quinta-feira, 30 de abril de 2020

Ordem de Malta: a morte do Grão-Mestre pode reabrir as jogadas



O que acontecerá à Ordem de Malta depois da morte do Grão-Mestre? Não se pode excluir a exacerbação do conflito entre as duas alas opostas. O programa de Boeselager inclui o diálogo com o Islão e ajudas para as mudanças climáticas. Perante este cenário de divisão, o desaparecimento de Fra’ Giacomo Dalla Torre é uma grave perda para a Ordem Soberana e Militar de Malta.              

Não há paz para a Ordem Soberana de Malta. Ontem, pouco depois da meia-noite, morreu, numa clínica romana, o Grão-Mestre, Fra’ Giacomo Dalla Torre del Tempio di Sanguinetto. O estado de saúde do Príncipe, diagnosticado com uma doença incurável há alguns meses, piorou ao longo de terça-feira. Chega à Casa do Pai um homem de oração e sinceramente dedicado à caridade cristã.       

O apreço unânime pela sua pessoa fez com que, a 29 de Abril de 2017, num dos momentos mais difíceis da história da Ordem Soberana de Malta, fosse escolhido como Lugar-Tenente. A 2 de Maio de 2018, o Conselho Completo de Estado confirmou-lhe a sua confiança, elegendo-o 80.º Grão-Mestre e, portanto, sucessor do demissionário Fra’ Matthew Festing. Como muitos recordarão, o nobre inglês havia renunciado ao cargo, a 24 de Janeiro de 2017, a pedido explícito do Papa Francisco, durante uma audiência no Vaticano.

O passo atrás de Festing representou o epílogo de um confronto sem precedentes dentro da Ordem que explodiu, em Dezembro de 2016, com a remoção forçada de Albrecht Freiherr von Boeselager do cargo de Grão-Chanceler. Um processo iniciado após o barão alemão se ter recusado a obedecer à ordem do então Grão-Mestre de se afastar, no seguimento das suas responsabilidades apuradas numa investigação interna sobre a violação do artigo 9 da Carta Constitucional da Ordem Soberana e Militar de Malta, que exige aos membros que respeitem os ensinamentos e os preceitos da Igreja.    

Segundo a acusação, Boeselager, na época em que ocupava o cargo de Grande Hospitalário, teria sabido da distribuição de contraceptivos, em África, através dos voluntários da Ordem, mas não teria feito nada para impedi-lo. Um acontecimento que representou o fusível capaz de detonar um barril de pólvora já desencadeado. No fundo, de facto, o confronto entre as duas alas predominantes dentro da Ordem Soberana e Militar de Malta: a inglesa e a alemã, querendo resumi-las de maneira simplista. A separá-las, mais do que a nacionalidade, é a visão e a perspectiva futura daquilo que é uma das mais antigas Ordens religiosas católicas: fortalecer o seu carácter religioso, promovendo as vocações dos cavaleiros professos, ou acentuar-lhe as suas funções assistenciais, alargando o envolvimento dos leigos.

O Papa Francisco, solicitando a demissão de Festing e favorecendo a reintegração de Boeselager no cargo de Grão-Chanceler, após a constituição de uma Comissão de investigação sobre a expulsão deste último. contestada pelo primeiro, parecia inclinado para a via alemã. Numa carta endereçada ao Conselho Completo de Estado, em Abril de 2017, por ocasião da eleição a Lugar-Tenente de Fra’ Giacomo Dalla Torre, o pontífice quis enfatizar a «relação particular» da Ordem com o Sucessor de Pedro, também referida pela Carta Constitucional, e auspiciava o lançamento de um «significativo caminho de renovação espiritual» marcado pelo estudo e pela proposta das «reformas necessárias».         

O braço-de-ferro entre Festing e Boeselager tinha tido um impacto importante também no Vaticano com a nomeação de um Delegado Especial, o então Substituto para os Assuntos Gerais da Secretaria de Estado, Giovanni Angelo Becciu, e a consequente destituição de facto do Cardeal Raymond Leo Burke, formalmente patrono da Ordem Soberana e Militar de Malta ainda hoje, mas sem funções e poderes. Na controvérsia com Boeselager, o purpurado norte-americano apoiara Fra’ Festing e pedira permissão ao Papa, durante uma audiência em Novembro de 2016, para prosseguir com a investigação da distribuição de preservativos.

A não resolvida crise institucional, eclodida em todo o seu drama durante aqueles dias convulsivos, havia encontrado uma trégua com a escolha de Dalla Torre para liderar a Ordem, primeiro como Lugar-Tenente e, posteriormente, como Grão-Mestre.         

Professo religioso, expoente de uma família nobre que deu tanto à Santa Sé, o seu perfil parecia o ideal para conduzir a instituição no difícil caminho de renovação desejado pelo Papa, garantindo, porém, a necessária fidelidade à tradição. Uma tarefa não fácil de exercer, levando em conta os inevitáveis solavancos e estando no meio de uma guerra interna apenas adormecida, mas certamente não extinta. O que acontecerá na Ordem depois da morte do seu 80.º Grão-Mestre?           

Os bem informados não excluem a exacerbação do confronto entre as duas alas opostas, tendo em conta que é verdade que a alemã, pelo menos até agora, parece ter tido o consentimento de Francisco, mas uma parte do Conselho Completo de Estado continua ligada aos ingleses. «A Ordem – disse, em tempos, Fra’ Festing numa entrevista – não é uma organização humanitária ou uma ONG como muitos querem fazer crer». O ex-Grão-Mestre e os cavaleiros que pensam como ele temem que, no final do processo de reforma iniciado em 2017, possa haver a transformação da Ordem Soberana e Militar de Malta numa ONG como tantas outras, com a consequente perda de soberania e de identidade.         

Há um ano, por ocasião da sua reconfirmação, por mais cinco anos, no cargo de Grão-Chanceler, Albrecht Boeselager fez uma espécie de manifesto programático para o futuro da Ordem Soberana e Militar de Malta: diálogo com os representantes do Islão, aumento das ajudas para «as pessoas afectadas pela guerra e pelas mudanças climáticas», maior atenção ao papel das mulheres, harmonização das normas para os cavaleiros professos com o Direito Canónico. Um programa que dificilmente se pode imaginar aceite por todos. Diante deste possível cenário de divisão, a morte de Fra’ Giacomo Dalla Torre, com a sua capacidade de diálogo e de síntese, é uma perda ainda mais grave para a Ordem Soberana de Malta.  

Nico Spuntoni   

Através de La Nuova Bussola Quotidiana   

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Faleceu o 80.º Grão-Mestre da Ordem Soberana de Malta



O Dies Iræ publica, em Língua Portuguesa, o comunicado do Grão-Magistério da Ordem Soberana Militar e Hospitalária de S. João de Jerusalém, de Rodes e de Malta que anuncia o falecimento, aos 75 anos, do seu Príncipe e 80.º Grão-Mestre, Fra’ Giacomo Dalla Torre del Tempio di Sanguinetto.

O Grão-Magistério anuncia, com profunda tristeza, o falecimento de Sua Alteza Eminentíssima o Príncipe e 80.º Grão-Mestre, Fra’ Giacomo Dalla Torre del Tempio di Sanguinetto, ocorrida, em Roma, pouco depois da meia-noite de 29 de Abril, após uma doença incurável diagnosticada há poucos meses. De acordo com o artigo 17 da Constituição da Ordem Soberana de Malta, o Grande Comandante Fra’ Ruy Gonçalo do Vale Peixoto de Villas Boas assumiu as funções de Lugar-Tenente Interino e permanecerá como chefe da Ordem Soberana de Malta até à eleição do novo Grão-Mestre.   

Fra’ Giacomo Dalla Torre del Tempio di Sanguinetto nasceu, em Roma, a 9 de Dezembro de 1944. Formou-se em Literatura e Filosofia pela Universidade La Sapienza de Roma, especializando-se em Arqueologia Cristã e História da Arte. Ocupou cargos académicos na Pontifícia Universidade Urbaniana, ensinando Grego Clássico. Também foi bibliotecário e arquivista-chefe das importantes colecções de pesquisa da Universidade. Ao longo dos anos, publicou ensaios académicos e artigos sobre aspectos da História da Arte Medieval.      

