domingo, 31 de maio de 2020

Que vergonha, Excelências!



A mentira, como diz o povo, tem perna curta. E essa tem muitas formas de se manifestar, de tal forma que todas as páginas não chegariam para que, uma por uma, fossem devidamente caracterizadas. Deixo tal tarefa a cargo de quem, certamente, é mais douto do que eu. Não me demito, porém, de apresentar uma dessas inverdades que, actualmente, se traduz no tão infantil gesto figurado de “atirar a pedra e esconder a mão”. Assim poderia ser descrita a acção, por omissão, pelo menos em público, dos senhores de roxo-púrpura, ainda que já praticamente não portem tais cores, que, de quando em vez, se sentam à volta de uma mesa que, a cada dia que passa, se mostra mais instável e em risco de, com o gorgulho que a consome, cair por terra. Há quem lhe chame Conferência, mas poucos são os eleitos que sabem o que por lá se conferencia. Uma coisa, pelo menos, é certa: o desnorte assumiu, há muitas décadas, a cabeceira da mesa. Mas quem paga a conta não são os conferencistas, de cuja tradição não há memória: simplesmente porque nunca tinha existido tal conceito – nem havia reforma cinco anos após os setenta – e, ainda agora, continuam à procura de uma qualquer noção teológica que justifique a sua razão de ser. Não vale a pena, preferível seria, em vez, enterrar a cabeça na areia! Eis a descrição desta inverdade: tudo podemos fazer porque sim.        

Recentemente, um dos ilustres frequentadores de tal mesa, que também se podem apelidar de vencidos da vida, ou de vencidos pela vida, afirmou, em tom irónico e colérico – tal mistura se deve ao facto de ser um admirador assumido do equilíbrio metafísico, note-se; e quase me fez emocionar, porquanto é perito nisso –, durante uma amena cavaqueira com um nobre membro de uma vetusta Ordem religiosa que guardou há tanto tempo o proselitismo no bolso mais pequeno das calças Levis – apesar de o fardo ser pesado, considerando que o rebanho é grande e o odor deve ficar entranhado –, que cinco centenas de católicos portugueses são um número não muito significativo – mas duas dezenas já podem decidir tudo, mesmo se à revelia da Mãe – para pedirem ao grupo organizado a que pertence o favorzinho de os deixarem receber O próprio Cristo na boca. Favorzinho esse que, pelo menos ao que parece, foi, desde sempre, ordenado pela Igreja – que precisa de ser reformada, também o defendem, tendo como principal percursor um célebre adepto de futebol sul-americano que, desde há uns poucos de anos, vive na casa a que Marta empresta o nome. Mas, antes ainda, tinha anunciado que respeita as opiniões de toda a gente. O mesmo é dizer: cada um tem direito à sua opinião, mas a minha é a melhor; ou, como dizem os pequenos, o meu brinquedo é mais bonito que o teu. Afinal, só a alguns é que se terá mandado fechar a boca. Que argumentos têm? Falam de bom senso quando, na verdade, o não encontram. Tudo isto é uma patuscada que, por ser orientada por uma sinistra infantilidade, já está a ter as suas consequências.

Obrigado, senhor de vermelho, amiguinho, por pertencer a tão próxima e afectuosa brigada de desinfecção que, desde sábado, nos tem oferecido álcool gel, espaços limpinhos frequentemente, sinalética fofinha, cordas nos bancos para nos agarrarmos enquanto assistimos ao naufrágio dos seus súbditos, nossos superiores e, ao mesmo tempo, irmãos, como gostam de dizer, porque há já muito quiseram prescindir de ser pais, salvo honrosas excepções. Devemos sentir-nos deveras agradecidos perante esta atenção tão querida, dócil e meiga! Se calhar, teremos que lhes começar a chamar sub-delegados de saúde. Isto porque já entregaram a carta de demissão de pastores há incontável tempo. E até fazem favores ao Estado, esquecendo que o Reino do Senhor não é deste mundo (Jo 18, 36)!          

Todo este cenário é muito bom, divertido e faz parte do grande hospital de campanha a que pertencemos. Só que uns pagam taxas moderadoras mais caras ou, então, os que não podem deixam de ser assistidos. Há que definir critérios, afinal temos de acompanhar os tempos que nos exortam a que cada um se salve como puder. Enquanto isso, os senhores de roxo-púrpura continuam escondidos, dando, muito raramente, o ar da sua graça com textos bem feitinhos a que chamam notas pastorais e em que escrevem uma série de piadas que fazem doer a barriga de tanto rir... para não chorar! E ainda nos açoitam com o bastão se não seguimos a carneirada.

O tom foi sarcástico, mas a realidade é agudamente alarmante. Estamos nas mãos de quem há muito perdeu a sensibilidade nos dedos, agregados às mãos ungidas – e até dizem que lhes comove olhar para as mãos santas –, e, pior, de quem se tornou padrasto de quem quis pedir orientação segura e fiel aos hipotéticos pais. Querem alegar tudo com a saúde, mas ignoram que estão a ficar com o rosto escuro e, em breve, cairão sem amparo – o Governo agradece, até porque tudo isto é uma gracinha. Que vergonha, Excelências! Deus nos ajude, desde que conserve o distanciamento social e desinfecte as mãozinhas primeiro.

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (XXXII)


O Tratado da Verdadeira Devoção conclui-se com a exposição das práticas interiores para aqueles que, através da escravidão a Maria, desejam alcançar uma maior perfeição. As práticas interiores da verdadeira devoção, explica São Luís, consistem em «praticar todas as nossas acções por Maria, com Maria, em Maria e para Maria, a fim de mais perfeitamente as praticar por Jesus Cristo, com Jesus Cristo, em Jesus Cristo e para Jesus Cristo» (n. 257).   

É necessário, antes de tudo, praticar todas as nossas acções por Maria, renunciando ao espírito e à nossa vontade, confiando-nos ao espírito de Maria, para sermos guiados por ela e da maneira que ela quiser (nn. 258-259). Para agir através de Maria, devemos fazer preceder todas as nossas orações e acções de uma breve elevação da mente e do coração, um acto de oferecimento como as palavras dirigidas a Maria: Totus tuus ego sum. Quanto mais se repetir este acto de oferecimento, mais nos santificaremos e alcançaremos a união com Jesus e Maria.                       

É necessário praticar todas as nossas acções com Maria: «Isto significa que, em todas as nossas acções, devemos ter os olhos postos em Maria como aquele modelo acabado de toda a virtude e perfeição que o Espírito Santo formou em alguém que era simplesmente criatura, a fim de que a imitássemos na medida das nossas pequenas capacidades» (n. 260). Maria, disse o santo n. 219, é forma Dei, modelo divino: os santos são modelados em Maria, como Maria é modelada em Deus. É preciso, portanto, lançar-se em Maria para se formar na sua forma. É por isso que devemos meditar muitas vezes na sua fé, na sua humildade, na sua pureza, para imitá-la e segui-la.          

É preciso praticar todas as nossas acções em Maria. Para fazê-lo, afirma o santo, devemos entender que Maria é o verdadeiro paraíso terrestre do novo Adão, como já explicou no número 18 do Tratado. Pensemos em Maria como um lugar, um santuário, um templo guardado pelo Espírito Santo. Só se pode entrar neste lugar por uma graça particular do Espírito Santo, que deve ser merecida. Se se obtém a graça de entrar, permaneçamos com confiança. Quem habita no seio de Maria deve estar tranquilo e confiante, porque nenhum dos nossos inimigos, o demónio, o mundo e o pecado, entrará neste lugar e «os que permanecem na Santíssima Virgem em espírito, nunca cometerão pecados de maior» (n. 264). 

Finalmente, é preciso praticar todas as nossas acções para Maria, «não que a tomemos por fim último dos nossos serviços, que é tão-só Jesus Cristo, mas por fim próximo e meio misterioso e de fácil acesso para irmos até Ele» (n. 265).        

É o tema de toda a obra de Montfort: ir a Jesus por meio de Maria. «Foi pela Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo e é também por ela que deve reinar no mundo», disse no primeiro número do Tratado. Temos a missão de tornar Maria conhecida e de combater em seu nome para que ela reine com Jesus nos nossos corações e na sociedade. Por conseguinte, conclui o santo, não devemos permanecer ociosos: «É mister defender os seus privilégios quando lhos disputam; amparar a sua glória quando a atacam; atrair todo o mundo, se pudermos, ao seu serviço e a esta devoção verdadeira e sólida; falar e gritar contra aqueles que abusam da sua devoção para ultrajar o seu Filho e, ao mesmo tempo, firmar esta devoção» (n. 265).            

São as últimas palavras do Tratado em que São Luís Maria Grignion de Montfort atribui como fim aos seus apóstolos a propagação e o estabelecimento da verdadeira devoção à Santíssima Virgem Maria.       

Foi o que tentámos fazer no nosso pouco e pedimos uma oração por nós àqueles que tiveram a paciência de nos seguir. Assim seja.          

