quarta-feira, 22 de abril de 2020

Homenagem à D. Lucilia Corrêa de Oliveira



Tendo-se assinalado, ontem, o 52.º aniversário do falecimento da D. Lucilia Corrêa de Oliveira, extremosa mãe do Dr. Plinio Corrêa de Oliveira, um dos inspiradores do nosso apostolado, traduzimos e publicamos, em forma de homenagem, um artigo que a Associação Tradição, Família e Propriedade, de Itália, publicou, em 2005, na sua revista.

«Agradeço novamente a Nossa Senhora – e com quanta comoção – por me ter feito nascer da dona Lucilia, que venerei e amei tanto quanto me foi possível. E, depois da sua morte, não houve um dia em que a não recordei com indescritível ternura. Também à sua alma peço que me ajude até ao fim, com a sua bondade inefável, e espero encontrá-la, no Paraíso, na luminosa corte das almas que mais amaram Nossa Senhora».

Eis o que escrevia o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira no seu testamento espiritual.

Confiado a Deus desde o nascimento             

Não se pode compreender a figura deste grande líder católico contra-revolucionário se se prescindir da mãe, dona Lucilia Ribeiro dos Santos Corrêa de Oliveira (1876-1968). Mãe doce e carinhosa, durante sessenta anos acompanhou-o passo-a-passo, ensinando-lhe os fundamentos da Fé, iluminando-o com o fulgor das suas virtudes, colocando-o no caminho da perfeição, incentivando-o até à hora extrema: «Amei-a até ao extremo com que uma criança pode querer bem à sua mãe». Este amor transcendia em muito o plano meramente humano, encontrando o seu fundamento último, a sua expressão mais perfeita, na comum Fé católica, isto é, na vida da graça divina. 

Incomparável educadora, a dona Lucilia soube inculcar na alma do seu filho a Fé católica, apostólica e romana à qual ele dedicará toda a sua vida. Ao entregar a sua alma a Deus, esta nobre senhora mereceu o maior elogio que um filho possa fazer à sua mãe: «A minha mãe ensinou-me a amar Nosso Senhor Jesus Cristo, ensinou-me a amar a Santa Igreja Católica. (...) Recebi dela algo que deve ser profundamente levado a sério: a Fé Católica, Apostólica, Romana e a devoção ao Sagrado Coração e a Nossa Senhora».                   

O próprio nascimento de Plinio deveu-se ao seu acto de heroísmo cristão. Durante a gravidez, o médico comunicou-lhe que o parto seria arriscado e que, muito provavelmente, ela ou o bebé morreriam. Pediu-lhe, portanto, que considerasse a possibilidade de um aborto. A dona Lucilia respondeu de maneira tranquila, mas firme: «Doutor, essa não é uma pergunta que se faça a uma mãe! O senhor nem sequer deveria ter pensado em tal!».

Decidiu, então, abandonar-se nas mãos de Deus, consagrando-Lhe o nascituro. Muitos anos depois, escreveu ao filho: «Sabes, Plinio, tu foste confiado a Deus antes de nasceres. Portanto, com fé e amor no Senhor, só poderás estar feliz com isso. Especialmente porque eu rezo por ti dia e noite, e é natural que as orações de uma mãe católica, mesmo que com pouco mérito, sejam aceites por Nossa Senhora, também Ela mãe, e por Nosso Senhor Jesus Cristo».         

Não admira que as primeiras palavras que Plinio pronunciou, quando tinha apenas seis meses, foram “Jesus” e “Maria”. Em resposta à pergunta “onde está Jesus?”, o menino apontou o dedo para uma estátua do Sagrado Coração que a mãe tinha no quarto. A profunda devoção da dona Lucilia permeou todo o lar, criando um ambiente de compostura e de piedade, do qual Plinio bebeu desde tenra idade. 

O papel da dona Lucilia não terminou ao trazer Plinio à pia baptismal e ao conduzi-lo à Primeira Comunhão. Durante toda a vida, fez de tudo para lhe dar uma sólida formação católica, base do extraordinário apostolado que, mais tarde, realizará. A dona Lucilia ensinou, pessoalmente, o primeiro Catecismo a Plinio e à irmã. Este ensinamento era feito com o coração: «Eu estava perfeitamente convencido de que Jesus era Deus, porque a Mãe tornava-o muito claro quando narrava as Sagradas Escrituras». Aos quatro anos, o pequeno Plinio costumava pôr-se de pé, em cima de uma mesa, para repetir, em frente a um “auditório”, composto pelos vários criados da casa, as lições que recebera da mãe!         

«Uma autêntica dama católica»             

O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira nunca tomava a iniciativa de falar sobre a sua mãe. Todavia, instigado pelos seus amigos mais próximos, por vezes deixava transbordar os sentimentos do coração. Recordando a figura materna, afirmou numa ocasião: «Ela era uma autêntica dama católica. (...) Não podeis imaginar quanto ela me inspirou na vida. (...) Eu examinava continuamente e com muita atenção a sua belíssima alma, chegando sempre à mesma conclusão: era uma senhora católica! Eis por que a amava com tanto ímpeto. A sua alma era tão bela que se, por absurdo, ela fosse mãe de outra pessoa, tê-la-ia amado do mesmo modo e teria encontrado modo de lhe estar próximo». 

