quinta-feira, 30 de abril de 2020

Ordem de Malta: a morte do Grão-Mestre pode reabrir as jogadas



O que acontecerá à Ordem de Malta depois da morte do Grão-Mestre? Não se pode excluir a exacerbação do conflito entre as duas alas opostas. O programa de Boeselager inclui o diálogo com o Islão e ajudas para as mudanças climáticas. Perante este cenário de divisão, o desaparecimento de Fra’ Giacomo Dalla Torre é uma grave perda para a Ordem Soberana e Militar de Malta.              

Não há paz para a Ordem Soberana de Malta. Ontem, pouco depois da meia-noite, morreu, numa clínica romana, o Grão-Mestre, Fra’ Giacomo Dalla Torre del Tempio di Sanguinetto. O estado de saúde do Príncipe, diagnosticado com uma doença incurável há alguns meses, piorou ao longo de terça-feira. Chega à Casa do Pai um homem de oração e sinceramente dedicado à caridade cristã.       

O apreço unânime pela sua pessoa fez com que, a 29 de Abril de 2017, num dos momentos mais difíceis da história da Ordem Soberana de Malta, fosse escolhido como Lugar-Tenente. A 2 de Maio de 2018, o Conselho Completo de Estado confirmou-lhe a sua confiança, elegendo-o 80.º Grão-Mestre e, portanto, sucessor do demissionário Fra’ Matthew Festing. Como muitos recordarão, o nobre inglês havia renunciado ao cargo, a 24 de Janeiro de 2017, a pedido explícito do Papa Francisco, durante uma audiência no Vaticano.

O passo atrás de Festing representou o epílogo de um confronto sem precedentes dentro da Ordem que explodiu, em Dezembro de 2016, com a remoção forçada de Albrecht Freiherr von Boeselager do cargo de Grão-Chanceler. Um processo iniciado após o barão alemão se ter recusado a obedecer à ordem do então Grão-Mestre de se afastar, no seguimento das suas responsabilidades apuradas numa investigação interna sobre a violação do artigo 9 da Carta Constitucional da Ordem Soberana e Militar de Malta, que exige aos membros que respeitem os ensinamentos e os preceitos da Igreja.    

Segundo a acusação, Boeselager, na época em que ocupava o cargo de Grande Hospitalário, teria sabido da distribuição de contraceptivos, em África, através dos voluntários da Ordem, mas não teria feito nada para impedi-lo. Um acontecimento que representou o fusível capaz de detonar um barril de pólvora já desencadeado. No fundo, de facto, o confronto entre as duas alas predominantes dentro da Ordem Soberana e Militar de Malta: a inglesa e a alemã, querendo resumi-las de maneira simplista. A separá-las, mais do que a nacionalidade, é a visão e a perspectiva futura daquilo que é uma das mais antigas Ordens religiosas católicas: fortalecer o seu carácter religioso, promovendo as vocações dos cavaleiros professos, ou acentuar-lhe as suas funções assistenciais, alargando o envolvimento dos leigos.

O Papa Francisco, solicitando a demissão de Festing e favorecendo a reintegração de Boeselager no cargo de Grão-Chanceler, após a constituição de uma Comissão de investigação sobre a expulsão deste último. contestada pelo primeiro, parecia inclinado para a via alemã. Numa carta endereçada ao Conselho Completo de Estado, em Abril de 2017, por ocasião da eleição a Lugar-Tenente de Fra’ Giacomo Dalla Torre, o pontífice quis enfatizar a «relação particular» da Ordem com o Sucessor de Pedro, também referida pela Carta Constitucional, e auspiciava o lançamento de um «significativo caminho de renovação espiritual» marcado pelo estudo e pela proposta das «reformas necessárias».         

O braço-de-ferro entre Festing e Boeselager tinha tido um impacto importante também no Vaticano com a nomeação de um Delegado Especial, o então Substituto para os Assuntos Gerais da Secretaria de Estado, Giovanni Angelo Becciu, e a consequente destituição de facto do Cardeal Raymond Leo Burke, formalmente patrono da Ordem Soberana e Militar de Malta ainda hoje, mas sem funções e poderes. Na controvérsia com Boeselager, o purpurado norte-americano apoiara Fra’ Festing e pedira permissão ao Papa, durante uma audiência em Novembro de 2016, para prosseguir com a investigação da distribuição de preservativos.

A não resolvida crise institucional, eclodida em todo o seu drama durante aqueles dias convulsivos, havia encontrado uma trégua com a escolha de Dalla Torre para liderar a Ordem, primeiro como Lugar-Tenente e, posteriormente, como Grão-Mestre.         

Professo religioso, expoente de uma família nobre que deu tanto à Santa Sé, o seu perfil parecia o ideal para conduzir a instituição no difícil caminho de renovação desejado pelo Papa, garantindo, porém, a necessária fidelidade à tradição. Uma tarefa não fácil de exercer, levando em conta os inevitáveis solavancos e estando no meio de uma guerra interna apenas adormecida, mas certamente não extinta. O que acontecerá na Ordem depois da morte do seu 80.º Grão-Mestre?           

Os bem informados não excluem a exacerbação do confronto entre as duas alas opostas, tendo em conta que é verdade que a alemã, pelo menos até agora, parece ter tido o consentimento de Francisco, mas uma parte do Conselho Completo de Estado continua ligada aos ingleses. «A Ordem – disse, em tempos, Fra’ Festing numa entrevista – não é uma organização humanitária ou uma ONG como muitos querem fazer crer». O ex-Grão-Mestre e os cavaleiros que pensam como ele temem que, no final do processo de reforma iniciado em 2017, possa haver a transformação da Ordem Soberana e Militar de Malta numa ONG como tantas outras, com a consequente perda de soberania e de identidade.         

Há um ano, por ocasião da sua reconfirmação, por mais cinco anos, no cargo de Grão-Chanceler, Albrecht Boeselager fez uma espécie de manifesto programático para o futuro da Ordem Soberana e Militar de Malta: diálogo com os representantes do Islão, aumento das ajudas para «as pessoas afectadas pela guerra e pelas mudanças climáticas», maior atenção ao papel das mulheres, harmonização das normas para os cavaleiros professos com o Direito Canónico. Um programa que dificilmente se pode imaginar aceite por todos. Diante deste possível cenário de divisão, a morte de Fra’ Giacomo Dalla Torre, com a sua capacidade de diálogo e de síntese, é uma perda ainda mais grave para a Ordem Soberana de Malta.  

Nico Spuntoni   

Através de La Nuova Bussola Quotidiana   

Sem comentários:

Enviar um comentário

«Tudo me é permitido, mas nem tudo é conveniente» (cf. 1Cor 6, 12).
Para esclarecimentos e comentários, queira contactar: info@diesirae.pt