terça-feira, 31 de março de 2020

A pandemia do coronavírus e a Igreja – Entrevista a D. Athanasius Schneider



O Dies Irae publica, em exclusivo para Língua Portuguesa, uma entrevista do Bispo Athanasius Schneider.


Diane Montagna: Excelência, qual é a sua impressão geral sobre o modo como a Igreja está a lidar com a epidemia do coronavírus?     
Bispo Schneider:
A minha impressão geral é que a maioria dos bispos reagiu precipitadamente e por pânico ao proibir todas as Missas públicas e – ainda mais incompreensível – ao fechar as igrejas. Esses bispos reagiram mais como burocratas civis do que como pastores. Ao concentrarem-se exclusivamente em todas as medidas de proteção higiénica, perderam uma visão sobrenatural e abandonaram a primazia do bem eterno das almas.          

A diocese de Roma suspendeu rapidamente todas as Missas públicas para cumprir as directrizes do governo. Os bispos de todo o mundo adoptaram acções semelhantes. Os bispos polacos, por outro lado, pediram que fossem celebradas mais Missas, para que a participação fosse menor (por cada Missa, n. d. r.). Qual é a sua opinião sobre a decisão de suspender as Missas públicas para prevenir a difusão do coronavírus?    
Enquanto os supermercados estiverem abertos e acessíveis e enquanto as pessoas tiverem acesso aos transportes públicos, não há um motivo plausível para proibir as pessoas de assistirem à Santa Missa numa igreja. Poderiam garantir-se nas igrejas as mesmas e até melhores medidas de protecção higiénica. Por exemplo, antes de cada Missa poderiam desinfectar-se os bancos e as portas e as pessoas que entram na igreja poderiam desinfectar as mãos. Também se poderiam adoptar outras medidas semelhantes. Poderia limitar-se o número de participantes e aumentar a frequência da celebração da Missa. Temos um exemplo inspirador de uma visão sobrenatural em tempos de epidemia no presidente da Tanzânia, John Magufuli. O presidente Magufuli, que é um católico praticante, disse, no dia 22 de Março de 2020, Domingo Laetare, na Catedral de São Paulo, na capital tanzaniana de Dodoma: «Insisto convosco, meus irmãos cristãos e também muçulmanos: não tenhais medo, não deixeis de vos reunir para glorificar a Deus e louvá-Lo. Por isso, como governo, não fechámos igrejas ou mesquitas. Deveriam, em vez disso, estar sempre estar abertas ao povo para procurar refúgio em Deus. As igrejas são lugares onde as pessoas podem procurar a verdadeira cura, porque é lá que reside o Verdadeiro Deus. Não tenhais medo de louvar e de procurar o rosto de Deus na igreja».                 

Referindo-se à Eucaristia, o Presidente Magufuli também pronunciou estas encorajadoras palavras: «O coronavírus não pode sobreviver no corpo eucarístico de Cristo; em breve será queimado. Precisamente por isto, não entrei em pânico ao receber a Sagrada Comunhão, porque sabia que com Jesus na Eucaristia estava a salvo. Este é o momento de construir a nossa fé em Deus».          

Considera ser responsável que um sacerdote celebre uma Missa privada com poucos fiéis leigos presentes, tomando as necessárias precauções sanitárias?      
É responsável, e também meritório, e seria um autêntico acto pastoral, desde que, naturalmente, o sacerdote tome as necessárias precauções sanitárias.         

Os sacerdotes, perante esta situação, encontram-se numa posição difícil. Alguns bons sacerdotes são criticados por obedecerem às directrizes do seu bispo para suspenderem as Missas públicas (enquanto continuam a celebrar uma Missa privada). Outros procuram maneiras criativas para ouvir as confissões, procurando salvaguardar a saúde das pessoas. Que conselho daria aos sacerdotes para viverem a sua vocação nestes tempos?                    
Os sacerdotes devem recordar-se que são, antes de tudo e sobretudo, pastores de almas imortais. Devem imitar Cristo, que disse: «Eu sou o Bom Pastor: o bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas. Mas o mercenário, que não é pastor, de quem não são as ovelhas, vê vir o lobo, deixa as ovelhas e foge, enquanto o lobo as arrebata e dispersa, porque é mercenário e não se importa das ovelhas. Eu sou o Bom Pastor: conheço as Minhas ovelhas e as Minhas ovelhas conhecem-Me» (Jo 10, 11-14). Se um sacerdote observa razoavelmente todas as precauções sanitárias necessárias e for discreto, não deve obedecer às directrizes do seu bispo ou do governo para suspender a Missa pelos fiéis. Tais directrizes são uma pura lei humana; no entanto, a lei suprema na Igreja é a salvação das almas. Os sacerdotes em tal situação devem ser extremamente criativos para permitirem aos fiéis, mesmo que para um pequeno grupo, a assistência à Santa Missa e o acesso aos sacramentos. Era este o comportamento pastoral de todos os sacerdotes confessores e mártires no tempo das perseguições.        

A afronta à autoridade, em particular à autoridade eclesial, por parte dos sacerdotes, será alguma vez legítima (por exemplo, se um sacerdote é advertido para não visitar os doentes e os moribundos)?   
Se um sacerdote é proibido, por uma autoridade eclesial, de visitar os doentes e os moribundos, não pode obedecer. Tal proibição é um abuso de poder. Cristo não deu ao bispo o poder de proibir um sacerdote de visitar os doentes e os moribundos. Um verdadeiro sacerdote fará todo o possível para visitar um moribundo. Muitos sacerdotes fizeram isso mesmo quando tal significava pôr em risco a própria vida, seja em caso de perseguição ou de epidemia. Temos muitos exemplos de tais sacerdotes na história da Igreja. São Carlos Borromeu, por exemplo, deu a Sagrada Comunhão, com as próprias mãos, na língua dos moribundos contagiados pela praga. Nos nossos dias temos o exemplo comovente e edificante de sacerdotes, especialmente da região de Bérgamo, no Norte de Itália, que foram infectados e morreram porque assistiram os pacientes que estavam a morrer com coronavírus. Um sacerdote de setenta e dois anos, que sofria de coronavírus, morreu há alguns dias, em Itália, depois de abdicar do ventilador, de que precisava para sobreviver, e permitir que fosse utilizado por um paciente mais jovem. Não visitar os doentes e moribundos é o comportamento mais de um mercenário do que de bom pastor.         

Os seus primeiros anos foram passados na igreja clandestina soviética. Que ideia ou perspectiva gostaria de partilhar com os fiéis leigos que não podem assistir à Missa e, em alguns casos, nem sequer podem passar algum tempo diante do Santíssimo Sacramento porque todas as igrejas da sua diocese foram fechadas?
Gostaria de encorajar os fiéis a fazerem frequentes actos de comunhão espiritual. Podem ler e contemplar as leituras diárias da Missa e todo o ordinário da Missa. Podem enviar o seu Anjo da Guarda a adorar Jesus Cristo no tabernáculo em seu favor. Podem unir-se espiritualmente a todos os cristãos que estão na prisão pela sua fé, a todos os cristãos doentes e acamados, a todos os cristãos moribundos que são privados dos sacramentos. Deus preencherá este tempo de privação temporária da Santa Missa e do Santíssimo Sacramento com muitas graças.          

O Vaticano anunciou recentemente que as celebrações da Páscoa serão realizadas sem a presença de fiéis. Posteriormente foi dito que estão a estudar “métodos de implementação e participação que respeitem as medidas de segurança adoptadas para impedir a disseminação do coronavírus”. Qual é a sua opinião sobre esta decisão?
Dada a severa proibição de ajuntamentos relacionados com a Missa por parte das autoridades do governo italiano, pode-se entender que o Papa não possa celebrar as liturgias da Semana Santa com a presença de um grande número de fiéis. Penso que as liturgias da Semana Santa poderiam ser celebradas pelo Papa, com toda a dignidade e sem abreviações, por exemplo na Capela Sistina (como era costume dos papas antes do Concílio Vaticano II), com a participação do clero (cardeais, sacerdotes) e um grupo de fiéis, aos quais fossem previamente aplicadas as medidas higiénicas de protecção. Não tem lógica proibir a bênção do fogo, a bênção da água e o baptismo na Vigília Pascal, como se estas acções disseminassem um vírus. Um medo quase patológico superou a razão comum e uma visão sobrenatural.            

Excelência, o que é que a gestão, por parte da Igreja, da epidemia do coronavírus, está a revelar sobre o estado da Igreja e, em particular, da hierarquia?         
Está a revelar a perda da visão sobrenatural. Nas últimas décadas, muitos membros da hierarquia da Igreja foram imersos principalmente em questões seculares, internas e temporais, tornando-se, assim, cegos para as realidades sobrenaturais e eternas. Os seus olhos foram enchidos do pó das ocupações terrenas, como disse São Gregório Magno (cf. Regula pastoralis II, 7). A sua recção ao lidar com a epidemia do coronavírus revelou que dão mais importância ao corpo mortal do que à alma imortal dos homens, esquecendo as palavras de Nosso Senhor: «Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?» (Mc 8, 36). Os mesmos bispos que agora tentam proteger (às vezes com medidas desproporcionais) os corpos dos seus fiéis da contaminação por um vírus material, permitiram tranquilamente que o vírus venenoso dos ensinamentos e das práticas heréticas se espalhassem no seu rebanho.                     

