terça-feira, 7 de abril de 2020

Atenção à falsa humildade – Entrevista ao Arcebispo Carlo Maria Viganò



O Dies Iræ publica, em exclusivo para Língua Portuguesa, uma entrevista ao Arcebispo Carlo Maria Viganò. 

Aldo Maria Valli: Monsenhor Viganò, como sabemos, na edição 2020 do Anuário Pontifício há uma mudança que impressiona e preocupa. Precisamente nas primeiras páginas, onde é apresentado o Papa reinante, destaca-se o nome do Pontífice, Jorge Mario Bergoglio, seguido de uma breve biografia e, sob a definição de «títulos históricos», a lista dos termos que conotam a identidade espiritual, religiosa e jurídica do Romano Pontífice: Vigário de Jesus Cristo, Sucessor do Príncipe dos Apóstolos, Sumo Pontífice da Igreja Universal, Primaz da Itália, Arcebispo e Metropolita da Província Romana, Soberano do Estado da Cidade do Vaticano e Servo dos Servos de Deus. Se se comparar esta apresentação com a do Anuário Pontifício 2019, nota-se imediatamente uma mudança que não é apenas de composição gráfica. Até ao ano passado, de facto, aparecia, antes de tudo, em caracteres grandes, o título de Vigário de Jesus Cristo; depois, em caracteres menores, apareciam os outros títulos e, finalmente, aparecia o nome do Papa reinante, seguindo-se uma biografia essencial. 

Muitos de nós vimos na decisão de Francisco a confirmação de uma tendência constante neste Pontificado: colocar Bergoglio em primeiro lugar, com as suas próprias ideias, e não o Papa enquanto Servus servorum Dei. Tudo isso parece claro, mas, mesmo assim, muitos católicos, diante destas inovações, sublinham a suposta “humildade” do Papa, que assim se despojaria de prerrogativas divinas que não lhe pertencem.      

Não considera que esta “humildade” de Francisco, elogiada por tantos, merece ser aprofundada? Muitos dos seus gestos e das suas decisões (entre as mais conhecidas e evidentes, viver em Santa Marta e nunca usar a mozeta vermelha com o roquete) foram saudadas como provas de humildade. Mas o que é que são verdadeiramente?                  

Monsenhor Viganò:
Falou justamente de «colocar Bergoglio em primeiro lugar, com as suas próprias ideias»: acredito que este é, precisamente, um dos elementos que mereceriam uma atenta análise por parte de muitos dos meus irmãos. A dissociação entre persona Papae e a pessoa física de Bergoglio é a característica deste Pontificado; mesmo no passado, houve uma tentativa deste tipo, no caso de João Paulo II, mas foi, em grande parte, obra dos media que tentavam mostrar um “Papa com rosto humano”, desportivo…              

A espectacularização do Papado a que hoje assistimos é, no entanto, de outra natureza: essa parte do próprio Bergoglio, que recusa, com ostentação, comportar-se como Papa, usar as suas vestes, ter uma linguagem prudente e sábia, adoptar os títulos. Numa sociedade cada vez mais sensível ao poder da imagem, a maneira de se apresentar é muito importante porque veicula uma mensagem muito precisa.         

Quanto à suposta humildade que muitos católicos veem nesses gestos, penso que é apropriado, antes de tudo, esclarecer. A humildade é a virtude que nos permite conhecer a nós mesmos e estimar-nos de acordo com o justo valor e que é contrária a qualquer forma de ostentação e vaidade. O fundamento da humildade é a verdade que nos leva a conhecermo-nos como realmente somos; e a justiça que nos inclina a tratarmo-nos de acordo com esse conhecimento. A humildade exterior deve ser obviamente a manifestação de um hábito interior, caso contrário é apenas hipocrisia. E não deve ser ostentada, caso contrário escandalizará os simples. Dar-lhe-ei alguns exemplos. Quando o Patriarca de Veneza Giuseppe Sarto – futuro São Pio X – viajava de comboio, entrava para a primeira classe, conforme convinha a um Príncipe da Igreja, mas viajava em terceira. Ninguém o sabia, não havia fotógrafos a imortalizá-lo. Pio XII, de quem cada um de nós se recorda pela sua figura hierática, tinha um quarto muito pobre e muitas vezes dormia no chão por penitência; mas nunca sonharia em visitar o Quirinal num carro utilitário, nem se teria ajoelhado aos pés de qualquer representante de um poder terreno, porque estava bem ciente da sacralidade da própria função e do facto de que o Romano Pontífice é, por mandato divino, superior a qualquer autoridade humana. Vimo-lo, a 14 de Julho de 1943, a acorrer para o popular bairro de São Lourenço, imediatamente após o bombardeamento dos Aliados sobre Roma, para animar o povo, mas sempre com a gravidade e a compostura do Vigário de Cristo. Diríamos que São Pio X e Pio XII não eram humildes? Eis: esta é a humildade de um Papa, que não precisa de ser ostentada, nem de ser imortalizada por repórteres, nem elogiada pelos cortesãos. Porque a sua referência é Deus e não procura um eco mediático.          

