quinta-feira, 26 de março de 2020

O “cisne-negro” de 2020?



O cisne-negro (Cygnus atratus) é uma ave rara, originária da Austrália, que assume tal nome pela cor da sua plumagem. Nassim Nicholas Taleb, um analista financeiro, ex-trader em Wall Street, no seu livro O cisne-negro (The Black Swan: The Impact of the Highly Improbable, Random House, New York 2007), escolheu esta metáfora para explicar a existência de acontecimentos inesperados e catastróficos que podem perturbar a vida da comunidade.        

O coronavírus é “o cisne-negro” de 2020, escreve Marta Dassù, do Aspen Institute, explicando que a epidemia está a colocar em crise a actividade económica das nações ocidentais e «demonstra a fragilidade das cadeias produtivas globais; quando um choque atinge um dos anéis, o impacto torna-se sistémico» (Aspenia, 88 (2020), p. 9). «A segunda pandemia está a chegar – escreve Federico Rampini no la Repubblica de 22 de Março –, é também necessário enfrentá-la e curá-la. Chama-se Grande Depressão e terá um número de mortes paralelo ao do vírus. Na América já ninguém utiliza o termo recessão porque é muito brando».                 

A economia de rede do mundo revela-se um sistema precário, mas o impacto do coronavírus não é apenas económico e sanitário, é também religioso e ideológico. A utopia da globalização, que até Setembro de 2019 parecia triunfar, sofreu uma irremediável débacle. A 12 de Setembro, o Papa Francisco convidou os líderes das principais religiões, bem como os expoentes internacionais do mundo económico, político e cultural, a participarem num evento solene que decorreria, a 14 de Maio de 2020, no Vaticano: o Glocal Compact on Education, o pacto educativo global. Nos mesmos dias, a “profetisa” da ecologia profunda, Greta Thunberg, chegava a Nova Iorque para o Climate Change Summit 2019 da ONU e a ela e aos participantes do encontro, o Papa Francisco, na véspera do Sínodo da Amazônia, enviava uma mensagem de vídeo para manifestar a sua total consonância com os objectivos globalistas. A 21 de Janeiro de 2020, o Papa enviou uma mensagem a Klaus Schwab, presidente executivo do World Economic Forum (WEF), em Davos, a enfatizar a importância de uma “ecologia integral” que tenha em consideração «a complexidade e a interconexão da nossa casa comum». Mas um misterioso vírus já começava a infligir um golpe fatal na “aldeia global”.    

Alguns meses depois, deparamo-nos com uma situação absolutamente inédita. Greta é esquecida, o Sínodo da Amazónia fracassou, os líderes políticos mundiais revelam a sua incapacidade para lidar com a emergência, o Global Compact explodiu, a Praça de São Pedro, centro espiritual do mundo, está vazia. As autoridades eclesiásticas conformam-se e, às vezes, antecipam os decretos restritivos das autoridades civis que proíbem as missas e as diversas cerimónias religiosas. O acontecimento mais simbólico e paradoxal é talvez o encerramento do Santuário de Lourdes, lugar por excelência de cura física e espiritual, que fecha as portas com medo de que alguém fique doente quando for rezar a Deus pela sua saúde. É tudo uma manobra? Estamos diante de um poder totalitário que restringe as liberdades dos cidadãos e persegue os cristãos?      

É estranha, no entanto, uma perseguição em que parece ausente qualquer forma heróica de resistência, até ao martírio dos perseguidos, ao contrário do que aconteceu em todas as grandes perseguições na história. Não se deve, na realidade, deve falar de perseguição anti-cristã, mas de “auto-perseguição” por parte dos homens da Igreja que, fechando as igrejas e suspendendo as missas, parecem trazer à última consistência um processo de auto-demolição que começou na década de 1960 com o Concílio Vaticano II. E, infelizmente, com apenas algumas exceções, também o clero tradicionalista, que se tranca nas suas casas, parece ser vítima dessa auto-perseguição.

