domingo, 12 de abril de 2020

Mensagem do Cardeal Burke para o Domingo de Páscoa



O Dies Iræ publica, em exclusivo para Língua Portuguesa, a mensagem do Cardeal Raymond Leo Burke para o Domingo de Páscoa.


Caros amigos,        

Na manhã de Páscoa, juntamente com as santas mulheres que estiveram fielmente ao lado de Nosso Senhor na Sua Paixão e na Sua Morte, encontramo-nos diante da Sua sepultura vazia. A sepultura recorda a profunda angústia da morte e do sepultamento de Cristo, Deus-Filho Encarnado, que quis sofrer a mais cruel das paixões e passar pela execução mais ignóbil conhecida à época para nos libertar para sempre do pecado e do seu fruto mais venenoso: a morte eterna. Mas a sepultura vazia está cheia de luz e no seu interior está o Anjo Pascal. Já não é a sepultura, mas o Santo Sepulcro, a testemunha de um mistério, do mistério de todos os mistérios: o mistério do Amor Divino que é a nossa salvação. O sepulcro está vazio, mas não porque alguém levou o corpo do Salvador. O Anjo da Páscoa anuncia às santas mulheres – e a nós – o mistério de que o Santo Sepulcro é testemunha: «Não vos assusteis! Buscais a Jesus de Nazaré, o crucificado? Ressuscitou; não está aqui. Vede o lugar onde o tinham depositado. Ide, pois, e dizei aos Seus discípulos e a Pedro: “Ele precede-vos a caminho da Galileia; lá o vereis, como vos tinha dito
» (Mc 16, 6-7).           
Deus, no Seu incomensurável e incessante amor pelo homem, mandou o Seu Filho unigénito na nossa carne humana para, na mesma carne, obter a vitória sobre o pecado, a vitória da vida eterna. O Senhor ressuscitado precede-nos sempre na Igreja e também na Igreja está sempre ao nosso lado para nos guiar pelo caminho que conduz à vida eterna.       

A nossa vida humana, portanto, mudou para sempre da maneira mais profunda possível. Desde o dia da ressurreição do Senhor, nós, que renascemos n’Ele através do Baptismo, vivemos n’Ele. Nós que fomos adoptados por Deus-Pai no Seu Filho unigénito, que morreu e ressuscitou dos mortos, vivemos em Cristo. Estamos vivos em Cristo. Ele, vivo em nós pela presença do Espírito Santo nas nossas almas, precede-nos e guia-nos para que a peregrinação terrena alcance o seu verdadeiro destino: a vida eterna na presença de Deus – Pai, Filho e Espírito Santo – e na companhia dos anjos e de todos os santos.        

É por isso que São Paulo nos exorta com toda a clareza e com grande realismo, ordenando-nos: «Purificai-vos do velho fermento, para serdes uma nova massa, já que sois pães ázimos» (1 Cor 5, 7). Não nos dá uma ordem abstracta ou idealista, fora das nossas capacidades. Sozinhos, não podemos viver livres do «fermento da malícia e da corrupção» (1 Cor 5, 8). É o Espírito Santo, que o Senhor Ressuscitado manda do Seu glorioso Coração trespassado aos nossos corações, que nos transforma para que possamos viver «com os ázimos da pureza e da verdade» (1 Cor 5, 8). Já não somos escravos dos nossos pecados e do Príncipe das trevas. Somos verdadeiros filhos de Deus, irmãos e irmãs de Cristo Ressuscitado, livres cooperadores com a Sua graça que é sempre abundante e que nunca falha. O nosso destino em Cristo, como filhos e filhas adoptivos n’Ele, não é a sepultura, mas a vida eterna. Quando morrermos, o nosso corpo será colocado na sepultura para aguardar o dia da ressurreição do corpo na vinda final de Cristo. O Espírito Santo, que habita em nós, torna-nos capazes do que nos seria impossível: viver, agora e na eternidade, de acordo com a verdade e o amor de Cristo.       