O Cardeal Vincent Nichols disse recentemente que teremos uma nova fome de Eucaristia quando passar a epidemia do coronavírus? Concorda?         
Espero que essas palavras se revelem verdadeiras entre muitos católicos. É uma experiência humana comum que a privação prolongada de uma realidade importante inflame os corações das pessoas que a desejam. É claro que isso se aplica àqueles que realmente acreditam e amam verdadeiramente a Eucaristia. Essa experiência também ajuda a reflectir mais profundamente sobre o significado e sobre o valor da Santa Eucaristia. Talvez aqueles católicos que estavam tão habituados ao Santo dos Santos, a ponto de considerá-lo algo comum, experimentem uma conversão espiritual e compreendam e tratem a Santa Eucaristia como extraordinária e sublime.      

No domingo, 15 de Março, o Papa Francisco foi rezar diante da imagem da Salus Populo Romani, em Santa Maria Maior, e diante do Crucifixo Milagroso da Igreja de São Marcelo. Considera importante que bispos e cardeais realizem actos semelhantes de oração pública pelo fim do coronavírus?    
O exemplo do Papa Francisco pode encorajar muitos bispos a actos semelhantes de testemunho público de fé e de oração e a sinais concretos de penitência que implorem a Deus que ponha termo à epidemia. Poder-se-ia recomendar aos bispos e aos sacerdotes que percorressem regularmente as suas cidades, vilas e aldeias com o Santíssimo Sacramento no ostensório, acompanhados por um pequeno número de clérigos ou fiéis (um, dois ou três), de acordo com os regulamentos do governo. Tais procissões com o Senhor Eucarístico transmitiriam aos fiéis e aos cidadãos o consolo e a alegria de não estarem sozinhos em tempos de tribulação, que o Senhor está verdadeiramente com eles, que a Igreja é uma mãe que não esqueceu nem abandonou os seus filhos. Poder-se-ia lançar uma cadeia mundial de ostensórios que levem o Senhor Eucarístico pelas ruas deste mundo. Estas pequenas procissões eucarísticas, mesmo se realizadas apenas por um bispo ou por um sacerdote, implorariam graças de cura física e espiritual e de conversão. 

O coronavírus eclodiu na China não muito tempo depois do Sínodo da Amazónia. Alguns media acreditam firmemente que esteja seja uma punição divina pelos acontecimentos da Pachamama no Vaticano. Outros acreditam que seja um castigo divino pelo acordo Vaticano-China. Considera que alguma destas duas posições é válida?       
A epidemia do coronavírus, na minha opinião, é, sem dúvida, uma intervenção divina para castigar e purificar o mundo pecaminoso e também a Igreja. Não devemos esquecer que Nosso Senhor Jesus Cristo considerava as catástrofes físicas como castigos divinos. Lemos, por exemplo: «Nessa ocasião, apareceram alguns a falar-Lhe dos galileus cujo sangue Pilatos havia misturado com o dos sacrifícios que eles ofereciam. Respondeu-lhes: “Julgais que esses galileus eram maiores pecadores que todos os outros galileus por terem assim sofrido? Não, digo-vo-lo Eu; mas, se não vos arrependerdes, perecereis todos igualmente. E aqueles dezoito sobre os quais caiu a torre de Siloé, e os matou, eram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém? Não, Eu vo-lo digo; mas, se não vos arrependerdes, perecereis todos do mesmo modo”» (Lc 13, 1-5).  

A culto ao ídolo pagão da Pachamama dentro do Vaticano, com a aprovação do Papa, foi certamente um grande pecado de infidelidade ao Primeiro Mandamento do Decálogo, foi uma abominação. Qualquer tentativa de minimizar este acto de veneração não pode resistir à enxurrada de provas e razões evidentes. Penso que tais actos de idolatria foram o culminar de uma série de outros actos de infidelidade à salvaguarda do depósito divino da Fé por parte de muitos membros da hierarquia da Igreja nas últimas décadas. Não tenho a certeza absoluta de que o surto do coronavírus seja um castigo divino pelos acontecimentos da Pachamama no Vaticano, mas considerar tal possibilidade não seria exagerado. Já no início da Igreja, Cristo censurou os bispos (“anjos”) das igrejas de Pérgamo e Tiatira pela sua conivência com a idolatria e o adultério. A figura de “Jesabel”, que seduziu a Igreja à idolatria e ao adultério (cf. Ap 2, 20), também pode ser entendida como um símbolo do mundo de hoje – com o qual muitos líderes da Igreja de hoje se deixam bajular.         

As seguintes palavras de Cristo permanecem válidas também para o nosso tempo: «Vou prendê-la a um leito de dor, e virá uma grande tribulação sobre os que adulteraram com ela, se não se arrependerem das suas obras, ferirei de morte os seus filhos, e todas as Igrejas saberão que sou Aquele que sonda os rins e os corações; darei a cada um de vós segundo as suas obras» (Ap 2, 22-23). Cristo ameaçou com o castigo e chamou as igrejas à penitência: «Mas tenho contra ti algumas poucas coisas: tens aí os que seguem a doutrina de Balaão, que ensinava Balac a colocar tropeços diante dos filhos de Israel, para que comessem dos sacrifícios da idolatria e se entregassem à impureza. Também tens os que seguem a doutrina dos nicolaítas. Arrepende-te, pois, se não, virei brevemente combater contra eles com a espada da Minha boca» (Ap 2, 14-16). Estou convencido de que Cristo repetirá as mesmas palavras ao Papa Francisco e aos outros bispos que permitiram a veneração idólatra da Pachamama e que aprovaram implicitamente relações sexuais fora de um matrimónio válido, permitindo que os chamados “divorciados recasados” que são sexualmente activos possam receber a Sagrada Comunhão. 

Citou os Evangelhos e o Livro do Apocalipse. A maneira como Deus tratou o Seu povo eleito no Antigo Testamento dá-nos uma ideia da situação actual?        
A epidemia do coronavírus causou uma situação dentro da Igreja que, pelo que sei, é única, ou seja, uma proibição quase mundial de todas as Missas públicas. Isto é parcialmente análogo à proibição do culto cristão em quase todo o Império Romano nos três primeiros séculos. A situação actual é, no entanto, sem precedentes, porque no nosso caso a proibição do culto público foi emitida pelos bispos católicos e até mesmo antes dos respectivos mandatos governativos.          

De certa forma, a situação actual também pode ser comparada ao fim do culto sacrificial do Templo de Jerusalém durante o cativeiro babilónico do Povo escolhido de Deus. Na Bíblia, o castigo divino era considerado como uma graça, por exemplo: «Feliz o homem a quem Deus corrige! Não desprezes a lição do Todo-Poderoso. Ele é Quem faz a ferida e Quem a sara; fere e cura com as Suas mãos» (Job 5, 17-18) e «Eu repreendo e castigo aos que amo; sê, pois, zeloso e arrepende-te» (Ap 3, 19). A única reacção adequada às tribulações, às catástrofes, às epidemias e a situações semelhantes – que são instrumentos nas mãos da Divina Providência para despertar os homens do sono do pecado e da indiferença aos mandamentos de Deus e à vida eterna – é a penitência e a sincera conversão a Deus. Na seguinte oração, o profeta Daniel dá aos fiéis de todos os tempos um exemplo da verdadeira mentalidade que deveriam ter e como deveriam comportar-se e rezar em tempos de tribulação: “Todo o Israel transgrediu Vossa lei e se voltou para o outro lado, a fim de não ouvir a Vossa voz. Por isso a maldição e a imprecação que constam da lei de Moisés, servo de Deus, foram difundidas sobre nós, visto que pecámos contra Ele. […] Ó meu Deus, prestai atenção e ouvi-nos; abri os olhos para verdes as nossas ruínas e a cidade que tem um nome que vem de Vós! Não é por causa dos nossos actos de justiça que depomos a Vossos pés as nossas súplicas, mas em nome da Vossa grande misericórdia. Senhor, ouvi! Senhor, perdoai! Senhor, prestai atenção! Actuai! Pelo amor de Vós, ó meu Deus, não tardeis, porque foi o Vosso nome que foi dado à Vossa cidade e ao Vosso povo» (Dan 9, 11, 18-19).                 

São Roberto Belarmino escreveu: «Sinais seguros relativos à vinda do Anticristo... a maior e última perseguição, e também o sacrifício público (da Missa) cessará completamente» (A profecia de Daniel, páginas 37-38). Crê que aquilo a que se refere seja o que estamos a assistir agora? É o início do grande castigo profetizado no Livro do Apocalipse?                     
A situação actual fornece suficientes motivos razoáveis para pensar que estamos no início de um tempo apocalíptico, que inclui os castigos divinos. Nosso Senhor referia-se à profecia de Daniel: «Quando virdes, pois, a abominação da desolação, de que falou o profeta Daniel, instalada no lugar santo (quem lê, preste atenção!)» (Mt 24, 15). O Livro do Apocalipse diz que a Igreja terá que fugir para o deserto por algum tempo (cf. Ap 12, 14). A cessação quase geral do Sacrifício público da Missa poderia ser interpretada como uma fuga para um deserto espiritual. O que é deplorável na nossa situação é o facto de muitos membros da hierarquia da Igreja não verem a situação actual como uma tribulação, como um castigo divino, isto é, como uma “visita divina” no sentido bíblico. Estas palavras do Senhor também são aplicáveis
​​a muitos clérigos no meio da actual epidemia física e espiritual: «por não teres reconhecido o tempo em que foste visitada» (Lc 19, 44). A situação actual deste «fogo da provação» (cf. 1 Ped 4, 12) deve ser levada a sério pelo Papa e pelos bispos, a fim de provocar uma profunda conversão de toda a Igreja. Se isso não acontecer, a mensagem da seguinte história de Søren Kierkegaard também se aplicará à nossa situação actual: um incêndio deflagrou nos bastidores de um teatro. O palhaço apareceu para avisar o público, que pensou tratar-se de uma piada e aplaudiu. Ele repetiu e a aclamação foi ainda maior. Creio que o mundo terminará assim: com um aplauso geral do crente que crê ser uma piada.                      

