quarta-feira, 1 de abril de 2020

Os grandes ausentes da pandemia



Existe uma procura teológica chamada “teodiceia” que visa reconciliar a bondade e a misericórdia de Deus com os infortúnios e as calamidades do mundo físico, bem como as perversidades do mundo moral desejadas ou permitidas pela Sua justiça. Um dos pais da teodiceia foi o grande bispo de Hipona Santo Agostinho que, no seu De natura boni, estabelece os fundamentos abordando o problema do mal e do pecado nos seus muitos e complexos aspectos. Neste tratado, Santo Agostinho explica que Deus pune o homem para restabelecer a ordem da criação por Ele desejada e, ao fazê-lo, educa-o pedagogicamente a apreciar o bem e a fugir do mal. «Se eles (os ímpios) abusaram dos Seus bens por meio da sua própria vontade iniqua, Ele fará bom uso dos seus males por meio da Sua justa autoridade, ordenando, de modo recto nas penas, aqueles que se ordenaram a si mesmos de modo perverso no pecado». Portanto, Deus pune por um bom motivo, Ele que, como ainda diz Agostinho, «permite o que quer e quer o que permite».                 

A Sagrada Escritura, repleta de exemplos de punições divinas desde as suas primeiras páginas, é todo um relato dos pecados do homem, castigos de Deus e conversão dos pecadores. Porque, precisamente, o castigo divino tem uma causa e um fim. A causa é o pecado do homem e o fim é a sua conversão. Em 1917, Bento XV, dirigindo-se aos pregadores da Quaresma, afirmou: «Os flagelos públicos são expiações das culpas pelas quais as autoridades públicas e as nações se afastaram de Deus». Portanto, os pregadores devem «exortar os fiéis a receber da mão de Deus os infortúnios probatórios e os flagelos públicos sem murmurar contra a Divina Providência, mas procurando apaziguar a justiça divina pelos pecados dos indivíduos e das nações» (Discurso aos pregadores quaresmais, 1917).                   

O abade cisterciense Vital Lehodey escreveu, no século passado, que «as calamidades são geralmente a punição do pecado: quanto mais universais e terríveis, mais os efeitos da iniquidade devem ter provocado a cólera divina» (Il santo abbandono, Ed. San Paolo, Milão 2014). Mas como é que podemos conciliar os castigos de Deus com a Sua infinita misericórdia? A questão é colocada mal, porque – à luz da fé – os próprios castigos são um acto de misericórdia: «Aquilo a que nós chamamos de flagelo e castigo – escreveu Lehodey – é, muitas vezes, uma grande graça, uma impressionante prova de misericórdia. Habituemo-nos a considerar todas as coisas à luz brilhante da fé e nada do que acontece no mundo nos escandalizará, nada perturbará a paz da nossa alma e a sua confiante submissão à Providência».                    

Dito isto, abre-se diante dos nossos olhos a cortina da grande pandemia causada pelo COVID-19, ou Coronavírus, o vírus invisível que pôs de joelhos nações inteiras com os seus sonhos de omnipotência. Os governos, a começar pelo italiano, estão a esforçar-se para salvar a vida dos cidadãos com medidas draconianas que talvez nunca se tenham visto na história. Mas esses mesmos governos promovem ou toleram crimes como o aborto e a eutanásia que, enquanto homicídios, são pecados que clamam por vingança aos olhos de Deus. Agora, que o estado secularista, com esta evidente discrasia como com outras, caia em evidente contradição, ridicularizando-se a si mesmo, é algo que não surpreende. Mas que a Igreja não apenas se submeta ao governo, mas até o preceda, para um católico é inconcebível e intolerável. Desde a imposição da Comunhão na mão (que também constitui um evidente abuso de autoridade), à suspensão das Missas públicas e ao encerramento de igrejas, são tudo medidas que várias Conferências Episcopais (a partir da italiana) adoptaram mesmo antes de os governos terem aprovado as suas leis draconianas.    

Agora, que os nossos governantes queiram prolongar as nossas vidas (apesar das evidentes contradições acima mencionadas), pode-se compreender; mas que as nossas autoridades eclesiásticas também pretendam prolongar a nossa vida em vez de salvá-la, é algo que nunca se viu. Para prolongar a nossa vida não precisamos da Igreja. Precisamos da Igreja para viver e morrer cristãmente. E, para esse propósito, precisamos que a Igreja nos fale dos Novíssimos: morte, juízo, inferno e paraíso, ou seja, o fim último da nossa existência, que não é esta vida natural, por mais longa que seja, mas a eterna. Em vez disso, os Novíssimos são os grandes ausentes da pandemia. Mais, parece que os nossos hierarcas temem a morte física ainda mais do que os nossos governantes, já que até agora vimos, ao que parece, mais médicos-heróis do que sacerdotes-heróis. Mas a morte não é o pior dos males: o pior dos males é a morte eterna, ou seja, a morte em desgraça de Deus. «Todas as prosperidades do mundo serão os piores flagelos se as almas adormecerem no descuido e no esquecimento e se o despertar ocorrer apenas no fundo do abismo. Em vez disso, as assustadoras calamidades, mesmo que durassem anos inteiros, são pouco diante de um inferno sem fim; são, pelo contrário, uma grande misericórdia da parte de Deus e uma verdadeira fortuna para nós se, por esse preço, pudermos apaziguar a justiça divina, evitar o inferno e recuperar os nossos direitos ao céu» (ibid.). Eis por que motivo queremos uma Igreja que nos fale do Céu e não da terra, da verdadeira vida, que não terá fim, e não daquela que perece como um sopro.       

Toda a missão da Igreja ressume-se à salus animarum, a salvação das almas, que é a suprema lex. Portanto, gostaríamos de ouvir os nossos hierarcas falar dos Novíssimos, administrar os sacramentos, reanimar-nos: não queremos a liturgia em streaming. Porque se para os governantes o problema é o número dos mortos, para a Igreja o verdadeiro problema é, e será sempre, o número dos mortos sem Deus, dos quais prestará contas precisas.                    

Cristiana de Magistris

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