Roberto de Mattei

sábado, 30 de maio de 2020

“Mulheres-sacerdote”: Roma locuta, causa finita


Os textos são claros e não permitem interpretações: o não às ordenações femininas é definido e definitivo. João Paulo II dissipou qualquer possível incerteza a esse respeito com a Carta Apostólica Ordinatio Sacerdotalis, onde está escrito no número 4: «Portanto, para que seja excluída qualquer dúvida em assunto da máxima importância, que pertence à própria constituição divina da Igreja, em virtude do meu ministério de confirmar os irmãos (cfr Lc 22,32), declaro que a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja». Conceito também reafirmado no esclarecimento A propósito de algumas dúvidas sobre o carácter definitivo da Doutrina da Carta Apostólica Ordinatio Sacerdotalis, assinado pelo Cardeal Luis Ladaria, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Lê-se no documento: «Cristo quis conferir este sacramento aos doze apóstolos, todos homens que, por sua vez, o transmitiram a outros homens. A Igreja sempre se reconheceu vinculada a esta decisão do Senhor, que exclui que o sacerdócio ministerial possa ser validamente conferido às mulheres. […] A Congregação para a Doutrina da Fé, em resposta a uma dúvida sobre o ensinamento da Ordinatio Sacerdotalis, reiterou que esta é uma verdade que pertence ao depósito da fé». E não só: «a Igreja reconhece que a impossibilidade de ordenar as mulheres pertence à “substância do sacramento” da Ordem».      

Ainda assim, há quem parece não querer fazer caso e continua a exercer pressões para que seja autorizado o que não poderá sê-lo. Mesmo à custa de manter tudo em aberto, como aconteceu na Diocese de Friburgo, na Suíça, onde, pela primeira vez, foi nomeada uma mulher, Marianne Pohl-Henzen, para o cargo de Vigário Episcopal, função tradicionalmente atribuído a um sacerdote.         

Pohl-Henzen, 60 anos, casada, mãe de 3 filhos e avó de muitos netos, colaborou muito tempo com o seu antecessor: agora dependerão totalmente dela todas as questões relacionadas com o clero diocesano. Segundo Il Messaggero, «aceitou o cargo como um sinal positivo que levará à promoção das mulheres na Igreja. Não escondeu a esperança de que esta passagem possa ser um prenúncio de notícias positivas também em Roma, onde se discute a possibilidade de abrir uma janela ao diaconado feminino». Se tal fosse verdade, a senhora Pohl-Henzen também terá sólidos estudos teológicos por trás dela, como especifica o quotidiano romano, mas, evidentemente, a Carta Apostólica Ordinatio Sacerdotalis nunca foi uma das suas leituras. Os estudos não a protegem, naturalmente, de erros, nem de interpretações ideológicas, resultado mais de um feminismo d’antan do que de uma verdadeira prudência pastoral. Especialmente sobre questões como esta, a que se aplica o ditado: “Roma locuta, causa finita”. Agrade ou não a Friburgo.          

Através de Corrispondenza Romana

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (XXXI)


Embora a essência da verdadeira devoção consista numa atitude interior, como nos explicou São Luís durante toda a sua obra, também existem algumas práticas exteriores que não devem ser negligenciadas. O facto de serem práticas exteriores não significa que devam ser feitas sem espírito interior, mas apenas que são visíveis, externas, porque somos feitos de alma e de corpo, e devemos expressar com as palavras e as acções o que temos no coração.

A primeira prática é dedicar um mês para preparar a consagração e a sua renovação, escolhendo uma data significativa, de preferência uma data mariana, como podem ser o dia 25 de Março, Anunciação e Encarnação do Verbo, ou o 8 de Dezembro, dia da Imaculada, o 15 de Agosto, a Assunção, e assim por diante.  

A segunda prática é recitar diariamente a Coroinha da Santíssima Virgem, composta por três Pai-Nossos e doze Ave-Marias em honra dos seus doze privilégios e grandezas. Mas, no número 245, o santo acrescenta que não se deve ficar satisfeito com esta Coroinha, e que se deve recitar a coroa do Rosário de cinquenta Ave-Marias e, se possível, o Rosário composto pelas três coroas dedicadas aos três mistérios: gozosos, dolorosos e gloriosos. É esta a quinta prática. A terceira é usar uma corrente, no pescoço ou no pulso, como símbolo exterior de escravidão; a quarta é celebrar a festa da Encarnação de modo especial. Mas São Luís insiste, sobretudo, no significado da Ave-Maria, a saudação angélica, que compendia o mistério da Encarnação e da qual, diz, «poucos cristãos, mesmo entre os mais esclarecidos, conhecem o valor, o mérito, a excelência e a necessidade» (n. 249). «Almas predestinadas, Escravos de Jesus em Maria, ficai sabendo que a Ave-Maria é a mais bela de todas as orações depois do Pai-Nosso» (n. 252), afirma. «A Ave-Maria bem rezada, isto é, com atenção, devoção e modéstia, é, assim o dizem os santos, a inimiga do demónio, que se põe em fuga, e o martelo que o esmaga, a santificação da alma, a alegria dos anjos, a melodia dos predestinados, o cântico do Novo Testamento, o prazer de Maria e a glória da Santíssima Trindade» (n. 253).                     

Finalmente, para agradecer a Deus pelas graças concedidas à Virgem Maria, os devotos de Maria dirão frequentemente o Magnificat, «a única oração e a única obra composta pela Santíssima Virgem, ou, melhor ainda, que Jesus compôs nela, já que, na realidade, Jesus falava pela sua boca»; «há neste cântico mistérios tão grandiosos e tão escondidos que os próprios anjos os ignoram» (n. 255).          

Mas o santo acrescenta uma sétima prática: a do desprezo do mundo: «Os fiéis servos de Maria – diz – devem desprezar energicamente, odiar e fugir do mundo corrompido, e servir-se das práticas de desprezo que já expusemos na primeira parte».   

São Luís refere-se a uma primeira parte do Tratado que se perdeu, mas o tema do desprezo do mundo percorre todo a obra que chegou até nós. A mundanização da alma, isto é, a penetração do espírito do mundo no nosso coração é, para ele, uma desgraça. E o que dizer, podemos acrescentar, quando isso acontece na Igreja? A Santa Igreja tem a missão de desprezar, odiar e fugir do mundo, opondo ao espírito do mundo o espírito do Evangelho. Se a Igreja deixa de lutar contra o mundo, o espírito do mundo penetra na Igreja e corrompe-a na sua parte humana. A abominação no lugar santo, de que o santo nos fala na Oração abrasada, nada mais é do que o espírito do mundo entronizado na Santa Igreja como um ídolo no lugar de Deus. É contra este espírito que terão de combater os apóstolos dos últimos tempos, derrubando o altar de Belial com uma mão e edificando o Reino de Maria com a outra. 

Roberto de Mattei

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (XXX)


Quais são os outros efeitos da devoção a Maria na alma, para além do autoconhecimento e do desprezo de si mesmo e da participação da fé de Maria? São Luís continua a elencá-los. São a graça do puro amor, que tira do coração todo o escrúpulo e todo o temor servil; a graça de uma imensa confiança em Deus e em Maria; a graça da comunicação da alma e do espírito de Maria à alma do seu servo e devoto; a graça da transformação em Maria à semelhança de Jesus Cristo; finalmente, a graça da maior glória que a alma dá a Jesus Cristo.    

A graça do puro amor fará que «já não procedas, como fizeste até aqui, por temor de Deus, que é caridade, mas por puro amor. Olhá-lo-ás como teu Pai bondoso, a quem procurarás agradar incessantemente, com quem conversarás confiadamente, como um filho fala a seu bom pai. Se, por infelicidade, vieres a ofendê-lo, humilhar-te-ás imediatamente diante dele, pedir-Lhe-ás humildemente perdão, estender-Lhe-ás a mão com simplicidade e levantar-te-ás amorosamente, sem qualquer perturbação ou inquietude, e continuarás a caminhar para Ele sem desânimo» (n. 215).

À graça do puro amor está ligada a de uma grande confiança em Deus e em Maria, a quem podemos dizer, com São Boaventura: «Minha querida Senhora e Salvadora, agirei com confiança e sem nada temer, porque sois vós a minha força e o meu louvor no Senhor… Sou todo vosso e pertence-vos tudo quanto tenho, ó Virgem gloriosa e bendita sobre todas as coisas criadas, que eu vos ponha como um selo sobre o meu coração, porque o vosso amor é forte como a morte!» (n. 216).

A graça da comunicação da alma de Maria é a propagação do seu espírito nas almas para glorificar o Senhor. No número 38, São Luís disse: «Maria é a Rainha do céu e da terra por graça, como Jesus Cristo o é pela natureza e por conquista. Ora, assim como o reino de Jesus Cristo consiste principalmente no coração ou no interior do homem – de acordo com estas palavras: O reino de Deus está dentro de nós –, assim também o reino da Santíssima Virgem está principalmente no interior do homem, isto é, na sua alma. É sobretudo nas almas que ela é glorificada com seu Filho, mais do que em todas as criaturas visíveis, e podemos chamá-la com os santos a Rainha dos corações».           