Excelência, qual é o significado profundo de tudo isto?                    
A situação da suspensão pública da Santa Missa e da Comunhão sacramental é tão única e séria que por trás de tudo isto se pode encontrar um significado mais profundo. Este acontecimento ocorreu quase cinquenta anos depois da introdução da Comunhão na mão (em 1969) e de uma reforma radical do rito da Missa (em 1969/1970) com os seus elementos protestantes (orações de oferta) e o seu estilo de celebração horizontal e formativo (momentos de estilo livre, celebração em círculo fechado e voltada para o povo). A prática da Comunhão na mão durante os últimos cinquenta anos levou a uma profanação involuntária e intencional do Corpo Eucarístico de Cristo numa escala sem precedentes. Por mais de cinquenta anos, o Corpo de Cristo foi (principalmente involuntariamente) pisado pelos pés do clero e dos leigos nas igrejas católicas de todo o mundo. O roubo das Hóstias consagradas também aumentou a um ritmo alarmante. A prática de receber a Sagrada Comunhão directamente com as próprias mãos e dedos assemelha-se cada vez mais ao gesto de comer comida comum. Em não poucos católicos, a prática de receber a Comunhão na mão enfraqueceu a fé na Presença Real, na transubstanciação e no carácter divino e sublime da Hóstia consagrada. Com o tempo, a presença eucarística de Cristo tornou-se, inconscientemente, para esses fiéis, uma espécie de pão santo ou de símbolo. Agora, o Senhor interveio e privou quase todos os fiéis de assistir à Santa Missa e de receber sacramentalmente a Sagrada Comunhão.  

Os inocentes e os culpados suportam igualmente esta tribulação, porque no mistério da Igreja estão todos unidos como membros: «Deste modo, se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele» (1 Cor 12, 26). A actual cessação da Missa pública e da Comunhão pública poderia ser entendida pelo Papa e pelos bispos como uma censura divina pelos últimos cinquenta anos de profanações e banalizações eucarísticas e, ao mesmo tempo, como um apelo misericordioso para uma autêntica conversão eucarística de toda a Igreja. Que o Espírito Santo toque o coração do Papa e dos bispos e os encoraje a emitir normas litúrgicas concretas para que o culto eucarístico de toda a Igreja seja purificado e reorientado para o Senhor.        

Pode-se sugerir que o Papa, juntamente com os cardeais e os bispos, realize, em Roma, um acto público de reparação pelos pecados contra a Santa Eucaristia e pelo pecado dos actos de veneração religiosa às estátuas da Pachamama. Terminada a actual tribulação, o Papa deveria emitir normas litúrgicas concretas, nas quais convide toda a Igreja a voltar-se novamente para o Senhor na forma da celebração, ou seja, celebrante e fiéis voltados na mesma direcção durante a oração eucarística. O Papa também deveria proibir a prática da Comunhão na mão, porque a Igreja não pode continuar impune a tratar o Santo dos Santos na pequena Hóstia consagrada de maneira tão minimalista e insegura.        

A seguinte oração de Azarias na fornalha ardente, que cada sacerdote diz durante o rito do Ofertório da Missa, poderia inspirar o Papa e os bispos a tomarem acções concretas de reparação e de restauração da glória do sacrifício eucarístico e do Corpo eucarístico do Senhor: «Apesar disso, que a contrição do nosso coração e a humilhação do nosso espírito nos façam encontrar bom acolhimento junto de Vós, Senhor, como se trouxéssemos holocaustos de carneiros e de touros e de milhares de gordos cordeiros. Que tal seja hoje diante de Vós o nosso sacrifício; que possa ele reconciliar-vos convosco, pois que não têm que envergonhar-se aqueles que põem em Vós a sua confiança. É de todo o coração que agora Vos seguimos, que Vos veneramos, que procuramos a Vossa face. Não nos confundais; tratai-nos com a Vossa doçura habitual e com todas as riquezas de Vossa misericórdia. Livrai-nos pelos Vossos prodígios, Senhor» (Dan 3, 39-43, Septuaginta).          

segunda-feira, 30 de março de 2020

O Coronavírus e a mão de Deus – Entrevista ao Arcebispo Carlo Maria Viganò



O Dies Irae publica, em exclusivo para Língua Portuguesa, uma entrevista do Arcebispo Carlo Maria Viganò. 

Excelência, com que olhar deve o cristão avaliar a pandemia do COVID-19?           
A pandemia do Coronavírus, como todas as doenças e a própria morte, são uma consequência do Pecado Original. A culpa de Adão, cabeça da humanidade, privou-o a ele e aos seus descendentes não apenas da Graça, mas também de todos os dons que Deus lhe tinha dado na Criação. A partir desse momento, a doença e a morte entraram no mundo, qual punição por ter desobedecido a Deus. A Redenção anunciada no Protoevangelho (Gn 3), profetizada no Antigo Testamento e concretizada com a Encarnação, a Paixão, a Morte e a Ressurreição de Nosso Senhor, redimiu da condenação eterna Adão e a sua descendência, mas permitiu que as suas consequências permanecessem como marca da antiga queda e fossem definitivamente readmitidas apenas à Ressurreição da Carne, que professamos no Credo, e que ocorrerá antes do Juízo final. Isso deve ser recordado, especialmente num momento em que os princípios basilares do Catecismo são ignorados ou negados.            

O católico sabe que a doença e, portanto, também as epidemias, o sofrimento, a privação dos entes queridos, devem ser aceites com Fé e Humildade também em expiação dos nossos próprios pecados. Graças à Comunhão dos Santos – através da qual os méritos de cada baptizado se transmitem também aos outros membros da Igreja –, podemos oferecer tais provas também para o perdão dos pecados dos outros, para a conversão daqueles que não crêem, para abreviar a purificação das almas santas do Purgatório. Um infortúnio como o COVID-19 também pode ser uma preciosa oportunidade para crescer na Fé e na Caridade operosa.                               

Como se pode ver, limitar-se ao aspecto meramente clínico da doença – que obviamente deve ser combatida e curada – tira qualquer dimensão transcendente à nossa vida, privando-a daquele olhar sobrenatural sem o qual é inevitável fechar-se num egoísmo surdo e sem esperança.              

Alguns membros da Hierarquia e sacerdotes afirmaram que «Deus não pune» e que considerar o Coronavírus como um flagelo «é uma ideia pagã». Está de acordo?     
A primeira punição, como dizia há pouco, foi infligida ao nosso Progenitor. Mas, como diz o Exultet que entoaremos na noite de Sábado Santo: O felix culpa, qui talem ac tantum meruit habere Redemptorem! Oh ditosa culpa, que nos mereceu tão grande Redentor!  

Um pai que não pune demonstra não amar o filho, mas desinteressar-se por ele; um médico que observa indiferente o paciente piorando até à gangrena não quer a sua cura. O Senhor é um Pai muito amoroso porque nos ensina como nos devemos comportar para merecer a eterna beatitude do Céu, e quando, com o pecado, desobedecemos aos Seus preceitos, Ele não nos deixa morrer, mas vem-nos procurar, envia-nos muitos sinais – por vezes vezes severos, como é justo – para que nos arrependamos, façamos penitência e recuperemos a amizade com Ele. Vós sereis Meus amigos se fizerdes o que Eu vos mando (Jo 15, 14). Parece-me que as palavras do Senhor não dão origem a mal-entendidos.   

Gostaria também de acrescentar que a verdade de um Deus justo que recompensa os bons e pune os iníquos faz parte da herança comum à lei natural que o Senhor incutiu em todos os homens de todas as épocas: um chamamento irreprimível do Paraíso terrestre, que também permite que os pagãos compreendam como a Fé Católica é o necessário cumprimento daquilo que sugere um coração sincero e bem-disposto. Surpreende-me que hoje, em vez de se evidenciar esta verdade profundamente inscrita no coração de cada homem, aqueles que parecem ter tanta simpatia pelos cultos pagãos não aceitem a única coisa que, desde sempre, a Igreja considerou importante para atraí-los para Cristo.                    

