terça-feira, 28 de abril de 2020

A ausência da Igreja Católica e o abandono do dever pela Hierarquia



A crise em que estamos todos imersos (não há escapatória) mostra, de forma clara – pelo menos, para aqueles cujos olhos não estão nublados pela falsa piedade –, a completa irrelevância da Igreja Católica nesta crise. A Igreja Católica, ao longo dos seus dois mil anos de história, viu-se envolvida em muitas crises: heresias, guerras, pragas, lutas eclesiais, fome, o que quiserem. A Igreja viu-se envolvida nestas crises da civilização e a civilização significa, afinal de contas, pessoas, não apenas um grupo de pessoas, mas indivíduos: ele e ela e os seus filhos. E, no passado, a reacção da Igreja foi envolver-se radicalmente nas crises que a sociedade em que vivia enfrentava. Não se trata de um romantismo sobre um passado, como se os bispos tivessem sempre respondido a estas crises de vida e de morte da melhor maneira possível, mas temos a imagem de São Luís Gonzaga a transportar as vítimas da peste de Roma para o hospital da Ilha Tiberina. Luís não era bispo, nem sequer sacerdote. Era simplesmente um noviço jesuíta.           

E o que é que vemos hoje?        

O Papa, na Praça de São Pedro, em Roma, a falar, sozinho, para ninguém. O Papa a cumprir os ritos da Semana Santa numa igreja vazia. Os bispos do meu país, os Estados Unidos, a disponibilizarem ao seu rebanho, nesta crise, Missas em streaming e as celebrações da Semana Santa como paliativos. Não é romantismo esperar que os nossos bispos e sacerdotes sigam o exemplo de São Gregório Magno que, no século VI, durante a peste de Roma, caminhou pelas ruas da cidade rezando a Deus pelo fim da praga. Não é romantismo esperar que os nossos bispos sigam o exemplo de São Carlos Borromeu, durante a praga de Milão do século XVII, que, correndo sérios riscos, esteve tão profundamente junto do seu povo.             

Qual é a diferença entre Gregório e Carlos Borromeo e os bispos de hoje? Não é que os bispos dos Estados Unidos não devam obedecer à resposta racional do governo à crise sanitária nacional causada pelo vírus COVID-19. O problema é que não são vistos em lugar algum, excepto na turva realidade do streaming. Referir-me-ei ao problema real das Missas em streaming em data posterior. Mas o facto é que os bispos, aqueles que foram ordenados para serem Cristo entre nós, estão refugiados onde quer que vivam, publicam, de vez em quando, declarações piedosas e acreditam que isto é a Imitatio Christi, que é assim que se leva Cristo ao povo.       

Dado o confinamento e as ordens de distanciamento social, os bispos são irrelevantes quando comparados aos cabeças falantes dos media. De em vez quando, muitos aparecem nos media para fazerem algumas observações piedosas e oferecerem uma breve e inócua oração, uma mensagem que poderia ter sido dada por qualquer pessoa com sensibilidade cristã ou, inclusive, sensibilidade não religiosa, mas boa. Os líderes, nestes tempos de perigo em que vivemos, são seculares: desde os chefes de governo aos de conhecimento científico e, muito pior, aos incontáveis cabeças falantes nas inumeráveis e mal chamadas agências noticiosas.   

O que a crise do COVID-19 revela é, acima de tudo, a profunda secularização da Igreja Católica. O processo, que começou na década de 1950, na Igreja Católica nos Estados Unidos e na Europa, deu frutos no Concílio Vaticano II, o Concílio que decidiu ser moderno quando o mundo havia abandonado a modernidade. Não há necessidade de deitar fora o Concílio Vaticano II, porque, como qualquer concílio – digam-me uma doutrina importante saída do Segundo Concílio de Latrão –, não é mais do que uma etapa na contínua tarefa de compreender a fé católica em qualquer época particular. Mas não há dúvida de que a aplicação dos documentos do Concílio, especialmente dos que se referem ao culto da Igreja, nos conduziu à situação em que agora nos encontramos. Que os nossos católicos não possam aprofundar a sua fé neste momento de crise – graças à liderança negativa do clero –, excepto para se queixarem da impossibilidade de receberem a Sagrada Comunhão ao Domingo, é um tema principal que nos ensina, com exactidão, em que ponto se encontram os nossos fiéis católicos em relação à sua fé. Quem falará ao fiel católico sobre a oportunidade de aprofundar a sua fé num tempo de privação da Missa e da Eucaristia? Quem lhes falará da necessidade do deserto espiritual para crescerem na fé? A esperança geral expressa-se na esperança secular de que, em poucos meses, isto termine e “voltemos à normalidade”. Mas a “normalidade” não é uma categoria que o católico deva abraçar, pois cremos num Deus que se fez carne e morreu numa cruz para que nos pudéssemos salvar e ter a vida eterna. Não permita Deus que voltemos à normalidade!         

P. Richard Gennaro Cipola           

Através de Rorate Cæli

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