É comovente a onda de generosidade com que, em Itália, 8000 médicos responderam ao apelo do governo que pedia 300 voluntários para os hospitais da Lombardia. Quão edificante seria um apelo aos sacerdotes, por parte do Presidente da Conferência Episcopal, para não permitirem que faltem aos fiéis os sacramentos nas igrejas, nas casas, nos hospitais! Muitos convidam a rezar, mas quem é que recorda a possibilidade de se estar no início de um grande castigo? No entanto, esta é a profecia de Fátima, recordada por muitos, em 2017, no centésimo aniversário. No dia 25 de Março, o cardeal António Augusto dos Santos Marto, bispo de Leiria-Fátima, renovou a cerimónia de consagração ao Imaculado Coração de Maria de toda a Península Ibérica. É certamente um acto meritório, mas Nossa Senhora pediu algo mais: a consagração específica da Rússia, feita pelo Papa, em união com todos os bispos do mundo. Este é o acto, até agora por realizar, que todos aguardam antes que seja tarde demais.  

Em Fátima, Nossa Senhora anunciou que, se o mundo não se converter, várias nações serão aniquiladas. Quais serão essas nações? E qual será o modo de aniquilação? O que é certo é que o principal castigo não é a destruição dos corpos, mas o escurecimento das almas. Lemos na Sagrada Escritura que «por onde cada um peca, por aí será atormentado» (Sab 11, 16). O mesmo pensamento pagão, pela boca de Séneca, recorda-nos que «o castigo do crime está no próprio crime» (Della fortuna, parte II, cap. 3).

O castigo começa quando se perde a ideia de um Deus justo e recompensador, a fim de se confiar na falsa imagem de um Deus que, como disse o Papa Francisco, «não permite as tragédias para punir as culpas» (Angelus, 28 de Fevereiro de 2016). «Quantas vezes pensamos que Deus é bom se formos bons; e castiga-nos se formos maus; mas não é assim», reiterou Francisco na Missa de Natal de 25 de Dezembro de 2019. No entanto, mesmo o “Papa bom”, João XXIII, recordava que «o homem que semeia culpa, colhe o castigo. O castigo de Deus é a resposta d’Ele aos pecados dos homens»; portanto, «Ele (Jesus) diz-vos para fugirdes do pecado, a principal causa dos grandes castigos» (Radiomensagem de 28 de Dezembro de 1958).        

Eliminar a ideia do castigo não significa evitá-lo. O castigo é a consequência do pecado e somente a contrição e a penitência dos próprios pecados podem evitar a pena que esses pecados inevitavelmente trazem por violarem a ordem do universo. Quando os pecados são colectivos, os castigos são colectivos. Porquê admirar-se com a morte que atinge um povo, quando os governos estão manchados de leis assassinas, como o aborto, e durante a epidemia o massacre continua a ter um caminho preferencial, como na Grã-Bretanha, onde o governo autorizou o aborto “em casa” para não parar a carnificina durante o coronavírus! E quando, em vez dos corpos, as almas são afectadas, como será de admirar que a perda da fé seja o castigo para os responsáveis? Recusar-se a ver a mão de Deus por trás das grandes catástrofes da história é um sintoma dessa falta de fé.  

O castigo colectivo surge repentinamente, como um “cisne-negro” que aparece improvisamente sobre as águas. Esta visão desconcerta-nos e não sabemos explicar de onde vem e o que anuncia. O homem é incapaz de prever os “cisnes-negros” que, de um dia para o outro, perturbam a sua vida. Mas estes acontecimentos não são fruto do acaso, como acreditam o senhor Taleb e todos aqueles que analisam os acontecimentos numa perspectiva humana e secularista, esquecendo que o acaso não existe e que as manobras dos homens estão sempre sujeitas à vontade de Deus. Tudo depende de Deus e Deus vai até ao fim quando inicia a sua obra. «Mas quando Ele toma uma decisão, quem O dissuadirá? Ele faz o que bem lhe agrada» (Jo 23, 13).       

Roberto de Mattei


Através de Corrispondenza Romana.

1 comentário:

«Tudo me é permitido, mas nem tudo é conveniente» (cf. 1Cor 6, 12).
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