quarta-feira, 29 de abril de 2020

John Ritchie: «O comunismo não morreu com a queda da cortina de ferro»


Temos o gosto de publicar, em exclusivo para Língua Portuguesa, uma entrevista do director da TFP Student Action dos EUA, John Ritchie, a uma página católica espanhola.

Quais são os principais objectivos da TFP em 2020?    

Em sentido amplo, os objectivos de Tradição, Família e Propriedade (TFP) em 2020 são os mesmos de quando iniciámos a nossa caminhada em 1973. Promovemos as ideias contra-revolucionárias, promovemos a cultura cristã e difundimos a nossa devoção à Bem-aventurada Virgem Maria.       

Como deve saber, a nossa grande campanha do ano passado centrou-se na oposição ao Sínodo sobre a Amazónia e a muitas das suas declarações e acções objectáveis
​​contra a Santa Madre Igreja. Existe um compromisso radical pela distorção da Igreja Católica desde dentro. A adoração ao ídolo pagão da Pachamama em território vaticano foi um exemplo impressionante da profunda crise da Igreja, diante da qual os católicos de fé têm a obrigação de resistir, tendo que fazer reparação diante de Deus.     

Também temos em curso uma campanha de longo prazo para promover os princípios da sociedade orgânica cristã. A peça central deste esforço é o livro Return to Order, escrito por John Horvat, Vice-Presidente da TFP dos EUA. Com mais de 345 mil cópias em circulação, o livro já despertou grande interesse.  

Os planos de campanhas específicas para este ano dependem, em grande parte, do que acontecer durante e após a quarentena. Devo também dizer que a TFP americana acaba de publicar uma declaração vital sobre a pandemia, oferecendo um antídoto para o pânico e a manipulação ideológica por trás desta crise do coronavírus. Convido-o a ler o documento intitulado, em inglês, Warning! A Virus Threatens Americas’s Future and Christian Civilization.          

Pode explicar como actua a TFP Student Action? Em que países tem presença?                 

Claro. TFP Student Action é uma campanha especial da TFP americana. A nossa missão é a promoção dos valores morais nos campus universitários. Este pode ser um grande desafio, especialmente porque a esquerda pretende dominar o ensino superior.        

Por vezes, os voluntários da TFP são fisicamente atacados por promoverem valores morais nos campus. Mas, em vez de se retraírem, valorizam a oportunidade de debater e defender a verdade com uma sagrada valentia, inclusive nos territórios mais radicalizados, como a Universidade da Califórnia – Berkeley ou a Brown University.                    

A TFP americana tem organizações irmãs em dezenas de países. Fora dos Estados Unidos, os principais países onde têm presença as campanhas de Student Action são a Holanda, a Alemanha, a Suíça, a França e a Polónia.   

Também temos uma variedade de associações irmãs na América do Sul que participam em campanhas semelhantes. A mais notável é o Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, no Brasil.        

Como actua a TFP Student Action? Há várias facetas. Em relação à acção pública, participamos regularmente em campanhas de rua nas quais entramos em debates e distribuímos literatura sobre diversos temas, como o aborto, o “casamento” homossexual, o socialismo, o transgenerismo e outros temas importantes. Poderão ver algumas das campanhas no nosso canal do YouTube.  

Talvez o melhor exemplo destas campanhas sejam as “caravanas”, onde grupos de voluntários viajam pelo país durante semanas, promovendo várias iniciativas todos os dias. Além disso, mantemos um site, no qual lançamos, com frequência, várias campanhas de petições. Algumas delas tiveram muito sucesso, interrompendo os eventos abortistas em universidades católicas.

Outras atividades incluem os Campos de Formação de Verão, para rapazes, e as conferências de estudantes. Aqui tentamos destacar o ideal de cavalaria através de palestras e jogos, assim como a autêntica piedade masculina, a recitação do rosário e o recurso frequente aos sacramentos. Estes campos centram-se em atractivos modelos de papéis católicos. Um ano, o tema do campus foi a Espanha católica. Os rapazes aprenderam sobre a Reconquista, Dom Pelágio, o Cid, Dom Fernando II, o cerco do Alcázar de Toledo, a tauromaquia e as impressionantes procissões da Semana Santa em Sevilha.     

Para estudantes universitários, temos uma variedade de grupos regionais que acolhem círculos de discussão para jovens adultos interessados no pensamento contra-revolucionário e na acção, bem como dois congressos estudantis anuais, nos Estados Unidos e em França, respectivamente. Além disso, no fim de cada Verão, a TFP realiza uma conferência internacional estudantil na Europa Central ou Ocidental.      