Admitido na Ordem Soberana de Malta, em 1985, como Cavaleiro de Honra e Devoção, Fra’ Giacomo Dalla Torre del Tempio di Sanguinetto proferiu os votos solenes em 1993. De 1994 a 1999, foi Grão-Prior da Lombardia e Veneza, e, de 1999 a 2004, foi membro do Soberano Conselho. No Capítulo Geral de 2004, foi eleito Grande Comandante. Com a morte do 78.º Grão-Mestre, Fra’ Andrew Bertie, em Fevereiro de 2008, assumiu o cargo de Lugar-Tenente Interino. De 2008 a 2017, Fra’ Giacomo Dalla Torre ocupou o cargo de Grão-Prior de Roma. Após a renúncia do 79.º Grão-Mestre, Fra’ Matthew Festing, o Conselho Completo de Estado elegeu-o, a 29 de Abril de 2017, Lugar-Tenente do Grão-Mestre por um ano. No seguinte Conselho Completo de Estado, a 2 de Maio de 2018, foi eleito 80.º Príncipe e Grão-Mestre da Ordem Soberana de Malta. Homem de grande espiritualidade e calor humano, Fra’ Giacomo Dalla Torre del Tempio di Sanguinetto sempre se comprometeu pessoalmente a ajudar os necessitados, servindo refeições aos sem-abrigo nas estações ferroviárias de Termini e Tiburtina, em Roma. Participou em numerosas peregrinações internacionais da Ordem de Malta a Lourdes e em peregrinações nacionais a Loreto e a Assis. Demonstrava grande alegria ao participar nos Campos Internacionais de Verão da Ordem para jovens deficientes, nos quais recebia grande afecto dos jovens voluntários e participantes.  

No seu cargo de Grão-Mestre, Fra’ Giacomo Dalla Torre realizou inúmeras viagens oficiais e de Estado. Em Janeiro, fez uma visita de Estado ao Benim, e, em Julho passado, aos Camarões, e, mais recentemente, foi à Alemanha, à Eslovénia e à Bulgária para encontrar os respectivos Chefes de Estado. Durante essas visitas, sempre foi seu desejo poder visitar as estruturas médico-sociais da Ordem de Malta para poder cumprimentar pessoalmente tanto a equipa como os pacientes.     

Uma marcante humanidade e uma profunda dedicação à vida caritativa animaram o trabalho do 80.º Grão-Mestre da Ordem Soberana de Malta, que será lembrado, por todos aqueles que o conheceram, pelas suas qualidades humanas e pelos seus modos sempre cordiais e afectuosos.  

29 de Abril de 2020          

O mistério do coronavírus: hipóteses e certezas



Um quê de mistério continua a envolver o coronavírus, ou COVID-19, a doença infecciosa que, em poucos meses, se espalhou pelo mundo, assumindo as características de uma verdadeira pandemia. Sobre a natureza deste vírus, existem muitas hipóteses e poucas certezas.      

As hipóteses dizem respeito, principalmente, à origem da doença. O vírus surgiu da natureza, como dizem muitos virologistas, ou foi construído em laboratório, como acreditam outros? E, neste segundo caso, foi fabricado para fins terapêuticos ou para uma guerra biológica? E em que laboratório teria sido fabricado? Chinês ou ocidental? A fuga deste laboratório teria sido fortuita ou deliberada? É evidente que a hipótese da fuga voluntária alimentaria a possibilidade de uma “conspiração” das forças secretas, como tantas outras na história. Se, por outro lado, o vírus surgisse da natureza ou tivesse saído de um laboratório devido a um acidente, dever-se-ia considerar que essas mesmas forças foram surpreendidas pelo acontecimento. Uma das hipóteses mais prováveis
​​parece ser a exposta por Steve Mosher, segundo a qual o vírus, produzido na China, saiu, acidentalmente, de um laboratório de Wuhan (LifeSiteNews, 22 de Abril de 2020). Trata-se, precisamente, de uma hipótese, mas as responsabilidades da China comunista, que Mosher destaca bem, são uma certeza.                   

De facto, o Partido Comunista Chinês fez silêncio sobre a propagação do vírus e manipulou o número de infecções e de mortes. Não por acaso, Chen Guangcheng, o activista invisual acolhido como refugiado nos Estados Unidos, depois de ter estado preso na China pelas suas denúncias de abortos e de esterilização forçadas em Shandong, disse que «o Partido Comunista Chinês (PCC) é o maior e mais perigoso vírus do mundo» (AsiaNews, 27 de Abril de 2020).    

Até mesmo um observador muito cauteloso como Paolo Mieli, no Corriere della Sera de 27 de Abril, releva como as autoridades chinesas estão, sem qualquer embaraço, a «adaptar», com a evolução dos tempos, os números de infectados no País. «Como é possível – escreve Mieli – que um País, levado a sério pela Organização Mundial de Saúde que, pela voz do seu director-geral, elogiou o seu “rigor”, faça os números destoarem desta maneira? Além disso, quanto mais o tempo passa, mais cresce o número de pessoas que, em relação às origens do vírus, levantam a dúvida de que tenha acontecido algo suspeito nos laboratórios de Wuhan».     

Mesmo sobre a natureza do COVID-19, há apenas hipóteses e incertezas. Ainda não se sabe como curar o vírus, mas também ainda não é claro se todas as pessoas que recuperam da infecção adquirem imunidade e quanto tempo é que poderá durar. Os imunologistas dizem que somos confrontados por um vírus “anómalo” que se comporta de maneira diferente dos da mesma família (Corriere della Sera, 25 de Abril); todos anunciam, para o Outono, uma segunda onda da pandemia, mas ninguém é capaz de prever as suas características. Em caso de dúvida, a tendência dos governos é a de prolongar as medidas de bloqueio. Há quem afirme que há uma desproporção entre o número das vítimas do coronavírus e as medidas de “distanciamento social” adoptadas em todo o mundo. Mas a essa objecção, pode-se responder que, se o número de vítimas é baixo, isso se deve justamente às medidas de bloqueio tomadas pelos vários governos. De acordo com um estudo do Deutsche Bank, citado pela AGI a 26 de Abril, a pandemia do COVID-19 está nos últimos lugares da história em termos de taxa de mortalidade. Ainda assim, continua a pesquisa, sem as medidas de contenção que reduziram a taxa de mortalidade para 0,002%, a taxa de mortalidade teria sido de 0,23%, registando 17,6 milhões de vítimas em todo o mundo. O mesmo pode-se dizer para a taxa de contágio. A hipótese pareceria confirmada pelo facto de que, na Alemanha, após o abrandamento do bloqueio, a taxa de contágio subiu rapidamente de 0,7% para 1%, conforme observado pelo Robert Koch-Institut para as doenças infecciosas (La Repubblica, 28 de Abril).   

Há quem acredite que o bloqueio seja um plano dos grandes poderes para poderem exercer o controlo social sobre a humanidade. Entre estes está o filósofo pós-moderno Giorgio Agamben, muito apreciado pela extrema-esquerda, que se questionou, no seu blogue, a 26 de Fevereiro, se o «distanciamento social» será o novo princípio de organização da sociedade. «Tal é ainda mais urgente, já que não é apenas uma hipótese puramente teórica, se for verdade, como se começa a dizer de muitas partes, que a actual emergência sanitária pode ser considerada como o laboratório em que se preparam as novas estruturas políticas e sociais que esperam a humanidade» (Quodlibet, 6 de Abril de 2020).        

Mas qual poderia ser a alternativa à “quarentena” para conter a epidemia? Há quem contraponha aos modelos europeus de gestão da emergência sanitária os de Israel e, sobretudo, de Taiwan, onde, apesar da proximidade geográfica da China, os números das vítimas e do contágio são muito baixos. Todavia, se o perigo que corremos é o da “ditadura digital”, o método de Taiwan, baseado no sistema de rastreio dos infectados (contact tracing), parece ainda mais perigoso do que o bloqueio europeu. Taiwan monitoriza os seus cidadãos, através do uso das novas tecnologias, sem nenhuma consideração pela privacidade dos indivíduos. O mesmo acontece em Israel, onde o sistema de rastreio de contactos foi aplicado duramente, a ponto de provocar a intervenção do Supremo Tribunal.         

Para outros, o verdadeiro problema não é o controlo social, mas a catástrofe económica. Quais serão, efectivamente, as consequências económicas e sociais da pandemia? Um empobrecimento geral do Ocidente, para favorecer o controlo social pelos “grandes poderes”, ou um colapso do sistema económico-financeiro pelo qual se rege o Ocidente? Neste segundo caso, porém, a manipulação social escaparia aos mesmos grandes poderes que a planearam. Continuamos no campo das hipóteses. Assim, o sociólogo esloveno Slavoj Žižek, no seu eBook Virus. Catastrofe e solidarietà (Ponte alle Grazie, 2020), sustenta que estamos presos numa tríplice crise: sanitária (a epidemia), económica (um golpe duríssimo, independentemente do resultado da epidemia) e psicológica (relativa à saúde mental dos indivíduos).     

O aspecto da guerra psicológica, também nas suas dimensões preternaturais, foi bem destacado, pelo Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, num documento, de 27 de Abril, intitulado A maior operação de engenharia social e de baldeação ideológica da História. A existência de uma grande manobra planetária deixa em aberto, ainda assim, as hipóteses subjacentes. Estamos diante de um plano orquestrado pelas forças secretas? O facto de terem pré-ordenado uma estratégia em vista a uma catástrofe sanitária, já previsível há muitos anos, tal como é hoje uma catástrofe económica, não significa que foram estas forças que desencadearam o processo nem que são capazes de controlar totalmente o acontecimento.     

