sexta-feira, 27 de março de 2020

Quando a morte bate mais alto



A nossa “irmã morte corporal”, através do coronavírus, está a levar consigo dezenas de sacerdotes em Itália. Bergamo, a cidade que vê as vítimas do COVID-19 serem transportadas por veículos militares até à cremação, também é a mais afectada neste sentido. A maioria deles foram infectados por estarem perto dos doentes e abençoarem as urnas… São todos padres, como as outras almas, que não têm e não terão funeral porque a epidemia o impede.    

As fronteiras das nações estão fechadas por razões imprescindíveis. Erguem-se muros para conter a pandemia. As pessoas são forçadas a permanecer fechadas em casa, a distanciar-se, a isolar-se, a fazer sacrifícios, enquanto que o sofrimento preenche as vidas e os hospitais e o luto impede de cantarolar, como alguns, em vez e sem sentido, fazem. Os moribundos morrem sozinhos, sem o conforto dos Sacramentos, sem a presença dos próprios entes queridos... E retorna a seriedade da vida e da morte. A morte existe e, hoje, não pode ser deixada de lado, como procura fazer falaciosamente a cultura da morte contemporânea também através da eutanásia e do aborto.    

Procura-se insistir no facto de que estatisticamente morrem de coronavírus principalmente os idosos e os mais frágeis de saúde, um dado que é aceite quase como que consolador… mas a verdade é que todas estas mortes ocorreram devido ao coronavírus, e não por causa das anteriores patologias, e os idosos são tão pessoas quanto os outros, tal como os inocentes mortos nos úteros maternos. Todavia, no mundo “avançado” e moderno, idosos e crianças são, de facto, seres pesados e dispendiosos para um Ocidente ateu e materialista.                      

Quando a morte bate mais alto, como nesta pandemia, a vida assume outro valor. O Papa e os bispos estão a recorrer correctamente às invocações e às orações, mas ainda não estão a falar de acordo com os termos consonantes com a catolicidade, isto é, não estão a apelar aos fiéis para a conversão e para o arrependimento dos próprios pecados. Jesus venceu a morte vencendo o mundo e fê-lo através da Cruz. O Homem, quando segue a Cristo, vence o mundo e a si mesmo somente através da conversão ao único Salvador, sujeitando-se humildemente não às leis estatais, mas às de Deus Uno e Trino.

O massacre dos inocentes, pelas mãos das suas mães e dos médicos, com a “maldição” das leis estatais, não pode atrair as bênçãos de Deus. O sangue derramado tem um preço a pagar: é a balança misericordiosa da Justiça de Deus. «O Senhor é obreiro da justiça, defende o direito a todos os oprimidos» (Sl 103 [102]) e, lento para a ira, continua, no Céu e nos Tabernáculos, perto de quem O teme. Há sacerdotes que celebram Santas Missas pelo sangue derramado por estes santos inocentes, mortos e esquecidos pelos homens, mas não pelo seu Criador. Embora sejam poucos os sacerdotes esclarecidos neste sentido, tais Santas Missas têm um valor infinito em virtude do Sacrifício de Cristo no altar.          

Escreveu Santa Hildegarda de Bingen: «Como o fogo é silencioso antes de ser incendiado por um sopro de ar, pois com a ajuda do ar inflama-se, também a obra de Deus na Sua providência é silenciosa antes de se manifestar» (E. Gronau, Hildegard. Vita di una donna profetica alle origini dell’età moderna, Àncora, Milão 1996, p. 44). Agora, o Senhor está-se a manifestar do modo que Nossa Senhora, em Fátima e em La Salette, anunciou. Este tempo de Quaresma forçada para todos é um tempo propício para repensar a própria vida e é um tempo precioso de conversão. «“Em verdade, em verdade te digo: Quem não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus”. Disse-Lhe Nicodemos: «Como pode nascer um homem sendo velho? Poderá entrar segunda vez no seio de sua mãe e voltar a nascer?”. Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade te digo: Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus”» (Jo 3, 3-5).           

Nada de divertimentos, nem bares, pubs, restaurantes, night club, nada de movida, ginásios, centros de beleza e de bem-estar, nada de corridas e passeios de bicicleta... mas com as forças da lei e o exército para impedir qualquer movimento que não seja de sobrevivência. Ao mesmo tempo, nada de Eucaristia. Sagrado e profano calam-se. Os pecados do mundo e da Igreja, tal como um tsunami, repropuseram esmagadoramente as pandemias que se pensava terem sido varridas da face da terra. Mas a Providência trabalha com os seus instrumentos e também nos faz sentir a falta do alimento para as almas. Santa Jacinta de Fátima, que se fez alma-hóstia e morreu por causa da pandemia de há cem anos, a Espanhola, faleceu sem os seus familiares e sem a Sagrada Comunhão… precisamente ela que, com o irmão e a prima, a tinha recebido do Anjo de Portugal. 

Aos trinta anos, a Beata Juliana de Norwich (1342-1416), mística inglesa, teve uma série de visões que, vinte anos depois, foram transcritas na obra As Revelações do Amor Divino. No manuscrito lê-se que uma certa revelação «foi feita a uma criatura simples e iletrada enquanto ainda vivia na sua carne mortal, no ano de Nosso Senhor 1373, a 13 de Maio». E entre as visões estava aquela em que está inserida a frase que se tornou, em Itália, o lema para a epidemia em curso: «Vai ficar tudo bem». D. Mauro Maria Morfino, SDB, bispo de Alghero-Bosa, explicou o acontecimento místico da seguinte forma: «Depois de uma longa experiência de visões que Juliana tem da Paixão do Senhor, Juliana explica que, com extrema doçura, o Senhor diz estas palavras: “Sim, o pecado é uma grande tragédia porque vos faz um mal incrível” e, acrescenta Juliana, com infinita ternura o Senhor disse-me: “Mas vai ficar tudo bem, terminará tudo bem”. Se pensamos que esta expressão, que aparece em todas as nossas cornijas, em todos os terraços e com todos os tons e cores, vem realmente do Senhor, então isso deve consolar-nos».           

Cristina Siccardi


Através de Corrispondenza Romana.

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