Maria deve reinar nos nossos corações para reinar na sociedade. São Luís anuncia, agora com estas palavras, o Reino de Maria que virá:  

«Quando chegará esse tempo abençoado, assim disse um homem santo dos nossos tempos, todo perdido em Maria, em que a divina Maria será entronizada como Senhora e Soberana dos corações, para os submeter plenamente ao império do seu grande e único Jesus? Quando chegará o dia em que as almas respirarão Maria como os corpos respiram o ar? Quando esse dia chegar, acontecerão coisas maravilhosas nestes lugares cá de baixo, porque então o Espírito Santo, encontrando a sua querida Esposa como que reproduzida nas almas, descerá sobre elas em abundância e enchê-las-á dos seus dons, em particular do dom da sabedoria, para que sejam operadas maravilhas de graça. Sim, meu querido irmão, quando chegará esse tempo feliz, essa era de Maria, em que muitas almas escolhidas, por elas obtidas do Altíssimo, perdendo-se voluntariamente no abismo das suas entranhas, se tornarão cópias vivas de Maria, para amar e glorificar a Jesus Cristo? Esse tempo só virá quando a devoção que ensino for conhecida e praticada: Ut adveniat regnum tuum, adveniat regnum Mariae» (n. 217).  

A instauração do Reino de Maria é a tarefa dos apóstolos dos últimos tempos, os grandes homens que virão, disse Montfort no número 59, «será Maria a moldá-los, por ordem do Altíssimo, para estender o seu império sobre o dos ímpios, idólatras e maometanos. Mas quando e como acontecerá isto?... Só Deus o sabe. Quando a nós, apenas nos cabe calar, rezar, suspirar e esperar: Expectans expectavi».

Roberto de Mattei

O Papa insiste em pedir aos católicos chineses que sejam “bons cidadãos”



No dia em que os católicos chineses celebraram a festa da Santíssima Virgem Maria, Auxílio dos Cristãos e Padroeira da China, venerada no Santuário de Sheshan, em Xangai, Sua Santidade enviou-lhes uma mensagem em que lhes pede – outra vez – «que sejam fortes na fé e firmes na união fraterna, alegres testemunhas e promotores da caridade fraterna» e, acima de tudo, «bons cidadãos».       

É um pouco difícil que sejam “bons cidadãos” porque para eles até é difícil serem simplesmente “cidadãos”. Na realidade, são meros súbditos do novo Império do Meio controlado rigidamente pelo Partido Comunista. 

De facto, não ser um bom cidadão paga-se como em poucas partes do mundo. O Santo Padre conhecerá o “sistema de pontos” que o Governo impõe para que os seus compatriotas não se limitem a cumprir a lei, mas que tenham méritos na devoção ao Estado. Como aqui com a carta de condução, ser pouco fervoroso na submissão ao Estado subtrai alguns pontos que se podem traduzir na negação de créditos, demissões e outras consequências desagradáveis. Assim, o Papa não se deve preocupar muito a esse respeito, os chineses já têm incentivos muito reais para serem “bons cidadãos”.     

Sua Santidade já advertiu os países de que devem obedecer à ONU; não sabemos muito bem por que mandato, sem dúvida não democrático, ou que motivo poderia ter o chefe da Igreja para nos exortar à submissão a uma verdadeira “anti-igreja” que não esconde a sua agenda incompatível com os valores cristãos. Também quer um Pontífice que confessou a sua satisfação em merecer o qualificativo de “revolucionário” que acatemos sem discutir todas as disposições adoptadas pelas nossas autoridades seculares para o combate à pandemia.

Mas este conselho concreto de, “acima de tudo, sejam bons cidadãos”, não o recordamos dirigido a não ser aos católicos chineses que veem como as suas autoridades os perseguem sem piedade, demolem as suas igrejas e santuários e obrigam o clero a pregar os princípios socialistas. Não recordamos que tenha pedido aos italianos do anterior governo, da coligação com a Liga de Salvini, que fossem “bons cidadãos”, nem aos americanos de Trump ou aos húngaros de Orbán.        

Carlos Esteban 

Através de InfoVaticana

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Carta de Monsenhor Viganò ao Rabino Ahrens



Senhor Rabino,     

Visto que fui interpelado por causa do meu Apelo para a Igreja e para o mundo, peço oportunidade a Katholisch para lhe responder.    

Devo dizer-lhe, Dr. Ahrens, que as suas palavras me surpreendem muito quando diz: «Sabemos há algum tempo que há pessoas dentro das igrejas que aderem a tais teorias. Mas agora têm a coragem de expressar estas opiniões ainda mais abertamente». Penso que é dever de cada um de nós expressar as preocupações sobre uma situação que, aproveitando a crise do COVID-19, vai muito além das razoáveis medidas de segurança, impondo a nações inteiras a privação de liberdades constitucionais: talvez isto não tenha acontecido na Alemanha, mas certamente verificou-se em muitos Países.

Pergunto-lhe, senhor Rabino: na sua opinião, ainda é permitido expressar-se livremente ou há questões que não podem ser discutidas civilmente? Se você pode expressar a sua discordância sobre o conteúdo do Apelo, porquê que «pessoas dentro das igrejas» não deveriam ter o direito de se expressar livremente? Por que motivo acha que, para fazê-lo, é necessário «ter a coragem», como se se tratasse de delírios privados de um confronto real?

Descartar estas preocupações – também expressas por respeitáveis personalidades – como «teorias da conspiração» não me parece uma atitude construtiva: sobretudo se não se entra na substância, refutando o que se considera falso. Por conseguinte, pergunto-lhe: em quê que, em particular, não concorda com o texto do Apelo? O que é que, do Apelo, representa para si um “choque”?        

Creia-me: nunca pensei que o Apelo pudesse ofendê-lo; por outro lado, por que motivo um Rabino se deveria sentir envolvido quando se fala da Nova Ordem Mundial? O Messias que Israel espera é Rex pacificus, Princeps pacis, Pater future saeculi: não um tirano sem moral que domina o mundo submetendo os homens como escravos. Esse é o Anticristo.          

Vamos agora ao valor espiritual do COVID-19. No Antigo Testamento existem muitos exemplos de punições enviadas por Deus sobre o Povo eleito e os Profetas exortaram muitas vezes os Hebreus a abandonarem a idolatria, a não se contaminarem com os pagãos, a permanecerem fiéis ao único Deus verdadeiro. Recordo as palavras do Profeta Jeremias, depois do incêndio de Jerusalém, causado pelas tropas babilónicas, em 585 a.C.: «Os seus inimigos vivem felizes; foi o Senhor quem a castigou por causa dos seus inúmeros pecados» (Lam 1, 5).  


Esta visão, que a Igreja de Cristo partilha, mostra-nos um Deus justo e misericordioso que recompensa os bons e pune os maus; que, como um Pai amoroso, também pune os filhos desobedientes para levá-los a seguir a Sua santa Lei. Por este motivo, «transformar o negativo em positivo, transformar uma maldição numa bênção» obtém-se reconhecendo que se cometeu um pecado, que se violou a aliança com Deus e que se mereceu os Seus castigos. Assim, também a epidemia se torna uma ocasião para tornar ao Senhor, adorá-Lo no Seu templo santo, seguir os Seus preceitos.      

Houve um tempo em que, na obediência das massas, uma infernal ditadura se manchou com um crime gravíssimo, tornando-se responsável pela deportação e pela morte de milhões de pessoas inocentes apenas por causa da sua fé e da sua descendência. Mesmo assim, a grande media elogiava os poderosos e calava os seus crimes; mesmo assim, médicos e cientistas dispensaram o seu trabalho a um plano delirante de dominação; mesmo assim, quem ousou levantar a voz foi acusado de «teorias da conspiração». Teve de se esperar o fim da Segunda Guerra Mundial para se descobrir, com horror, a verdade que muitos até então tinham mantido em silêncio.

Estou seguro de que aqueles que, hoje, deslegitimam o Apelo como expressão de “conspiração” não compreendem os reais perigos aos quais está exposta toda a família humana. Mas tenho a certeza de que tanto os Católicos como todos os homens de boa vontade – e entre eles penso que também posso contar os filhos de Abraão – se preocupam com a maior glória de Deus, o respeito pela dignidade dos indivíduos, as liberdades dos povos. Beatus populus, cujus Dominus Deus ejus (Sal 143, 15).          

† Carlo Maria Viganò, Arcebispo, Núncio Apostólico  

21 de Maio de 2020        
Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (XXIX)

O sétimo capítulo do Tratado é dedicado aos efeitos maravilhosos da devoção a Maria numa alma que lhe é fiel.           

O primeiro efeito é o conhecimento e o desprezo de si mesmo. Escreve São Luís: «Pela luz que o Espírito Santo te dará por intermédio de Maria, sua querida Esposa, conhecerás o teu mau fundo, a tua corrupção e incapacidade para todo o bem, se não for Deus o princípio enquanto autor da natureza e da graça, e, em consequência deste conhecimento, desprezar-te-ás e não pensarás em ti mesmo senão com horror» (n. 213).        

São Luís retoma o que disse no número 79 e, no número 213, diz: «Ver-te-ás como uma lesma que tudo estraga com a sua baba, ou como um sapo que tudo envenena com a sua peçonha, ou como uma serpente maliciosa que só se preocupa em enganar».

