão – poderíamos dizer – da infinita Justiça de Deus; São Gabriel, que leva a Maria a mensagem da Redenção da humanidade, é a expressão da infinita Misericórdia de Deus.

Deus responde ao Fiat de Nossa Senhora com o maior prodígio da história do universo criado: a Encarnação do Verbo. «Deus Pai – escreve São Luís –, para dar a Maria o poder de gerar o seu Filho e todos os membros do seu Corpo místico, comunicou-lhe a sua fecundidade, na medida em que uma simples criatura a podia receber» (n. 17).         

Este ponto, o número 17 do Tratado, é de uma riqueza infinita, porque estabelece um relacionamento íntimo e incomensurável, por um lado, entre Maria e a Santíssima Trindade, e, por outro, entre Maria e o Corpo Místico, a Igreja. Este ponto merece ser meditado. 

Roberto de Mattei

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