quinta-feira, 2 de abril de 2020

O culto aos Santos Auxiliadores



Há um belo santuário, do século XVII, sobre uma colina verdejante da pequena cidade bávara de Bad Staffelstein, no distrito de Lichtenfels, na Alta Francónia, dedicado aos quatorze Santos Auxiliadores, também chamados Salvadores, que são invocados individualmente para doenças específicas e concomitantemente contra as epidemias.   

O seu culto surgiu já no século XIV, quando a Europa foi atormentada pela peste negra, iniciada, por volta de 1346, no Norte da China e que, através da Síria, se espalhou em fases sucessivas pela Turquia até chegar à Grécia, ao Egipto e à Península Balcânica. Em 1347, chegou à Sicília e rapidamente percorreu toda a Península Italiana até Génova, poupando alguns territórios do Ducado de Milão. Em 1348, os contágios atingiram a Suíça, excepto o Cantão dos Grisões, depois a França e a Espanha. Em 1349, a epidemia espalhou-se pela Inglaterra, pela Escócia e pela Irlanda, afectando toda a Europa. Os surtos da pandemia desapareceram em 1353, depois de ter matado, pelo menos, um terço da população do continente: de acordo com as estimativas mais recentes, causou a morte de 20 milhões de pessoas. Foi precisamente nessa época e na Alemanha que os cristãos começaram a invocar um grupo de quatorze santos, cada um deles célebre pelos seus extraordinários milagres.       

De acordo com a tradição da Igreja, os Santos Auxiliadores são: Santo Acácio de Bizâncio (ou Agátio, ?-303), invocado contra as dores de cabeça; Santa Bárbara (século III-IV), contra os raios e a morte súbita; São Brás de Sebaste (?-316), contra as doenças da garganta; Santa Catarina de Alexandria (287-305), contra as doenças da língua; São Ciríaco de Roma (?-306), contra as tentações e as obsessões diabólicas; São Cristóvão (-350 ca.), contra a peste e os furacões; São Dionísio de Paris (?-250/285), contra as dores de cabeça; Santo Egídio abade (640 ca.-720 ca.), contra o pânico e a loucura; Santo Erasmo de Formia (?-303), contra as dores abdominais; Santo Eustáquio (século I-II), contra os perigos do fogo; São Jorge (275/285 ca.-303), contra as infecções da pele; Santa Margarida de Antioquia (275-290), contra os problemas do parto; São Pantaleão de Nicomédia (?-305), contra as doenças cancerígenas; São Vito (?-303), contra a coreia, a hidrofobia, a letargia e a epilepsia.     

O culto ao grupo dos Santos expandiu-se e cresceu em importância principalmente depois das aparições ao pastorinho Hermann Leicht, de Langheim, hoje Lichtenfels (uma pequena cidade da Baviera sobre o rio Meno), filho do locatário de uma propriedade de Frankental. Frequentemente, as aparições celestes costumam ocorrer na presença de quem que ainda está na idade da inocência; portanto, a 17 de Setembro de 1445, o Menino Jesus, circundado por velas acesas, apresentou-se ao pastorinho alemão e o acontecimento repetiu-se a 29 de Julho de 1446, no mesmo lugar, mas desta vez o Menino Jesus estava acompanhado por quatorze crianças. Hermann perguntou quem eram e eles identificaram-se como os «quatorze salvadores» e pediram que lhes fosse dedicada uma capela. O acontecimento causou alvoroço por encontrar maior força com a cura milagrosa de uma menina gravemente doente que visitou o local das aparições.

O povo e os peregrinos, que cada vez mais iam até lá em peregrinação, organizaram-se para fazer o pedido da capela em honra dos Santos Auxiliadores e a insistência foi tão premente que o Abade do mosteiro cisterciense de Langheim teve que ceder. Cada santo tinha a sua própria festa litúrgica em diferentes dias do calendário romano, mas, em alguns lugares, os Santos Auxiliadores começaram a ser celebrados colectivamente numa única data, o dia 8 de Agosto. O Papa Nicolau V (1397-1455) associou indulgências particulares a essa devoção.       

As peregrinações aumentaram com o passar do tempo e, após a destruição da capela durante a Guerra dos Camponeses (1524-1526), que se insere no contexto das guerras religiosas e da Revolução Luterana, foi lá erguida uma igreja em 1543. No entanto, a devoção cada vez mais importante pelos Santos Auxiliadores levou à realização de um verdadeiro santuário entre 1743 e 1772, projectado pelo famoso arquitecto e engenheiro Johann Balthasar Neumann (1687-1753).           

O mosteiro cisterciense de Langheim foi suprimido, em 1803, pelas leis napoleónicas; portanto, o santuário começou a ser dirigido, a partir de 1839, pela Ordem Franciscana. Anualmente, cerca de meio milhão de peregrinos dirigem-se àquele lugar sagrado, mas supõe-se que, quando terminar a pandemia do Coronavírus, as peregrinações e os ex-voto se multipliquem pelas graças recebidas.

Cristina Siccardi                      


Através de Corrispondenza Romana.

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