Vossa Excelência acredita que existem pecados que provocaram, de modo particular, a ira de Deus?  
Os crimes com que cada um de nós se mancha diante de Deus são um golpe de martelo nos pregos que perfuraram as Mãos do nosso Redentor, uma chicotada que rasgou a carne do Seu santíssimo Corpo, um escarro no Seu Rosto amoroso. Se tivéssemos este pensamento diante de nós, nenhum de nós ousaria pecar. E quem pecou,
​​não pararia de chorar até ao fim dos seus dias. No entanto, esta é a realidade: na Sua Paixão, o nosso divino Salvador assumiu sobre Si não apenas o Pecado Original, mas também todos os nossos pecados, de todos os tempos e de todos os homens. E o mais maravilhoso é que Nosso Senhor quis enfrentar a morte na Cruz, quando uma única gota do Seu preciosíssimo Sangue seria suficiente para nos redimir: Cujus una stilla salvum facere totum mundum abit ab omni sclere, como nos ensina São Tomás. 

Mas, para além dos pecados cometidos individualmente, também existem os pecados cometidos pelas sociedades, pelas Nações. O aborto, que também durante a pandemia continua a matar crianças inocentes; o divórcio, a eutanásia, o horror do chamado casamento homossexual, a celebração da sodomia e das piores perversões, a pornografia, a corrupção dos pequenos, a especulação das elites financeiras, a profanação do domingo...           

Posso perguntar-lhe porquê que faz uma distinção entre culpas individuais e culpas das Nações?    
São Tomás de Aquino ensina-nos que, tal como é dever do indivíduo reconhecer, adorar e obedecer ao verdadeiro Deus, também a sociedade – que é precisamente composta por indivíduos – não pode deixar de reconhecer Deus e garantir que as próprias leis permitam aos seus membros alcançar o bem espiritual a que se destinam. Nações que não apenas ignoram Deus, mas que O negam abertamente; que exigem que os seus súbditos aceitem leis contrárias à Moral natural e à Fé católica, como o reconhecimento dos direitos ao aborto, à eutanásia e à sodomia; que se esforçam pela corrupção das crianças, profanando a sua inocência; que permitem o direito a blasfemar contra a divina Majestade, não podem considerar-se isentas da punição de Deus. Assim, se quiserem obter perdão público, os pecados públicos requerem confissão pública e pública expiação. Não esqueçamos que a comunidade eclesial, também enquanto sociedade, onde os seus líderes sejam responsáveis por ofensas colectivas, não está isenta das punições celestiais.             

Isso significa que também existem culpas da Igreja?              
A Igreja é sempre em si mesma infalivelmente santa, uma vez que é o Corpo Místico de Nosso Senhor, e seria não só imprudente, mas também blasfemo só pensar que a divina instituição que a Providência colocou na terra como dispensadora da Graça e única arca de salvação possa, mesmo que minimamente, ser imperfeita. Os louvores que atribuímos à Santíssima Virgem – que é, de facto, Mater Ecclesiae – também se aplicam à Igreja: é mediadora das graças, através dos Sacramentos; é Mãe de Cristo, de Quem gera os membros; Arca da Aliança, ou seja, guardiã do Pão celestial e dos Mandamentos; a Igreja é refúgio dos pecadores, a quem concede o perdão na Confissão; saúde dos enfermos, a quem dispensa sempre os próprios cuidados; rainha da paz, que promove entre os povos pregando o Evangelho. Mas também é terribilis ut castrorum acies ordinata, porque o Senhor deu aos seus Ministros o poder de expulsar os demónios e a autoridade das Sagradas Chaves, graças às quais abre ou fecha as portas do Céu. E não esqueçamos que a Igreja não é apenas a Igreja Militante na terra, mas que também há a Igreja Triunfante e a Purgante, cujos membros são todos Santos.       

Mas é verdade que, se a Igreja de Cristo é santa, também pode ser pecadora nos seus membros aqui na terra e também na sua Hierarquia. Nestes tempos difíceis, temos, infelizmente, numerosos exemplos de clérigos indignos, como os escândalos dos abusos por parte de clérigos e até mesmo de altos Prelados. A infidelidade dos Pastores Sagrados é um escândalo para os seus irmãos e para muitos fiéis, não apenas quando se trata da luxúria ou do desejo de poder, mas também – e eu diria acima de tudo – quando afecta a integridade da Fé, a pureza da doutrina e a santidade da moral, culminando mesmo em episódios de inaudita gravidade, como, por exemplo, no caso da adoração do ídolo da pachamama no Vaticano. De facto, creio que o Senhor está particularmente indignado com a multidão de pecados e escândalos daqueles que deveriam servir de exemplo e modelo, enquanto Pastores, para o rebanho que lhes foi confiado.            

Não esqueçamos, para além disso, que o exemplo dado por grande parte da Hierarquia não é escandaloso apenas para os Católicos, mas também para muitas pessoas que, embora não tenham a graça de lhes pertencer, olham para eles como um farol e um ponto de referência. E não só: esse flagelo não pode eximir a Igreja, na sua própria Hierarquia, de realizar um severo exame de consciência por se ter rendido ao mundo; não pode fugir ao dever de condenar firmemente os erros que deixou desenfrear no seu seio a partir do Vaticano II e que atraíram, para a própria Igreja para o mundo, justas punições porque precisamos de nos arrepender e voltar a Deus.        

Dói-me notar que ainda hoje, quando todos nós somos testemunhas da cólera divina que atinge o mundo, se continua a ofender a Majestade de Deus ao falar da «vingança da mãe terra que reclama respeito», como afirmou o Papa Bergoglio, há alguns dias, na sua enésima entrevista. Urge, em vez disso, pedir perdão pelo sacrilégio perpetrado na Basílica de São Pedro, reconsagrando-a, de acordo com as normas canónicas, antes de se celebrar novamente o Santo Sacrifício. E também se deveria realizar uma solene procissão penitencial, mesmo só de Prelados, conduzidos pelo Papa, para implorarem a misericórdia de Deus sobre si e sobre o povo. Seria um gesto de autêntica humildade, que muitos fiéis esperam, em reparação dos pecados cometidos.         

Como conter a perplexidade pelas palavras proferidas, em Santa Marta, durante a homilia da Missa de 26 de Março, pelo Papa Bergoglio? O Papa disse: «Que o Senhor não nos encontre, no fim da vida, e diga de cada um de nós: “Deixaste-te perverter. Afastaste-te do caminho que Eu indiquei. Prostraste-te diante de um ídolo”». Ficamos completamente chocados e indignados ao ouvir estas palavras, considerando que ele mesmo consumou um verdadeiro sacrilégio diante de todo o Mundo, mesmo no Altar da Confissão de São Pedro, uma profanação, um acto de apostasia com o ídolo imundo e demoníaco da pachamama.    

No dia da Anunciação de Maria Santíssima, os Bispos de Portugal e de Espanha consagraram as suas Nações ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria. A Irlanda e a Grã-Bretanha fizeram o mesmo. Muitas Dioceses e cidades, na pessoa dos seus Bispos e das Autoridades públicas, colocaram as suas comunidades sob a proteção da Virgem. Como avalia estes acontecimentos?           
Estes são gestos que constituem um bom presságio, embora insuficientes para reparar as nossas culpas e até agora ignorados pelos líderes da Igreja, enquanto o povo cristão clama aos seus Pastores, em voz alta, por um gesto solene e colectivo. Nossa Senhora, em Fátima, pediu que o Papa e todos os Bispos consagrassem a Rússia ao Seu Imaculado Coração, anunciando infortúnios e guerras até que isso não acontecesse. Os Seus apelos continuam por ser atendidos. Os Pastores arrependam-se e obedeçam à Santíssima Virgem! É vergonhoso e escandaloso que a Igreja em Itália não se tenha unido a esta iniciativa!                   

Como vê a suspensão das celebrações que envolveu quase todo o mundo?   
Este é um grande sofrimento, mais, eu diria o maior que se impôs aos nossos fiéis, especialmente aos moribundos, privando-os de recorrer aos Sacramentos.

Nestas situações, parecia que a Hierarquia, à excepção de raros casos, não tinha escrúpulos ao fechar as igrejas e impedir a participação dos fiéis no Santo Sacrifício da Missa. Mas esta atitude de burocratas frios, de executores da vontade do Príncipe, agora é compreendida pela maioria dos fiéis como um inquietante sinal da falta de Fé. E como podemos culpá-los?                       

Questiono-me – e tremo ao dizê-lo – se o encerramento das igrejas e a suspensão das celebrações não é uma punição que Deus acrescentou à pandemia. Ut scirent quia per quae peccat quis, para haec et torquetur. A fim de que compreendessem que por onde cada um peca, por aí será atormentado (Sab 11, 16). Ofendido pela negligência e desrespeito de tantos dos Seus Ministros; ultrajado pelas profanações do Santíssimo Sacramento, que se perpetuam diariamente com o sacrílego hábito de administrar a Comunhão na mão; cansado de suportar canções vulgares e sermões heréticos, o Senhor ainda hoje se compraz – no silêncio de muitos altares – em ouvir ser-Lhe elevado o louvor austero e composto de tantos sacerdotes que celebram a Missa de sempre, aquela Missa que remonta aos tempos apostólicos e que ao longo da história representa o coração palpitante da Igreja. Levemos muito a sério este aviso: Deus non irridetur.                    

Compreendo e partilho, evidentemente, o devido respeito pelos princípios básicos de proteção e segurança que a Autoridade civil estabelece para a saúde pública. Mas, assim como esta tem o direito de intervir em questões concernentes ao corpo, a Autoridade eclesiástica tem o direito e o dever de se ocupar da saúde das almas e não pode privar os seus fiéis do nutrimento da Santíssima Eucaristia, nem tampouco da Confissão, da Missa e do Sagrado Viático. 