Aqueles que louvam Francisco, pensam, evidentemente, que a humildade se opõe não ao orgulho, mas ao decoro e à dignidade da função exercida. Seria humilde o gesto de Francisco que tira a mão àqueles que gostariam de lhe beijar o anel, ou o uso de um carro utilitário em vez da viatura de representação, ou a foto tirada casualmente enquanto o Papa vai comprar sapatos ao Borgo Pio. Na sua avaliação emerge uma manifesta complacência, como se alguém quisesse acusar os outros de serem soberbos por simplesmente seguirem o protocolo ou por estarem cientes da dignidade do papel que desempenham na Igreja. Por trás de tudo isto, como se vê, não há nenhuma humildade, mas a procura de um objectivo narcisista e político: não se deseja dar um exemplo edificante, mas agradar o mundo.                  

Parece-me que chegou a hora de nos perguntarmos seriamente sobre o impasse canónico a que nos deixámos conduzir por esta dissociação entre o munus e quem o desempenha: não se pode pedir obediência em relação ao Papa se, ao mesmo tempo, quem está sentado no trono se comporta como se não o fosse; porque, ao fazê-lo, realiza-se uma verdadeira mistificação, brinca-se com a obediência e com o sentido hierárquico dos fiéis, mas, ao mesmo tempo, consideram-se liberi battitori, desvinculados de qualquer dever e limite que o Papado impõe.           

O Papa não pode prescindir do reconhecimento do próprio munus: deve expressar humildade precisamente ao saber-se comportar sem excentricidade nem extravagância. E esta moda de ostentar humildade é contagiosa: um Bispo que entra na Catedral de bicicleta ou se faz tratar por padre e não Excelência, não é humilde, mas ridículo e egocêntrico, porque, com escândalo, chama a atenção para si mesmo.           

Santo Isidoro de Sevilha, que recordámos há alguns dias na liturgia, diz que um Prelado «deve supervisionar com igual humildade e autoridade, para que não torne crónicos os vícios dos seus súbditos por muita humildade, nem exerça o seu poder com excesso de severidade; mas aja, nos confrontos com aqueles que lhe são confiados, com tão maior cautela quanto mais severamente teme ser julgado por Cristo» (Santo Isidoro de Sevilha, Liber Officiorum II, Ad Sanctum Fulgentium, 5).          

São Bento ensina-nos que um dos principais actos externos com os quais a humildade se manifesta é a fuga da singularidade: não fazer nada de extraordinário, limitando-se ao que é exigido pelo próprio estado, pelos exemplos dos antecessores e pelos legítimos costumes. Acredito que o que é considerado humildade em Santa Marta seja apenas uma exibição desajeitada de singularidade. Mais, propor a extravagância como modelo também traz consigo um implícito desrespeito à própria função sagrada e, portanto, à falta de humildade acrescenta-se o pecado contra a virtude da justiça e da religião.         

Não é por acaso que aqueles que estão tão entusiasmados com o Ford Focus de Bergoglio usem as suas excentricidades como uma maneira para desmistificar o Papado, ou seja, para humilhá-lo ao que, pela sua própria essência, não pode e não deve ser. Aqueles que se congratulam com a abolição do título de Vigário de Cristo não se importam com a humildade do Papa; importa apenas a prossecução de um plano político destinado a demolir a Igreja e as suas instituições mais veneráveis, alinhando-se ao pensamento mainstream.                   

Na homilia da Missa celebrada, em Santa Marta, na sexta-feira, 3 de Abril, Francisco voltou a reiterar que Maria é apenas mulher, mãe e discípula, «uma de nós», sem nenhum título de realeza. Já o tinha feito a 12 de Dezembro do ano passado, quando acrescentou que Maria é «mestiça» e que não há necessidade de Lhe reconhecer um papel na obra da Redenção. Agora surge a pergunta: porquê tanta obstinação da parte de Francisco sobre este ponto? É claro que ele é contra a promulgação de um eventual dogma que reconheça Maria como co-Redentora. Mas, para além dessa sua convicção, há uma tendência – alguém falou justamente do “minimalismo mariano” – que fere a consciência de muitos católicos, nutrida por séculos de Tradição. Tanto mais que a uma outra figura feminina, a chamada pachamama, foi prestado, no Vaticano, um culto que causou consternação. Uma hipótese é que Francisco assuma tais posições “minimalistas” para favorecer o encontro com os Protestantes; mas, mesmo que assim fosse, parece uma estratégia desvairada da parte do Papa: negar o papel co-redentor da Mãe de Jesus e negar a Sua realeza para conseguir o quê? Uma melhoria das relações com confissões religiosas que estão em estado de coma? Parece realmente não ter qualquer lógica. 

