sábado, 4 de julho de 2020

COVID-19 e crise da família



Se a família tivesse conservado a sua estrutura natural e tradicional, em vez de ser destruída pelas tendências modernas, a pandemia do COVID-19 não teria sido tão nociva, tanto em termos absolutos quanto em percentuais de infecção e de mortalidade. É esta a conclusão de um estudo científico – Coronavirus y Demografía en España – tornado público pelo Observatório Demográfico CEU da Universidade de San Pablo, de Madrid, liderado pelo Prof. Joaquín Leguina.  

«Trata-se de uma análise de projecção do que teria acontecido se tivéssemos mantido o número de filhos por mulher em 1976, que era de 2,8, ou seja, acima do nível de reprodução, o que permitia um crescimento positivo da população; se tivéssemos mantido a estrutura familiar da época, quando quase toda a gente era regularmente casada, e quase não havia separações nem divórcios; e se a maior parte dos idosos vivesse em casa com filhos e netos, como se fazia então», explica o Prof. Alejandro Macarrón Herrán, coordenador do projecto. 

Se em Espanha se tivessem conservado as taxas de fertilidade, de casamento e de estabilidade matrimonial de 1976, hoje o País teria vinte milhões de cidadãos a mais com menos de quarenta anos. Isso teria mudado substancialmente o curso da pandemia: «Uma população mais jovem teria taxas de infecção e de mortalidade muito mais baixas e não pesaria muito no sistema nacional de saúde, evitando, assim, o colapso dos hospitais. Para não falar do facto de que o número de hospitalizados nas RSA [1] – onde ocorreram 70% das mortes – teria sido muito mais reduzido. Teríamos mais PIB, mais hospitais e mais jovens».   

Um outro ponto interessante do estudo diz respeito à situação psicológica das pessoas. Com uma estrutura familiar como a de 1976, um número reduzido de espanhóis teria passado a quarentena em solidão. Em 1976, apenas 2% moravam sozinhos. Hoje, tal percentual subiu para 11%. Quase cinco milhões de espanhóis passaram a quarentena em solidão, uma bomba-relógico de problemas psicológicos que agora começam a surgir.       

Por outro lado, está cientificamente comprovado que uma família numerosa e bem estruturada gere muito melhor este tipo de situações. O estudo da Universidade CEU San Pablo conclui: «Se as famílias espanholas fossem as de 1976, a sociedade como tal teria suportado muito melhor o impacto da pandemia: do trabalho à distância ao apoio entre os membros e à educação dos filhos».   

Em declarações à margem do estudo académico, o Prof. Macarrón recordou como «uma demografia saudável é o fundamento de uma sociedade saudável. A sociedade espanhola deve tomar consciência deste problema. Uma das nossas principais preocupações deveria ser a taxa de natalidade. Precisamos de estudar o que fazer para motivar as famílias a terem mais filhos: redução de impostos, medidas económicas de apoio à maternidade e à família, ajudas às empresas para favorecer a maternidade e assim por diante. Por outro lado, devemos repensar a política do aborto e dos contraceptivos gratuitos, além de estudar porquê que as pessoas têm medo do matrimónio e da parentalidade».     

Desde 1976, a Espanha – e não apenas sob governos socialistas – aprovou leis que favorecem os casais de facto, em vez de os regularmente casados, e facilitou a separação e o divórcio. O exacto oposto do que deveria ter feito. Isto é visível, por exemplo, no mercado de trabalho. De acordo com o Prof. Macarrón, «o Estado castiga as mulheres que escolhem ter filhos. Os incentivos fiscais só funcionam para as mulheres que trabalham. Isto é discriminatório. O Estado deveria ser, pelo menos, neutro».   

«O suicídio demográfico está a acelerar», adverte o docente de demografia: «Nos últimos anos, diminuíram o número de filhos por cada mulher e o número de mulheres que têm filhos. Se não fizermos algo, seremos vítimas de uma espiral de morte que nos levará ao suicídio demográfico. Diferentemente da economia, esta deterioração não é explosiva e, portanto, não a percebemos facilmente e não adoptamos medidas para contê-la. É um cancro que, gradualmente, está a devorar a nossa sociedade».        

Palavras sensatas que, precisamente por esse motivo, duvido que encontrem espaço nos jornais italianos.   