No entanto, quando as lojas e os restaurantes ainda estavam abertos, muitas Conferências Episcopais já tinham ordenado a suspensão das celebrações sem que as Autoridades civis o tivessem solicitado. Esta atitude revela a dolorosa situação em que se encontra a Hierarquia, disposta a sacrificar o bem das almas para agradar o poder do Estado ou a ditadura do pensamento único.          

A propósito de restaurantes abertos: como é que vê os almoços para os pobres que foram realizados, nos últimos meses, em locais de culto?      
Para o Católico, a assistência aos necessitados tem o próprio motor na virtude da Caridade, isto é, no próprio Deus: Deus caritas est. Ele ama o Senhor acima de todas as coisas, e o próximo como a si mesmo, porque nos permite – de acordo com as Bem-Aventuranças evangélicas – ver Cristo no pobre, no enfermo, no preso, no órfão. A Igreja sempre foi, desde o início, um brilhante exemplo neste sentido, a ponto de os próprios pagãos se sentirem edificados. A História atesta as impressionantes obras de assistência estabelecidas graças à munificência dos seus fiéis, mesmo em tempos de aberta hostilidade do Estado, que apreendeu os bens das fundações pelo ódio que a Maçonaria tinha em relação a um testemunho tão claro dos Católicos. A atenção aos pobres e marginalizados, portanto, não é nova no novo caminho bergogliano, apanágio de organizações ideologicamente alinhadas.    

Mas é significativo que a ênfase em ajudar os pobres se revele não apenas privada de qualquer referência sobrenatural, mas que se limite às obras da misericórdia corporal, evitando meticulosamente as de misericórdia espiritual. E não só: este último Pontificado ratificou definitivamente a renúncia ao apostolado, à missionariedade da Igreja também neste contexto, liquidando-a com o termo depreciativo de proselitismo. Pensa-se em oferecer alimentos, hospitalidade e assistência médica, mas não nos preocupamos em alimentar, acolher e curar na alma aqueles que precisam, reduzindo, assim, a Igreja a uma ONG com propósitos filantrópicos. Mas a Caridade não é uma variação da filantropia de inspiração maçónica, apenas encoberta por uma vaga espiritualidade, mas o seu exacto oposto; porque a solidariedade hoje praticada nega que exista apenas uma Religião verdadeira e que a sua mensagem salvadora deva, portanto, ser pregada àqueles que ainda não fazem parte dela. E não só: devido aos desvios que entraram na Igreja com o Concílio em matéria de liberdade religiosa e ecumenismo, os órgãos de assistência social acabam por confirmar as pessoas que lhes foram confiadas no erro do paganismo ou do ateísmo, chegando ao ponto de oferecer locais de culto onde possam rezar. Também vimos casos deploráveis
​​de Missas durante as quais, a pedido do sacerdote, em vez do Evangelho foi proclamado o Alcorão ou, para retomar casos recentes, foi dada a oportunidade de praticar rituais idólatras numa igreja católica.       

Acredito que a decisão de destinar as igrejas para refeitórios ou dormitórios para acolher pessoas necessitadas é um fenómeno revelador dessa hipocrisia subjacente que, como no caso do ecumenismo, usa um pretexto aparentemente louvável – ajudar os necessitados, acolher os refugiados etc. – como instrumento para realizar progressivamente o sonho maçónico de uma grande religião universal sem dogmas, sem ritos, sem Deus. Usar uma igreja como taberna, na presença de Prelados satisfeitos que servem pizzas ou costeletas com roupas e avental riscados, significa profaná-la; especialmente quando os que sorriem para os fotógrafos tomam cuidado para não abrir as portas do Palácio Episcopal àqueles que, no fundo, consideram úteis para a prossecução de outros propósitos. Regressando ao que disse anteriormente, parece-me que mesmo estes sacrilégios estão na origem da pandemia e no encerramento das igrejas.         

Parece-me também que, com muita frequência, se tenta fazer um espectáculo com a pobreza ou o estado de necessidade de tantas pessoas infelizes – como no caso dos desembarques de imigrantes ilegais transportados por organizações de verdadeiros esclavagistas – com o único objectivo de pôr em movimento a indústria da hospitalidade, por trás da qual se escondem não apenas mesquinhos interesses económicos, mas também uma não confessada cumplicidade com aqueles que querem a destruição da Europa cristã a começar pela Itália.               

Em alguns casos – por exemplo em Itália, em Cerveteri – as forças policiais interromperam a celebração de uma Missa. Como se coloca a Autoridade Eclesiástica diante destes episódios? 
O caso de Cerveteri foi provavelmente um excesso de zelo por parte de dois polícias municipais, certamente stressados pelo clima alarmante que surgiu no início da epidemia. Mas deve ficar claro que, especialmente numa nação como Itália – em que existe uma Concordata entre a Igreja Católica e o Estado –, a autoridade em locais de culto é exclusivamente reconhecida à Autoridade eclesiástica e, portanto, teria sido mais do que necessário que a Santa Sé e o Ordinário local protestassem firmemente por uma violação do Pacto de Latrão, confirmado em 1984 e ainda válido. Mais uma vez, o exercício da autoridade por parte dos Pastores – que deriva directamente de Deus – dissolve-se como neve ao sol, demonstrando uma pusilanimidade que poderia um dia autorizar abusos muito piores. Aproveito esta ocasião para solicitar uma condenação muito firme destas interferências intoleráveis ​​por parte da Autoridade civil em questões de imediata e directa competência da Autoridade Eclesiástica. 

O Papa Francisco convidou, a 25 de Março, todos os Cristãos, independentemente de serem ou não Católicos, a rezarem o Pater noster, pedindo a Deus o fim da pandemia, e deu a entender que mesmo aqueles que professam outras religiões poderiam unir-se à sua oração.
O relativismo religioso insinuado pelo Concílio eliminou a persuasão de que a Fé Católica é o único caminho de salvação e que o Deus Uno e Trino que adoramos é o único Deus verdadeiro.           

O Papa Bergoglio declarou, na Declaração de Abu Dhabi, que todas as religiões são desejadas por Deus: esta não é apenas uma heresia, mas uma forma de gravíssima apostasia e uma blasfémia. Porque dizer que Deus aceita ser adorado, independentemente de como se tenha revelado, significa frustrar a Encarnação, a Paixão, a Morte e a Ressurreição do nosso Salvador. Significa inutilizar o propósito pelo qual existe a Igreja, a razão pela qual milhões de Mártires deram as suas vidas, por que existem os Sacramentos, o Sacerdócio e o próprio Papado.       

Infelizmente, justamente quando se deveria expiar o ultraje à Majestade de Deus, há quem peça para Lhe rezar juntamente com aqueles que se recusam a honrar a Sua Santíssima Mãe no dia da sua festa. É este o modo mais apropriado para obter o fim da peste?                 

Contudo, também é verdade que a Penitenciária Apostólica concedeu particulares Indulgências para os afectados pelo contágio e para os que assistem física e espiritualmente os doentes.   
Antes de mais, é necessário reafirmar vigorosamente que não é possível substituir com as Indulgências os Sacramentos. É necessário opor-se com a máxima firmeza às más decisões de alguns Pastores que recentemente proibiram os seus sacerdotes de ouvir as Confissões ou de administrar o Baptismo. Estas disposições – juntamente com a proibição de celebrar Missa e a suspensão das Comunhões – são contra o direito divino e demonstram que Satanás está por trás de tudo isto. Somente o Inimigo pode inspirar medidas que provocam a perda espiritual de tantas almas. É como se os médicos tivessem ordens de não dar os tratamentos vitais aos pacientes em perigo de vida.    

O exemplo do Episcopado polaco, que ordenou multiplicar as Missas para permitir a participação dos fiéis sem risco de contágio, deve ser assumido por toda a Igreja, caso a sua Hierarquia ainda tenha no coração o desejo da eterna salvação do povo cristão. E é significativo que, precisamente na Polónia, o impacto da pandemia seja inferior ao de outras nações.                     

A doutrina das Indulgências sobrevive aos ataques dos modernistas e essa é uma boa coisa. Mas se o Romano Pontífice tem o poder de tirar pleno proveito do inesgotável tesouro da Graça, também é verdade que as Indulgências não podem ser banalizadas, nem consideradas como se fossem saldos de fim de estação. Os fiéis também tiveram uma impressão semelhante por ocasião do último Jubileu da Misericórdia, para o qual a Indulgência Plenária foi concedida em tais condições, de modo a atenuar a consciência da sua importância naqueles que dela lucravam.          

Também se coloca o problema da Confissão sacramental e da Comunhão eucarística exigidas para se beneficiar das Indulgências, mas que nas normas emitidas pela Sagrada Penitenciária aparecem sine die com um genérico «assim que lhes seja possível». 

