terça-feira, 31 de março de 2020

A pandemia do coronavírus e a Igreja – Entrevista a D. Athanasius Schneider



O Dies Irae publica, em exclusivo para Língua Portuguesa, uma entrevista do Bispo Athanasius Schneider.


Diane Montagna: Excelência, qual é a sua impressão geral sobre o modo como a Igreja está a lidar com a epidemia do coronavírus?     
Bispo Schneider:
A minha impressão geral é que a maioria dos bispos reagiu precipitadamente e por pânico ao proibir todas as Missas públicas e – ainda mais incompreensível – ao fechar as igrejas. Esses bispos reagiram mais como burocratas civis do que como pastores. Ao concentrarem-se exclusivamente em todas as medidas de proteção higiénica, perderam uma visão sobrenatural e abandonaram a primazia do bem eterno das almas.          

A diocese de Roma suspendeu rapidamente todas as Missas públicas para cumprir as directrizes do governo. Os bispos de todo o mundo adoptaram acções semelhantes. Os bispos polacos, por outro lado, pediram que fossem celebradas mais Missas, para que a participação fosse menor (por cada Missa, n. d. r.). Qual é a sua opinião sobre a decisão de suspender as Missas públicas para prevenir a difusão do coronavírus?    
Enquanto os supermercados estiverem abertos e acessíveis e enquanto as pessoas tiverem acesso aos transportes públicos, não há um motivo plausível para proibir as pessoas de assistirem à Santa Missa numa igreja. Poderiam garantir-se nas igrejas as mesmas e até melhores medidas de protecção higiénica. Por exemplo, antes de cada Missa poderiam desinfectar-se os bancos e as portas e as pessoas que entram na igreja poderiam desinfectar as mãos. Também se poderiam adoptar outras medidas semelhantes. Poderia limitar-se o número de participantes e aumentar a frequência da celebração da Missa. Temos um exemplo inspirador de uma visão sobrenatural em tempos de epidemia no presidente da Tanzânia, John Magufuli. O presidente Magufuli, que é um católico praticante, disse, no dia 22 de Março de 2020, Domingo Laetare, na Catedral de São Paulo, na capital tanzaniana de Dodoma: «Insisto convosco, meus irmãos cristãos e também muçulmanos: não tenhais medo, não deixeis de vos reunir para glorificar a Deus e louvá-Lo. Por isso, como governo, não fechámos igrejas ou mesquitas. Deveriam, em vez disso, estar sempre estar abertas ao povo para procurar refúgio em Deus. As igrejas são lugares onde as pessoas podem procurar a verdadeira cura, porque é lá que reside o Verdadeiro Deus. Não tenhais medo de louvar e de procurar o rosto de Deus na igreja».                 

Referindo-se à Eucaristia, o Presidente Magufuli também pronunciou estas encorajadoras palavras: «O coronavírus não pode sobreviver no corpo eucarístico de Cristo; em breve será queimado. Precisamente por isto, não entrei em pânico ao receber a Sagrada Comunhão, porque sabia que com Jesus na Eucaristia estava a salvo. Este é o momento de construir a nossa fé em Deus».          

Considera ser responsável que um sacerdote celebre uma Missa privada com poucos fiéis leigos presentes, tomando as necessárias precauções sanitárias?      
É responsável, e também meritório, e seria um autêntico acto pastoral, desde que, naturalmente, o sacerdote tome as necessárias precauções sanitárias.         