Se estas imagens nos parecem muito fortes, exageradas, se ferem a nossa sensibilidade, tal significa que temos uma excessiva estima por nós mesmos e precisamos de nos exercitar a pensar como ensina São Luís. A verdadeira devoção a Maria ajudar-nos-á nisso. «Porém, a Virgem humilde tornar-te-á participante da sua profunda humildade e esta fará com que te desprezes a ti mesmo, mas não desprezarás os demais, e amarás o próprio desprezo» (n. 213).  

A humildade é o fundamento da fé. E o segundo efeito da verdadeira devoção é o de fazer-nos participar da fé de Maria e mantê-la em toda a sua pureza e integridade. Já no número 209 o santo disse que «um verdadeiro filho de Maria não será enganado pelo maligno e não cairá em qualquer heresia formal. Ali, onde Maria é guia, não se encontram nem o espírito maligno com as suas ilusões, nem os heréticos com as suas astúcias. Ipsa tenente, non curruis: “Se ela te sustenta, não cairás”».              

No número 214 afirma que «a Santíssima Virgem tornar-te-á participante da sua fé que, na terra, foi maior que a de todos os patriarcas, profetas, apóstolos e que a de todos os santos».

«Por isso, quanto mais benevolência granjeares desta augusta Princesa e Virgem fiel, mais fé pura acharás na tua conduta: uma fé pura que fará com que bem pouco te preocupes com o que é sensível e extraordinário; uma fé viva, animada pela caridade, que te levará a que todas as tuas acções não tenham outro motivo que não seja o puro amor; uma fé firme e inquebrantável como um rochedo que te fará permanecer constante e firme no meio das tempestades e das tormentas; uma fé activa e penetrante que, como uma misteriosa chave-mestra, te dará entrada em todos os mistérios de Jesus Cristo, nos fins últimos do homem, e até no coração do próprio Deus; uma fé corajosa que, sem que hesites, te fará empreender e levar a bom porto grandes coisa por Deus e pela salvação das almas; enfim, uma fé que será o teu facho inflamado, a tua vida divina, o teu tesouro escondido da divina Sabedoria e a tua forma omnipotente de que te servirás para iluminar os que estão nas trevas e nas sombras da morte para tocar e revolver, com as tuas palavras doces e poderosas, os corações de mármore e os cedros do Líbano e, finalmente, para resistir ao demónio e a todos os inimigos da salvação» (n. 214).

Fortalecidos por esta fé, os filhos e escravos de Maria, os apóstolos dos últimos tempos, avançam tranquilamente contra os inimigos e Nossa Senhora, diz São Luís no número 210, «acompanha-os como um exército formado em ordem de batalha: ut castrorum acies ordinata». As palavras do Cântico dos Cânticos, um cântico de amor e de guerra, ainda ressoam no Tratado que se aproxima da conclusão.

Roberto de Mattei      

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (XXVIII)

O sexto capítulo do Tratado é dedicado a uma página bíblica que prefigura a verdadeira devoção a Maria. É a história de Jacob e de Esaú, narrada na Bíblia, mais precisamente no livro do Génesis, do capítulo 25 ao capítulo 27. A premissa é que Esaú vendeu a Jacob os direitos de primogenitura por um prato de lentilhas. O direito de primogenitura tinha um grande significado espiritual: era a bênção celestial prometida por Deus à posteridade de Abraão. Mas Esaú, mesmo obedecendo ao pai e sendo por ele amado, desprezava a primogenitura a ponto de vendê-la por um ínfimo bem terrestre como um prato de lentilhas. Foi um acto formal que teve as suas consequências quando Isaac, antes de morrer, ordenou a Esaú que fosse caçar para ter o que comer e, depois, abençoá-lo. A mãe Rebeca, que amava muito Jacob, ordenou-lhe que vestisse as roupas do irmão e o substituísse para lhe assegurar este privilégio, diz o santo, «por meio dum santo expediente todo cheio de mistérios» (n. 184).

Isaac, que era cego, acreditava que estava a abençoar Esaú mas, em vez disso, abençoou Jacob. Esaú, quando descobriu o que havia acontecido, ficou furioso, mas Isaac, embora surpreso, não retratou o que havia feito, mas confirmou-o, porque viu o dedo de Deus naquele acontecimento e a bênção divina, uma vez dada, é irrevogável. Então Esaú pediu ao pai uma outra bênção, que Isaac lhe deu, mas era diferente da divina porque era uma bênção da terra, o que fez Esaú conceber um ódio tão venenoso contra Jacob que aguardava pela morte do pai para matá-lo. E Jacob «não teria podido evitar essa morte se Rebeca, sua querida mãe, o não tivesse salvo pelas diligências e bons conselhos que lhe deu e que ele seguiu» (n. 184).

São Luís lembra que, de acordo com todos os santos Padres e intérpretes da Sagrada Escritura, Jacob é a figura de Jesus Cristo e dos predestinados e Esaú é a figura dos réprobos. Esses réprobos vendem os seus direitos de primogenitura, ou seja, as delícias do Paraíso por um prato de lentilhas, isto é, pelos prazeres da terra e odeiam e perseguem sempre os predestinados, aberta ou secretamente. Os predestinados amam a vida interior e são submissos e obedientes à sua mãe, a Santíssima Virgem, como Jacob foi a Rebeca; «os Esaús, pelo contrário, esses perdem a sua bênção por falta de submissão à Santíssima Virgem» (n. 198).

Maria ama os seus consagrados «mais ternamente do que todas as mães juntas». Ou melhor, diz o santo, «juntai, se puderdes, o amor natural que as mães do mundo inteiro têm pelos seus filhos, num só coração de mãe e por um filho único: certamente que essa mãe amará muito esse filho, apesar disso, pode-se afirmar, em verdade, que Maria ama ainda mais ternamente os seus filhos do que aquela mãe amaria o seu» (n. 202).

Apenas imaginando a vastidão deste amor podemos entender como Maria guia, defende e protege, em cada ocasião, os seus filhos e escravos e, enfim, conclui São Luís: «depois de ter cumulado dos seus favores os seus filhos e fiéis servos, depois de lhes ter obtido a bênção do Pai celeste e a união com Jesus Cristo, conserva-os em Jesus Cristo e Jesus Cristo neles; guarda-os e vela sempre por eles, não venham eles a perder a graça de Deus e a cair nas ciladas dos seus inimigos: In plenitudine sanctos detinet: “Ela mantém os santos na sua plenitude” e fá-los perseverar até ao fim dos tempos» (n. 212).

Roberto de Mattei

terça-feira, 26 de maio de 2020

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (XXVII)


O quinto capítulo do Tratado da Verdadeira Devoção é dedicado a explicar quais são os motivos que nos levam a consagrar-nos a Jesus Cristo por meio de Maria.

O primeiro motivo é que esta devoção nos faz dar a Jesus e a Maria, sem reservas, todos os pensamentos, palavras, acções e sofrimentos e todo o tempo da nossa vida, livrando-nos de um certo espírito de propriedade que se insinua nas melhores acções (nn. 136-137).      

O segundo motivo é que esta devoção nos faz seguir o exemplo de Jesus Cristo que «não enjeitou como algo de indigno o encerrar-Se no ventre da Santíssima Virgem qual cativo e escravo de amor, nem o ser-lhe submisso e obediente durante trinta anos» (n. 139).               

O terceiro motivo é que, com esta devoção, temos tudo a ganhar porque nos despojamos de tudo, mas, na realidade, adquirimos um bem que não tem comparação no universo. Maria, obra-prima de Deus, pertence-nos se nos entregamos a ela. De facto, vendo que alguém se lhe entrega inteiramente, ela emerge-o no abismo das suas graças.         

O quarto motivo é que esta devoção procura a maior glória de Deus. Quase ninguém opera por esse objectivo, porque não sabe onde está a maior glória de Deus e não quer realizá-la. Nossa Senhora sabe e faz e as nossas acções, pensamentos e palavras, abandonadas nas suas mãos, são oferecidas por ela para a maior glória de Deus.         

O quinto motivo é que esta devoção é um caminho fácil, curto, perfeito e seguro para chegar à união com Nosso Senhor, na qual o cristão encontra a sua perfeição. «É um caminho fácil devido à plenitude de graça e à unção do Espírito Santo que o enche. Quem por ele caminha nunca se cansa nem recua. É um caminho curto que em pouco tempo nos leva a Jesus Cristo. É um caminho perfeito onde não há lama nem poeira, nem a menor sujidade causada pelo pecado. É, enfim, um caminho seguro que nos conduz a Jesus Cristo e à vida eterna de maneira directa e segura sem desviar para a direita ou para a esquerda» (n. 168).    

O sexto motivo é que esta devoção confere uma grande liberdade interior, a liberdade dos filhos de Deus, àqueles que a praticam fielmente. A consagração tira qualquer escrúpulo e temor servil da alma e dilata o coração com uma santa confiança em Deus.           

Sétimo motivo é que esta devoção alcança grandes bens para o próximo. Para compreender a excelência deste motivo, escreve o santo, «seria preciso conhecer quão valioso é o bem da conversão dum pecador ou da libertação duma alma do Purgatório: é um bem infinito, maior do que criar o céu a terra, pois aí do que se trata é de dar a uma alma a posse de Deus» (n. 172).      