Acredita que as dispensas específicas relativas à Absolvição geral em vez da Absolvição individual possam aplicar-se à epidemia presente?   
A iminência da morte legitima o recurso a soluções que a Igreja, no seu zelo pela salvação eterna das almas que lhe foram confiadas, sempre concedeu generosamente, como no caso da Absolvição geral que é dada aos militares antes de um ataque ou, por exemplo, a quem se encontra num navio a afundar. Se a emergência de uma unidade de cuidados intensivos não permite a entrada do Sacerdote, a não ser em momentos limitados, e nestas situações não é possível ouvir as Confissões individuais dos moribundos, acredito que a solução proposta seja legítima.      

Mas se esta norma quer criar um perigoso precedente para posteriormente alargá-lo ao uso comum, sem que haja perigo iminente para a vida do penitente, será necessário vigiar com a máxima atenção para que o que a Igreja concede magnanimemente para casos extremos não se torne uma norma.       

Recordo também que as Missas transmitidas in streaming ou pela televisão não cumprem o preceito festivo. São uma maneira louvável de santificar o dia do Senhor quando é impossível ir à igreja. Mas deve ficar claro que a prática sacramental não pode ser substituída pela virtualização do sagrado, assim como é evidente que na ordem natural não se pode nutrir o corpo observando a imagem de um alimento.        

Qual é a mensagem de Vossa Excelência para aqueles que hoje têm a responsabilidade de defender e guiar o rebanho de Cristo?           
É indispensável e inadiável uma real conversão do Papa, da Hierarquia, dos Bispos e de todo o clero, bem como dos Religiosos. Os leigos reivindicam-na enquanto sofrem à mercê da confusão pela falta de guias fiéis e seguros. Não podemos permitir que o rebanho que o divino Pastor nos confiou para governar, proteger e conduzir à salvação eterna seja dispersado por mercenários infiéis. Devemos converter-nos, voltar a ser totalmente de Deus, sem compromissos com o mundo.  

Os Bispos devem recuperar a consciência da própria Autoridade Apostólica, que é pessoal, que não pode ser delegada a sujeitos intermediários, como as Conferências Episcopais ou os Sínodos, que distorceram o exercício do ministério apostólico, causando graves danos à constituição divina da Igreja como Cristo a quis.  

Basta de caminhos sinodais, basta de uma incompreendida colegialidade, basta deste absurdo sentido de inferioridade e cortesia em relação ao mundo; basta do uso hipócrita do diálogo em vez do intrépido anúncio do Evangelho; basta de ensinamentos de falsas doutrinas e do medo de pregar a pureza e a santidade de vida; basta dos terríveis silêncios diante da arrogância do Mal. Chega de cobertura de ignóbeis escândalos: chega de mentiras, de decepções e de vinganças!         

A vida cristã é uma milícia, não um passeio despreocupado em direcção ao abismo. A cada um de nós, em virtude da Ordem Sagrada que recebemos, Cristo pede contas das almas que salvamos e das que perdemos por não as termos avisado e ajudado. Voltemos à integridade da Fé, à santidade dos costumes, ao verdadeiro Culto agradável a Deus.     

Conversão e penitência, portanto, como nos exorta a Santíssima Virgem, Mãe da Igreja. A Ela, tabernáculo do Altíssimo, peçamos que inspire nos Pastores esse ímpeto heróico pela salvação da Igreja e pelo triunfo do Seu Imaculado Coração.                    

I Domingo da Paixão de 2020 

domingo, 29 de março de 2020

Como São Carlos Borromeu afrontou a epidemia do seu tempo


São Carlos Borromeu (1538-1584), cardeal da Santa Igreja Romana e arcebispo de Milão, de 1565 a 1583, foi definido, no decreto de canonização, como «um homem que, enquanto o mundo lhe sorri com as maiores agruras, vive crucificado ao mundo, vive do espírito, rejeitando as coisas terrenas, procurando continuamente as celestes, imitando na terra, nos pensamentos e nas obras, a vida dos Anjos» (Paulo V, Bula «Unigenitus», de 1 de Novembro de 1610). A devoção aos anjos acompanhou a vida de São Carlos, que o conde de Olivares, Enrique de Guzmán y Ribera, embaixador de Filipe II em Roma, definiu como «mais anjo que homem» (Giovanni Pietro Giussano, Vita di San Carlo Borromeo, Tipografia da Câmara Apostólica, Roma 1610, p. 441).           

Muitos artistas, como Teodoro Vallonio, em Palermo, e Sebastien Bourdon, em Fabriano, retractam nas suas pinturas Carlos Borromeu enquanto contempla um anjo que embainha a espada ensanguentada a indicar o fim da terrível peste de 1576. Tudo começou em Agosto daquele ano. Milão estava em festa para acolher João de Áustria, de passagem para a Flandres, de que tinha sido nomeado governador. As autoridades da cidade estavam empenhadíssimas para prestarem ao príncipe espanhol as maiores honras, mas Carlos, seis anos arcebispo da diocese, seguia com preocupação as notícias vindas de Trento, de Verona e de Mântua, onde a peste começava a reivindicar vítimas.                      

Os primeiros casos eclodiram em Milão a 11 de Agosto, precisamente quando lá entrava D. João de Áustria. O vencedor de Lepanto, seguido pelo governador Antonio de Guzmán y Zuñiga, deixou a cidade, enquanto Carlos, que se encontrava em Lodi para o funeral do bispo, regressou imediatamente. A confusão e o medo reinavam em Milão e o arcebispo dedicou-se inteiramente à assistência aos doentes, convocando orações públicas e privadas. D. Prosper Guéranger resume assim a sua inesgotável caridade: «Na ausência de autoridades locais, organizou o serviço sanitário, fundou ou renovou hospitais, procurou dinheiro e suprimentos, decretou medidas preventivas. Acima de tudo, providenciou o alívio espiritual, a assistência aos enfermos, o sepultamento dos mortos, a administração dos Sacramentos aos habitantes confinados por prevenção nas suas casas. Sem temer o contágio, deu a própria vida, visitando hospitais, orientando as procissões de penitência, fazendo-se tudo para todos como um pai e como um verdadeiro pastor» (L’anno liturgico – II. Tempo Pasquale e dopo la Pentecoste, Paoline, Alba 1959, pp. 1245-1248).     

São Carlos estava convencido de que a epidemia era «um flagelo mandado do céu» como castigo dos pecados do povo e que, contra isso, era necessário recorrer aos meios espirituais: oração e penitência. Censurou as autoridades civis por terem posto a sua confiança nos meios humanos e não nos meios divinos. «Não tinham proibido todas as reuniões piedosas e todas as procissões durante o tempo do Jubileu? Para ele, estava convencido, eram essas as causas do castigo» (Chanoine Charles Sylvain, Histoire de Saint Charles Borromée, Desclée de Brouwer, Lille 1884, vol. II, p. 135).       

Os magistrados que governavam a cidade continuavam a opor-se às cerimónias públicas, com medo de que o ajuntamento de pessoas pudesse dilatar o contágio, mas Carlos, «que era conduzido pelo Espírito divino» – diz outro biógrafo –, convenceu-os dando vários exemplos, entre os quais o de São Gregório Magno que tinha parado a peste que devastava Roma em 590 (Giussano, op. cit. p. 266). Enquanto a peste se espalhava, o arcebispo ordenou que três procissões gerais se realizassem em Milão, nos dias 3, 5 e 6 de Outubro, «para aplacar a ira de Deus». No primeiro dia, o santo, embora não se estivesse em tempo de Quaresma, impôs as cinzas sobre as cabeças dos milhares de pessoas reunidas, exortando à penitência. Terminada a cerimónia, a procissão dirigiu-se para a Basílica de Santo Ambrósio.     

Ele próprio se colocou à frente do povo, vestido com a capa magna, com um capuz e os pés descalços, a corda de penitente em volta do pescoço e uma grande cruz na mão. Na igreja, pregou sobre o primeiro lamento do profeta Jeremias: Quomodo sedet sola civitas plena populo[1], afirmando que os pecados do povo tinham provocado a justa indignação de Deus. A segunda procissão presidida pelo cardeal dirigiu-se para a Basílica de São Lourenço Maior.         

No seu sermão, aplicou à cidade de Milão o sonho de Nabucodonosor, de que fala Daniel, «mostrando que a vingança de Deus tinha vindo sobre ela» (Giussano, Vita di San Carlo Borromeo, p. 267). No terceiro dia, a procissão dirigiu-se da Catedral para a Basílica de Santa Maria de São Celso. São Carlos levava nas suas mãos a relíquia do Santo Prego de Nosso Senhor, doada pelo imperador Teodósio a Santo Ambrósio, no século V, e terminou a cerimónia com um sermão intitulado: Peccatum peccavit Jerusalem (Jr 1, 8). A peste não mostrava sinais de diminuição e Milão parecia despovoada porque um terço dos cidadãos tinha perdido a vida e o resto estava em quarentena ou não ousava sair de casa. O arcebispo ordenou que se erguessem, nas principais praças e ruas da cidade, cerca de vinte colunas de pedra encimadas por uma cruz para permitir que os habitantes de cada bairro participassem nas missas e nas orações públicas desde as janelas de casa.     

Um dos protectores de Milão era São Sebastião, o mártir a quem os romanos tinham recorrido durante a peste do ano 672. São Carlos sugeriu aos magistrados de Milão que reconstruíssem o santuário a ele dedicado, que caía em ruínas, e que celebrassem, durante dez anos, uma festa solene em sua homenagem. Finalmente, em Julho de 1577 a peste parou e, em Setembro, foi posta a primeira pedra do templo de São Sebastão, onde, a 20 de Janeiro de cada ano, ainda se celebra uma Missa para recordar o fim do flagelo.  