Diante destas hipóteses, sobre as quais é útil discutir, permanecem as certezas. A primeira é que o cenário mundial mudou objectivamente depois do coronavírus. Para melhor ou para pior? Entramos, mais uma vez, no campo das hipóteses preditivas. Žižek afirma que para a Revolução comunista, da qual é entusiasta, neste momento «tudo é possível, em qualquer direcção, desde a melhor até à pior». Isto serve para a Revolução, mas também para a Contra-Revolução, que a ela se opõe. Existem, certamente, amplas e complexas manobras revolucionárias para explorar a situação, e esta é uma outra certeza. Mas dizer que estas manobras tenham sucesso é uma hipótese. Por outro lado, há outra certeza: o facto de que, diante da pandemia, os homens que governam a Igreja se mostraram ausentes, ou até mesmo cúmplices das estratégias anticristãs.

O que deveria fazer a Igreja, e o que deveriam fazer todos os católicos, diante de uma pandemia como a que nos atinge? Dever-se-ia recordar que todos os males da humanidade têm a sua origem no pecado, que o pecado público é mais grave que o pecado individual e que Deus pune os pecados sociais com os flagelos das doenças, das guerras, da fome e dos desastres naturais. Se o mundo não se arrepende, e particularmente se os homens da Igreja se calam, os castigos que, no início, são infligidos de maneira branda, estão destinados a agravar-se cada vez mais, até à aniquilação de nações inteiras. Esta é a essência da mensagem de Fátima, que se conclui, conquanto, com a consoladora certeza do triunfo do Imaculado Coração de Maria.

Roberto de Mattei      

Através de Corrispondenza Romana

John Ritchie: «O comunismo não morreu com a queda da cortina de ferro»


Temos o gosto de publicar, em exclusivo para Língua Portuguesa, uma entrevista do director da TFP Student Action dos EUA, John Ritchie, a uma página católica espanhola.

Quais são os principais objectivos da TFP em 2020?    

Em sentido amplo, os objectivos de Tradição, Família e Propriedade (TFP) em 2020 são os mesmos de quando iniciámos a nossa caminhada em 1973. Promovemos as ideias contra-revolucionárias, promovemos a cultura cristã e difundimos a nossa devoção à Bem-aventurada Virgem Maria.       

Como deve saber, a nossa grande campanha do ano passado centrou-se na oposição ao Sínodo sobre a Amazónia e a muitas das suas declarações e acções objectáveis
​​contra a Santa Madre Igreja. Existe um compromisso radical pela distorção da Igreja Católica desde dentro. A adoração ao ídolo pagão da Pachamama em território vaticano foi um exemplo impressionante da profunda crise da Igreja, diante da qual os católicos de fé têm a obrigação de resistir, tendo que fazer reparação diante de Deus.     

Também temos em curso uma campanha de longo prazo para promover os princípios da sociedade orgânica cristã. A peça central deste esforço é o livro Return to Order, escrito por John Horvat, Vice-Presidente da TFP dos EUA. Com mais de 345 mil cópias em circulação, o livro já despertou grande interesse.  

Os planos de campanhas específicas para este ano dependem, em grande parte, do que acontecer durante e após a quarentena. Devo também dizer que a TFP americana acaba de publicar uma declaração vital sobre a pandemia, oferecendo um antídoto para o pânico e a manipulação ideológica por trás desta crise do coronavírus. Convido-o a ler o documento intitulado, em inglês, Warning! A Virus Threatens Americas’s Future and Christian Civilization.          

Pode explicar como actua a TFP Student Action? Em que países tem presença?                 

Claro. TFP Student Action é uma campanha especial da TFP americana. A nossa missão é a promoção dos valores morais nos campus universitários. Este pode ser um grande desafio, especialmente porque a esquerda pretende dominar o ensino superior.        

Por vezes, os voluntários da TFP são fisicamente atacados por promoverem valores morais nos campus. Mas, em vez de se retraírem, valorizam a oportunidade de debater e defender a verdade com uma sagrada valentia, inclusive nos territórios mais radicalizados, como a Universidade da Califórnia – Berkeley ou a Brown University.                    

A TFP americana tem organizações irmãs em dezenas de países. Fora dos Estados Unidos, os principais países onde têm presença as campanhas de Student Action são a Holanda, a Alemanha, a Suíça, a França e a Polónia.   

Também temos uma variedade de associações irmãs na América do Sul que participam em campanhas semelhantes. A mais notável é o Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, no Brasil.        

Como actua a TFP Student Action? Há várias facetas. Em relação à acção pública, participamos regularmente em campanhas de rua nas quais entramos em debates e distribuímos literatura sobre diversos temas, como o aborto, o “casamento” homossexual, o socialismo, o transgenerismo e outros temas importantes. Poderão ver algumas das campanhas no nosso canal do YouTube.  

Talvez o melhor exemplo destas campanhas sejam as “caravanas”, onde grupos de voluntários viajam pelo país durante semanas, promovendo várias iniciativas todos os dias. Além disso, mantemos um site, no qual lançamos, com frequência, várias campanhas de petições. Algumas delas tiveram muito sucesso, interrompendo os eventos abortistas em universidades católicas.

Outras atividades incluem os Campos de Formação de Verão, para rapazes, e as conferências de estudantes. Aqui tentamos destacar o ideal de cavalaria através de palestras e jogos, assim como a autêntica piedade masculina, a recitação do rosário e o recurso frequente aos sacramentos. Estes campos centram-se em atractivos modelos de papéis católicos. Um ano, o tema do campus foi a Espanha católica. Os rapazes aprenderam sobre a Reconquista, Dom Pelágio, o Cid, Dom Fernando II, o cerco do Alcázar de Toledo, a tauromaquia e as impressionantes procissões da Semana Santa em Sevilha.     

Para estudantes universitários, temos uma variedade de grupos regionais que acolhem círculos de discussão para jovens adultos interessados no pensamento contra-revolucionário e na acção, bem como dois congressos estudantis anuais, nos Estados Unidos e em França, respectivamente. Além disso, no fim de cada Verão, a TFP realiza uma conferência internacional estudantil na Europa Central ou Ocidental.      

Que influência tiveram as obras de Plinio Corrêa de Oliveira no movimento tradicionalista, conservador e paleo-libertário americano?

Na sua superfície, muitas pessoas pensariam provavelmente que um monárquico sul-americano com um profundo amor pelo Velho Mundo e pela civilização europeia tradicional não teria muita ressonância com os cânticos ideológicos da Revolução Americana. Mas a realidade é surpreendente. As ideias de Plinio Corrêa de Oliveira e da TFP tiveram uma profunda influência no reino do conservadorismo americano, particularmente entre os conservadores que têm em conta os valores morais.      

Boa parte da sua influência pode remontar ao advento da Nova Direita Americana, um movimento que emergiu nos tempos de Ronald Reagan. Por ocasião do convite de um veterano da TFP que estava em Washington, vários líderes influentes deste movimento ideológico viajaram até ao Brasil para conhecerem o Professor Corrêa de Oliveira. Sem excepção, todos eles voltaram para os EUA com grande entusiasmo pelas suas ideias e mantiveram estreitas relações com a TFP nos EUA. Uma dessas figuras foi Morton Blackwell, que escreveu o prefácio da edição americana do livro do Prof. Corrêa de Oliveira intitulado Nobreza e elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII.           

Hoje, o trabalho da TFP é bastante bem conhecido em círculos conservadores, continuando a trabalhar em alianças com grupos tradicionalistas e conservadores.  

O que pensam sobre Donald Trump? É, realmente, uma figura anti-establishment confiável?

Esta pergunta requer uma resposta diferenciada. Em certo sentido, temos de reconhecer que o Presidente Trump fez várias coisas boas. Por exemplo, considere-se o seu apoio público ao movimento pró-vida (incluindo a sua participação, como orador, na March for Life celebrada, este ano, em Washington), a promoção de genuínos conservadores no governo e os sólidos ataques a certos aspectos do socialismo. Notoriamente, o seu discurso Queremos Deus, proferido na Polónia, contém uma retórica que muitos europeus modernos precisavam de ouvir.             
Por outro lado, adoptou, lamentavelmente, más posições em questões como a homossexualidade. Mas não é só isso, já que nem sempre se dirige a si mesmo com a dignidade que o seu ofício exige.                       

Quanto à questão de saber se é ou não verdadeiramente anti-establishment, certamente abalou o establishment americano.         

Porquê que muitos jovens americanos estão a abraçar, em grande número, o comunismo?      

À medida que a sociedade se distancia de Deus e avança para o niilismo, os jovens (como todas as pessoas do mundo moderno) sentem-se cada vez mais à deriva, como incontáveis náufragos. Na sua procura de significado e de um propósito, abraçam ideologias e movimentos que acreditam que lhes darão o que procuram. No passado, o vazio era preenchido pela verdadeira Fé, mas o mundo moderno substituiu Deus, substituindo-o por figuras que prometem um paraíso socialista na terra.           