A devoção que caracterizou a vida da dona Lucilia foi, sem dúvida, a do Sagrado Coração. Muitas vezes, a jovem mãe ia à igreja dedicada ao Sagrado Coração perto de sua casa, levando o pequeno Plinio e a sua irmã Rosée. Foi ali, no clima sobrenatural que caracterizava o templo, que se formou no espírito de Plinio a visão da Igreja que o marcou profundamente. «Compreendi – recorda – que a origem do seu modo de ser estava na sua devoção ao Sagrado Coração de Jesus através de Nossa Senhora».          

Do amor materno à devoção mariana           

Plinio deve também à mãe a experiência do amor, algo que nunca poderá ser subestimado: «A Mãe era uma excelente consoladora. Quando a ela recorria por alguma aflição ou problema, bastava ouvir a sua voz aveludada: “Filho, o que aconteceu?”, para metade do problema desaparecer... O afecto da mãe era envolvente. Às vezes, quando era pequeno, acordava durante a noite apenas para ver a mãe, sentada ao meu lado, que me acariciava fazendo o sinal da cruz sobre a testa. Era como um bálsamo perfumado e tranquilizador que me fazia sentir bem.       

Este afecto nunca diminuiu, independentemente das circunstâncias ou do seu estado de saúde. Eu sabia que podia contar sempre com ela. Quando Nossa Senhora me deu a graça de ouvir a Salve Rainha pela primeira vez, compreendi totalmente a minha mãe e entendi que o seu amor me tinha conduzido àquele, indescritivelmente superior, perfeito e celestial, da Mãe de Deus. Nasce assim a minha devoção a Nossa Senhora
».

Mãe muito carinhosa, mas firme         

A alma da dona Lucilia era caracterizada por uma imensa capacidade de afecto. «Ela possuía uma enorme ternura – recorda o seu filho –, foi muito carinhosa como filha, muito carinhosa como irmã, muito carinhosa como esposa, muito carinhosa como mãe, como avó e, até mesmo, como bisavó. Levou o seu afecto até onde lhe foi possível. Mas tenho a impressão de que havia nela algo que dava o tom a todos esses afectos: o facto de ser, sobretudo, mãe!».

Esta sua enorme ternura não era, no entanto, nem mole, nem condescendente. Era, de facto, completada por uma nítida noção do antagonismo entre bem e mal, entre verdade e erro, entre beleza e feiura, e a consequente rejeição de tudo o que é mau, errado ou vil. Ao pronunciar a palavra “demónio”, por exemplo, a dona Lucilia mostrava um tal desgosto que incutia um horror natural em relação ao inimigo do género humano.          

Comentava, a esse respeito, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira: «Havia um aspecto na minha mãe que eu apreciava muito: continuamente, e até ao fundo da sua alma, ela era uma senhora! No seu relacionamento com os filhos, mantinha uma materna superioridade que me fazia sentir quão mal teria feito se, por acaso, tivesse transgredido a sua autoridade e quanta tristeza lhe teria causado tal comportamento da minha parte, sendo, ao mesmo tempo, uma brutalidade e uma maldade. Era uma senhora porque fazia prevalecer a rectidão em todos os aspectos da vida.

A sua autoridade era suave. Por vezes, a mãe castigava um pouco. Mas até no seu castigo, ou na sua censura, a doçura era tão evidente que confortava a pessoa. A censura não excluía a benevolência. A mãe estava sempre pronta para ouvir as justificações dos filhos. A bondade constituía a essência da sua elegância. Ou seja, era uma superioridade exercida por amor à ordem hierárquica das coisas
».          

A sua educação foi, portanto, simultaneamente severa e doce. Em casa, nunca permitia uma mudança de horário por mero capricho. Os seus dias eram marcados por hábitos específicos. Insistia sempre na regularidade das orações de manhã e à noite, bem como antes de cada refeição. A sua meticulosidade era tal que o Dr. Plinio mais tarde viria a chamá-la, carinhosamente, “Lady Perfection”.              

Para além disso, pense-se também na sua escrupulosidade no observar as maneiras convenientes à própria posição social.         

Dama aristocrática    

A dona Lucilia pertencia, de facto, à tradicional classe dos “paulistas de quatrocentos anos”, isto é, provenientes dos fundadores ou dos primeiros habitantes da cidade de São Paulo. Ela encarnava o melhor espírito da antiga aristocracia paulista e o trato aristocrático foi uma constante na sua vida, juntamente com a afabilidade das maneiras. 

Este trato não tinha nada de mundano. Quando, em 1961, o seu marido, o advogado João Paulo Corrêa de Oliveira, morreu, ela deixou de usar jóias. Interpelada pelo filho sobre a razão desse gesto, respondeu: «Uma dama adorna-se por causa do esposo. Agora já não tenho motivos».    

O espírito aristocrático da dona Lucilia derivava do seu intenso amor a Deus. A perfeição das boas maneiras é o fruto de uma ascese que só se pode alcançar com um considerável esforço de virtude. O homem é feito de alma e de corpo. A vida da alma está destinada a manifestar-se sensivelmente através da do corpo, a caridade a exprimir-se com movimentos externos de cortesia. A cortesia é um rito social alimentado pela caridade cristã, também essa orientada para a glória de Deus.                 

«Saiu com majestade…»     

A 21 de Abril de 1968, a dona Lucilia passava serena os últimos momentos de vida. Deitada na cama, com os olhos fechados, apenas movia os lábios em contínua oração a Deus misericordioso. Sentindo chegar a hora suprema, levantou a mão direita e, com um gesto delicado, mas firme, fez um grande sinal da cruz. Depois disso, cruzou os braços sobre o peito e expirou suavemente. Completaria noventa e dois anos no dia seguinte.

Um parente comentou, mais tarde: «Saiu com majestade de uma vida que soube conduzir com honra».          

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