quinta-feira, 2 de abril de 2020

Nenhuma condenação para terrorismo e “guerras santas”



O alarme mundial do Coronavírus ameaça fazer perder de vista outras emergências há muito latentes em áreas geopoliticamente críticas, como a islâmica. Perigo vice-versa relançado pelas notícias dos últimos dias, trazendo, infelizmente, todos de volta à triste realidade, como demonstra, por exemplo, o discurso realizado publicamente, em Istambul, a 8 de Março, pelo presidente turco Recep Tayyip Erdoğan.     

No seu discurso, Erdo
ğan esclareceu como a crise dos migrantes, desencadeada na fronteira com a Grécia pouco antes da pandemia, deveria ser entendida como um acto hostil contra a Europa, mais, uma espécie de “guerra santa” islâmica e, portanto, também uma tentativa de restaurar o Império Otomano e não simplesmente, como declarado no início, uma forma passiva de pressão sobre a NATO e a União Europeia pela redistribuição dos refugiados que fogem da Síria. «Esta tempestade, que está a começar, é a horda turca, ó Senhor! Conduz-nos à vitória porque este é o último exército islâmico. Sim, esta tempestade, que se desencadeia, é o nosso exército! Alá apoia-o juntamente com as orações de milhões de nossos amigos. Esta tempestade é o coração da nossa nação. Todos veem e verão do que será capaz», disse Erdoğan, entre outras coisas. Palavras, portanto, bem mais ameaçadoras do que o pedido de uma espécie de “corredor humanitário” internacional. Por outro lado, Erdoğan iniciou – não por acaso – a sua intervenção citando um poema de Yahya Kemal Beyath, intitulado 26 de Agosto de 1922, com referência ao dia em que a «Grande Ofensiva», desencadeada no contexto da guerra da independência turca, esmagou o exército grego, derrotando-o e matando ou capturando metade dos soldados helénicos.                            

Com efeito, segundo muitos observadores, o papel desempenhado, nos últimos dias, pela Turquia, na crise com a Grécia, terá sido muito mais activo do que se pensava. A estação de televisão búlgara bTV acusou o governo de Ancara de ter levado grupos de imigrantes para a fronteira, fornecendo-lhes gás lacrimogéneo, para encenarem a guerrilha que o mundo inteiro viu. Alguns vídeos mostram estrangeiros obrigados, pelos militares, à força e sob a ameaça de armas, a sair dos autocarros. Isto confirma a análise feita por alguns líderes políticos europeus, incluindo o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, que falou expressamente de «uma invasão».    

Estamos diante de um sinal claro, é certo, mas não o único. A universidade islâmica egípcia de Al-Azhar, uma das mais antigas e autorizadas do mundo, recusou-se a classificar os militantes do ISIS como «hereges». Tal foi revelado por um relatório apresentado, a 20 de Março, pelo MEMRI – Middle East Media Research Institute. A decisão de abster-se sobre este assunto e não emitir nenhuma fátua[1] dependeria do facto de não querer entrar em conflito com as organizações mais extremistas, como o ISIS, a Irmandade Muçulmana e outros movimentos análogos. Segundo o reitor da prestigiada universidade, Ahmed Mohamed el-Tayeb, «se decidisse que são hereges, seria como eles», declarou, respondendo à questão de um grupo de estudantes da Universidade do Cairo. O vice-reitor, Abbas Shuman, acrescentou: «Pelo que sei, em toda a história de Al-Azhar ninguém, pessoa ou movimento, foi acusado de heresia. Não é esta a missão de Al-Azhar». Há seis anos, Abbas Shuman chegou a declarar «terroristas as acções do ISIS» (note-se: as acções, não aqueles que as realizam, n. d. r.), definindo-as «incompatíveis com o bom Islão. O mal provocado por esta organização deve ser combatido» (note-se: o mal provocado, não a organização enquanto tal, n. d. r.), mesmo «com recurso à força», mas – e aqui está a verdadeira conclusão de todo este complexo discurso – «os seus membros nunca deverão ser declarados hereges».     

A lacónica posição expressa por Al-Azhar foi severamente criticada pela media egípcia e compreendida como uma hesitação em cooperar na luta contra o terrorismo islâmico. De acordo com o que foi escrito, pelo poeta egípcio Fatima Na’out, no jornal Al-Masry Al-Youm, é hora de «Al-Azhar perceber» que tem nas suas mãos a «varinha mágica» para enterrar o terrorismo no Egipto e derrotar o ISIS em todo o mundo: a emissão de «uma fátua clara e decisiva que proclame herege o ISIS» privaria de qualquer defesa «esses monstros», concluiu. Daí o convite a não transformá-los em «irmãos no Islão», que seria «portanto, obrigatório ajudar, mesmo quando pecam, sem condições nem reservas, enquanto muçulmanos».      

Os media egípcios acusam os programas académicos de Al-Azhar de promover o extremismo e o terrorismo. O ex-ministro da Cultura, Gaber Asfour, definiu o sistema educativo da famosa universidade islâmica como «atrofiado e atrasado», estagnado e retrógrado. Todas as acusações foram rejeitadas pelos directamente interessados, que acusaram a imprensa de ter desencadeado contra eles uma campanha depreciativa e incorrecta. Mas as acusações que lhes foram dirigidas permanecem. E são pesadas. Para desmontá-las, não bastam discursos, são necessários factos. Na Turquia, tal como no Egipto e em outros lugares, ou seja, onde quer que o sangue flua nas mãos das siglas terroristas islâmicas.     

Mauro Faverzani      

Através de Corrispondenza Romana.   



[1] Pronunciamento legal islâmico, emitido por um especialista em leis religiosas, sobre uma questão específica.

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