Julio Loredo      

Através de Fatima Oggi 



[1] Unidades não-hospitalares dedicadas ao acolhimento de pessoas dependentes.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Jesus: remédio para todos os males



«Nestes tempos de fé morta, de impiedade triunfante, o meio mais seguro para manter-se livre do pestífero mal que nos circunda é fortalecer-nos com o Alimento Eucarístico» – Padre Pio.   

Neste pensamento de Padre Pio aparece evidente uma verdade que a história confirma de tempos a tempos. De facto, na história há períodos de recomeço e florescimento espiritual que enriquecem a Igreja e a sociedade com muito bem-estar, em todos os sentidos; assim como, pelo contrário, há períodos caracterizados por devastações e ruínas morais que fazem precipitar no caos e na corrupção segundo o modelo imposto pelo «império das trevas» (Lc 22, 53).        

Infelizmente, este pensamento de Padre Pio reflecte plenamente a situação na qual a Igreja e a Sociedade se encontram nestes nossos dias. Com Padre Pio e como Padre Pio, também nós, infelizmente, podemos e devemos definir estes nossos tempos realmente e dramaticamente quais «tempos de fé morta e de impiedade triunfante», com o agravante de um ateísmo militante e de uma mundanização dominante que parecem empalidecer todos os períodos precedentes de decadência e ruína na história da humanidade.          

Há uma resposta de Padre Pio que define bem a condição de miséria extrema na qual nos encontramos. «Como considera a nossa época, Padre?», perguntaram a Padre Pio. E Padre Pio respondeu: «É a época da confusão». A pessoa que interrogara Padre Pio não tinha percebido bem o termo “confusão” e logo perguntou: «O que significa a confusão?». E Padre Pio: «Significa a ruína de todos os valores».         

Não nos encontramos, de facto, no tempo da «ruína de todos os valores», que se chama, da maneira mais crua, os «tempos de fé morta e de impiedade triunfante»? Estamos todos a sofrer pela ruína dos valores máximos: a vida (contracepção, aborto, eutanásia), a(sincretismo, ateísmo, relativismo), a família (divórcio, separação), o matrimónio (convivência, matrimónio homossexual), a juventude (discotecas, drogas), a paz (terrorismo).           

Mas como salvar-se e defender-se desta «ruína» que Padre Pio chama «pestífero mal que nos circunda»? A resposta de Padre Pio tem um valor universal e perene: é preciso nutrir-se e fortificar-se com o Alimento Eucarístico. Se a batalha é áspera, se a luta é dura, não se deve acreditar que não haja o meio para não sucumbir e vencer. O meio existe e é o meio divino que sustou os mártires, os apóstolos, os missionários em todos os trabalhos mais árduos: é o «Alimento Eucarístico» que é o “pão dos fortes”. Nutramo-nos, por isso, santamente, deste «Alimento Eucarístico».

P. Stefano Maria Manelli, fundador dos Franciscanos da Imaculada            

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Família vai à luta



O Dies Iræ recebeu, através de um prezado leitor, um pedido de divulgação de mais uma situação que confirma a aberrante agenda ideológica promovida nas escolas portuguesas. Aproveita-se a ocasião para fazer um apelo a que sejam oferecidas orações e sacrifícios para que esta situação conheça o seu fim o mais rapidamente possível.

Família é obrigada a ir à luta contra a prepotência do Estado, através do Governo (PS) acompanhado dos seus servidores (directores das escolas), na tentativa de expropriar aos pais a educação dos seus filhos.

Como é de todos sabido, no ano lectivo 2018/2019, foi introduzida uma nova disciplina no ensino em Portugal, “Cidadania e Desenvolvimento”, com conteúdos de mera promoção ideológica.

Uma família, no exercício das suas competências e liberdades, logo no início do ano lectivo 2018/2019, informou a escola e o próprio Sr. Ministro da Educação, bem como o Sr. Primeiro Ministro, e o Sr. Presidente da República, de que não autorizava que os seus filhos participassem na referida disciplina, num acto de pura resistência pacífica à tentativa de imposição, como curricular, de uma disciplina, que invade o espaço educativo que pertence aos pais.