Seguramente, devemos enfrentar os difíceis desafios da vida cristã quotidiana, dos enganos do Maligno e da nossa própria fraqueza. Vivemos, certamente, um momento tumultuoso no mundo, um momento de crise sanitária internacional de que sabemos tão pouco e de que recebemos diariamente relatórios confusos e até contraditórios, e também na Igreja, atormentada por tanta confusão e erros. Mas olhamos para o Santo Sepulcro e conhecemos a verdade de que é testemunha. Permaneçamos firmes e fortes, confiantes que o Senhor verdadeiramente ressuscitou dos mortos e que nos precede e acompanha na batalha diária para Lhe permanecermos fiéis e para vivermos de acordo com a verdade e o amor que têm a sua fonte abundante e inesgotável no Seu Sacratíssimo Coração. Os nossos corações, colocados no Seu Sagrado Coração, recebem a sabedoria e a coragem para vivermos fielmente a nossa identidade de verdadeiros filhos e filhas de Deus n’Ele. 

Unidos à Virgem Mãe de Deus, às santas mulheres, a São Pedro e às outras testemunhas da Ressurreição de Nosso Senhor ao longo dos séculos cristãos, em suma, unidos a toda a Comunhão dos Santos, olhemos para a sepultura vazia do Senhor, o Santo Sepulcro, e recebamos com confiança o anúncio do Anjo Pascal que nos assegura que Cristo ressuscitou e nos precede para nos encontrar sempre na Igreja, especialmente no Santíssimo Sacramento da Eucaristia. Elevemos, hoje e em cada dia, o nosso coração, unido ao Imaculado Coração de Maria, ao Seu Sagrado Coração. Consagremos os nossos corações ao Seu Sagrado Coração para vivermos sempre na Sua companhia e em comunhão de coração com Ele.    

Conta-se uma história sobre o santo Cardeal Stefan Wyszyński, Arcebispo de Gniezno e de Varsóvia, na Polónia, e Primaz da Polónia, que foi primeiro preso e depois colocado em prisão domiciliária, pelo governo Comunista, a partir de Setembro de 1953. Ele e aqueles que o ajudaram foram testemunhas do tratamento desumano, da tortura e das execuções de muitos prisioneiros. Um dos que o assistiam durante a prisão domiciliária expressou, um dia, o medo de quem poderia bater à porta. O medo não era infundado. Conta-se que o Cardeal respondeu que, quando o medo bate à porta, a coragem abre-a e não está lá ninguém. Por outras palavras, em tempos de sofrimento e até de morte, devemos ter a coragem daqueles que estão vivos em Cristo. Não podemos ceder ao medo, que é um sentimento natural em tempos de perigo, mas que Satanás usa para nos tirar a coragem de Cristo. Devemos, em vez, ter cada vez mais confiança em Nosso Senhor, que nunca nos abandonará. Se seguirmos em frente com coragem, haverá sofrimento, sim, mas não haverá derrota. Quando a coragem abre a porta, o que tanto tememos não está lá porque Cristo está connosco. Melhor, está a vitória de Cristo na nossa carne humana. Na actual e mais grave situação que vivemos no mundo e na Igreja, lembremo-nos do exemplo do Venerável Cardeal Wyszyński. Quando o medo nos vencer, permaneçamos corajosos em Cristo, que verdadeiramente ressuscitou e vive em nós.

Coloquemos toda a nossa confiança no Senhor ressuscitado, fazendo completamente nossa a oração do Salmista, cantada tão maravilhosamente neste dia da Ressurreição de Nosso Senhor: «Este é o dia da vitória do Senhor: cantemos e alegremo-nos nele! Senhor, salvai-nos! Senhor, dai-nos a vitória!» (Sl 118 [117], 24-25).      

Rezo por vós e convosco. Sejamos, juntos, fortes, firmes e corajosas testemunhas do mistério da verdade e do amor de Deus que opera em nós. Por favor, rezai por mim. Possa a vossa celebração da Ressurreição de Nosso Senhor trazer alegria e paz duradouras à vossa casa e confiança e coragem ao vosso coração.                         

Raymond Leo Cardeal Burke
12 de Abril de 2020, Domingo de Páscoa

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