A peste de Milão de 1576 foi o que o saque dos Landsknechts tinha sido para Roma cinquenta anos antes: um castigo, mas também uma ocasião de purificação e de conversão. Carlo Borromeu recolheu as suas meditações num Memorial, no qual escreveu, entre outras coisas: «Cidade de Milão, a tua grandeza subia até aos céus, as tuas riquezas estendiam-se até aos confins do universo mundo (...) A peste, que é a mão de Deus, veio do céu e, de seguida, foi reduzida a tua soberba» (Memoriale al suo diletto popolo della città e diocesi di Milano, Michele Tini, Roma 1579, pp. 28-29). O santo estava convencido de que tudo se devia à grande misericórdia de Deus: «Ele feriu e curou; Ele flagelou e curou; Ele colocou a mão na vara do castigo e ofereceu o bastão do apoio» (Memoriale, p. 81). 

São Carlos Borromeu morreu a 3 de Novembro de 1584 e está sepultado na Catedral de Milão. O seu coração foi solenemente transladado para Roma, para a Basílica dos Santos Ambrósio e Carlos, onde ainda é venerado. Inúmeras igrejas são-lhe dedicadas, entre as quais a majestosa Karlskirche, em Viena, construída, no século XVIII, como acto votivo do imperador Carlos VI, que confiou a cidade à protecção do santo durante a peste de 1713.       

Durante os seus dezoito anos de governo da diocese de Milão, o arcebispo Borromeu dedicou-se com igual vigor a combater a heresia, que considerava a peste do espírito. Segundo São Carlos, «de nenhuma outra falha é Deus mais gravemente ofendido, por ninguém provocado a maior indignação do que pelo vício das heresias, e que, por sua vez, nada pode arruinar tanto as províncias e os reinos como pode aquela horrível peste» (Conc. Prov. V, Pars I). São Pio X, citando esta sua frase, definiu-o «modelo do rebanho e dos pastores nos tempos modernos, incansável defensor e conselheiro da verdadeira reforma católica contra esses modernistas recentes, cuja intenção não era a reintegração, mas a deformação e destruição da fé e dos costumes» (Encíclica Edita saepe, de 26 de Maio de 1910). 

Roberto de Mattei



[1] Trad.: Como se encontra solitária a cidade outrora tão populosa.

sábado, 28 de março de 2020

O rito da Sagrada Comunhão em tempos de epidemia



Ninguém pode nos obrigar a receber o corpo de Cristo de uma maneira em que exista o risco de se perderem partículas ou seja minada a reverência, como acontece quando se recebe a Comunhão na mão. Embora seja verdade que se possa receber directamente com a boca sobre um pequeno e limpo pano branco (um purificador ou um corporal de pequenas dimensões), isto nem sempre é viável e há até sacerdotes que se recusam a fazê-lo.          

Nesses casos, o melhor é fazer uma comunhão espiritual, que enche a alma de graças especiais. Durante as épocas de perseguição, muitos católicos não puderam receber a Sagrada Comunhão sacramentalmente por períodos muito prolongados, mas faziam comunhões espirituais que lhes traziam muitos benefícios espirituais.           

Não é mais higiénico comungar na mão do que na boca. A verdade é que isso pode aumentar o risco de contágio. Do ponto de vista da higiene, a mão contém grandes quantidades de bactérias. As mãos transmitem numerosos agentes patogénicos. Seja a apertar a mão a alguém, a tocar constantemente em diversos objectos, como em maçanetas ou puxadores de portas, ou a apoiar-se no autocarro ou no metro, os micróbios passam facilmente de mão em mão e, depois, as pessoas passam frequentemente as mãos e os dedos sujos no nariz ou na boca. E não só. Às vezes, os micróbios podem sobreviver durante dias na superfície de objectos que foram tocados. De acordo com um estudo publicado, em 2006, no boletim BMC Infectious Diseases, os vírus da gripe e outros semelhantes podem sobreviver durante vários dias em superfícies como portas, grades ou barras dos transportes públicos.           

Muitos fiéis que vão à igreja e recebem a Comunhão na mão já tocaram nas maçanetas das portas ou agarraram-se à barra no transporte público ou ao corrimão de uma escada. Levam o vírus na palma da mão e nos dedos e, durante a Missa, levam essas mesmas mãos ao nariz ou à boca. Com essas mãos e dedos contaminados, tocam na Hóstia Consagrada, passando o vírus para a Hóstia, e, de seguida, os dedos e a Hóstia passam o vírus para a boca.      

Sem dúvida alguma, comungar na boca é menos arriscado e mais higiénico do que fazê-lo com a mão. Para além disso, se não se lavarem bem, a palma da mão e os dedos acumulam muitos micróbios.   

Proibir a Comunhão na boca é algo infundado em comparação com os sérios riscos para a saúde que comporta fazê-lo com a mão em tempos de pandemia. Tais proibições constituem um abuso de autoridade. E não só. Dá a impressão de que algumas autoridades eclesiásticas se aproveitam da epidemia como pretexto. Parece também que alguns se regozijam cinicamente em estender ainda mais o processo de banalização e dessacralização do Santíssimo Corpo de Cristo no sacramento eucarístico, colocando o Corpo do próprio Senhor em risco de graves desrespeitos (perda de partículas) e sacrilégios (roubo de Hóstias Consagradas).          

Há que ter em conta que, ao longo dos 2000 anos de história da Igreja, não houve nenhum caso documentado de contágio por se receber a Sagrada Comunhão. Na Igreja Bizantina, o sacerdote dá a Comunhão aos fiéis com uma colher que é usada para todos. Após a comunhão, o sacerdote ou diácono bebe a água ou o vinho com que purificou a colher, a qual tocou na língua de alguns fiéis enquanto comungavam. Muitos fiéis das Igrejas de Rito Oriental estão escandalizados com a falta de fé dos bispos e sacerdote do Rito Latino quando não permitem a Comunhão na boca; proibição que, no fundo, obedece à falta de fé no carácter divino e sagrado do Corpo e do Sangue de Cristo-Eucaristia.              

Se a Igreja do nosso tempo não se voltar a esforçar com o máximo empenho por estimular a fé, a reverência e as medidas de protecção para o Corpo de Cristo, qualquer medida de protecção para os fiéis será em vão. Se a Igreja actual não se converter e voltar a Cristo, concedendo a primazia a Jesus, e em concreto a Jesus-Eucaristia, Deus demonstrará a veracidade das Suas palavras: «Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os construtores. Se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigiam as sentinelas» (Sl 127 [126], 1).   

Recomendamos a seguinte oração para fazer a comunhão espiritual:

«Prostro-me aos Vossos pés, meu Jesus, e ofereço-Vos o arrependimento do meu coração contrito, dobrado no seu nada e diante da Vossa sagrada presença. Adoro-Vos no sacramento do Vosso amor, a inefável Eucaristia. Desejo receber-Vos na humilde morada que Vos oferece o meu coração. Enquanto espero a dita da Comunhão sacramental, desejo receber-Vos espiritualmente. Vinde a mim, meu Jesus, porque a Vos me dirijo! O Vosso amor abrace o meu coração na vida e na morte. Creio em Vós, espero em Vós e amo-Vos. Amém».                           

Athanasius Schneider      
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Maria Santíssima, em Astana


Uma tradução de Dies Iræ.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Transladação dos restos mortais de Monsenhor Lefebvre



A 5 de Outubro de 2019, em Friburgo, o Seminário São Pio X celebrou o 50.º aniversário da sua fundação. No dia 24 de Setembro de 2020, celebrar-se-á o jubileu da abertura de Ecône. Decorrerá, nessa ocasião, a solene transladação dos restos mortais do seu fundador, D. Marcel Lefebvre (1905-1991).     

A 31 de Maio de 1968, cinco amigos compraram a casa de Ecône dos Cónegos do Grande São Bernardo para preservar a vocação religiosa. Dois anos depois, esta casa foi oferecida a D. Lefebvre para se instalar no primeiro ano do seu seminário. Imediatamente interessado, o prelado aceitou depois de ter obtido o consentimento do bispo local, D. Adam. No início do ano académico de 1970, pôde receber muitos candidatos. Para comemorar o 50.º aniversário deste primeiro ano académico, o Seminário São Pio X organizará, no dia 24 de Setembro de 2020, um dia de comemorações que culminará com a transladação dos restos mortais de Monsenhor Lefebvre da cripta do Seminário para a da Igreja do Imaculado Coração de Maria de Ecône. A decisão foi tomada pelo Superior-Geral, P. Davide Pagliarani, a pedido do Capítulo Geral de 2018.

Quando a morte bate mais alto



A nossa “irmã morte corporal”, através do coronavírus, está a levar consigo dezenas de sacerdotes em Itália. Bergamo, a cidade que vê as vítimas do COVID-19 serem transportadas por veículos militares até à cremação, também é a mais afectada neste sentido. A maioria deles foram infectados por estarem perto dos doentes e abençoarem as urnas… São todos padres, como as outras almas, que não têm e não terão funeral porque a epidemia o impede.    