Nesta sua questão, existem dois elementos que merecem atenção. O primeiro é a atitude para com a Santíssima Virgem; o segundo é dado pelas convicções doutrinárias que isso transmite.           

Os fiéis – e o próprio Clero – ficam escandalizados com o modo como Bergoglio fala de Nossa Senhora, com a facilidade com que se permite menosprezar e humilhar a Sua santíssima pessoa, sem nunca usar os títulos que Lhe são devidos e tomando cuidado para não reiterar o ensinamento constante da Igreja. Indo ao teor das suas declarações, temos a percepção da intolerância de Francisco em honrar a Rainha do Céu e este é um sinal revelador que nos deveria seriamente preocupar. Se esta irreverência surge do desejo de agradar aos hereges, esta é uma agravante e não uma desculpa; mais, diria que se o ecumenismo implica desonrar a Virgem e silenciar as verdades católicas para agradar aos que persistem no erro, temos mais uma prova de que o ecumenismo não agrada a Deus.     

Há outro aspecto que gostaria de evidenciar: a negação de dogmas e de verdades teológicas, mesmo que não definidas solenemente, implica uma consequência extremamente destrutiva, porque a Verdade – que é O próprio Deus – não pode ter partes dispensáveis. Se alguém mexe num dogma aparentemente marginal em relação aos trinitários ou cristológicos, mexe em todo o edifício doutrinário. E devo recordar que, juntamente com os horrores sobre a mestiçagem mariana, também sentimos desproporcionais aqueles em relação à própria divindade de Cristo, sub-repticiamente insinuados pelas entrevistas concedidas a um jornal notoriamente anti-católico.      

Quanto à maldita pachamama, é evidente que se está a concretizar uma progressiva substituição da Mãe de Deus pela Mãe Terra, em obséquio à religião globalista e ecológica. Estejam muito atentes aqueles que gracejam da Virgem: as ofensas que Nosso Senhor perdoa quando Lhe são dirigidas, não as perdoa se tiverem como objecto a Sua Santíssima Mãe.        

A celebração de 27 de Março, quando Francisco falou em frente a uma Praça de São Pedro deserta, foi saudada por muitos como um grande momento de oração, com o qual o Papa soube interpretar o sentimento do povo católico. Outros – e o senhor está entre eles – viram, em vez disso, uma outra prova do protagonismo de Bergoglio: uma representação para uso mediático e também uma profanação, visto que o Santíssimo Sacramento foi exposto numa Basílica, precisamente a de São Pedro, que não foi reconsagrada após o sacrilégio que ocorreu por causa do culto tributado à pachamama. Não lhe escondo que um julgamento como o seu me pareceu muito duro. Pessoalmente, estaria propenso a colher o bem que existe em cada ocasião. Naquela celebração, nem tudo me convenceu. Lamento que Francisco não se tenha ajoelhado, nem sequer por um momento, diante do Santíssimo Sacramento e perguntei-me como é puderam pensar em expor à chuva o antigo Crucifixo de São Marcelo, que, de facto, depois ficou danificado. Todavia, segui a oração na televisão e adorei o Santíssimo Sacramento juntamente com o Papa. Fiz mal? Caí numa armadilha?       

Ver entrar, na Basílica Vaticana, a pachamama e as suas insígnias transportadas por Bispos e Prelados, é um gesto tão inaudito e vergonhoso que, noutros tempos, teria provavelmente suscitado a fúria do povo e a ira do Clero. Tal sacrilégio, do ponto de vista canónico, deve ser reparado com um rito de reconsagração de São Pedro que ainda não foi realizado. Até então, todas as funções litúrgicas que ali são celebradas acrescentam sacrilégio ao sacrilégio. Por outro lado, reconsagrar a Basílica significaria reconhecer a gravidade do acto idólatra e renegar quem o autorizou. Recordo que, depois de os ídolos terem sido atirados ao Tibre, Bergoglio pediu desculpas àqueles que se sentiram ofendidos por aquela acção, embora não levasse minimamente em consideração a grave ofensa causada à Majestade de Deus, aos Ministros sagrados e ao sentimento dos fiéis.        