Os sacerdotes, perante esta situação, encontram-se numa posição difícil. Alguns bons sacerdotes são criticados por obedecerem às directrizes do seu bispo para suspenderem as Missas públicas (enquanto continuam a celebrar uma Missa privada). Outros procuram maneiras criativas para ouvir as confissões, procurando salvaguardar a saúde das pessoas. Que conselho daria aos sacerdotes para viverem a sua vocação nestes tempos?                    
Os sacerdotes devem recordar-se que são, antes de tudo e sobretudo, pastores de almas imortais. Devem imitar Cristo, que disse: «Eu sou o Bom Pastor: o bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas. Mas o mercenário, que não é pastor, de quem não são as ovelhas, vê vir o lobo, deixa as ovelhas e foge, enquanto o lobo as arrebata e dispersa, porque é mercenário e não se importa das ovelhas. Eu sou o Bom Pastor: conheço as Minhas ovelhas e as Minhas ovelhas conhecem-Me» (Jo 10, 11-14). Se um sacerdote observa razoavelmente todas as precauções sanitárias necessárias e for discreto, não deve obedecer às directrizes do seu bispo ou do governo para suspender a Missa pelos fiéis. Tais directrizes são uma pura lei humana; no entanto, a lei suprema na Igreja é a salvação das almas. Os sacerdotes em tal situação devem ser extremamente criativos para permitirem aos fiéis, mesmo que para um pequeno grupo, a assistência à Santa Missa e o acesso aos sacramentos. Era este o comportamento pastoral de todos os sacerdotes confessores e mártires no tempo das perseguições.        

A afronta à autoridade, em particular à autoridade eclesial, por parte dos sacerdotes, será alguma vez legítima (por exemplo, se um sacerdote é advertido para não visitar os doentes e os moribundos)?   
Se um sacerdote é proibido, por uma autoridade eclesial, de visitar os doentes e os moribundos, não pode obedecer. Tal proibição é um abuso de poder. Cristo não deu ao bispo o poder de proibir um sacerdote de visitar os doentes e os moribundos. Um verdadeiro sacerdote fará todo o possível para visitar um moribundo. Muitos sacerdotes fizeram isso mesmo quando tal significava pôr em risco a própria vida, seja em caso de perseguição ou de epidemia. Temos muitos exemplos de tais sacerdotes na história da Igreja. São Carlos Borromeu, por exemplo, deu a Sagrada Comunhão, com as próprias mãos, na língua dos moribundos contagiados pela praga. Nos nossos dias temos o exemplo comovente e edificante de sacerdotes, especialmente da região de Bérgamo, no Norte de Itália, que foram infectados e morreram porque assistiram os pacientes que estavam a morrer com coronavírus. Um sacerdote de setenta e dois anos, que sofria de coronavírus, morreu há alguns dias, em Itália, depois de abdicar do ventilador, de que precisava para sobreviver, e permitir que fosse utilizado por um paciente mais jovem. Não visitar os doentes e moribundos é o comportamento mais de um mercenário do que de bom pastor.         

Os seus primeiros anos foram passados na igreja clandestina soviética. Que ideia ou perspectiva gostaria de partilhar com os fiéis leigos que não podem assistir à Missa e, em alguns casos, nem sequer podem passar algum tempo diante do Santíssimo Sacramento porque todas as igrejas da sua diocese foram fechadas?
Gostaria de encorajar os fiéis a fazerem frequentes actos de comunhão espiritual. Podem ler e contemplar as leituras diárias da Missa e todo o ordinário da Missa. Podem enviar o seu Anjo da Guarda a adorar Jesus Cristo no tabernáculo em seu favor. Podem unir-se espiritualmente a todos os cristãos que estão na prisão pela sua fé, a todos os cristãos doentes e acamados, a todos os cristãos moribundos que são privados dos sacramentos. Deus preencherá este tempo de privação temporária da Santa Missa e do Santíssimo Sacramento com muitas graças.          

O Vaticano anunciou recentemente que as celebrações da Páscoa serão realizadas sem a presença de fiéis. Posteriormente foi dito que estão a estudar “métodos de implementação e participação que respeitem as medidas de segurança adoptadas para impedir a disseminação do coronavírus”. Qual é a sua opinião sobre esta decisão?
Dada a severa proibição de ajuntamentos relacionados com a Missa por parte das autoridades do governo italiano, pode-se entender que o Papa não possa celebrar as liturgias da Semana Santa com a presença de um grande número de fiéis. Penso que as liturgias da Semana Santa poderiam ser celebradas pelo Papa, com toda a dignidade e sem abreviações, por exemplo na Capela Sistina (como era costume dos papas antes do Concílio Vaticano II), com a participação do clero (cardeais, sacerdotes) e um grupo de fiéis, aos quais fossem previamente aplicadas as medidas higiénicas de protecção. Não tem lógica proibir a bênção do fogo, a bênção da água e o baptismo na Vigília Pascal, como se estas acções disseminassem um vírus. Um medo quase patológico superou a razão comum e uma visão sobrenatural.            