As fronteiras das nações estão fechadas por razões imprescindíveis. Erguem-se muros para conter a pandemia. As pessoas são forçadas a permanecer fechadas em casa, a distanciar-se, a isolar-se, a fazer sacrifícios, enquanto que o sofrimento preenche as vidas e os hospitais e o luto impede de cantarolar, como alguns, em vez e sem sentido, fazem. Os moribundos morrem sozinhos, sem o conforto dos Sacramentos, sem a presença dos próprios entes queridos... E retorna a seriedade da vida e da morte. A morte existe e, hoje, não pode ser deixada de lado, como procura fazer falaciosamente a cultura da morte contemporânea também através da eutanásia e do aborto.    

Procura-se insistir no facto de que estatisticamente morrem de coronavírus principalmente os idosos e os mais frágeis de saúde, um dado que é aceite quase como que consolador… mas a verdade é que todas estas mortes ocorreram devido ao coronavírus, e não por causa das anteriores patologias, e os idosos são tão pessoas quanto os outros, tal como os inocentes mortos nos úteros maternos. Todavia, no mundo “avançado” e moderno, idosos e crianças são, de facto, seres pesados e dispendiosos para um Ocidente ateu e materialista.                      

Quando a morte bate mais alto, como nesta pandemia, a vida assume outro valor. O Papa e os bispos estão a recorrer correctamente às invocações e às orações, mas ainda não estão a falar de acordo com os termos consonantes com a catolicidade, isto é, não estão a apelar aos fiéis para a conversão e para o arrependimento dos próprios pecados. Jesus venceu a morte vencendo o mundo e fê-lo através da Cruz. O Homem, quando segue a Cristo, vence o mundo e a si mesmo somente através da conversão ao único Salvador, sujeitando-se humildemente não às leis estatais, mas às de Deus Uno e Trino.

O massacre dos inocentes, pelas mãos das suas mães e dos médicos, com a “maldição” das leis estatais, não pode atrair as bênçãos de Deus. O sangue derramado tem um preço a pagar: é a balança misericordiosa da Justiça de Deus. «O Senhor é obreiro da justiça, defende o direito a todos os oprimidos» (Sl 103 [102]) e, lento para a ira, continua, no Céu e nos Tabernáculos, perto de quem O teme. Há sacerdotes que celebram Santas Missas pelo sangue derramado por estes santos inocentes, mortos e esquecidos pelos homens, mas não pelo seu Criador. Embora sejam poucos os sacerdotes esclarecidos neste sentido, tais Santas Missas têm um valor infinito em virtude do Sacrifício de Cristo no altar.          

Escreveu Santa Hildegarda de Bingen: «Como o fogo é silencioso antes de ser incendiado por um sopro de ar, pois com a ajuda do ar inflama-se, também a obra de Deus na Sua providência é silenciosa antes de se manifestar» (E. Gronau, Hildegard. Vita di una donna profetica alle origini dell’età moderna, Àncora, Milão 1996, p. 44). Agora, o Senhor está-se a manifestar do modo que Nossa Senhora, em Fátima e em La Salette, anunciou. Este tempo de Quaresma forçada para todos é um tempo propício para repensar a própria vida e é um tempo precioso de conversão. «“Em verdade, em verdade te digo: Quem não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus”. Disse-Lhe Nicodemos: «Como pode nascer um homem sendo velho? Poderá entrar segunda vez no seio de sua mãe e voltar a nascer?”. Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade te digo: Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus”» (Jo 3, 3-5).           

Nada de divertimentos, nem bares, pubs, restaurantes, night club, nada de movida, ginásios, centros de beleza e de bem-estar, nada de corridas e passeios de bicicleta... mas com as forças da lei e o exército para impedir qualquer movimento que não seja de sobrevivência. Ao mesmo tempo, nada de Eucaristia. Sagrado e profano calam-se. Os pecados do mundo e da Igreja, tal como um tsunami, repropuseram esmagadoramente as pandemias que se pensava terem sido varridas da face da terra. Mas a Providência trabalha com os seus instrumentos e também nos faz sentir a falta do alimento para as almas. Santa Jacinta de Fátima, que se fez alma-hóstia e morreu por causa da pandemia de há cem anos, a Espanhola, faleceu sem os seus familiares e sem a Sagrada Comunhão… precisamente ela que, com o irmão e a prima, a tinha recebido do Anjo de Portugal. 

Aos trinta anos, a Beata Juliana de Norwich (1342-1416), mística inglesa, teve uma série de visões que, vinte anos depois, foram transcritas na obra As Revelações do Amor Divino. No manuscrito lê-se que uma certa revelação «foi feita a uma criatura simples e iletrada enquanto ainda vivia na sua carne mortal, no ano de Nosso Senhor 1373, a 13 de Maio». E entre as visões estava aquela em que está inserida a frase que se tornou, em Itália, o lema para a epidemia em curso: «Vai ficar tudo bem». D. Mauro Maria Morfino, SDB, bispo de Alghero-Bosa, explicou o acontecimento místico da seguinte forma: «Depois de uma longa experiência de visões que Juliana tem da Paixão do Senhor, Juliana explica que, com extrema doçura, o Senhor diz estas palavras: “Sim, o pecado é uma grande tragédia porque vos faz um mal incrível” e, acrescenta Juliana, com infinita ternura o Senhor disse-me: “Mas vai ficar tudo bem, terminará tudo bem”. Se pensamos que esta expressão, que aparece em todas as nossas cornijas, em todos os terraços e com todos os tons e cores, vem realmente do Senhor, então isso deve consolar-nos».           

Cristina Siccardi


Através de Corrispondenza Romana.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Se os Ministros do Sol entregam o rebanho às trevas



O Dies Irae publica, em exclusivo para Língua Portuguesa, uma mensagem do Arcebispo Carlo Maria Viganò. 


Aquilo a que estamos a assistir nestas horas é dramático; em toda a Itália, é claro, mas de um modo tragicamente exemplar em Roma, o coração da catolicidade. Um cenário que é ainda mais desconcertante quando não está somente em jogo a saúde pública, mas a salvação das almas, a eterna, de cujo desejo, há algum tempo, como pastores, deixamos de inflamar os nossos fiéis. Privamo-los de tal modo daqueles dons sobrenaturais que nos tornam capazes de enfrentar as provações terrenas, mesmo os ataques da morte, com a força da fé e com aquele suspiro de inesgotável e inabalável esperança que deriva do anseio pelo destino de glória para que fomos criados.

Os pronunciamentos da CEI[1] e as oscilações do Cardeal-Vigário de Roma, bem como as imagens surreais e assustadoras que nos chegam do Vaticano, são algumas das expressões do obscurecimento da fé que atingiu os líderes da Igreja. Os Ministros do Sol, como tanto gostava de lhes chamar Santa Catarina de Sena, provocaram o seu eclipse, entregando o rebanho às trevas de densa escuridão.                        

A propósito das disposições da CEI: quando as disposições emitidas pelo Estado ainda estavam apenas limitadas às áreas de risco, a certas práticas e em horários específicos, a Conferência Episcopal Italiana já tinha providenciado o cancelamento da totalidade das celebrações litúrgicas públicas em todas as igrejas do território, ajudando a alimentar medos e pânico e privando os fiéis do conforto indispensável dos sacramentos. É difícil não pensar que tal medida não tenha sido sugerida ao presidente da CEI por quem, protegido pelas muralhas leoninas, sonha há sete anos com uma igreja em saída, um hospital de campanha, que não hesita em abraçar a todos e a sujar-se.       

O Cardeal Bassetti[2], tão zeloso em querer parecer mais realista que o rei, parece ter-se esquecido de uma lição importantíssima: para que a Igreja preste serviço ao bem comum e ao Estado, não deve renunciar a si mesma, nem deixar de cumprir a sua missão de anunciar Cristo, nosso único Senhor e Salvador, mas deve ter cuidado para não obscurecer as suas divinas prerrogativas de Sabedoria e de Verdade e de modo algum abdicar da Autoridade que vem do Soberano dos reis da terra, Nosso Senhor Jesus Cristo.                     

Os acontecimentos eclesiais destas horas deixaram clara, se tal ainda fosse necessário, a trágica sujeição da Igreja a um Estado que age de todas as formas para destruir a identidade cristã da nossa Itália, escravizando-a a uma agenda ideológica imoral, inimiga do homem e da família, globalista, malthusiana, abortista, migracionista, que quer a destruição da Igreja e, certamente, não deseja o bem do nosso País.                               

Para remediar a ausência de uma voz autoritária e de gestos encorajadores da parte do Vigário de Cristo e dos pastores, providenciou-se a coragem e a sabedoria de alguns fervorosos sacerdotes e fiéis leigos.             

Abri, melhor, escancarai as portas a Cristo! Abri, melhor, escancarai as portas das nossas igrejas para que os fiéis possam entrar, arrepender-se dos seus pecados, participar no Santo Sacrifício da Missa e recorrer ao tesouro de graças que correm do Coração trespassado de Cristo, nosso único Redentor que nos pode salvar do pecado e da morte.               

 Carlo Maria Viganò               
Arcebispo Titular de Ulpiana           
Núncio Apostólico           

Uma tradução de Dies Iræ.           



[1] Conferência Episcopal Italiana
[2] Presidente da CEI e Arcebispo de Perugia-Città della Pieve