quinta-feira, 14 de maio de 2020

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (XV)


São Luís escreveu o seu Tratado para todos os devotos de Maria que, ao longo dos séculos, o tivessem lido, mas, sobretudo, para aqueles que ele define como os “apóstolos dos últimos tempos”, as «almas grandes, cheias de graça e de zelo – disse no número 48 –, serão escolhidas para se oporem aos inimigos de Deus». O primeiro capítulo da sua obra, do número 51 ao número 59, conclui-se com a descrição destes apóstolos a partir do versículo do Génesis: «Farei reinar a inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta esmagar-te-á a cabeça ao tentares mordê-la no calcanhar» (Gn 3, 15).       

Leiamos o comentário de São Luís a este versículo:         

«Jamais Deus criou e formou senão uma inimizade, mas uma que é irreconciliável e que perdurará, e aumentará mesmo, até ao fim: é a que existe entre Maria, sua Mãe digníssima, e o diabo, entre os filhos e servos da Virgem Santíssima e os filhos e sequazes de Lúcifer, de sorte que o maior dos inimigos criados por Deus contra o demónio é Maria, Sua Mãe Santíssima. Desde o paraíso terrestre, ainda que então ela apenas existisse na sua ideia, Deus conferiu-lhe tanto ódio contra aquele maldito inimigo de Deus, e deu-lhe tanta indústria para descobrir a malícia daquela antiga serpente, tanta força para vencer, abater e esmagar aquele ímpio orgulhoso, que o demónio a teme não só mais a todos os anjos e homens, mas, num certo sentido, mais que ao próprio Deus. Não que a ira, o ódio e o poder de Deus não sejam infinitamente maiores que os da Virgem Santa, pois que as perfeições de Maria são limitadas, mas: em primeiro lugar, porque Satanás, que é orgulhoso, sofre infinitamente mais por ser vencido e esmagado por uma pequena e humilde serva de Deus; e a sua humildade humilha-o mais do que o poder divino; depois, porque Deus deu a Maria um tão grande poder contra os demónios que, como por diversas ocasiões foram obrigados a confessar, mau grado seu, e pela boca dos próprios possessos, eles temem mais um só dos seus suspiros por alguma alma do que as orações de todos os santos, e uma só das suas ameaças contra eles do que todos os seus outros tormentos» (n. 52).         

São Luís já definiu Nossa Senhora como «um exército em ordem de batalha» contra o diabo e os seus seguidores. Esta batalha teve início no momento da rebelião dos Anjos e, desde então, Deus confiou a Maria a missão de liderar esta batalha, de ser ela a esmagar a cabeça da serpente infernal. Lúcifer rebelou-se porque, pelo seu imenso orgulho, rejeitou o plano divino da Encarnação do Verbo. Será aquela que acolheu o Verbo divino no seu seio a esmagar a cabeça do orgulhoso e Deus deu a Maria tanto ódio contra o amaldiçoado inimigo, tanta indústria para descobrir a sua malícia, tanta força para derrotá-lo, que ele a teme, de certa maneira, ainda mais que a Deus.        

A ira o ódio que São Luís atribui a Nossa Senhora não são defeitos, mas perfeições nela presentes em imensa medida, mas sempre limitada, porque ela é uma criatura. Estas perfeições estão, em vez, presentes de maneira ilimitada em Deus.   

Um apologista dos primeiros séculos, Lactâncio, escreveu uma obra intitulada De ira Dei, “a ira de Deus”, na qual explica que Deus, sendo infinito amor, também é infinito ódio, ou seja, total separação de qualquer mínimo vestígio de mal. O inferno é uma prova da raiva que Ele guarda eternamente contra aqueles que pecam eternamente. E Maria, espelho perfeito de Deus, é, como Ele, capaz de um só ódio, o ódio contra o mal e o pecado, contra o diabo e as suas obras. 

Roberto de Mattei

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