Excelência, o que é que a gestão, por parte da Igreja, da epidemia do coronavírus, está a revelar sobre o estado da Igreja e, em particular, da hierarquia?         
Está a revelar a perda da visão sobrenatural. Nas últimas décadas, muitos membros da hierarquia da Igreja foram imersos principalmente em questões seculares, internas e temporais, tornando-se, assim, cegos para as realidades sobrenaturais e eternas. Os seus olhos foram enchidos do pó das ocupações terrenas, como disse São Gregório Magno (cf. Regula pastoralis II, 7). A sua recção ao lidar com a epidemia do coronavírus revelou que dão mais importância ao corpo mortal do que à alma imortal dos homens, esquecendo as palavras de Nosso Senhor: «Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?» (Mc 8, 36). Os mesmos bispos que agora tentam proteger (às vezes com medidas desproporcionais) os corpos dos seus fiéis da contaminação por um vírus material, permitiram tranquilamente que o vírus venenoso dos ensinamentos e das práticas heréticas se espalhassem no seu rebanho.                     

O Cardeal Vincent Nichols disse recentemente que teremos uma nova fome de Eucaristia quando passar a epidemia do coronavírus? Concorda?         
Espero que essas palavras se revelem verdadeiras entre muitos católicos. É uma experiência humana comum que a privação prolongada de uma realidade importante inflame os corações das pessoas que a desejam. É claro que isso se aplica àqueles que realmente acreditam e amam verdadeiramente a Eucaristia. Essa experiência também ajuda a reflectir mais profundamente sobre o significado e sobre o valor da Santa Eucaristia. Talvez aqueles católicos que estavam tão habituados ao Santo dos Santos, a ponto de considerá-lo algo comum, experimentem uma conversão espiritual e compreendam e tratem a Santa Eucaristia como extraordinária e sublime.      

No domingo, 15 de Março, o Papa Francisco foi rezar diante da imagem da Salus Populo Romani, em Santa Maria Maior, e diante do Crucifixo Milagroso da Igreja de São Marcelo. Considera importante que bispos e cardeais realizem actos semelhantes de oração pública pelo fim do coronavírus?    
O exemplo do Papa Francisco pode encorajar muitos bispos a actos semelhantes de testemunho público de fé e de oração e a sinais concretos de penitência que implorem a Deus que ponha termo à epidemia. Poder-se-ia recomendar aos bispos e aos sacerdotes que percorressem regularmente as suas cidades, vilas e aldeias com o Santíssimo Sacramento no ostensório, acompanhados por um pequeno número de clérigos ou fiéis (um, dois ou três), de acordo com os regulamentos do governo. Tais procissões com o Senhor Eucarístico transmitiriam aos fiéis e aos cidadãos o consolo e a alegria de não estarem sozinhos em tempos de tribulação, que o Senhor está verdadeiramente com eles, que a Igreja é uma mãe que não esqueceu nem abandonou os seus filhos. Poder-se-ia lançar uma cadeia mundial de ostensórios que levem o Senhor Eucarístico pelas ruas deste mundo. Estas pequenas procissões eucarísticas, mesmo se realizadas apenas por um bispo ou por um sacerdote, implorariam graças de cura física e espiritual e de conversão. 