Finalmente, o oitavo motivo é que esta devoção é um meio admirável de perseverança.

De facto, o homem é incapaz de guardar o tesouro das suas graças, das suas virtudes e dos seus méritos, enquanto Nossa Senhora não apenas distribui as graças, mas conserva-as. Portanto, afirma o santo: «por meio desta devoção, entrega-se tudo quanto se possui à Santíssima Virgem, que é fiel; tomámo-la como depositária universal de todos os nossos bens, de natureza e de graça» (n. 173).       

São Luís encaminha-se para a conclusão do capítulo com estas palavras: «Quão feliz é o homem que tudo deu a Maria e que se confia e se perde em tudo e por tudo em Maria. Ele é todo de Maria e Maria é toda dele» (n. 179).        

Aproximemo-nos, portanto, de Maria com as palavras de São Luís: Tuus totus ego sum et omnia mea tua sunt.

Roberto de Mattei

«Formemos o pequeno “exército” de Nossa Senhora» – Mons. Schneider



O Dies Iræ tem o privilégio de publicar, em exclusivo, uma entrevista concedida por D. Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar de Maria Santíssima em Astana, reconhecido prelado que se tem dedicado exaustivamente à defesa da Fé e da Liturgia Católicas. Convidamos os nossos visitantes a lerem a entrevista e a rezarem por Monsenhor Schneider.   

Excelência, permita-nos que lhe agradeçamos por nos conceder esta entrevista e, sobretudo, pela sua vida e ministério gastos ao serviço da Verdade. Para quem acompanha a actual crise de Fé que assola a Igreja e, principalmente, para um importante sector de teólogos e de historiadores de renome, as causas desta crise são anteriores ao Concílio Vaticano II e remontam aos corifeus da nouvelle théologie, que depois exerceram enorme influência nos documentos conciliares. Que outras causas elencaria Vossa Excelência para entendermos os meandros profundos desta crise?        
           
A raiz mais profunda ou remota da actual crise de Fé pode-se encontrar no movimento naturalista e antropocêntrico do século XV chamado “Renascença” ou “Humanismo”, preparado já intelectualmente pelo nominalismo na filosofia. Os aspectos da natureza, da criatura, do tempo, do activismo, foram colocados no centro do pensamento, da arte e do estilo de vida com o consequente enfraquecimento da visão e do referimento ao sobrenatural e ao eterno. O veneno no vírus do humanismo intelectual e cultural revela-se na atitude do subjectivismo, fazendo o homem, a razão e os seus desejos naturais a medida da verdade e do bem. Ainda que uma tal atitude não fosse expressa de maneira clara no século XV, esta começou a ser mais concreta com a revolução religiosa feita por Martinho Lutero, onde o subjectivismo se tornou o critério da interpretação da Revelação Divina, especialmente da Sagrada Escritura. Atrás dos “slogans” sedutores “sola gratia”, “sola fides”, “sola scriptura”, de Martinho Lutero, esconderam-se, no final de contas, o antropocentrismo, a dominação do “ego” na esfera da religião e, com isso, o relativismo. Um dos maiores promotores do relativismo filosófico e religioso foi o filósofo protestante Georg Hegel, cuja filosofia contaminou uma parte do clero e dos teólogos católicos do século XIX, os quais deram origem ao movimento chamado “modernismo” dentro da Igreja Católica. O Papa Pio X conseguiu reprimir energicamente este “reservatório” de todas as heresias, como lhe chamou e o que na verdade é. Alguns sacerdotes e professores de teologia modernistas esconderam-se, fingindo ortodoxia. Nos subsequentes pontificados, tais clérigos modernistas, com a ortodoxia fingida, conseguiram chegar até ao episcopado e ao cardinalato. Uma outra causa paralela ao modernismo teológico foi uma atitude do clero que encontrou a sua expressão, no fim do século XIX, em França, no movimento chamado “ralliement”. Infelizmente, o Papa Leão XIII impôs esta atitude aos fiéis e ao clero de França. O “ralliement” significava, em última análise, uma atitude mental de fazer, custe o que custar, as pazes com qualquer autoridade política. Os clérigos que adoptaram um tal espírito enfraqueceram em si mesmos a fortaleza cristã frente ao mundo, começaram a ter um complexo de inferioridade em relação ao mundo. Já antes do Concílio Vaticano II havia uma considerável parte do episcopado imbuída num complexo de inferioridade em relação ao mundo e mendigando a sua simpatia. O Concílio Vaticano II foi, então, um evento catalizador onde bispos e cardeais e teólogos, em parte cripto-modernistas e em parte imbuídos do espírito do compromisso político, conseguiram fazer aprovar algumas afirmações teologicamente ambíguas nos documentos conciliares. Tais afirmações ambíguas marcaram, nas décadas passadas, a vida da Igreja e até a formação teológica de uma geração de sacerdotes e bispos, criando, assim, um relativismo tanto teórico como prático em relação à verdade da unicidade da Fé e da Igreja Católica, do primado do sobrenatural e da sacralidade, da oração, da ascese e da penitência. Um tal relativismo teológico parcial, uma tal liturgia antropocêntrica e a imersão em assuntos políticos, temporais e materiais, enfraqueceram e deturparam a Fé num grande número de fiéis, de sacerdotes e até de bispos.        

Como causa e efeito têm relação directa, as consequências desastrosas que presentemente podemos verificar, no seguimento de doutrinas errôneas, designadamente no que respeita à liberdade religiosa, por meio da declaração Dignitatis Humanae, de Paulo VI, deram origem à Declaração de Abu Dhabi. Como é que a Igreja poderá voltar aos seus tempos de esplendor se o seu corpo doutrinal está manchado por doutrinas suspeitas e ambíguas?   

A declaração Dignitatis Humanae não foi uma declaração do Papa Paulo VI, mas do Concílio Vaticano II, que foi aprovada, isso sim, por Paulo VI. Há razões suficientes para dizer que entre a Dignitatis Humanae e a Declaração de Abu Dhabi há uma relação de causa e efeito. O próprio Papa Francisco disse: «Mas há uma coisa que quero dizer. Isto, reitero-o claramente: do ponto de vista católico, o Documento [de Abu Dhabi] não se desviou um milímetro do Vaticano II. Até aparece citado algumas vezes. O Documento foi feito no espírito do Vaticano II» (Conferência de imprensa do Papa, a 5 de Fevereiro de 2019, no voo de Abu Dhabi para Roma). A Dignitatis Humanae afirma a doutrina tradicional da Igreja dizendo que «acreditamos que esta única religião verdadeira se encontra na Igreja católica e apostólica» e que há o «dever moral que os homens e as sociedades têm para com a verdadeira religião e a única Igreja de Cristo» (n. 1). Infelizmente, algumas frases mais adiante, o Concílio mina esta verdade estabelecendo uma teoria que a Igreja nunca ensinou, isto é, que o homem tenha o direito natural, fundado na sua própria natureza, de não ser impedido de exercer o direito à liberdade religiosa segundo a própria consciência, «em privado e em público, só ou associado com outros, dentro dos devidos limites» (n. 2). Segundo esta afirmação, o homem teria o direito fundado na própria natureza, ou seja, positivamente querido por Deus, de escolher legitimamente e de praticar, inclusive colectivamente, por exemplo, a adoração dum ídolo e até a adoração de Satanás. Nos Estados Unidos, a título de exemplo, a igreja de Satanás é reconhecida com o mesmo valor jurídico de todas as outras religiões. A Dignitatis Humanae põe como única excepção da liberdade religiosa a manutenção da «justa ordem pública» (n. 2). No entanto, a religião chamada “igreja de Satanás” faz a adoração, inclusive colectiva, de Satanás, salvaguardando a ordem pública. Por conseguinte, a liberdade da adoração, individual ou colectiva, de Satanás, seria um direito fundado na própria natureza humana e tal significa querida positivamente por Deus. O perigoso erro desta afirmação está habilmente escondido pelo facto que esta afirmação faz parte de uma única frase cuja primeira parte corresponde obviamente à doutrina tradicional da Igreja, que diz: «em matéria religiosa, ninguém seja forçado a agir contra a própria consciência» (n. 2). Verdade e erro estão a ser mencionados, por assim dizer, com o mesmo fôlego. Cada pessoa com honestidade intelectual, que evita o método da quadratura do círculo, vê claramente que a afirmação da Dignitatis Humanae, que diz que cada homem tem o direito fundado na própria natureza, logo querido positivamente por Deus, de escolher e praticar a religião segundo a própria consciência, não difere substancialmente da afirmação da declaração de Abu Dhabi que diz: «A liberdade é um direito de toda a pessoa: cada um goza da liberdade de credo, de pensamento, de expressão e de acção. O pluralismo e as diversidades de religião, de cor, de sexo, de raça e de língua fazem parte daquele sábio desígnio divino com que Deus criou os seres humanos. Esta Sabedoria divina é a origem donde deriva o direito à liberdade de credo».

No livro que escreveu em colaboração com a jornalista Diane Montagna, Christus Vincit, Vossa Excelência levanta o véu acerca deste problema. Como é que se pode cortar o mal que está entranhado na Igreja sem pôr em causa um Concílio que procurou conciliar o inconciliável?           