Infelizmente, o comunismo não morreu com a queda da cortina de ferro; experimentou simplesmente uma metamorfose. Os métodos foram alterados, mas o objectivo continua a ser o mesmo.        

Ao mesmo tempo, tanto nos EUA como na Europa, um número significativo de jovens está comprometido com a fé católica tradicional e está aberto à mensagem da Contra-Revolução.  

Poderíamos considerar os Estados do sul, como o Texas e o Alabama, um contrapeso contra as tendências revolucionárias em propagação?           

Mais uma vez, a questão requer uma resposta diferenciada. Em primeiro lugar, não há dúvida de que Estados como esses estão a actuar, objectivamente, como um baluarte cultural contra as tendências revolucionárias da sociedade. Em muitos Estados, a agenda abortista radical foi bloqueada ou desacelerada. Os esforços legais bloquearam e, inclusive, reverteram alguns aspectos da cultura da morte.       

No entanto, o movimento anti-família nunca descansa. Como consequência, a esquerda americana deu grandes passos para mudar o curso das atitudes e as políticas nesses Estados, de modo a se alinharem com a ponta de lança da revolução. Por exemplo, consideremos as estreitas margens das vitórias eleitorais conservadoras no Texas ou a capitulação sob pressão de Estados como a Carolina do Norte, nas mãos do lobby da ideologia de género.                   

Em relação à crise do COVID-19, o que pensa das declarações de “estado de emergência” e das possíveis consequências?        

Embora certas medidas de segurança façam sentido, há razões para preocupação. O maior problema é a perda, quase universal, de acesso aos sacramentos por parte dos católicos. Este ano é o primeiro da História da Igreja em que não se celebrou publicamente a liturgia da Páscoa. É este um castigo? Deus está a dizer-nos algo?                   

Além disso, muitos países estão a utilizar o “estado de emergência” para expandirem, em grande medida, os seus poderes. Independentemente de todos os casos serem ou não excessivos, a sabedoria prática americana tem presente que “uma vez que dás poder ao governo, nunca mais o recuperarás”. Portanto, neste sentido, devemos estar vigilantes porque a “emergência” (seja real ou fabricada) pode levar a opinião pública a aceitar mais tendências ou políticas socialistas.         

Na hora de lutar contra o big government, alguns concentram-se apenas na economia, deixando de lado as dimensões morais e culturais. Que recomendações lhes faria?

Ignorar a moralidade é um grande erro. Ronald Reagan viu o conservadorismo como um banco de três pernas: saúde fiscal, defesa forte e valores morais. Embora a saúde fiscal seja uma das suas pernas, o banco nunca pode ter apenas uma. Precisa de se fortalecer com a defesa dos valores morais. E, por mais importante que seja a economia, a realidade é que a política não está ao corrente da cultura. Se ignorarem este conceito, descobrirão que, apesar de conseguirem vitórias eleitorais a curto prazo, a sociedade perderá.         

A sociedade moderna pensa no corpo e ignora a alma. No entanto, como assinala o professor Corrêa de Oliveira no seu livro Revolução e Contra-Revolução, a raiz das nossas crises contemporâneas tem origem dentro da alma do homem. Por outras palavras, quando a ordem e a virtude reinam no coração do homem, pode-se esperar ver a harmonia e a ordem na sociedade civil.           

Em relação à Europa, que sinais de alerta daria aos americanos?            

Antes de falar sobre sinais de alerta, gostaria de dizer que há sinais de esperança na América. Não é nenhum segredo que temos sido um dos países mais liberais do mundo durante a maior parte da nossa história. Durante o século XIX, a nossa existência serviu como um desafio à ordem tradicional e social da Europa. No recente século XX, bombardeámos o mundo com a imundície de Hollywood. 

No entanto, apesar desta decadência, grandes sectores americanos não apoiam Hollywood e desenvolveram anticorpos para combatê-lo. Aqui está uma saudável reacção para se opor e resistir ao mal na sociedade. Todos os anos, por exemplo, a campanha da TFP América precisa de Fátima coordena quase 20 mil rosários públicos em todo o país. Um milhão de católicos saiu às ruas em Outubro passado. 

Todos os anos, cerca de 500 mil pessoas participam na March for Life em Washington. A esquerda está exasperada porque, com grande entusiasmo, dezenas de milhares de adolescentes e de crianças em idade escolar participam nesse evento contra o pecado do aborto. Entre os jovens, o aborto é rejeitado.

Agora, o que é que os americanos podem aprender da Europa? Eu vejo duas grandes lições. Primeiro, quando o homem coopera com a graça de Deus, grandes coisas podem ser feitas, tais como o florescimento da Idade Média, com os seus grandes santos e o seu progresso em ensino, hospitais, agricultura e arquitectura. A Civilização Cristã nasceu. E é por isso que muitos turistas visitam a Europa, para ver as maravilhas do Cristianismo.        

Por outro lado, quando viramos as costas a Deus e à Sua sabedoria (como fez a cultura moderna), o resultado é patético. Na Europa, vimos a realização revolucionária de ideologias como o comunismo, o socialismo e o liberalismo, e a destruição e as cicatrizes deixadas pela esquerda no seu despertar. O resultado deve ser suficiente para que desejemos evitar as loucuras do modernismo e o secularismo e abraçar os princípios eternos da Civilização Cristã.           

Os ensinamentos perenes da Santa Igreja Católica oferecem o que o mundo precisa para evitar o caos geral e a anarquia. E dentro da sociedade civil, os valores de Tradição, Família e Propriedade continuam a brilhar como faróis de ordem em mares atormentados. 

Concluindo, gostaria de agradecer a oportunidade de discussão destas ideias. Devo dizer que muitos católicos nos Estados Unidos admiram a fidelidade da Espanha católica, que deu ao mundo modelos de destaque, como Dom Pelágio, Santa Teresa de Ávila, São Pedro de Arbués e muitos outros que me vêm à mente.     

Como eles, devemos continuar a boa luta!   

Através de Tradición Viva

terça-feira, 28 de abril de 2020

Fazer as acções com Maria é, essencialmente, ter Maria como modelo



O pensamento de fazer as acções com Maria é, essencialmente, ter Maria como modelo. Por que ter Maria como modelo é fazer as acções com Maria? Por que a palavra “com” se aplica aí?                 

Aplica-se por causa da ideia do molde, que ele (S. Luís Maria Grignion de Montfort, n. d. r.) desenvolve no Tratado da Verdadeira Devoção. Ele mostra a diferença entre um estatuário esculpir uma estátua e uma pessoa fazer uma estátua com um molde: num molde de ferro, de metal ou de madeira o trabalho é muito mais simples, é só adaptar gesso ali, deixar que seque e sai a figura que se quer obter. Enquanto que o trabalho do escultor – do estatuário que faz com formão e martelo a sua estátua – é um trabalho muito maior, muito mais arriscado; às vezes parte um pedaço do mármore, acontece uma coisa e outra; enquanto que fazendo no molde é rápido, é barato e é seguro porque é certo que a figura assim modelada sai parecida com o original.  

É, portanto, como molde, é por meio do molde que nós fazemos essas estátuas. Bem diz ele que Nossa Senhora é o molde de Nosso Senhor Jesus Cristo, e que Ela é também, para nós, o nosso molde. Quer dizer, se nós nos modelarmos inteiramente conforme Ela, como Ela é o molde de Cristo – nós somos o gesso adaptado àquele molde – nós ficamos parecidos com Nosso Senhor Jesus Cristo. E, então, ter a Ela como modelo é ter a Ela como molde; ter a Ela como molde é fazer tudo com Ela. Este é o sentido de fazer “com Ela”.                    

Plinio Corrêa de Oliveira, excertos de uma conferência de 26 de Maio de 1972     

28 de Abril – Festa de São Luís Maria Grignion de Montfort



Celebrando-se, hoje, a festa de São Luís Maria Grignion de Montfort, patrono da página e do nosso apostolado, disponibilizamos aos nossos leitores alguns excertos da sua magna opera.

1. «Foi pela Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo e é também por ela que deve reinar no mundo».    

2. «Maria é a obra-prima por excelência do Altíssimo, cuja posse e conhecimento reservou para Si. Maria é a Mãe admirável do Filho que quis humilhá-la e escondê-la durante a vida para favorecer a sua humildade».    

3. «Todos os dias, de uma extremidade à outra da terra, no mais alto dos céus, no mais profundo dos abismos, tudo proclama e publica a admirável Virgem Maria. Os nove coros dos anjos, pessoas de ambos os sexos, de todas as idades, condições ou religiões, os bons e os maus, e até mesmo os demónios, são forçados a chamá-la bem-aventurada, quer queiram, quer não; a isto os obriga a força da verdade. Como diz São Boaventura, todos os anjos lhe cantam no céu incessantemente: Sancta, sancta, sancta Maria, Dei Genitrix et Virgo».