O coronavírus eclodiu na China não muito tempo depois do Sínodo da Amazónia. Alguns media acreditam firmemente que esteja seja uma punição divina pelos acontecimentos da Pachamama no Vaticano. Outros acreditam que seja um castigo divino pelo acordo Vaticano-China. Considera que alguma destas duas posições é válida?       
A epidemia do coronavírus, na minha opinião, é, sem dúvida, uma intervenção divina para castigar e purificar o mundo pecaminoso e também a Igreja. Não devemos esquecer que Nosso Senhor Jesus Cristo considerava as catástrofes físicas como castigos divinos. Lemos, por exemplo: «Nessa ocasião, apareceram alguns a falar-Lhe dos galileus cujo sangue Pilatos havia misturado com o dos sacrifícios que eles ofereciam. Respondeu-lhes: “Julgais que esses galileus eram maiores pecadores que todos os outros galileus por terem assim sofrido? Não, digo-vo-lo Eu; mas, se não vos arrependerdes, perecereis todos igualmente. E aqueles dezoito sobre os quais caiu a torre de Siloé, e os matou, eram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém? Não, Eu vo-lo digo; mas, se não vos arrependerdes, perecereis todos do mesmo modo”» (Lc 13, 1-5).  

A culto ao ídolo pagão da Pachamama dentro do Vaticano, com a aprovação do Papa, foi certamente um grande pecado de infidelidade ao Primeiro Mandamento do Decálogo, foi uma abominação. Qualquer tentativa de minimizar este acto de veneração não pode resistir à enxurrada de provas e razões evidentes. Penso que tais actos de idolatria foram o culminar de uma série de outros actos de infidelidade à salvaguarda do depósito divino da Fé por parte de muitos membros da hierarquia da Igreja nas últimas décadas. Não tenho a certeza absoluta de que o surto do coronavírus seja um castigo divino pelos acontecimentos da Pachamama no Vaticano, mas considerar tal possibilidade não seria exagerado. Já no início da Igreja, Cristo censurou os bispos (“anjos”) das igrejas de Pérgamo e Tiatira pela sua conivência com a idolatria e o adultério. A figura de “Jesabel”, que seduziu a Igreja à idolatria e ao adultério (cf. Ap 2, 20), também pode ser entendida como um símbolo do mundo de hoje – com o qual muitos líderes da Igreja de hoje se deixam bajular.         

As seguintes palavras de Cristo permanecem válidas também para o nosso tempo: «Vou prendê-la a um leito de dor, e virá uma grande tribulação sobre os que adulteraram com ela, se não se arrependerem das suas obras, ferirei de morte os seus filhos, e todas as Igrejas saberão que sou Aquele que sonda os rins e os corações; darei a cada um de vós segundo as suas obras» (Ap 2, 22-23). Cristo ameaçou com o castigo e chamou as igrejas à penitência: «Mas tenho contra ti algumas poucas coisas: tens aí os que seguem a doutrina de Balaão, que ensinava Balac a colocar tropeços diante dos filhos de Israel, para que comessem dos sacrifícios da idolatria e se entregassem à impureza. Também tens os que seguem a doutrina dos nicolaítas. Arrepende-te, pois, se não, virei brevemente combater contra eles com a espada da Minha boca» (Ap 2, 14-16). Estou convencido de que Cristo repetirá as mesmas palavras ao Papa Francisco e aos outros bispos que permitiram a veneração idólatra da Pachamama e que aprovaram implicitamente relações sexuais fora de um matrimónio válido, permitindo que os chamados “divorciados recasados” que são sexualmente activos possam receber a Sagrada Comunhão. 

Citou os Evangelhos e o Livro do Apocalipse. A maneira como Deus tratou o Seu povo eleito no Antigo Testamento dá-nos uma ideia da situação actual?        
A epidemia do coronavírus causou uma situação dentro da Igreja que, pelo que sei, é única, ou seja, uma proibição quase mundial de todas as Missas públicas. Isto é parcialmente análogo à proibição do culto cristão em quase todo o Império Romano nos três primeiros séculos. A situação actual é, no entanto, sem precedentes, porque no nosso caso a proibição do culto público foi emitida pelos bispos católicos e até mesmo antes dos respectivos mandatos governativos.          