A primeira coisa básica é ter em conta o facto que, sejam os Papas do Concílio, João XXIII e Paulo VI, seja o Concílio Vaticano II, afirmaram que este Concílio, contrariamente a todos os Concílios precedentes, não tinha nem a intenção nem o fim de propor uma doutrina própria de modo definitivo e infalível. Assim o disse o Papa João XXIII no seu discurso na abertura do Concílio: «A finalidade principal deste Concílio não é, portanto, a discussão de um ou outro tema da doutrina fundamental da Igreja» e que o carácter do magistério do Concílio seria «prevalentemente pastoral» (11 de Outubro de 1962). O Papa Paulo VI disse, no seu discurso na última sessão pública do Concílio, que este Concílio escolheu «como programa» o «carácter pastoral» (7 de Dezembro de 1965). Numa notificação, feita pelo Secretário-Geral do Concílio, no dia 16 de Novembro de 1964, diz-se: «Tendo em conta a praxe conciliar e o fim pastoral do presente Concílio, este Sagrado Concílio só define aquelas coisas relativas à Fé e aos costumes que abertamente declarar como de Fé».      

Houve afirmações noutros Concílios ecuménicos que se tornaram obsoletas e esquecidas ou foram até mesmo corrigidas pelo Magistério posterior, como, por exemplo, a afirmação do Concílio de Florença, em 1439, que dizia que a matéria da ordenação sacerdotal era a entrega do cálice, omitindo a menção da imposição das mãos do bispo: «O sexto é o sacramento da Ordem. A matéria deste sacramento é o que confere a Ordem. Assim, o presbiterato é conferido com a entrega do cálice com o vinho e da patena com o pão» (Bula da união com os Arménios Exultate Deo de 22 Novembro de 1439). O Papa Pio XII, em 1947, corrigiu este erro pronunciando a doutrina Católica de todos os tempos que correspondia também à praxe litúrgica da Igreja universal, seja no Oriente ou no Ocidente, ensinando de modo definitivo: «Invocando a luz divina, Nós, da Nossa Autoridade Apostólica, declaramos e, de certo conhecimento, e, na medida do necessário, decidimos e dispomos: a matéria das Ordens Sagradas do Diaconado, do Presbiterato e do Episcopado é a imposição das mãos e unicamente ela. Por conseguinte, devemos declarar, e a fim de remover toda a controvérsia e evitar dúvidas de consciência, e agora por Nossa Autoridade Apostólica declaramos, e, se jamais houver alguma disposição legitimamente em contrário, estabelecemos que, no futuro, a entrega dos instrumentos não é necessária para a validade da sagrada Ordem do Diaconado, Presbiterato e Episcopado» (Constituição Apostólica Sacramentum Ordinis, de 30 de Novembro de 1947). Penso que, no futuro, um Papa ou um Concílio corrigirá o erro da afirmação da Declaração
Dignitatis Humanae, do Concílio Vaticano II, que se tornou a causa de desastrosas práticas e doutrinas, como o encontro inter-religioso de oração em Assis, em 1986, e a Declaração de Abu Dhabi, em 2019.        

É de todos sabido que Vossa Excelência Reverendíssima se tem dedicado à preservação da Tradição da Igreja, nomeadamente através do claro anúncio das verdades da Fé e da celebração da Liturgia Tradicional. O blogue Rorate Caeli divulgou, no passado dia 23 de Abril, uma carta que o Cardeal Luis Ladaria Ferrer, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, dirigiu, a 7 de Março p. p., aos Presidentes das Conferências Episcopais, tal como o inquérito que todos os Bispos deverão enviar para Roma, até ao dia 31 de Julho, e que está directamente relacionado com o Motu Proprio Summorum Pontificum, de Bento XVI. Na citada carta, o Cardeal Ladaria explica que tal iniciativa se deve ao desejo do Papa Francisco de ser «informado sobre a actual aplicação do documento». Entre outras questões, é perguntado aos Bispos se consideram que o Motu Proprio tenha influenciado a vida dos seminários, que deveriam ser os corações das nossas dioceses, e, ainda, qual é a opinião dos Prelados sobre a forma extraordinária do Rito Romano, mais de uma década após a publicação do Summorum Pontificum. O quê que lhe parece que se pretende com esta extemporânea iniciativa? Estará o Motu Proprio ameaçado, como já se começa a dizer?         

Penso que o questionário não deverá ser visto como uma ameaça à Missa Tradicional. Pode ser que, pelo contrário, a Santa Sé veja como a Missa Tradicional já está amplamente difundida e que não poderia ser facilmente limitada. Devemos fazer tudo para difundir a Missa Tradicional. Continuemos a rezar para que a Divina Providência proteja este tesouro da Igreja de sempre: Deus fá-lo-á!           

Numa entrevista que nos concedeu recentemente, o Arcebispo Carlo Maria Viganò, ex-Núncio Apostólico nos Estados Unidos da América, alegou que o Terceiro Segredo de Fátima nunca foi verdadeiramente revelado, tendo-se assistido a uma «operação de encobrimento, evidentemente porque o conteúdo da mensagem revelaria a terrível conspiração dos seus inimigos contra a Igreja de Cristo» e, indo mais longe, mencionou que pareceria impossível ter-se chegado ao ponto de «amordaçar também a Virgem Maria» e de «censurar o próprio Evangelho, que é a Palavra do Seu divino Filho». Estas são, simultaneamente, palavras duras e muito reveladoras.       

Uma pequena parte do texto da terceira parte do segredo foi lida, em Fátima, pelo Cardeal Sodano, na presença do Papa João Paulo II, e, posteriormente, foi totalmente lido e explicado pelo então Cardeal Ratzinger. Naquela ocasião, a Santa Sé disse: “Isto é tudo”. Portanto, não consigo imaginar que uma pessoa com um padrão moral tão alto como o do Cardeal Ratzinger, mais tarde Papa Bento XVI, enganasse o mundo inteiro. Para mim, é impossível. Alguns dizem que ouviram os comentários de um cardeal que viu o texto, mas é muito fraco basear-se numa teoria ou, mais do que uma teoria, uma convicção, em tais coisas. Todavia, pode haver uma razão que explique o mal-entendido. A biografia da Irmã Lúcia contém uma expressão segundo a qual Nossa Senhora lhe disse que precisava de escrever o texto do segredo, mas não que ela lhe tinha explicado o segredo. São duas coisas diferentes. Penso que o texto em si foi revelado completamente, mas ainda poderiam haver algumas explicações que Nossa Senhora lhe deu e que não foram reveladas. Entretanto, as explicações que Nossa Senhora deu à Irmã Lúcia não são o texto do próprio segredo. O que sugiro é apenas a hipótese de que exista uma explicação mais concreta do significado do segredo, uma espécie de exegese. Pode ser que essa explicação tenha sido escrita e que seja muito desconfortável diante da actual crise da Igreja. Mas, repito, esta é uma hipótese e não tenho como comprová-la. Talvez seja uma hipótese plausível. É a única maneira de responder àqueles que ainda esperam uma suposta parte não revelada do texto do próprio segredo. Algumas pessoas afirmam que Nossa Senhora deve ter falado sobre toda a crise interna na Igreja. A crise está tão claramente diante dos nossos olhos que não precisamos de um segredo. Não precisamos de mais confirmações do céu. A enormidade da crise na Igreja que estamos a testemunhar é evidente. À luz da crise actual, acho que temos que manter uma atitude um tanto sóbria e concentrar-nos na essência da mensagem de Fátima, que é a penitência; temos que parar de pecar porque Deus já está muito ofendido; fazer reparação e expiar os pecados contra Deus, contra a Santíssima Eucaristia e contra o Imaculado Coração de Maria. A parte da mensagem de Fátima relativa à Eucaristia, nas aparições do Anjo, é tão importante e oportuna. E, então, rezar o Rosário pela conversão dos pecadores, fazer os Cinco Primeiros Sábados, consagrar-nos e consagrar as nossas famílias, os nossos países, a Rússia e o mundo ao Coração Imaculado.   

Para além de falar muito bem português, Vossa Excelência já visitou o nosso país algumas vezes. Num período em que os católicos portugueses, à semelhança de tantos outros espalhados pelo mundo, se encontram privados de aceder aos Sacramentos, resultado de um verdadeiro abandono por parte dos seus Pastores, que mais parecem estar interessados em agradar ao poder político que à Realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo, o quê que gostaria de transmitir ao povo que, em 1917, foi visitado por Nossa Senhora, que nos deixou a garantia de que em Terra de Santa Maria se conservará sempre o dogma da Fé?