4. «Maria não foi ainda suficientemente louvada e exaltada, honrada, amada e servida. Merece ainda muito maior louvor, respeito, amor e serviço».           

5. «Deus Espírito Santo comunicou a Maria, sua fiel Esposa, os seus dons inefáveis. Escolheu-a para despenseira de tudo quanto possui: de forma que ela distribui a quem quer, quanto quer, como e quando quer, todos os seus dons e graças, e nenhum dom celeste é concedido aos homens sem que passe por suas mãos virginais. Esta é a vontade de Deus, que quis que tudo recebamos por Maria».                     

S. Luís Maria Grignion de Montfort, Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, Caminhos Romanos, Porto 2012

A ausência da Igreja Católica e o abandono do dever pela Hierarquia



A crise em que estamos todos imersos (não há escapatória) mostra, de forma clara – pelo menos, para aqueles cujos olhos não estão nublados pela falsa piedade –, a completa irrelevância da Igreja Católica nesta crise. A Igreja Católica, ao longo dos seus dois mil anos de história, viu-se envolvida em muitas crises: heresias, guerras, pragas, lutas eclesiais, fome, o que quiserem. A Igreja viu-se envolvida nestas crises da civilização e a civilização significa, afinal de contas, pessoas, não apenas um grupo de pessoas, mas indivíduos: ele e ela e os seus filhos. E, no passado, a reacção da Igreja foi envolver-se radicalmente nas crises que a sociedade em que vivia enfrentava. Não se trata de um romantismo sobre um passado, como se os bispos tivessem sempre respondido a estas crises de vida e de morte da melhor maneira possível, mas temos a imagem de São Luís Gonzaga a transportar as vítimas da peste de Roma para o hospital da Ilha Tiberina. Luís não era bispo, nem sequer sacerdote. Era simplesmente um noviço jesuíta.           

E o que é que vemos hoje?        

O Papa, na Praça de São Pedro, em Roma, a falar, sozinho, para ninguém. O Papa a cumprir os ritos da Semana Santa numa igreja vazia. Os bispos do meu país, os Estados Unidos, a disponibilizarem ao seu rebanho, nesta crise, Missas em streaming e as celebrações da Semana Santa como paliativos. Não é romantismo esperar que os nossos bispos e sacerdotes sigam o exemplo de São Gregório Magno que, no século VI, durante a peste de Roma, caminhou pelas ruas da cidade rezando a Deus pelo fim da praga. Não é romantismo esperar que os nossos bispos sigam o exemplo de São Carlos Borromeu, durante a praga de Milão do século XVII, que, correndo sérios riscos, esteve tão profundamente junto do seu povo.             

Qual é a diferença entre Gregório e Carlos Borromeo e os bispos de hoje? Não é que os bispos dos Estados Unidos não devam obedecer à resposta racional do governo à crise sanitária nacional causada pelo vírus COVID-19. O problema é que não são vistos em lugar algum, excepto na turva realidade do streaming. Referir-me-ei ao problema real das Missas em streaming em data posterior. Mas o facto é que os bispos, aqueles que foram ordenados para serem Cristo entre nós, estão refugiados onde quer que vivam, publicam, de vez em quando, declarações piedosas e acreditam que isto é a Imitatio Christi, que é assim que se leva Cristo ao povo.       

Dado o confinamento e as ordens de distanciamento social, os bispos são irrelevantes quando comparados aos cabeças falantes dos media. De em vez quando, muitos aparecem nos media para fazerem algumas observações piedosas e oferecerem uma breve e inócua oração, uma mensagem que poderia ter sido dada por qualquer pessoa com sensibilidade cristã ou, inclusive, sensibilidade não religiosa, mas boa. Os líderes, nestes tempos de perigo em que vivemos, são seculares: desde os chefes de governo aos de conhecimento científico e, muito pior, aos incontáveis cabeças falantes nas inumeráveis e mal chamadas agências noticiosas.   

O que a crise do COVID-19 revela é, acima de tudo, a profunda secularização da Igreja Católica. O processo, que começou na década de 1950, na Igreja Católica nos Estados Unidos e na Europa, deu frutos no Concílio Vaticano II, o Concílio que decidiu ser moderno quando o mundo havia abandonado a modernidade. Não há necessidade de deitar fora o Concílio Vaticano II, porque, como qualquer concílio – digam-me uma doutrina importante saída do Segundo Concílio de Latrão –, não é mais do que uma etapa na contínua tarefa de compreender a fé católica em qualquer época particular. Mas não há dúvida de que a aplicação dos documentos do Concílio, especialmente dos que se referem ao culto da Igreja, nos conduziu à situação em que agora nos encontramos. Que os nossos católicos não possam aprofundar a sua fé neste momento de crise – graças à liderança negativa do clero –, excepto para se queixarem da impossibilidade de receberem a Sagrada Comunhão ao Domingo, é um tema principal que nos ensina, com exactidão, em que ponto se encontram os nossos fiéis católicos em relação à sua fé. Quem falará ao fiel católico sobre a oportunidade de aprofundar a sua fé num tempo de privação da Missa e da Eucaristia? Quem lhes falará da necessidade do deserto espiritual para crescerem na fé? A esperança geral expressa-se na esperança secular de que, em poucos meses, isto termine e “voltemos à normalidade”. Mas a “normalidade” não é uma categoria que o católico deva abraçar, pois cremos num Deus que se fez carne e morreu numa cruz para que nos pudéssemos salvar e ter a vida eterna. Não permita Deus que voltemos à normalidade!         

P. Richard Gennaro Cipola           

Através de Rorate Cæli

Chen Guangcheng: o Partido Comunista Chinês é o maior e mais perigoso vírus



«O Partido Comunista Chinês (PCC) é o maior e mais perigoso vírus do mundo». Foi o que afirmou o dissidente invisual Chen Guangcheng na conclusão de uma conferência-debate online organizada pela Universidade Católica da América.       

No fórum, organizado, a 24 de Abril, pela associação Faith & Law e pelo Instituto para uma Ecologia Humana, Chen sublinhou que o PCC se manteve calado sobre a propagação do vírus em Wuhan e no País, manipulou o número de infecções e de mortes, violou os direitos dos cidadãos. «Está na hora – disse – de reconhecer a ameaça que o PCC representa para toda a humanidade. O PCC reprime e manipula informações para fortalecer o seu poder, sem nenhuma consideração pelo valor das vidas humanas».         

Chen Guangcheng tornou-se advogado nos Estados Unidos, onde foi recebido como refugiado em 2012. Na China, foi perseguido por ter denunciado a violência do Partido na implementação da política do filho único com abortos forçados e esterilizações, em Shandong, e por ter revelado o escândalo da venda de sangue entre os agricultores de Henan, em que funcionários do governo, usando seringas infectadas, espalharam o vírus HIV.    

No encontro, Chen alertou os governos para o uso do «método chinês» na luta contra o coronavírus, citando a falta de fiabilidade dos dados fornecidos pelo governo e o seu estilo militar. «Famílias inteiras – relatou – foram encontradas mortas nos seus apartamentos porque não podiam sair». Também disse que «as autoridades dizem ao mundo exterior que têm o vírus controlado» e «ordenam que todos regressem ao trabalho», mas ainda existem zonas isoladas no País. «O ressurgimento do vírus está directamente ligado ao facto de o PCC esconder a verdade e esmagar as pessoas que tentam partilhar informações» sobre a epidemia.    

Chen também denunciou que o Partido está a usar a crise pandémica para atingir os dissidentes, detendo activistas dos direitos humanos com a desculpa da «quarentena».          

Através de AsiaNews

segunda-feira, 27 de abril de 2020

O problema da Igreja está na Missa, até o diz Satanás



«Os sacerdotes, hoje, têm pressa quando celebram a Missa», «não entendem que, quando dizem Missa, Ela (Nossa Senhora, n. d. r.) está em torno do altar com os anjos». Paradoxalmente, aqui, a falar da Santa Missa, é Satanás, enquanto é exorcizado. A narração desse exorcismo, que circula no YouTube, numa gravação, em italiano, do exorcista P. Ambrogio Villa, é feita numa homilia. Apesar de ter sido publicada há poucos meses, conta já centenas de milhares de visualizações e tornou Villa um nome popular.                 

O P. Ambrogio era pároco de uma pequena cidade lombarda até começar a trabalhar, a tempo inteiro, como exorcista da Diocese de Milão, no Norte de Itália, há alguns anos. Foi um dos muitos sacerdotes que, em todo o mundo, respondeu à crescente necessidade de exorcistas. Segundo dados de 2018, apenas em Itália, onde está sediado o Vaticano, os exorcismos triplicaram: anualmente, realizam-se cerca de 500 mil. Preparar uma batalha espiritual contra o demónio não é algo para os fracos de coração, explica o P. Ambrogio. Mesmo estando in persona Christi, o diabo sujeita o sacerdote a «vulgaridades, ameaças e violência». Todavia, como sublinha o P. Ambrogio na gravação, em certos momentos do exorcismo, o diabo é forçado a revelar uma «verdadeira catequese», que, se levada a sério, pode fazer a diferença para as vidas e para as almas.      