Que influência tiveram as obras de Plinio Corrêa de Oliveira no movimento tradicionalista, conservador e paleo-libertário americano?

Na sua superfície, muitas pessoas pensariam provavelmente que um monárquico sul-americano com um profundo amor pelo Velho Mundo e pela civilização europeia tradicional não teria muita ressonância com os cânticos ideológicos da Revolução Americana. Mas a realidade é surpreendente. As ideias de Plinio Corrêa de Oliveira e da TFP tiveram uma profunda influência no reino do conservadorismo americano, particularmente entre os conservadores que têm em conta os valores morais.      

Boa parte da sua influência pode remontar ao advento da Nova Direita Americana, um movimento que emergiu nos tempos de Ronald Reagan. Por ocasião do convite de um veterano da TFP que estava em Washington, vários líderes influentes deste movimento ideológico viajaram até ao Brasil para conhecerem o Professor Corrêa de Oliveira. Sem excepção, todos eles voltaram para os EUA com grande entusiasmo pelas suas ideias e mantiveram estreitas relações com a TFP nos EUA. Uma dessas figuras foi Morton Blackwell, que escreveu o prefácio da edição americana do livro do Prof. Corrêa de Oliveira intitulado Nobreza e elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII.           

Hoje, o trabalho da TFP é bastante bem conhecido em círculos conservadores, continuando a trabalhar em alianças com grupos tradicionalistas e conservadores.  

O que pensam sobre Donald Trump? É, realmente, uma figura anti-establishment confiável?

Esta pergunta requer uma resposta diferenciada. Em certo sentido, temos de reconhecer que o Presidente Trump fez várias coisas boas. Por exemplo, considere-se o seu apoio público ao movimento pró-vida (incluindo a sua participação, como orador, na March for Life celebrada, este ano, em Washington), a promoção de genuínos conservadores no governo e os sólidos ataques a certos aspectos do socialismo. Notoriamente, o seu discurso Queremos Deus, proferido na Polónia, contém uma retórica que muitos europeus modernos precisavam de ouvir.             
Por outro lado, adoptou, lamentavelmente, más posições em questões como a homossexualidade. Mas não é só isso, já que nem sempre se dirige a si mesmo com a dignidade que o seu ofício exige.                       

Quanto à questão de saber se é ou não verdadeiramente anti-establishment, certamente abalou o establishment americano.         

Porquê que muitos jovens americanos estão a abraçar, em grande número, o comunismo?      

À medida que a sociedade se distancia de Deus e avança para o niilismo, os jovens (como todas as pessoas do mundo moderno) sentem-se cada vez mais à deriva, como incontáveis náufragos. Na sua procura de significado e de um propósito, abraçam ideologias e movimentos que acreditam que lhes darão o que procuram. No passado, o vazio era preenchido pela verdadeira Fé, mas o mundo moderno substituiu Deus, substituindo-o por figuras que prometem um paraíso socialista na terra.           

Infelizmente, o comunismo não morreu com a queda da cortina de ferro; experimentou simplesmente uma metamorfose. Os métodos foram alterados, mas o objectivo continua a ser o mesmo.        

Ao mesmo tempo, tanto nos EUA como na Europa, um número significativo de jovens está comprometido com a fé católica tradicional e está aberto à mensagem da Contra-Revolução.  

Poderíamos considerar os Estados do sul, como o Texas e o Alabama, um contrapeso contra as tendências revolucionárias em propagação?           

Mais uma vez, a questão requer uma resposta diferenciada. Em primeiro lugar, não há dúvida de que Estados como esses estão a actuar, objectivamente, como um baluarte cultural contra as tendências revolucionárias da sociedade. Em muitos Estados, a agenda abortista radical foi bloqueada ou desacelerada. Os esforços legais bloquearam e, inclusive, reverteram alguns aspectos da cultura da morte.       

No entanto, o movimento anti-família nunca descansa. Como consequência, a esquerda americana deu grandes passos para mudar o curso das atitudes e as políticas nesses Estados, de modo a se alinharem com a ponta de lança da revolução. Por exemplo, consideremos as estreitas margens das vitórias eleitorais conservadoras no Texas ou a capitulação sob pressão de Estados como a Carolina do Norte, nas mãos do lobby da ideologia de género.                   

Em relação à crise do COVID-19, o que pensa das declarações de “estado de emergência” e das possíveis consequências?        

