domingo, 10 de maio de 2020

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (XI)


No número 40 do seu Tratado, São Luís reafirma que a devoção a Maria é necessária para a salvação e que a falta de estima e de amor pela Santíssima Virgem é um sinal de reprovação; «pelo contrário, é sinal infalível de predestinação ser dela inteira e verdadeiramente devotado ou devoto» (n. 40). Mas, acrescenta, «se a devoção à Santíssima Virgem é necessária a todos os homens tão-só para conseguirem a salvação, é ainda muito mais necessária àqueles que são chamados a uma perfeição particular; e não creio que alguém possa atingir uma íntima união com Deus e uma perfeita fidelidade ao Espírito Santo, sem uma união muito grande à Santíssima Virgem e uma grande dependência do seu auxílio» (n. 43).         

Neste ponto, São Luís reitera um conceito que expressou nos pontos precedentes (23-25 
e 28). Maria é cheia de graças imensas e, destas graças, o Altíssimo constituiu-a tesoureira e despenseira, para que Ela possa distribuí-las a quem quiser.   

«Só a Maria – explica – confiou Deus as chaves dos celeiros do divino amor, e o poder de entrar nos caminhos mais sublimes e mais secretos da perfeição, bem como de neles fazer entrar os outros. Só Maria dá aos miseráveis filhos da infiel Eva a entrada no paraíso terrestre para aí passearem aprazivelmente com Deus, para aí se esconderem em segurança dos seus inimigos, para aí se alimentarem e se deliciarem, já sem temer a morte, do fruto das árvores da vida e da ciência do bem e do mal» (n. 45).    

No número 18, o santo tinha dito que «Deus Filho desceu ao seio da Virgem, qual novo Adão ao Paraíso terrestre, para aí encontrar as suas delícias e aí, em segredo, operar maravilhas de graça». No número 45, Maria é o novo paraíso terrestre para os miseráveis
​​filhos de Eva, que podem encontrar uma nova Árvore da vida, depois de, por causa de Eva, se ter perdido a do paraíso terrestre.        

O Paraíso terrestre não é um lugar imaginário, é um lugar real que, segundo os Padres da Igreja, ainda existe, mesmo sendo inacessível, escondido dos olhos dos homens. Este lugar é o maravilhoso jardim em que, após a criação, Deus colocou Adão e Eva para levarem uma vida feliz (Gn 1, 5-3.24); e é o lugar de onde os nossos primeiros pais foram expulsos por causa da sua desobediência a Deus, inspirada pela serpente infernal. A Igreja, no seu Magistério, reiterou sempre que Adão e Eva são reais, que o paraíso terrestre é um lugar real e que é real o pecado que nele foi cometido. Desse pecado, o pecado original, derivam todos os males e os sofrimentos da história, as doenças, os infortúnios, a morte. Jesus Cristo, fazendo-se homem, redimiu a humanidade do pecado original e a sua Encarnação aconteceu através de Maria. Por isso, Maria é a nova Eva, o novo paraíso terrestre, o caminho que permite aos miseráveis
​​filhos de Eva encontrarem um Paraíso infinitamente mais belo que o paraíso perdido, o paraíso celestial, de que ela tem as chaves.     

Dirijamos, portanto, o nosso olhar para Maria. Estamos no número 46 do Tratado, e São Luís repete o que já anunciou no número 35: no fim do mundo, que para ele, como dissemos, é, na verdade, o fim de uma época: «os maiores santos, as almas mais ricas em graça e virtude, serão as mais assíduas a rezar à Virgem Maria e a tê-La continuamente como modelo perfeito a imitar e como poderoso auxílio a quem recorrer» (n. 46).          

Roberto de Mattei

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