Imagine-se que foi ditada a sentença, primeiro, por Despacho do Sr. Secretário de Estado da Educação, Doutor João Costa (Fevereiro 2020) e, muito recentemente, por Despacho do Sr. Director da Escola [1], anulando a decisão do Conselho de Turma(!) referente ao ano lectivo 2018/2019. A anulação da decisão do Conselho de Turma visa reter dois dos filhos daquela família no ano que frequentavam naquele ano lectivo, e que aí fiquem retidos até que os pais se dignem autorizar a participação nas referidas aulas!

O caso vai acabar em tribunal.



[1] A título de curiosidade, é bom saber-se que estamos a falar tão somente de uma família que deu 6 alunos àquele Agrupamento de Escolas, e que todos eles, em todos os anos que frequentaram aquele Agrupamento, foram distinguidos no Quadro de Excelência, ou reuniam condições para isso, além de terem um registo exemplar enquanto alunos/cidadãos e estarem sempre disponíveis para representar a Escola em diversas actividades tais como: concertos, concursos de matemática, leitura, biologia, química, etc.

As incógnitas do fim de um pontificado



A renúncia de Bento XVI será lembrada como um dos acontecimentos mais catastróficos do nosso século, porque abriu a porta não apenas a um pontificado desastroso, mas, sobretudo, a uma situação de crescente caos na Igreja. Mais de sete anos após o infeliz 11 de Fevereiro de 2013, a vida de Bento XVI e o pontificado do Papa Francisco estão inexoravelmente a chegar ao fim. Não sabemos qual dos dois acontecimentos precederá o outro, mas, em ambos os casos, a “fumaça de Satanás” corre o risco de envolver o Corpo Místico de Cristo, como talvez nunca tenha acontecido na história.

O pontificado bergogliano chegou ao fim, se não do ponto de vista cronológico, certamente do ponto de vista do seu impacto revolucionário. O Sínodo da Amazónia fracassou e a Exortação Querida Amazónia, de 2 de Fevereiro, foi a pedra tumular de tantas esperanças do mundo progressista, especialmente da área alemã. O Coronavírus, ou COVID-19, pôs definitivamente fim aos ambiciosos projectos pontifícios para 2020, dando-nos a imagem histórica de um Papa solitário e derrotado, imerso no vazio de uma espectral Praça de São Pedro. Por outro lado, a Divina Providência, que regula sempre todos os acontecimentos humanos, permitiu que Bento XVI assistisse ao colapso após a sua renúncia. Mas, provavelmente, o pior ainda está por vir.

Era lógico prever que, com a convivência de “dois Papas” no Vaticano, uma parte do mundo conservador, desgostoso de Francisco, voltaria o olhar para Bento, considerando-o o “verdadeiro Papa”, em oposição ao “falso profeta”. Embora convencidos dos erros do Papa Francisco, esses conservadores não quiseram seguir o caminho iniciado pela Correctio filialis entregue ao Papa Francisco a 11 de Agosto de 2016. A verdadeira razão da sua relutância está, provavelmente, no facto de que a Correctio destaca como a raiz dos desvios bergoglianos remonta aos pontificados de Bento XVI e de João Paulo II e, antes ainda, ao Concílio Vaticano II. Para muitos conservadores, por outro lado, a hermenêutica da continuidade de João Paulo II e de Bento XVI não admite fracturas e, como o pontificado bergogliano parece representar a negação desta hermenêutica, a única solução para resolver o problema é eliminar Francisco do horizonte.

O próprio Bento, dando a si mesmo o título de Papa emérito, continuando a vestir de branco e a conceder a bênção apostólica, teve gestos que parecem encorajar essa impérvia obra de substituição do novo Papa pelo antigo. O argumento princeps é, porém, a distinção entre munus e ministerium, com a qual Bento parecia querer conservar para si uma espécie de pontificado místico, deixando a Francisco o exercício do governo. A origem da tese remonta a um discurso de Mons. Georg Gänswein, de 20 de Maio de 2016, na Pontifícia Universidade Gregoriana, na qual afirmava que o Papa Bento não havia abandonado o seu ministério, mas tinha-lhe dado uma nova dimensão colegial, tornando-o um ministério quase-partilhado («als einen quasi gemeinsamen Dienst»). De nada adianta que Mons. Georg Gänswein, num comunicado ao LifeSiteNews, a 14 de Fevereiro de 2019, tenha reafirmado a validade da renúncia ao ministério petrino de Bento XVI, afirmando que «existe apenas um Papa legitimamente eleito, e é Francisco». A ideia de uma possível redefinição do múnus petrino já tinha sido lançada. E diante da objecção de que o Papado é uno e indivisível e não pode tolerar divisões no seu interior, a réplica desses conservadores é que é precisamente esse facto que comprova a invalidade da renúncia de Bento XVI. A intenção de Bento – dizem eles – era a de conservar o pontificado, supondo que o ministério pudesse dividir-se em dois; mas isto é um erro substancial, porque a natureza monárquica e unitária do Papado é de direito divino. A renúncia de Bento XVI seria, portanto, inválida.