Muito doloroso para os católicos portugueses é, sobretudo, o facto de terem sido proibidos de fazer a peregrinação ao Santuário de Fátima a 12 e 13 de Maio deste ano. Nossa Senhora prometeu que em Portugal se conservaria sempre a Fé, a verdadeira Fé Católica. A conservação da Fé não é uma questão de números e de percentagens. Também nestes dias de tribulação e desolação, de abandono da integridade e pureza da Fé e da liturgia, Nossa Senhora tem em Portugal, e noutros países, os Seus fiéis, os Seus pequeninos. Estes fiéis, estes pequeninos de Nossa Senhora, são aqueles membros do clero e do povo Católico em Portugal, de todas as idades e posições sociais, que têm conservado na alma a Fé pura dos santos Pastorinhos de Fátima, o ardente e reverente amor à Santíssima Eucaristia, a filial entrega e devoção a Nossa Senhora e ao Seu Imaculado Coração. Queira Deus que em Portugal haja pequenos “exércitos” de Nossa Senhora de Fátima. Com este exército dos Seus pequeninos, Nossa Senhora vencerá os ataques presentes contra a Fé e a liberdade de culto. Que os católicos portugueses e, sobretudo, os devotos de Nossa Senhora de Fátima, que sofrem por causa da repressão religiosa actual e da desolação espiritual, renovem a sua confiança sobrenatural no triunfo do Imaculado Coração de Maria. Que peçam a Nossa Senhora de Fátima que envie os Anjos com os regadores de cristal, nos quais recolhiam o sangue dos Mártires, para regarem as almas de todos os que se aproximam de Deus, que estão sedentos de Deus e da Santíssima Eucaristia. Rezemos neste tempo, com os santos Francisco e Jacinta, frequentemente esta oração ensinada pelo Anjo: “Ó Jesus, é por vosso amor, pela conversão dos pecadores e em reparação dos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria”. Formemos o pequeno “exército” de Nossa Senhora de Fátima e sintamo-nos orgulhosos e alegres por sermos católicos e filhos de Nossa Senhora!

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (XXVI)


A consagração a Maria também pode ser chamada «uma perfeita renovação dos votos ou promessas do santo baptismo» (n. 126). O baptismo introduz-nos no caminho da fé. A consagração introduz-nos no caminho da perfeição cristã. A verdadeira devoção completa, renova e aperfeiçoa o baptismo.

São Luís explica-o deste modo: «Na verdade, todo o cristão, antes do baptismo, era escravo do demónio, pois pertencia-lhe. No seu baptismo, pela própria boca ou pela boca do seu padrinho e da sua madrinha, renunciou solenemente a Satanás, às suas pompas e às suas obras, e tomou a Jesus Cristo por seu Mestre e soberano Senhor, a fim de depender d’Ele na qualidade de escravo de amor. É o que fazemos também por meio desta devoção: renunciamos (como está expresso na fórmula da consagração) ao demónio, ao mundo, ao pecado e a nós mesmos, e damo-nos por inteiro a Jesus Cristo pelas mãos de Maria. E fazemos mesmo mais, pois no baptismo falamos ordinariamente pela boca de outra pessoa, ou seja, o padrinho e a madrinha, e oferecemo-nos a Jesus Cristo apenas por meio de um procurador, mas nesta devoção é por nós mesmos que o fazemos, voluntariamente e com conhecimento de causa».

Mas qual é a fórmula de consagração a que São Luís se refere? A fórmula original não figura no manuscrito da sua obra, que chegou até nós privado da primeira parte e das últimas folhas. Mas trata-se, com toda a probabilidade, do mesmo Acto de consagração a Jesus Cristo Sabedoria Encarnada pelas mãos de Maria que encontramos numa sua outra obra, O amor da sabedoria eterna. E é esta a fórmula usada por todos aqueles que se querem consagrar a Maria segundo o método ensinado por São Luís Maria Grignion de Montfort.

A parte central da consagração é esta:

«Eu... pecador infiel, renovo e ratifico hoje nas vossas mãos os votos do meu baptismo: renuncio para sempre a Satanás, às suas pompas e às suas obras, e dou-me inteiramente a Jesus Cristo, a Sabedoria Encarnada, para O seguir levando a minha cruz, todos os dias da minha vida, e para lhe ser mais fiel do que até agora tenho sido.

Escolho-Vos hoje, na presença de toda a corte celeste, por minha Mãe e Senhora. Entrego-Vos e consagro-Vos, na qualidade de escravo, o meu corpo e a minha alma, os meus bens interiores e exteriores e o próprio valor das minhas boas obras passadas, presentes e futuras, deixando-Vos pleno e inteiro direito de dispor de mim e de tudo o que me pertence, sem excepção alguma, segundo o vosso beneplácito, para maior glória de Deus, no tempo e na eternidade
».

Com esta devoção, explica São Luís no número 142: «Oferecemos e consagramos tudo o que somos e tudo o que possuímos à Santíssima Virgem, para que Nosso Senhor receba, por seu intermédio, a glória e o reconhecimento que Lhe devemos. Reconhecemo-nos indignos e incapazes de nos abeirarmos da sua Majestade infinita só por nós mesmos, e, por isso, servimo-nos da intercessão da Santíssima Virgem».

Aproximando-nos de Nosso Senhor, não por nós mesmos, mas pela intercessão da Santíssima Virgem, cumprimos um acto de perfeita humildade. O santo recordou-o muitas vezes no Tratado: o segredo da glória de Maria é a sua humilde e perfeita dependência de Deus. A humildade deve ser a característica dos verdadeiros devotos de Maria, que com este acto de consagração se tornam totalmente dependentes dela, para amá-la e servi-la mais perfeitamente e, através dela, servir e amar mais perfeitamente Jesus Cristo.

Roberto de Mattei      

sábado, 23 de maio de 2020

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (XXIV)


Os três primeiros capítulos do Tratado introduziram o que está no seu coração: a descrição da prática da verdadeira devoção a Maria. «Posto isto – diz o santo –, tendo lido quase todos os livros que tratam da devoção à Santíssima Virgem, e tendo conversado familiarmente com as personagens mais santas e doutas destes últimos tempos, tenho de protestar vivamente que não conheci nem aprendi qualquer outra prática de devoção para com Nossa Senhora semelhante à que quero aqui apresentar, que exija duma alma mais sacrifícios feitos para Deus, que mais a esvazie de si mesma e do seu amor próprio, que mais fielmente a conserve na graça, e a graça nela, que a una mais perfeita e facilmente a Jesus Cristo, e, finalmente, que mais glória dê a Deus, e que seja mais santificante para a alma e mais útil ao próximo» (n. 118).

Chegamos ao ponto central, que São Luís expõe no número 120: «A consagração perfeita a Jesus Cristo mais não é do que uma perfeita e total consagração de si mesmos à Santíssima Virgem, e é essa a devoção que pretendo ensinar; ou, por outras palavras, uma perfeita renovação dos votos e promessas do santo baptismo» (n. 120).

A perfeita devoção monfortina é, por conseguinte, um supremo acto de doação e de oferta com o qual nos desenraizamos, por assim dizer, do nosso eu, e morremos para nós mesmos para pertencer totalmente a Maria e viver apenas nela, com ela e por ela.

«Esta forma de devoção – explica São Luís – consiste, portanto, em dar-se por inteiro à Virgem Santíssima, a fim de se ser, por seu intermédio, inteiramente de Jesus Cristo. É preciso dar-lhe: 1.º o nosso corpo, com todos os seus sentidos e membros; 2.º a nossa alma, com todas as suas faculdades; 3.º os nossos bens exteriores, que chamamos de fortuna, presentes e futuros; 4.º os nossos bens interiores e espirituais, ou seja, os nossos méritos, virtudes e boas obras passadas, presentes e futuras. Numa palavra, tudo quanto temos na ordem da natureza e na ordem da graça, e tudo quanto possamos vir a ter no futuro na ordem da natureza, na da graça e ainda na ordem da glória; e isto sem qualquer reserva, nem mesmo um centavo, nem um cabelo ou a menor boa acção, e assim por toda a eternidade, sem pretendermos ou esperarmos qualquer outra recompensa pelo nosso oferecimento e serviços, além da honra de pertencer a Jesus Cristo por ela e nela, ainda que não fora esta amável Senhora – como de facto o é, e sempre – a mais generosa e agradecida entre todas as criaturas» (n. 121).

Nesta devoção não damos a Maria uma parte, pequena ou grande, do que nos pertence, mas damos-lhe tudo: damos-lhe nós mesmos. Não lhe damos apenas os nossos bens da alma e do corpo, mas também as satisfações e os méritos de todas as nossas boas obras. A essência da verdadeira devoção reside na totalidade do acto de oferta. Na medida em que falta esta totalidade, falha a prática de Montfort, que só é eficaz se for radical. Nem todos compreendem a radicalidade desta devoção, explica São Luís, no número 119, que a apresenta como um monte alto ao qual só Jesus nos permite subir.

«Como o essencial desta devoção consiste no interior que ela deve formar, não será compreendida igualmente por todos. Uns ficarão no que é exterior e não passarão além, e estes serão a maioria. Outros, um pequeno número, conseguirão entrar no seu interior, mas não subirão senão um degrau. Quem conseguirá subir ao segundo? Quem chegará ao terceiro? E, por fim, quem aí permanecerá por ser esse o seu próprio estado? Só aquele a quem o Espírito de Jesus Cristo revelar este segredo. Será Ele próprio quem conduzirá a alma fidelíssima para lá, para que avance de virtude em virtude, de graça em graça, de luz em luz, até alcançar a transformação de si mesma em Jesus Cristo e chegar à plenitude da sua idade na terra e da sua glória no Céu» (n. 119).

