sábado, 28 de março de 2020

O rito da Sagrada Comunhão em tempos de epidemia



Ninguém pode nos obrigar a receber o corpo de Cristo de uma maneira em que exista o risco de se perderem partículas ou seja minada a reverência, como acontece quando se recebe a Comunhão na mão. Embora seja verdade que se possa receber directamente com a boca sobre um pequeno e limpo pano branco (um purificador ou um corporal de pequenas dimensões), isto nem sempre é viável e há até sacerdotes que se recusam a fazê-lo.          

Nesses casos, o melhor é fazer uma comunhão espiritual, que enche a alma de graças especiais. Durante as épocas de perseguição, muitos católicos não puderam receber a Sagrada Comunhão sacramentalmente por períodos muito prolongados, mas faziam comunhões espirituais que lhes traziam muitos benefícios espirituais.           

Não é mais higiénico comungar na mão do que na boca. A verdade é que isso pode aumentar o risco de contágio. Do ponto de vista da higiene, a mão contém grandes quantidades de bactérias. As mãos transmitem numerosos agentes patogénicos. Seja a apertar a mão a alguém, a tocar constantemente em diversos objectos, como em maçanetas ou puxadores de portas, ou a apoiar-se no autocarro ou no metro, os micróbios passam facilmente de mão em mão e, depois, as pessoas passam frequentemente as mãos e os dedos sujos no nariz ou na boca. E não só. Às vezes, os micróbios podem sobreviver durante dias na superfície de objectos que foram tocados. De acordo com um estudo publicado, em 2006, no boletim BMC Infectious Diseases, os vírus da gripe e outros semelhantes podem sobreviver durante vários dias em superfícies como portas, grades ou barras dos transportes públicos.           

Muitos fiéis que vão à igreja e recebem a Comunhão na mão já tocaram nas maçanetas das portas ou agarraram-se à barra no transporte público ou ao corrimão de uma escada. Levam o vírus na palma da mão e nos dedos e, durante a Missa, levam essas mesmas mãos ao nariz ou à boca. Com essas mãos e dedos contaminados, tocam na Hóstia Consagrada, passando o vírus para a Hóstia, e, de seguida, os dedos e a Hóstia passam o vírus para a boca.      

Sem dúvida alguma, comungar na boca é menos arriscado e mais higiénico do que fazê-lo com a mão. Para além disso, se não se lavarem bem, a palma da mão e os dedos acumulam muitos micróbios.   

Proibir a Comunhão na boca é algo infundado em comparação com os sérios riscos para a saúde que comporta fazê-lo com a mão em tempos de pandemia. Tais proibições constituem um abuso de autoridade. E não só. Dá a impressão de que algumas autoridades eclesiásticas se aproveitam da epidemia como pretexto. Parece também que alguns se regozijam cinicamente em estender ainda mais o processo de banalização e dessacralização do Santíssimo Corpo de Cristo no sacramento eucarístico, colocando o Corpo do próprio Senhor em risco de graves desrespeitos (perda de partículas) e sacrilégios (roubo de Hóstias Consagradas).          

Há que ter em conta que, ao longo dos 2000 anos de história da Igreja, não houve nenhum caso documentado de contágio por se receber a Sagrada Comunhão. Na Igreja Bizantina, o sacerdote dá a Comunhão aos fiéis com uma colher que é usada para todos. Após a comunhão, o sacerdote ou diácono bebe a água ou o vinho com que purificou a colher, a qual tocou na língua de alguns fiéis enquanto comungavam. Muitos fiéis das Igrejas de Rito Oriental estão escandalizados com a falta de fé dos bispos e sacerdote do Rito Latino quando não permitem a Comunhão na boca; proibição que, no fundo, obedece à falta de fé no carácter divino e sagrado do Corpo e do Sangue de Cristo-Eucaristia.              

Se a Igreja do nosso tempo não se voltar a esforçar com o máximo empenho por estimular a fé, a reverência e as medidas de protecção para o Corpo de Cristo, qualquer medida de protecção para os fiéis será em vão. Se a Igreja actual não se converter e voltar a Cristo, concedendo a primazia a Jesus, e em concreto a Jesus-Eucaristia, Deus demonstrará a veracidade das Suas palavras: «Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os construtores. Se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigiam as sentinelas» (Sl 127 [126], 1).   

Recomendamos a seguinte oração para fazer a comunhão espiritual:

«Prostro-me aos Vossos pés, meu Jesus, e ofereço-Vos o arrependimento do meu coração contrito, dobrado no seu nada e diante da Vossa sagrada presença. Adoro-Vos no sacramento do Vosso amor, a inefável Eucaristia. Desejo receber-Vos na humilde morada que Vos oferece o meu coração. Enquanto espero a dita da Comunhão sacramental, desejo receber-Vos espiritualmente. Vinde a mim, meu Jesus, porque a Vos me dirijo! O Vosso amor abrace o meu coração na vida e na morte. Creio em Vós, espero em Vós e amo-Vos. Amém».                           

Athanasius Schneider      
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Maria Santíssima, em Astana


Uma tradução de Dies Iræ.

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