É fácil argumentar que, se fosse provado que Bento XVI tinha a intenção de dividir o pontificado, mudando a constituição da Igreja, teria caído em heresia; e como esta concepção herética do Papado seria, certamente, anterior à sua eleição, a eleição de Bento XVI deveria ser considerada inválida pelo mesmo motivo pelo qual é considerada inválida a renúncia. Em nenhum caso seria ele o Papa. Mas estes são discursos abstractos, porque só Deus julga as intenções, enquanto que o direito canónico se limita a avaliar o comportamento externo dos baptizados. Uma célebre sentença do direito romano, recordada pelo Cardeal Walter Brandmüller e pelo Cardeal Raymond Leo Burke, afirma que «De internis non iudicat praetor»; um juiz não julga as coisas internas. Por outro lado, o cânone 1526, § 1 do novo Código de Direito Canónico recorda que: «Onus probandi incumbit ei qui asserit» (o ônus de fornecer as provas cabe a quem assevera). Há uma diferença entre indício e prova. O indício sugere a possibilidade de um facto, a prova demonstra a certeza. A regra de Agatha Christie, segundo a qual três indícios são uma prova, vale para a literatura, mas não para os tribunais civis ou eclesiásticos.       

Além disso, se o legítimo Papa fosse Bento XVI, o que aconteceria se ele, de um dia para o outro, morresse ou se, em vez disso, antes da sua morte morresse o Papa Francisco? Visto que muitos dos actuais purpurados foram criados pelo Papa Francisco e nenhum dos cardeais eleitores o considera um antipapa, a sucessão apostólica seria interrompida, prejudicando a visibilidade da Igreja. O paradoxo é que, para provar a invalidade da renúncia de Bento, se utilizam sofismas jurídicos, mas, depois, para resolver o problema da sucessão de Bento ou de Francisco, dever-se-ia recorrer a soluções extra-canónicas. A tese do visionário franciscano Jean de Roquetaillade (João de Rupescissa: 1310-1365), segundo a qual, na iminência do fim dos tempos, apareceria um “Papa angélico” à cabeça de uma Igreja invisível, é um mito espalhado por muitos pseudo-profetas, mas nunca aceite pela Igreja. Seria este o caminho que uma parte do mundo conservador tomaria? Parece mais lógico acreditar que os cardeais reunidos em conclave para eleger um novo Papa, depois da morte ou da renúncia ao pontificado do Papa Francisco, seriam assistidos pelo Espírito Santo. E, se é verdade que os cardeais poderiam rejeitar a influência divina, elegendo um Pontífice pior que o Papa Francisco, é também verdade que a Providência poderia reservar surpresas inesperadas, como foi para a eleição de Pio X ou de outros grandes Papas na história.

Aquilo de que precisamos é de um Papa santo e, antes ainda, de um próximo Papa. Com o título The Next Pope, saiu por estes dias um óptimo livro do jornalista inglês Edward Pentin, publicado pelo Sophia Institute Press (The Next Pope: The Leading Cardinal Candidates). O principal mérito desta obra de 700 páginas é lembrar-nos de que haverá um “próximo Papa” e oferecer-nos, através dos perfis de 19 “papáveis”, todas as informações necessárias para entrar na era pós-franciscana.

É necessário convencermo-nos de que a hermenêutica da continuidade fracassou, porque estamos a atravessar uma crise na qual nos devemos medir sobre os factos e não sobre as suas interpretações. «A inaceitabilidade desta abordagem – observa correctamente Peter Kwasniewskié demonstrada, entre outras coisas, pelo sucesso infinitesimal que os conservadores tiveram em derrubar as “reformas” desastrosas, as tendências, os hábitos e as instituições estabelecidas na esteira e em nome do último Concílio, com a aprovação ou a tolerância papal».