De certa forma, a situação actual também pode ser comparada ao fim do culto sacrificial do Templo de Jerusalém durante o cativeiro babilónico do Povo escolhido de Deus. Na Bíblia, o castigo divino era considerado como uma graça, por exemplo: «Feliz o homem a quem Deus corrige! Não desprezes a lição do Todo-Poderoso. Ele é Quem faz a ferida e Quem a sara; fere e cura com as Suas mãos» (Job 5, 17-18) e «Eu repreendo e castigo aos que amo; sê, pois, zeloso e arrepende-te» (Ap 3, 19). A única reacção adequada às tribulações, às catástrofes, às epidemias e a situações semelhantes – que são instrumentos nas mãos da Divina Providência para despertar os homens do sono do pecado e da indiferença aos mandamentos de Deus e à vida eterna – é a penitência e a sincera conversão a Deus. Na seguinte oração, o profeta Daniel dá aos fiéis de todos os tempos um exemplo da verdadeira mentalidade que deveriam ter e como deveriam comportar-se e rezar em tempos de tribulação: “Todo o Israel transgrediu Vossa lei e se voltou para o outro lado, a fim de não ouvir a Vossa voz. Por isso a maldição e a imprecação que constam da lei de Moisés, servo de Deus, foram difundidas sobre nós, visto que pecámos contra Ele. […] Ó meu Deus, prestai atenção e ouvi-nos; abri os olhos para verdes as nossas ruínas e a cidade que tem um nome que vem de Vós! Não é por causa dos nossos actos de justiça que depomos a Vossos pés as nossas súplicas, mas em nome da Vossa grande misericórdia. Senhor, ouvi! Senhor, perdoai! Senhor, prestai atenção! Actuai! Pelo amor de Vós, ó meu Deus, não tardeis, porque foi o Vosso nome que foi dado à Vossa cidade e ao Vosso povo» (Dan 9, 11, 18-19).                 

São Roberto Belarmino escreveu: «Sinais seguros relativos à vinda do Anticristo... a maior e última perseguição, e também o sacrifício público (da Missa) cessará completamente» (A profecia de Daniel, páginas 37-38). Crê que aquilo a que se refere seja o que estamos a assistir agora? É o início do grande castigo profetizado no Livro do Apocalipse?                     
A situação actual fornece suficientes motivos razoáveis para pensar que estamos no início de um tempo apocalíptico, que inclui os castigos divinos. Nosso Senhor referia-se à profecia de Daniel: «Quando virdes, pois, a abominação da desolação, de que falou o profeta Daniel, instalada no lugar santo (quem lê, preste atenção!)» (Mt 24, 15). O Livro do Apocalipse diz que a Igreja terá que fugir para o deserto por algum tempo (cf. Ap 12, 14). A cessação quase geral do Sacrifício público da Missa poderia ser interpretada como uma fuga para um deserto espiritual. O que é deplorável na nossa situação é o facto de muitos membros da hierarquia da Igreja não verem a situação actual como uma tribulação, como um castigo divino, isto é, como uma “visita divina” no sentido bíblico. Estas palavras do Senhor também são aplicáveis
​​a muitos clérigos no meio da actual epidemia física e espiritual: «por não teres reconhecido o tempo em que foste visitada» (Lc 19, 44). A situação actual deste «fogo da provação» (cf. 1 Ped 4, 12) deve ser levada a sério pelo Papa e pelos bispos, a fim de provocar uma profunda conversão de toda a Igreja. Se isso não acontecer, a mensagem da seguinte história de Søren Kierkegaard também se aplicará à nossa situação actual: um incêndio deflagrou nos bastidores de um teatro. O palhaço apareceu para avisar o público, que pensou tratar-se de uma piada e aplaudiu. Ele repetiu e a aclamação foi ainda maior. Creio que o mundo terminará assim: com um aplauso geral do crente que crê ser uma piada.                      