Isto não deve surpreender, também aconteceu com Jesus. Ele foi o primeiro exorcista e o exorcismo era parte integrante do Seu ministério público. Os encontros de Jesus com os possessos, o Seu poder de expulsar os demónios e as suas confissões na Sua presença são relatados em diferentes passagens dos Evangelhos. Em Marcos, por exemplo, são as únicas testemunhas a reconhecer publicamente, em Jesus, o Messias. E em Marcos (1, 24), um espírito impuro dirige-se a Jesus com estas palavras: «Que tens que ver connosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos perder? Sei quem Tu és: O Santo de Deus». Os demónios assustavam-se com a presença de Jesus porque sabiam que Ele tinha o poder de mudar as suas vidas através do exorcismo.        

Os exorcismos, de facto, normalmente transformam a vida do possuidor e do possuído, mas o P. Ambrogio conta como a sua própria vida foi radicalmente transformada pelas revelações dos demónios. O que torna este encontro único é a resposta do diabo quando instado a falar sobre os sacerdotes; evidentemente, tem contas a acertar: «Vocês, sacerdotes, têm pressa quando celebram a Missa, levantam aquele pedaço de pão e baixam-no imediatamente porque têm pressa, têm coisas mais importantes».                    

Palavras chocantes que fazem o P. Ambrogio admitir que se aplicam a si mesmo e a qualquer outro. A sua primeira consideração, confirmando que o diabo tocou um ponto doloroso, foi: «Já não sois capazes de celebrar a Missa como antes». Foram escritos volumes inteiros sobre a liturgia, mas, evidentemente, continua a haver um problema. Também Bento XVI abordou o tema da liturgia no livro Do fundo dos nossos corações. Escreve o Papa emérito: «A celebração quotidiana da Eucaristia implica um estado permanente de serviço a Deus», que «indica a Eucaristia como centro da vida sacerdotal». Mas, segundo o diabo, esta privilegiada relação sacramental entre o sacerdócio e a Santa Missa está a ser cada vez mais subestimada.         

Segundo o P. Ambrogio, não é exagerado dizer que «a Missa já não é valorizada». Explica este ponto: «Todos nós pensamos que, indo à Missa, oferecemos algo a Deus; pelo contrário, é o sacrifício de Cristo que perdoa os nossos pecados». Também enfatiza que «esta partícula de pão ázimo entra no nosso estômago e, antes que os sucos gástricos a desfaçam, passam entre 8 a 10 minutos... somos o tabernáculo de Jesus... O nosso Criador está em nós antes de nós... e ainda nos esquecemos de dar graças por este sacrifício» antes e depois da Missa.      

Mas há mais: o diabo dirige-se aos sacerdotes com uma segunda repreensão. Desta vez, revela algo extraordinário: «Não compreendeis que, quando dizeis Missa, Maria, Sua Mãe, e os anjos estão reunidos em torno do altar». É verdade, nem sequer consideramos que «todo o Céu está reunido em torno do sacrifício de Cristo» no altar, continua o P. Ambrogio. Contudo, não é a primeira vez que é mencionada a presença divina sobre o altar durante a consagração.           

Por exemplo, o então bispo de Civitavecchia, Girolamo Grillo, reconheceu oficialmente todas as aparições e mensagens de Civitavecchia, incluindo a descrição de Fabio Gregori da primeira vez em que Maria lhe apareceu. É este o testemunho de Fabio: «Era o dia 2 de Julho de 1995. Estava numa missa à tarde. Era cerca das 18h30. Nossa Senhora apareceu quando o pároco estava prestes a consagrar a sagrada Hóstia. Os Seus pés estavam pousados numa nuvem, exactamente acima do padre Paulo, e as Suas mãos abertas apontadas para baixo. Permaneceu ali em sagrada adoração até à Comunhão. Pelo Seu comportamento, era claro que o Seu Filho Jesus, o Salvador, está realmente presente e vivo na Eucaristia».

Procurando uma resposta para o decréscimo da assistência à Missa, principalmente por parte dos jovens, que dizem «a Missa não me dá mais nada», o P. Ambrogio encontrou a sua resposta. Se a Missa é celebrada e participada com a reverência que lhe é devida, «a nossa sede será satisfeita». Quando Deus não é bem servido e quando o santo sacrifício da Missa é desvalorizado, a majestade de Deus perde-se e nós perdemo-nos com ela. 

Ironicamente, num período em que a Igreja parece perdida num estado de confusão perpétuo, o diabo sabe do que precisamos: da Santa Missa.

Patricia Gooding-Williams           

Através de La Nuova Bussola Quotidiana   

Comentário ao Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem (I)


A 28 de Abril, a Igreja Católica recorda um grande santo: São Luís Maria Grignion de Montfort.    

São Luís Maria nasceu em Montfort-sur-Meu, na Bretanha, a 31 de Janeiro de 1673, e morreu em Saint-Laurent-sur-Sèvre, na Vendeia, a 28 de Abril de 1716; foi beatificado, por Leão XIII, a 22 de Janeiro de 1888 e proclamado santo, por Pio XII, a 20 de Julho de 1947.

Foi um grande pregador e dedicou toda a sua vida à obra das missões, especialmente no noroeste de França, os mesmos territórios que, oitenta anos após a sua morte, veriam a revolta do povo católico contra a Revolução Francesa. A insurgência da Vendeia, foi dito, foi uma consequência da sua pregação.

Cada santo tem uma especial grandeza. A grandeza de São Luís Maria Grignion de Montfort foi ter levado ao seu auge a devoção a Nossa Senhora. De facto, é o autor de uma obra, o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, que pode ser considerada uma verdadeira obra-prima espiritual.      

Um teólogo dominicano, o padre Antonio Royo Marín, afirma que nenhuma devoção mariana se pode comparar ao Tratado da Verdadeira Devoção, o livro mariano por excelência, que contém uma «sublime doutrina». Uma obra certamente inspirada pelo Espírito Santo, como o foram os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola e alguns outros livros na história da Igreja.    

Nesta obra, o santo francês explica as razões da grandeza de Maria e revela, com espírito profético, o seu papel nos últimos tempos da história. Mas, sobretudo, ensina-nos um método para amar e servir Nossa Senhora com maior fervor e eficácia: a consagração a Jesus pelas mãos de Maria, o caminho mais breve e seguro para chegar, através de Maria, a Jesus Cristo e, por Ele, a Deus-Pai.     

O Tratado da Verdadeira Devoção é uma leitura muito adequada para o mês de Maio e, em particular, para este mês de maio. Não apenas porque Maio é o mês tradicionalmente dedicado a Maria, mas porque nessas semanas estaremos a preparar-nos para o Pentecostes, que é a festa do Espírito Santo. E São Luís Maria ajuda-nos a compreender mais profundamente o vínculo que existe, com a Encarnação do Verbo, entre Nossa Senhora e o Espírito Santo. Mas este mês de Maio é uma oportuna ocasião para ler e meditar este livro também porque ainda estamos a viver o período de quarentena imposto pelas autoridades para nos defendermos do coronavírus.         

Não devemos viver esta quarentena como uma injusta limitação da nossa liberdade. Seria fazer mal a Deus, que em qualquer situação da nossa vida nunca nos deixa faltar a Sua graça. Há também a graça do coronavírus para quem souber aproveitá-la. 

Por exemplo, apesar das graves dificuldades que esta situação nos impõe, podemos viver, por algum tempo, um maior espírito de oração, de recolhimento, de reflexão.  

Podemos tentar aproximar-nos de Deus, confiando-nos a Nossa Senhora. E, para fazê-lo, São Luís Grignion de Montfort dá-nos indicações preciosas.

Por isso, dedicarei o mês de Maio a um comentário sobre o Tratado da Verdadeira Devoção de São Luís Maria Grignion de Montfort. Entretanto, convido-vos a adquirir este livro, que se pode encontrar facilmente nas livrarias ou na Internet. Encontramo-nos a 1 de Maio.   

Roberto de Mattei

domingo, 26 de abril de 2020

Dia de Nossa Senhora do Bom Conselho

Hoje é uma festa lindíssima, a de Nossa Senhora do Bom Conselho! É uma linda invocação. Esta festa foi instituída em honra da aparição da célebre Imagem da Mãe de Deus, sob o nome de Nossa Senhora do Bom Conselho, em Genazzano, em Itália, no século XV.         

Eu, infelizmente, não conheço o modo pelo qual essa imagem apareceu. Os senhores encontram aqui, em São Paulo, uma reprodução muito bonita e muito respeitável dessa imagem na capela do Colégio São Luís.       