O Papa Francisco nunca teorizou a hermenêutica da “descontinuidade”, mas quis realizar o Vaticano II na práxis e a única resposta vencedora a esta práxis reside na realidade concreta dos factos teológicos, litúrgicos, canónicos e morais, e não num estéril debate hermenêutico. A este respeito, o verdadeiro problema não será a continuidade ou a descontinuidade do próximo Pontífice com o Papa Francisco, mas a sua relação com o nó histórico do Concílio Vaticano II. Alguns conservadores querem eliminar o Papa Francisco através de sofismas canónicos, em nome da hermenêutica da continuidade. Mas se é possível acusar um Papa pela sua descontinuidade com o seu antecessor, por que não admitir a possibilidade da descontinuidade de um Concílio com os precedentes? Neste contexto, devem ser apreciadas as recentes intervenções sobre o Vaticano II do Arcebispo Carlo Maria Viganò e do Bispo Auxiliar de Astana, Athanasius Schneider, que tiveram a coragem de enfrentar um debate teológico e cultural que não se pode evitar. Este trabalho de revisão histórica e teológica do Vaticano II é necessário para dissipar as sombras que se adensam no fim do pontificado e também para evitar uma divisão que poderia colocar os bons católicos diante da escolha entre um Papa mau, mas legítimo, e um antipapa de melhor doutrina, ou “místico”, mas, infelizmente, ilegítimo.  

Roberto de Mattei      

Através de Corrispondenza Romana

quarta-feira, 1 de julho de 2020

«Quantas palavras fátuas nos foram ditas», diz Mons. Viganò a Mons. Negri



A pedido do Arcebispo Carlo Maria Viganò, o Dies Iræ traduz e publica, em exclusivo para Língua Portuguesa, a carta que Sua Excelência Reverendíssima recebeu de Monsenhor Luigi Negri, Arcebispo Emérito de Ferrara-Comacchio, assim como a resposta que lhe foi dirigida.

Milão, 16 de Junho de 2020

Excelência Caríssima,     

Como as circunstâncias da vida tendem a indicar-nos elementos de degradação, tanto na vida eclesial quanto na social, gostaria de lhe comunicar a minha adesão à sua mensagem que me parece ter reunido o coração vivo da nossa experiência eclesial. Este coração vivo da experiência eclesial é cada vez mais caracterizado pela consciência quotidiana de que o tempo que nos é dado foge e que a nossa existência permanece fortemente condicionada pela natureza temporária dos acontecimentos e dos factos.   

Parece-me que a Igreja, aos poucos, segundo um ritmo muitas vezes momentâneo, esteja a recuperar a consciência da sua própria identidade e o trabalho missionário que caracteriza a sua vida e a sua história.

Sentimos, a cada dia, mais viva a pressão dos acontecimentos que pedem para serem julgados de acordo com a clareza da palavra do Senhor e vividos como obediência à Sua vontade. Estamos felizes com tudo isso, estamos felizes porque nos abandonamos ao Senhor todos os dias com a profunda consciência de que a Sua presença nos sustenta em todos os momentos e que não há possibilidade de que a nossa existência seja privada da companhia do Senhor Jesus Cristo.  A nossa força é verdadeiramente o abandono da nossa vida à Sua vontade e, sobretudo, o desejo de que a nossa vida experimente a grande vibração da missão; que a nossa vida olhe para o futuro como uma realidade a ser investida a cada momento da consciência da presença de Cristo, pedindo que essa presença de Cristo percorra, a cada dia, a aventura da missão. Nisto e para isto, a nossa vida abre-se a cada manhã com um grande desejo de sustentar a nossa vida cristã e a dos nossos irmãos; fecha-se todas as noites com a consciência de ter contribuído pobremente, mas sempre sinceramente, para o amadurecimento da consciência cristã no mundo.   

Apegámo-nos a si, Excelência, e gostaríamos de poder acompanhar, como últimos discípulos, os seus passos no caminho da verdade, da beleza e do bem. O Senhor faça da sua presença na Igreja e entre os homens uma presença cheia de verdade, de capacidade de sacrifício e de vontade de bem para com todos os homens; assim, parece-nos corresponder de maneira pobre, mas real, ao grande convite da liturgia de cada momento, o de não perder o tempo, mas de devolvê-lo, todos os dias, com total vontade e com grande abertura, ao próprio coração de Deus, porque na vida de cada dia somos precisamente chamados a experimentar a grandeza de Deus e o desejo de contribuir de alguma maneira, mas realmente, para a criação do Reino de Deus no mundo.   

