quarta-feira, 8 de abril de 2020

Uma Páscoa que ficará na história



A semana da Páscoa de 2020 está destinada a ficar na história, pela sua natureza excepcional, como aquele dia de Fevereiro de 2013 em que Bento XVI anunciou a sua renúncia ao pontificado. Um misterioso fio condutor parece ligar estes dois acontecimentos. Liga-os o mesmo sentimento de vazio.    

Bento XVI renunciou juridicamente ao mandato petrino sem explicar as legítimas razões morais que poderiam justificar o seu gesto extremo. O Papa Francisco, por sua vez, conserva juridicamente este mandato, mas não o exerce e parece querer despojar-se do mais alto título que lhe pertence, o de Vigário de Cristo, transcrito, na última edição do Anuário Pontifício, como um título histórico e não constitutivo. Se Bento XVI renunciou ao exercício jurídico do Vicariato de Cristo, quase que parece que o Papa Francisco renunciou ao exercício moral da sua missão. A suspensão das cerimónias religiosas em todo o mundo, afligido pelo Coronavírus, parece ser uma expressão simbólica, mas real, de uma situação inédita, na qual a Divina Providência tira aos Pastores o povo que abandonaram.                  

Não sabemos quais serão as consequências políticas, económicas e sociais do Coronavírus, mas, por estes dias, medimos as suas consequências para a Igreja. Parece que se levantou um véu: é a hora do vazio, do rebanho privado dos seus Pastores. A Praça de São Pedro, vazia no Domingo de Ramos, também estará vazia no Domingo de Páscoa. «O Santo Padre – comunicou o Vaticano – celebrará os ritos da Semana Santa no altar da cátedra, na Basílica de São Pedro, sem a presença de fiéis, no seguimento da situação extraordinária que foi determinada pela disseminação da pandemia COVID-19».    

Segundo a philosophia perennis, a natureza repudia o vazio (natura abhorret a vacuo). Na hora do vazio espiritual, a alma de quem tem fé volta-se instintivamente para Aquela que nunca está vazia, porque colmada de todas as graças: a Bem-Aventurada Virgem Maria. Somente n’Ela a alma pode encontrar a plenitude espiritual e moral que a Praça de São Pedro e as inúmeras igrejas fechadas em todo o mundo já não oferecem. E uma Missa em streaming pode satisfazer os olhos, mas não enche a alma. Mas o Papa Francisco, em vez de alimentar a devoção e o culto a Maria, também Lhe quer tirar os títulos devidos. A 12 de Dezembro de 2019, o Papa descartou a possibilidade de novos dogmas marianos, como o de Maria co-redentora, afirmando: «quando nos dizem que era necessário declará-la como tal, ou fazer mais um dogma, não nos devemos perder em disparates». E, a 3 de Abril de 2020, reiterou que Nossa Senhora «não pediu para ser uma quase-redentora ou uma co-redentora: não. O Redentor é um só e este título não se duplica. Apenas discípula e mãe».    

Estas palavras foram expressas na véspera da Semana Santa, que é aquela em que Nossa Senhora completa, no Calvário, a sua missão de co-redentora e medianeira de todas as graças. O Papa Bento XV expõe a razão para isso: «Como ela sofreu e quase morreu com o seu Filho sofredor e moribundo, também renunciou, pela salvação dos homens, aos seus direitos de mãe sobre este Filho e imolou-o para aplacar a justiça divina, podendo dizer-se, com razão, que ela redimiu, com Cristo, o género humano. Evidentemente por este motivo, todas as diversas graças do tesouro da redenção são também distribuídas pelas mãos da Mãe Dolorosa» (Carta Apostólica Inter sodalicia, 22 de Março de 1918).

Segundo alguns teólogos, a palavra co-redentora absorve a de medianeira; na opinião de outros, como o P. Manfred Hauke, a palavra mediação universal de Maria presta-se a um significado mais amplo do que o de co-redenção, incluindo o seu conteúdo (Introduzione alla Mariologia, Eupress FTL, Lugano 2008, pp. 275-277). Tal palavra integra o aspecto “descendente”, pelo qual as graças chegam aos homens, com o aspecto “ascendente” expresso pela co-redenção, através da qual Nossa Senhora se une ao sacrifício de Cristo. Os dois títulos são, de qualquer forma, complementares, como ensina Mons. Brunero Gherardini no seu ensaio La corredentrice nel mistero di Cristo e della Chiesa (Viverein, Roma 1998), e ligam-se ao de Rainha do Céu e da Terra.    