Quando eu era menino, contava-se a história extraordinária desse Quadro – talvez alguns dos senhores que também tenha sido aluno no Colégio São Luís saiba isso com mais pormenores do que eu.                      

Os jesuítas, no meu tempo de menino, estimulavam muito a devoção a essa imagem. E, realmente, a invocação da imagem é muito bonita porque indica Nossa Senhora numa das suas tarefas mais maternas e mais próprias da Rainha do Universo, que é exactamente a de dar o bom conselho.        

Como Rainha do Universo, Ela governa tudo. E o próprio de quem governa é não só dar ordens como dar conselhos também. E, aliás, certo tipo de conselhos – pelo menos os de Nossa Senhora – constituem uma ordem. Para aqueles que amam verdadeiramente Nossa Senhora, todos os conselhos d’Ela valem como uma ordem.           

O reinado de Nossa Senhora é um reinado de amor, no qual qualquer conselho para o fiel devoto, verdadeiramente escravo d’Ela, segundo São Luís Maria Grignion de Montfort, tem o valor de uma ordem.                 

Nossa Senhora concede os bons conselhos através da voz da vocação à qual Deus nos chamou          

A invocação de Nossa Senhora do Bom Conselho deveria ser utilizada em todos os momentos difíceis. Sobretudo, a minha caríssima “geração nova” precisa tanto de conselho... Há toda a forma de hesitação, toda a forma de problemas que a todo o momento aparecem na vida de um “geração nova”. Mas há geração mais adequada do que essa para recorrer mais frequentemente a Nossa Senhora do Bom Conselho?      

Agora, para tirar os seus últimos sucos, o que significa Nossa Senhora do Bom Conselho? Quer dizer Nossa Senhora enquanto dá bons conselhos, quer dizer Ela considerada na qualidade de Mãe que aconselha.         

E como é que Nossa Senhora aconselha no íntimo das nossas almas? Pela voz da graça, obtendo as graças que nos põem dentro da alma os conselhos bons.           

Então, em toda a ocasião de dúvida, de perplexidade, nas ocasiões em que nem temos dúvidas, mas um conselho, que nem pensávamos que fosse necessário, possa abrir-nos os olhos para algo que precisaríamos ver... em todas essas ocasiões, a invocação de Nossa Senhora do Bom Conselho é sumamente importante: é Nossa Senhora enquanto doadora de bons conselhos.              

Como é que esses bons conselhos ocorrem à alma? Para nós, sobretudo pela voz da vocação. Sempre que ouvirmos algo no nosso interior ou fora de nós, que está na linha da vocação, devemos tomar aquilo como um bom conselho. Sempre que sentirmos um movimento que nos dá, de repente, apetência de algum bem, devemos tomar aquilo como um bom conselho. Sempre que ouvirmos a graça dentro de nós dar-nos a apreensão de algum mal, devemos tomar isso como um bom conselho. Sempre que, junto a verdadeiros católicos, recebermos uma influência que sabemos que nos santifica, devemos tomar isso como um bom conselho. 

Modo de se agradecer a Nossa Senhora os bons conselhos que recebemos             

Há um exemplo maravilhoso na História, em matéria de união de almas e que estou a ler agora na vida de Santa Teresinha do Menino Jesus e que são as relações dela com uma irmã, creio que mais velha do que ela uns três anos.     

(Sr.: – Celina.)            

Durante muito tempo, ela não foi carmelita porque cuidava do pai de Santa Teresinha, Monsieur Martin, que estava gravemente doente.           

Então, Santa Teresinha, já no Carmelo, e Celina, fora do Carmelo, correspondiam-se. E as cartas delas tinham isso, uma espécie de união de almas. Celina teve a glória – não sei como qualificar... – de ser, de algum modo, a inspiradora de Santa Teresinha.                   

E observamos Santa Teresinha com uma união de alma quase que continuamente tendendo para Celina como para o seu próprio polo. O que, evidentemente, dá uma vivíssima desconfiança de que Celina também venha a ser canonizada. 

Vê-se aí quase que uma espécie de interpenetração de almas por onde vivem ambas da mesma graça. Santa Teresinha tem trechos de uma beleza inimaginável a respeito disso.           

Bem, esses são modos pelos quais recebemos bons conselhos que Nossa Senhora nos dá. Porém, os mais preciosos, fecundos e sadios bons conselhos imponderáveis dentro da alma, são certos bons conselhos que nos vêm em certas horas, certas ideias, certos movimentos, certas sugestões que sentimos que nos integram na nossa vocação, que são a acção directa de uma alma, de cada graça, levando-nos para a santidade e para o bem.        

Deveríamos pedir a Nossa Senhora, todos, todos os dias, bons conselhos! Que Ela, por essa forma, nos cumulasse com os Seus conselhos maternais. E, por essa forma, sendo Ela medianeira de todas as graças, estaríamos verdadeiramente a caminho da santificação.           

É uma invocação que me toca realmente e que eu acho que deve estar presente muito nas reflexões e nas perplexidades de tantos que vivem com tantas dificuldades nos dias de hoje.  

Plinio Corrêa de Oliveira, excertos de uma conferência de 26 de Abril de 1966
    

sábado, 25 de abril de 2020

A Ceia em Emaús, os discípulos reconhecem o Ressuscitado



«Os outros, porém, insistiam com Ele, dizendo: “Fica connosco, pois a noite vai caindo e o dia já está no ocaso”» (Lc 24, 29).     

Mais do que uma vez na vida, Rembrandt (1606-1669), um dos maiores pintores da história da arte europeia, confrontou-se com o episódio pascal que fala dos dois discípulos de Emaús e do seu encontro com Jesus. A representação do profundo mistério da Ressurreição, situado num contexto modesto como aquele a que se refere o evangelista Lucas (Lc 24, 13-35), parece-lhe um desafio: uma ceia durante o caminho de regresso da recente agitação de Jerusalém. Pinturas, gravuras e desenhos com o mesmo tema voltam frequentemente à produção do artista: o óleo conservado no Museu Jacquemart-André, em Paris, é absolutamente o primeiro, talvez não apenas por ordem temporal.           

Estamos em 1629 e Rembrandt tem vinte e três anos. A sua visão dos factos, não obstante ser, à época, um pintor iniciante, é uma invenção simplesmente genial. O momento que pára no papel – aliás, colado a um pequeno painel de madeira de dimensões bastante reduzidas – é o momento exacto em que Cristo, finalmente reconhecido pelos Seus comensais, desaparece da sua vista. O que resta é a Sua imanente e enigmática Presença, traduzida aqui pela figura que se destaca em contraluz, fixada no acto de partir o pão.    

Rembrandt não descreve, mas encena as diferentes reacções dos dois discípulos, um dos quais, completamente imerso no crepúsculo, fazendo cair para trás a cadeira, atirou-se aos pés de Jesus, ajoelhando-se em adoração. O seu gesto impetuoso contrasta com a expressão atónita, consternada e, talvez, assustada do outro homem que, ao contrário, é completamente investido pelo explosivo brilho da luz que se expande sobre a parede e sobre o seu rosto: a luz que revela o Ressuscitado e, ao fazê-lo, ilumina toda a realidade.  

O drama do instante capturado pelo artista consuma-se num ambiente pobre, cuja simplicidade é acentuada pela reduzida gama da paleta de cores e pela humildade dos poucos objectos que aparecem: uma tigela, uma faca, um guardanapo amassado, um prato e um recipiente a pairar pelo presumido e repentino movimento da mesa. E o saco de viajante pendurado num prego, que chama a atenção para nos recordar que os dois, de Jerusalém, estavam a regressar a Emaús.  

No fundo, à esquerda, vislumbra-se uma mulher atarefada ao redor da lareira, completamente inconsciente do que está a acontecer a alguns metros de distância: um detalhe íntimo, doméstico que, na sua quotidiana e desarmante simplicidade, acentua a potencial proximidade da presença do Senhor ressuscitado, de todos nós companheiro de viagem.

Margherita del Castillo       

Através de La Nuova Bussola Quotidiana

sexta-feira, 24 de abril de 2020

O Vaticano consagra-se ao ecologismo anti-humano



O que, ontem [anteontem, 22 de Abril, n. d. r.], se viveu no Vaticano, poderia ser referido como mais uma grandiosa manifestação de um pensamento ecologista que é a característica peculiar deste pontificado. O que já seria bastante grave, mas o que, ontem, aconteceu é muito mais: é a união definitiva do pensamento e da acção entre a Santa Sé e o lobby ecologista mundial.     