Quanto ao estar sentado diante do Santíssimo Sacramento, este é um hábito constante de Francisco em todas as celebrações em que está presente, a começar pelo Corpus Domini que ele próprio abandonou com ostentação e impaciência. Não é de surpreender que esta ênfase sobre a humildade do Papa, recorrente na narração dos cortesãos, se dissolva precisamente na única ocasião em que tanto o Papa como Bergoglio poderiam realmente humilhar-se, ou seja, ajoelhando-se diante do Santíssimo Sacramento.   

De facto, o primeiro modo de expressar humildade é em relação a Deus e o modo mais simples e compreensível é o que nos ensina a Sagrada Escritura e o exemplo da Igreja: ajoelhar-se. Por outro lado, se esse gesto não tivesse sentido, não se compreende por que motivo Francisco não tem nenhum problema em fazê-lo na presença de chefes de Estado ou de condenados.    

Finalmente, para responder à sua questão, acredito que tanto o senhor como todos os Católicos se ajoelharam para adorar o Emanuel, o Deus connosco, e não para satisfazer a sombria miséria que acompanhou aquele rito. As palavras de Adoro Te, compostas por São Tomás, compendiaram os sentimentos de todos nós: Tibi se cor meum totum subjicit, quia, te contemplans, totum deficit. A Vós se sujeita o meu coração por inteiro, pois ao contemplar-Vos tudo desfalece.                     

Nesta Páscoa marcada pela pandemia, estamos a acompanhar os ritos desde as nossas casas, servindo-nos dos meios de comunicação social. A criatividade veio em auxílio e os fiéis, apesar de tudo, conseguem acompanhar as Missas, rezar, manter os contactos. Não quero voltar à suspensão das Missas com povo. Em vez disso, quero-lhe perguntar: na sua opinião, o que é que o Senhor nos está a dizer com esta situação totalmente inédita?          

O Senhor transmite-nos uma mensagem muito clara: Sine me nihil potestis facere (Jo 15, 5). Se não nos convencermos de que os nossos pecados – como expliquei recentemente – são golpes de martelo com os quais crucificamos uma vez mais Nosso Senhor, escarros no Seu adorável Rosto, não nos poderemos arrepender, pedir perdão e reparar estas falhas. Devemos compreendê-lo nós, devem compreendê-lo as Nações, deve compreendê-lo a Hierarquia.       

E também devemos compreender que a privação dos Sacramentos e da Missa em todo o mundo é mais uma punição pela nossa infidelidade, pelos sacrilégios que são realizados quotidianamente nas nossas igrejas pela indiferença de tantos Ministros de Deus, pelas profanações que derivam da Comunhão na mão e das celebrações desleixadas. A voz composta e pura da Liturgia foi substituída pelo barulho vulgar e profano: como poderemos esperar que a nossa oração seja agradável ao Céu?          

Há muitos fiéis que, mesmo à luz de algumas revelações públicas e privadas, acreditam que a actual pandemia seja apenas o início de uma série de provações que evocam as pragas do Egipto. Muitos outros, no entanto, acreditam que raciocinar assim é absurdo, porque Deus não pode punir. Recentemente, o senhor pediu-nos para considerar a questão do pecado original, que não pode ser esquecido. Como podemos viver esta provação com a consciência da necessidade de conversão, mas, ao mesmo tempo, sem nos deixarmos esmagar pela angústia?   

Como Cristãos, sabemos que as cruzes e as provações que o Senhor nos manda nunca são superiores às nossas forças, especialmente se permitirmos que Ele nos ajude, com a Sua graça, a carregá-las. Devemos, portanto, antes de tudo, reconhecer a provação como uma punição severa de um Pai justamente ofendido, mas que nos quer estimular à conversão; em segundo lugar, devemos adorar a vontade de Deus e a Sua divina Misericórdia, que nos dá uma preciosa oportunidade para Lhe mostrar o nosso arrependimento e que nos permite não apenas expiar as nossas culpas, mas também as daqueles que não sabem o que fazem.    

São dias difíceis, não apenas por causa da pandemia, mas também por esta sensação de incerteza e de medo de um desastre iminente. Não nos deixemos seduzir por quem nos tenta privar da paz interior: somos o templo do Espírito Santo e, se estamos na graça de Deus, a Santíssima Trindade habita na nossa alma. Procuremos tornar esta morada menos indigna com uma oração mais sincera e confiante. Temos uma Advogada invencível: a Santíssima Virgem; peçamos à Consoladora dos aflitos que interceda por nós junto do Trono do Altíssimo, a Ela que participou na nossa Redenção em virtude da Sua especialíssima união com o Seu divino Filho e que, junto d’Ele, é nossa Mediadora.         

Segunda-Feira da Semana Santa de 2020   

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