Embora certas medidas de segurança façam sentido, há razões para preocupação. O maior problema é a perda, quase universal, de acesso aos sacramentos por parte dos católicos. Este ano é o primeiro da História da Igreja em que não se celebrou publicamente a liturgia da Páscoa. É este um castigo? Deus está a dizer-nos algo?                   

Além disso, muitos países estão a utilizar o “estado de emergência” para expandirem, em grande medida, os seus poderes. Independentemente de todos os casos serem ou não excessivos, a sabedoria prática americana tem presente que “uma vez que dás poder ao governo, nunca mais o recuperarás”. Portanto, neste sentido, devemos estar vigilantes porque a “emergência” (seja real ou fabricada) pode levar a opinião pública a aceitar mais tendências ou políticas socialistas.         

Na hora de lutar contra o big government, alguns concentram-se apenas na economia, deixando de lado as dimensões morais e culturais. Que recomendações lhes faria?

Ignorar a moralidade é um grande erro. Ronald Reagan viu o conservadorismo como um banco de três pernas: saúde fiscal, defesa forte e valores morais. Embora a saúde fiscal seja uma das suas pernas, o banco nunca pode ter apenas uma. Precisa de se fortalecer com a defesa dos valores morais. E, por mais importante que seja a economia, a realidade é que a política não está ao corrente da cultura. Se ignorarem este conceito, descobrirão que, apesar de conseguirem vitórias eleitorais a curto prazo, a sociedade perderá.         

A sociedade moderna pensa no corpo e ignora a alma. No entanto, como assinala o professor Corrêa de Oliveira no seu livro Revolução e Contra-Revolução, a raiz das nossas crises contemporâneas tem origem dentro da alma do homem. Por outras palavras, quando a ordem e a virtude reinam no coração do homem, pode-se esperar ver a harmonia e a ordem na sociedade civil.           

Em relação à Europa, que sinais de alerta daria aos americanos?            

Antes de falar sobre sinais de alerta, gostaria de dizer que há sinais de esperança na América. Não é nenhum segredo que temos sido um dos países mais liberais do mundo durante a maior parte da nossa história. Durante o século XIX, a nossa existência serviu como um desafio à ordem tradicional e social da Europa. No recente século XX, bombardeámos o mundo com a imundície de Hollywood. 

No entanto, apesar desta decadência, grandes sectores americanos não apoiam Hollywood e desenvolveram anticorpos para combatê-lo. Aqui está uma saudável reacção para se opor e resistir ao mal na sociedade. Todos os anos, por exemplo, a campanha da TFP América precisa de Fátima coordena quase 20 mil rosários públicos em todo o país. Um milhão de católicos saiu às ruas em Outubro passado. 

Todos os anos, cerca de 500 mil pessoas participam na March for Life em Washington. A esquerda está exasperada porque, com grande entusiasmo, dezenas de milhares de adolescentes e de crianças em idade escolar participam nesse evento contra o pecado do aborto. Entre os jovens, o aborto é rejeitado.

Agora, o que é que os americanos podem aprender da Europa? Eu vejo duas grandes lições. Primeiro, quando o homem coopera com a graça de Deus, grandes coisas podem ser feitas, tais como o florescimento da Idade Média, com os seus grandes santos e o seu progresso em ensino, hospitais, agricultura e arquitectura. A Civilização Cristã nasceu. E é por isso que muitos turistas visitam a Europa, para ver as maravilhas do Cristianismo.        

Por outro lado, quando viramos as costas a Deus e à Sua sabedoria (como fez a cultura moderna), o resultado é patético. Na Europa, vimos a realização revolucionária de ideologias como o comunismo, o socialismo e o liberalismo, e a destruição e as cicatrizes deixadas pela esquerda no seu despertar. O resultado deve ser suficiente para que desejemos evitar as loucuras do modernismo e o secularismo e abraçar os princípios eternos da Civilização Cristã.           

Os ensinamentos perenes da Santa Igreja Católica oferecem o que o mundo precisa para evitar o caos geral e a anarquia. E dentro da sociedade civil, os valores de Tradição, Família e Propriedade continuam a brilhar como faróis de ordem em mares atormentados. 

Concluindo, gostaria de agradecer a oportunidade de discussão destas ideias. Devo dizer que muitos católicos nos Estados Unidos admiram a fidelidade da Espanha católica, que deu ao mundo modelos de destaque, como Dom Pelágio, Santa Teresa de Ávila, São Pedro de Arbués e muitos outros que me vêm à mente.     

Como eles, devemos continuar a boa luta!   

Através de Tradición Viva

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