Ontem, celebrou-se o 50.º Dia da Terra, um acontecimento importante, como se costuma dizer, que ocorre num momento muito particular, devido à conhecida pandemia em curso. Devendo-se evitar as praças, apostou-se numa maratona multimédia de 12 horas, com o significativo título de #OnepeopleOneplanet (Um povo, um planeta), que contou com a participação dos media vaticanos (Vatican News, sobretudo) e da Tv2000 (a emissora da Conferência Episcopal Italiana). Não só: na quarta-feira, o Papa Francisco dedicou a sua audiência ao Dia da Terra, interrompendo o ciclo de catequeses que está a realizar. Se a ser notícia foi a inédita e discutível definição dos «pecados contra a terra», ainda é mais significativo o horizonte religioso que propôs, referindo-se, embora sem mencioná-la, à Hipótese de Gaia (a deusa grega da Terra): isto é, a ideia da terra como um organismo vivo que reage às agressões, melhor, que se vinga.        

Um motivo para tanta atenção do Papa e dos media vaticanos também foi o facto de o Dia da Terra ter sido dedicado à encíclica Laudato Si’, de que ocorre o quinto aniversário. E é aqui que a questão se torna interessante, porque concretiza o processo de integração entre um certo cato-ecologismo, promovido, in persona, pelo Papa e pelos movimentos que estão por trás do Dia da Terra.         

A este ponto, é interessante saber como nasceu e o que é, efectivamente, o Dia da Terra. O Vatican News define-o como um movimento nascido “de baixo” que, após um acidente petrolífero no mar, decidiu unir todas as forças que já protestavam contra a degradação ambiental. A primeira grande manifestação pela defesa do meio ambiente realizou-se, a 22 de Abril de 1970, com a participação de 20 milhões de americanos. Um movimento espontâneo, nascido “de baixo”, que o Papa gostaria (disse-o ontem) que continuasse, actualmente, a nível mundial.     

Pena que as coisas não sejam absolutamente assim. Se é verdade que nos Estados Unidos eram já muito activos vários movimentos ambientalistas, que reagiam, sobretudo, à elevada poluição atmosférica das grandes cidades americanas, a sua convergência num movimento político de forte impacto foi uma operação “de cima”, que tinha, principalmente, dois protagonistas: o senador (democrata) de Wisconsin, Gaylord Nelson, e o milionário Hugh Moore. O primeiro era um ambientalista convicto, uma espécie de progenitor de Al Gore, e o outro, desde sempre, comprometido em direccionar a política americana para o controlo da natalidade. 

Foi o próprio Hugh Moore que, na década de 50 do século XX, cunhou a imagem da “bomba demográfica”, que se tornou universalmente conhecida pelo livro que, em 1968, escreveu o biólogo Paul Ehrlich. E também foi Hugh Moore que cunhou o slogan que dará a perspectiva definitiva para o Dia da Terra: “A população polui”. Deste modo, uniam-se o movimento ecologista e o movimento para o controlo da natalidade (para uma descrição mais completa sobre a origem do Dia da Terra, clique aqui), ambos herdeiros das Sociedades Eugenéticas nascidas, nos Estados Unidos, no final do século XIX. Desde então, os movimentos anti-natalistas e ambientalistas – do Sierra Club ao Worldwatch Institute, do Planned Parenthood ao Zero Population Growth – falam a mesma linguagem e, obviamente, trata-se de movimentos que se desenvolveram graças ao generoso financiamento das grandes fundações americanas.

Nestes 50 anos, as forças que estão por trás do Dia da Terra não só não diluíram a sua identidade, como cresceram tremendamente, ocupando posições-chave em muitos governos – a partir dos Estados Unidos – e assumiram o controlo das agências das Nações Unidas, tomando uma dimensão mundial.     

E é triste dizer que, nos últimos anos, ocuparam, efectivamente, o Vaticano, como denunciámos repetidamente. Quando falam da defesa do meio ambiente, tais pessoas não têm em mente o cuidado da Criação numa perspectiva cristã; têm, em vez disso, a ideia de que o homem é o verdadeiro inimigo da terra e, portanto, a sua presença deve ser limitada: seja quantitativamente (controlo da natalidade, especialmente nos países pobres), seja qualitativamente (freio no crescimento económico até à teorização do chamado “decréscimo da felicidade”). Estes também são os pilares das políticas ambientais globais elaboradas desde os anos 90 do século passado e o pano de fundo cultural dos acordos internacionais sobre mudanças climáticas.     

Assim, se o primeiro Dia da Terra marcou a união das diferentes correntes eugenéticas, o 50.º Dia da Terra, com a celebração da encíclica Laudato Si’ e a entusiástica participação vaticana, marca outra união histórica: aquela entre este movimento global e a Santa Sé, a única força que, entre os séculos XX e XXI, se opunha, em nome da defesa da dignidade humana, a esta homologação de pensamento. Por outras palavras, estamos a assistir à entrega da Igreja ao poder do mundo.              

Riccardo Cascioli        

Através de La Nuova Bussola Quotidiana.  

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Summorum Pontificum sob ameaça? A Santa Sé envia inquérito aos Bispos



Poderá o motu proprio Summorum Pontificum, que reconheceu os direitos e a continuidade do Rito Latino Tradicional, estar ameaçado?         

Quando o motu proprio foi publicado pela primeira vez, houve um período de consultas de três anos. Foi definido pelo Papa Bento XVI, na sua carta aos bispos: «Além disso, convido-vos, amados Irmãos, a elaborar para a Santa Sé um relatório sobre as vossas experiências, três anos depois da entrada em vigor deste Motu Proprio. Se verdadeiramente tiverem surgido sérias dificuldades, poder-se-á procurar meios para lhes dar remédio». Tal foi feito e o resultado foi a Instrução de 2011, positiva na generalidade.          

***

Estranhamente, agora – 13 anos após a publicação do Summorum –, quando se tornou parte permanente da vida da Igreja em muitos lugares do mundo, a Congregação para a Doutrina da Fé, agora responsável pelo Summorum, enviou um novo inquérito aos bispos sobre a aplicação do Summorum Pontificum, porque: «Sua Santidade, o Papa Francisco, deseja ser informado sobre a actual aplicação do documento acima mencionado».              

Poderá ser sinistro. As perguntas parecem neutras, mas, uma vez lidas cuidadosamente, podem indicar sérias consequências.            

Rorate recebeu cópias dos dois documentos que foram enviados e que, até então, eram desconhecidos pelos fiéis: a 7 de Março de 2020, a carta do Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé aos Presidentes das Conferências Episcopais, e as perguntas colocadas aos bispos no inquérito de Abril de 2020 – a data limite para respostas é 31 de Julho de 2020.                      

Segue-se a tradução dos documentos.

***

CONGREGAÇÃO
PARA A DOUTRINA
DA FÉ                     

Cidade do Vaticano
Palácio do Santo Ofício
07 de Março de 2020                                                                   
________
Prot. N02/2020-ED        


Excelência Reverendíssima,      

Treze anos após a publicação do Motu Proprio Summorum Pontificum, publicado pelo Papa Bento XVI, Sua Santidade, o Papa Francisco, deseja ser informado sobre a actual aplicação do documento acima mencionado.          

A esse respeito, esta Congregação, agora encarregada das competências da antiga Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, agradece-lhe que transmita o questionário anexo a todos os Bispos do seu país, para que o inquérito solicitado possa ser realizado nas suas respectivas dioceses. No final, agradecia que enviasse os resultados do inquérito para esta Congregação, até 31 de Julho de 2020.      

Agradecendo-lhe, antecipadamente, pela preciosa colaboração, aproveito a oportunidade para assegurar a minha profunda estima.   


Sou, de Vossa Excelência, muito dedicado, 

Luis F. Card. Ladaria, SJ
Prefeito

(Com anexos)

_____________________
Para os Presidentes das
Conferências Episcopais
***
Página 1
Página 2

CONGREGATIO PRO DOCTRINA FIDE

Consulta aos Bispos sobre a aplicação
do motu proprio
summorum pontificum
(Abril de 2020)

Diocese:       

Ordinário:

1. Qual é, na sua diocese, a situação em relação à forma extraordinária do Rito Romano?        

2. Se a forma extraordinária é aí praticada, essa responde a uma verdadeira necessidade pastoral ou é promovida por um único sacerdote?           

3. Na sua opinião, há aspectos positivos ou negativos no uso da forma extraordinária? 

4. As normas e as condições estabelecidas pelo Summorum Pontificum são respeitadas?

5. Ocorre-lhe que, na sua diocese, a forma ordinária tenha adoptado elementos da forma extraordinária?     

6. Para a celebração da Missa, usa o Missal promulgado, pelo Papa João XXIII, em 1962?         

7. Para além da celebração da Missa na forma extraordinária, existem outras celebrações (por exemplo, Baptismo, Confirmação, Matrimónio, Penitência, Unção dos enfermos, Ordenação, Ofício Divino, Tríduo Pascal, ritos fúnebres) de acordo com os livros litúrgicos anteriores ao Concílio Vaticano II?                  

8. O motu proprio Summorum Pontificum influenciou a vida dos seminários (o seminário da diocese) e de outras casas de formação?      

9. Treze anos após o motu proprio Summorum Pontificum, qual é a sua opinião sobre a forma extraordinária do Rito Romano?       

Através de Rorate C
æli.