Roberto de Mattei      

sexta-feira, 22 de maio de 2020

O juízo de Deus na história (I)


Terra infecta est ab habitatoribus suis,
propter hoc maledictio vastabit terram
Isaías 24, 6

Na época do coronavírus pode-se falar de tudo, mas há certos temas que continuam a ser proibidos, sobretudo no mundo católico. O principal desses temas é talvez o do juízo e da retribuição divina na história. A existência desta censura é uma boa razão para abordar o assunto.             

O Reino de Deus e a sua justiça 

Não parto do Antigo Testamento, onde as referências aos castigos divinos são inúmeras, mas das próprias palavras de Nosso Senhor, que nos diz: «Procurai primeiro o Seu reino e a Sua justiça e tudo o mais se vos dará por acréscimo» (Mt 6, 33).  

Estas palavras do Evangelho são um programa de vida para cada um e recordam-nos uma das bem-aventuranças: «Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados» (Mt 5, 6).            

A noção de justiça é uma das primeiras noções morais da nossa razão: os filósofos definem-na como a inclinação da vontade de dar a cada um o que lhe é devido. O desejo de justiça está no coração de cada homem. Nós não procuramos apenas o que é verdadeiro, bom, bonito, mas também o que é justo. Toda a gente ama a justiça e detesta a injustiça. E como o mundo está cheio de injustiças e a justiça humana, aquela administrada pelos tribunais, é imperfeita, aspiramos a uma justiça perfeita, que não existe na terra e que somente em Deus podemos encontrar.     

O mais célebre processo da história, o de Nosso Senhor Jesus Cristo, sancionou a mais clamorosa injustiça de todos os tempos. Mas Deus é infinitamente justo, porque dá infalivelmente a cada um o seu. A beleza do universo está na sua ordem e a ordem é o reino da justiça, porque a ordem é dar a cada coisa o seu lugar e a justiça é dar a cada um o seu: unicuique suum, como estabelecia o direito romano.                   

Roberto de Mattei            

Através de Corrispondenza Romana

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (XXIII)


Na segunda parte do número 79, São Luís mostra as consequências do pecado original na alma com estas palavras fortes:           

«Por herança não temos senão o orgulho e a cegueira no espírito, o endurecimento no coração, a fraqueza e a inconstância na alma, a concupiscência, a revolta das paixões e as doenças do corpo. Somos naturalmente vilania, mais orgulhosos que os pavões, mais apegados à terra que os sapos, mais ruins que os bodes, mais invejosos que as serpentes, mais gulosos que os porcos, mais coléricos que os tigres, mais preguiçosos que as tartarugas, mais frágeis que os caniços e mais inconstantes que os cataventos. No nosso fundo só temos o nada e o pecado, e não merecemos senão a irá de Deus e o inferno eterno».    

Esta imagem tão dura pode ferir a nossa sensibilidade. Mas retrata a realidade. As nossas melhores acções são estragadas, contaminadas, corrompidas pela nossa índole. Tudo o que é bom em nós, não nos pertence, não vem de nós, mas de Deus. Tudo o que é nosso é mau, estragado pelo pecado original e actual.      

Por isso, é necessário esvaziar-se daquilo que é mau em nós, mas, para fazê-lo, devemos pedir ao Espírito Santo que nos faça conhecer o verdadeiro fundo da nossa alma: a nossa natureza perversa, a nossa incapacidade de fazer o bem, a nossa completa fraqueza; a inconstância de cada momento; a indignidade de receber cada graça; a iniquidade que, de Adão e Eva até nós, acompanha a história do género humano.  

Do que sabemos da vida de São Luís Maria, ele sempre levou uma vida angelical. Não foi um daqueles santos que, graças a uma profunda conversão, praticaram o heroísmo da virtude depois de terem conhecido a malícia do pecado. E, no entanto, precisamente por causa da pureza de alma que nunca lhe faltou, é capaz de penetrar no abismo da alma humana muito mais profundamente do que seria capaz um pecador ou um mundano. Esta penetração baseia-se em algumas verdades de fé negadas pelo mundo moderno. 

A primeira é a existência do pecado original, que não corrompe integralmente a natureza do homem, como reivindicava Lutero, mas fere-a, deixando um rasto profundo, como inclinação para o mal a que ninguém, nem mesmo um santo, pode escapar. Somente Nossa Senhora, concebida sem pecado, foi poupada, por Deus, das consequências do pecado de Adão e de Eva.           

A segunda verdade é que todos os pecados, mortais ou veniais, mesmo se perdoados na confissão, deixam uma marca, aumentam a ferida do pecado original, que também pode ser curada e cicatrizada, mas não pode ser anulada.  

Assim, é necessário pedir a graça de não nos iludirmos sobre nós mesmos, de compreendermos que consequências devastadoras deixaram na nossa alma o pecado original e os pecados actuais. Se Deus, ainda que só por um momento, nos tirasse a sua graça, seríamos capazes de tudo. Esta é a nossa única certeza e, por isso, os santos disseram que o primeiro e verdadeiro inimigo contra o qual devemos lutar até ao último momento da vida é o nosso “eu”, somos nós mesmos.         

Portanto, conclui o santo, «será para admirar que Nosso Senhor tenha dito que quem O quisesse seguir deveria renunciar a si mesmo e odiar a própria alma, e que quem a amasse a perderia, e quem a odiasse a salvaria?» (n. 80).         

Roberto de Mattei                   

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (XXII)


O primeiro capítulo do Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, de São Luís Maria, foi um crescendo, até aos últimos números, do 47 ao 49, dedicado aos apóstolos dos últimos tempos. No segundo capítulo do Tratado, expõe algumas verdades fundamentais que nos ajudam a compreender em que coisa consiste exactamente a verdadeira devoção a Maria.           

As verdades fundamentais, expostas pelo santo, são as seguintes:     

A primeira verdade (nn. 61-67): Jesus Cristo é o fim último da devoção à Santíssima Virgem.

A segunda verdade (nn. 68-77): nós pertencemos a Jesus Cristo e a Maria na qualidade de escravos.      

A terceira verdade (nn. 78-82): devemos esvaziar-nos do que há de mau em nós, porque «as nossas melhores acções são manchadas e corrompidas pelo mau fundo que há em nós» (n. 78).   

A quarta verdade (nn. 83-86): precisamos de um mediador junto do próprio Mediador, que é Jesus Cristo. «Para ir a Jesus é preciso ir a Maria, é ela a nossa mediadora de intercessão; para ir ao Pai Eterno é preciso ir a Jesus, o nosso mediador de redenção» (n. 86).                  

A quinta verdade (nn. 87-89): é-nos muito difícil conservarmos as graças e os tesouros recebidos de Deus. A fidelidade a Deus é um milagre da graça e esse milagre não é possível sem Maria. Só Maria nos pode ajudar a conservar a graça de Deus.  

Debrucemo-nos sobre a terceira verdade, porque se não nos esvaziamos do que há de mau em nós, se não adquirimos a virtude da humildade, se não abrimos o nosso coração ao Espírito Santo, não podemos avançar na compreensão mais profunda da mensagem do Tratado.        

Os números 78 e 79 estão entre os mais radicais da obra de Montfort, porque contrapõem a verdade do pecado original e das suas consequências à utopia do homem bom difundida pelo humanismo e pelo iluminismo. Leiamos as duras, mas salutares, palavras de São Luís:

«Para nos esvaziarmos de nós mesmos, é preciso, em primeiro lugar, conhecer bem, pela luz do Espírito Santo, o nosso mau fundo, a nossa incapacidade para qualquer bem útil à salvação, a nossa fraqueza em todas as coisas, a nossa inconstância permanente, a nossa indignidade de toda a graça, a nossa iniquidade em toda a parte. O pecado do nosso primeiro pai, a todos e quase por completo, nos estragou, nos azedou, nos inchou e nos corrompeu, como o fermento lançado na massa a faz azedar, inchar e corromper. Os pecados actuais por nós cometidos, quer mortais quer veniais, ainda que já perdoados, aumentaram-nos a concupiscência, a fraqueza, a inconstância e corrupção, e deixaram os seus maus restos na nossa alma» (n. 79).  

Continua o santo: «A tal ponto os nossos corpos estão corrompidos, que são chamados pelo Espírito Santo corpos do pecado, concebidos no pecado, alimentados no pecado e capazes de tudo, corpos sujeitos a mil enfermidades, que se corrompem de dia para dia e que não geram senão corrupção, sarna e vermes».

Antes de falar das nossas almas, o santo fala dos nossos corpos, porque é neles que se veem de forma mais evidente as consequências do pecado original: os sofrimentos físicos, a doença, a morte. O nosso corpo, depois do pecado, tem em si um germe de desintegração física que o leva à decadência e à separação da alma, o seu princípio vital. Nesta separação da alma do corpo consiste a morte e a morte é a consequência do pecado. O pecado introduziu no mundo todos os germes de decomposição e de morte que estão diante dos nossos olhos, mas dos quais, por vezes, temos dificuldade em reconhecer a verdadeira causa.       

Roberto de Mattei