sábado, 25 de abril de 2020

A Ceia em Emaús, os discípulos reconhecem o Ressuscitado



«Os outros, porém, insistiam com Ele, dizendo: “Fica connosco, pois a noite vai caindo e o dia já está no ocaso”» (Lc 24, 29).     

Mais do que uma vez na vida, Rembrandt (1606-1669), um dos maiores pintores da história da arte europeia, confrontou-se com o episódio pascal que fala dos dois discípulos de Emaús e do seu encontro com Jesus. A representação do profundo mistério da Ressurreição, situado num contexto modesto como aquele a que se refere o evangelista Lucas (Lc 24, 13-35), parece-lhe um desafio: uma ceia durante o caminho de regresso da recente agitação de Jerusalém. Pinturas, gravuras e desenhos com o mesmo tema voltam frequentemente à produção do artista: o óleo conservado no Museu Jacquemart-André, em Paris, é absolutamente o primeiro, talvez não apenas por ordem temporal.           

Estamos em 1629 e Rembrandt tem vinte e três anos. A sua visão dos factos, não obstante ser, à época, um pintor iniciante, é uma invenção simplesmente genial. O momento que pára no papel – aliás, colado a um pequeno painel de madeira de dimensões bastante reduzidas – é o momento exacto em que Cristo, finalmente reconhecido pelos Seus comensais, desaparece da sua vista. O que resta é a Sua imanente e enigmática Presença, traduzida aqui pela figura que se destaca em contraluz, fixada no acto de partir o pão.    

Rembrandt não descreve, mas encena as diferentes reacções dos dois discípulos, um dos quais, completamente imerso no crepúsculo, fazendo cair para trás a cadeira, atirou-se aos pés de Jesus, ajoelhando-se em adoração. O seu gesto impetuoso contrasta com a expressão atónita, consternada e, talvez, assustada do outro homem que, ao contrário, é completamente investido pelo explosivo brilho da luz que se expande sobre a parede e sobre o seu rosto: a luz que revela o Ressuscitado e, ao fazê-lo, ilumina toda a realidade.  

O drama do instante capturado pelo artista consuma-se num ambiente pobre, cuja simplicidade é acentuada pela reduzida gama da paleta de cores e pela humildade dos poucos objectos que aparecem: uma tigela, uma faca, um guardanapo amassado, um prato e um recipiente a pairar pelo presumido e repentino movimento da mesa. E o saco de viajante pendurado num prego, que chama a atenção para nos recordar que os dois, de Jerusalém, estavam a regressar a Emaús.  

No fundo, à esquerda, vislumbra-se uma mulher atarefada ao redor da lareira, completamente inconsciente do que está a acontecer a alguns metros de distância: um detalhe íntimo, doméstico que, na sua quotidiana e desarmante simplicidade, acentua a potencial proximidade da presença do Senhor ressuscitado, de todos nós companheiro de viagem.

Margherita del Castillo       

Através de La Nuova Bussola Quotidiana

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