Excelência, qual é o significado profundo de tudo isto?                    
A situação da suspensão pública da Santa Missa e da Comunhão sacramental é tão única e séria que por trás de tudo isto se pode encontrar um significado mais profundo. Este acontecimento ocorreu quase cinquenta anos depois da introdução da Comunhão na mão (em 1969) e de uma reforma radical do rito da Missa (em 1969/1970) com os seus elementos protestantes (orações de oferta) e o seu estilo de celebração horizontal e formativo (momentos de estilo livre, celebração em círculo fechado e voltada para o povo). A prática da Comunhão na mão durante os últimos cinquenta anos levou a uma profanação involuntária e intencional do Corpo Eucarístico de Cristo numa escala sem precedentes. Por mais de cinquenta anos, o Corpo de Cristo foi (principalmente involuntariamente) pisado pelos pés do clero e dos leigos nas igrejas católicas de todo o mundo. O roubo das Hóstias consagradas também aumentou a um ritmo alarmante. A prática de receber a Sagrada Comunhão directamente com as próprias mãos e dedos assemelha-se cada vez mais ao gesto de comer comida comum. Em não poucos católicos, a prática de receber a Comunhão na mão enfraqueceu a fé na Presença Real, na transubstanciação e no carácter divino e sublime da Hóstia consagrada. Com o tempo, a presença eucarística de Cristo tornou-se, inconscientemente, para esses fiéis, uma espécie de pão santo ou de símbolo. Agora, o Senhor interveio e privou quase todos os fiéis de assistir à Santa Missa e de receber sacramentalmente a Sagrada Comunhão.  

Os inocentes e os culpados suportam igualmente esta tribulação, porque no mistério da Igreja estão todos unidos como membros: «Deste modo, se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele» (1 Cor 12, 26). A actual cessação da Missa pública e da Comunhão pública poderia ser entendida pelo Papa e pelos bispos como uma censura divina pelos últimos cinquenta anos de profanações e banalizações eucarísticas e, ao mesmo tempo, como um apelo misericordioso para uma autêntica conversão eucarística de toda a Igreja. Que o Espírito Santo toque o coração do Papa e dos bispos e os encoraje a emitir normas litúrgicas concretas para que o culto eucarístico de toda a Igreja seja purificado e reorientado para o Senhor.        

Pode-se sugerir que o Papa, juntamente com os cardeais e os bispos, realize, em Roma, um acto público de reparação pelos pecados contra a Santa Eucaristia e pelo pecado dos actos de veneração religiosa às estátuas da Pachamama. Terminada a actual tribulação, o Papa deveria emitir normas litúrgicas concretas, nas quais convide toda a Igreja a voltar-se novamente para o Senhor na forma da celebração, ou seja, celebrante e fiéis voltados na mesma direcção durante a oração eucarística. O Papa também deveria proibir a prática da Comunhão na mão, porque a Igreja não pode continuar impune a tratar o Santo dos Santos na pequena Hóstia consagrada de maneira tão minimalista e insegura.        

A seguinte oração de Azarias na fornalha ardente, que cada sacerdote diz durante o rito do Ofertório da Missa, poderia inspirar o Papa e os bispos a tomarem acções concretas de reparação e de restauração da glória do sacrifício eucarístico e do Corpo eucarístico do Senhor: «Apesar disso, que a contrição do nosso coração e a humilhação do nosso espírito nos façam encontrar bom acolhimento junto de Vós, Senhor, como se trouxéssemos holocaustos de carneiros e de touros e de milhares de gordos cordeiros. Que tal seja hoje diante de Vós o nosso sacrifício; que possa ele reconciliar-vos convosco, pois que não têm que envergonhar-se aqueles que põem em Vós a sua confiança. É de todo o coração que agora Vos seguimos, que Vos veneramos, que procuramos a Vossa face. Não nos confundais; tratai-nos com a Vossa doçura habitual e com todas as riquezas de Vossa misericórdia. Livrai-nos pelos Vossos prodígios, Senhor» (Dan 3, 39-43, Septuaginta).          

1 comentário:

«Tudo me é permitido, mas nem tudo é conveniente» (cf. 1Cor 6, 12).
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