Mas é necessário continuar? São Bernardo diz: «De Maria numquam satis» (Sermo de Nativitate Mariae, Patrologia Latina, vol. 183, col. 437D) e Santo Afonso Maria de Ligório afirma: «Quando uma opinião honra, de qualquer modo, a Santíssima Virgem, tem um certo fundamento e não há nada de contrário à fé ou aos decretos da Igreja, nem à verdade; não aceitá-la ou contradizê-la, porque também a opinião oposta poderia ser verdadeira, denota pouca devoção à Mãe de Deus. Não quero ser contado entre esses espíritos pouco devotos, nem gostaria que o fosse o meu leitor, mas gostaria de ser contado entre aqueles que creem plena e firmemente em tudo o que, sem erro, se pode crer das grandezas de Maria» (As Glórias de Maria, cap. V, § 1). 

Os devotos de Maria são uma família espiritual que tem o seu protótipo e patrono em São João Evangelista, o discípulo amado, que recebeu de Jesus, no Calvário, um imenso legado. Tudo se resume nas palavras de Jesus quando, na Cruz, «ao ver Sua mãe e, junto dela, o discípulo que Ele amava, Lhe disse: “Mulher, eis aí o teu filho”. Depois disse ao discípulo: “Eis aí a tua mãe”» (Jo 19, 26-27). Com estas palavras, Jesus estabeleceu um vínculo divino e indissolúvel, não apenas entre Maria Santíssima e São João, representante do género humano, mas entre Ela e todas as almas que seguissem o exemplo de fé e de fidelidade de São João. São João é o modelo daqueles que, na hora da traição e da renúncia, permanecem fiéis a Jesus por Maria. «Deus Espírito Santo quer formar n’Ela e por Ela eleitos e diz-Lhe: “in electis meis mitte radices” (Ecli 24, 12)», escreve São Luís Grignion de Montfort (Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, n. 34), assegurando-nos que os seus devotos receberão uma fé firme e inabalável que os fará permanecer firmes e constantes no meio de todas as tempestades (ibid., n. 214). Plinio Corrêa de Oliveira demonstrou como a devoção mariana, não exterior e inconstante, mas firme e perseverante, é um factor decisivo no embate entre a Revolução e a Contra-Revolução, que se tornará mais agudo nos tempos sombrios que nos esperam. Maria, medianeira universal, é, de facto, o canal através do qual passam todas as graças e as graças choverão em abundância para quem reza e luta por Ela (Rivoluzione e Contro-Rivoluzione, ed. Sugarco, Milano 2009, pp. 319-332). 

O grande arcediago de Évreux, Henri-Marie Boudon, cuja espiritualidade foi formada por São Luís Maria Grigion de Montfort, escreveu que nas calamidades públicas, como as guerras ou as epidemias, carregámo-las com os outros, enquanto deveríamos carregá-las com nós mesmos e com os nossos pecados: «Deus atinge-nos para ser contemplado e nós, ao invés, não tiramos os olhos das criaturas» (La dévotion aux saints anges, Clovis, Condé-su-Noireau 1998, p. 265). Nestes dias inquietantes, não nos cansemos a procurar a mão dos homens por detrás da pandemia. Contentemo-nos em ver nela a mão de Deus. E como Nossa Senhora, para além de co-redentora e medianeira, é também rainha do universo, não esqueçamos que Deus Lhe atribuiu a tarefa de intervir na história, opondo-se à acção exercida pelo diabo. Por esse motivo, quando o Senhor flagela a humanidade, o único refúgio é Maria. É d’Ela que retira força quem não abandona o seu lugar, mas permanece em campo para travar a última batalha: aquela pelo triunfo do Seu Imaculado Coração.

Roberto de Mattei


Através de Corrispondenza Romana.

1 comentário:

«Tudo me é permitido, mas nem tudo é conveniente» (cf. 1Cor 6, 12).
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