O Senhor nos abençoe e nos conforte no caminho de cada dia.            

† Luigi Negri, Arcebispo Emérito de Ferrara-Comacchio      

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17 de Junho de 2020

Excelência Reverendíssima,      

Li com grande comoção as suas palavras, para mim verdadeiramente tocantes. É uma consolação ver que Vossa Excelência alcançou, com a perspicácia e a lucidez que sempre caracterizaram o seu juízo, o coração do problema.         

O tempo presente, especialmente para quem tem um olhar sobrenatural, leva-nos de volta às coisas básicas da vida, à simplicidade do Bem e ao horror do Mal, à necessidade de escolher o alinhamento para combater as nossas pequenas e grandes batalhas quotidianas. Há quem veja nisto uma banalização, como se a clareza do Evangelho fosse incapaz de dar respostas abrangentes a uma humanidade complexa e articulada; no entanto, enquanto alguns dos nossos irmãos Bispos se preocupam quase obsessivamente com a inclusão e a green theology, augurando a Nova Ordem Mundial e uma Casa comum para as religiões abraâmicas, vai fazendo caminho, no povo e nos sacerdotes, a persuasão de um afastamento dos próprios Pastores – felizmente, não todos – exactamente no momento do confronto épico.          

É verdade: o tempo foge-nos da mão, Excelência, e com ele desmoronam-se os castelos de areia da retórica quase iniciante daqueles que, na provisoriedade e na fragilidade do contingente, queriam construir o seu sucesso. Há algo de inexorável naquilo que acontece hoje: as miragens efêmeras que deveriam ter substituído as verdades eternas aparecem-nos, à dura luz da realidade, nos seus artefactos e falsas misérias, na sua ontológica e inexorável falsidade. Descobrimo-nos crianças, segundo as palavras de Nosso Senhor: reconhecemos quase instintivamente os bons e os maus, a recompensa e o castigo, o mérito e a culpa. Mas pode-se considerar banal a serenidade da criança que repousa no peito da mãe, a confiança orgulhosa da criança que se apega à mão do pai?             

Quantas palavras fátuas nos foram ditas, quantos paliativos inúteis nos foram dados, pensando que a Palavra eterna do Pai fosse inadequada, que era necessário actualizá-la para torná-la mais sedutora para os ouvidos surdos do mundo! E, no entanto, teria sido suficiente fazê-la nossa, aquela Palavra, para não precisar de mais nada. Se até agora nos deixamos confundir pelo rugido do século, agora podemos abandonar-nos com confiança filial e deixar-nos guiar, porque reconhecemos a voz do divino Pastor e seguimo-Lo para onde Ele nos quer conduzir. Mesmo quando outros, que também deveriam falar, ficam calados.      

A nossa pobreza não é um obstáculo, mas sim uma ajuda nestas situações: quanto mais humildes formos, mais brilhará a maestria do Artista, que nos empunhará como um instrumento nas Suas hábeis mãos, como a caneta com a qual o Escrivão escreve sabiamente a página.     

Peço a Vossa Excelência que reze para que todos nós, que na plenitude do Sacerdócio o Senhor chama não servos, mas amigos, consigamos tornar-nos instrumentos dóceis da Sua Graça, redescobrindo a simplicidade divina da Fé que Ele nos ordenou de pregar a todos os povos. Tudo o que, por orgulho, adicionarmos é um penoso falso brilho do qual devemos aprender a livrar-nos desde já, se não quisermos que o façam as chamas do Purgatório, nas quais as nossos poucas palhetas de ouro serão purificadas da escória para nos tornar dignos da visão beatífica. Não desperdicemos os dias preciosos em que a doença e a velhice nos dão a oportunidade de expiar as nossas e as culpas dos outros: são dias abençoados que podemos oferecer à Majestade de Deus pela Igreja e pelos seus Ministros.        

Receba, Excelência Caríssima, a expressão da minha profunda gratidão pelas suas inspiradas palavras, com a certeza da minha recordação no Santo Sacrifício do Altar. E reze por mim.    

Nunc dimittis servum Tuum,  
Domine, secundum verbum Tuum in pace…         

† Carlo Maria Viganò, Arcebispo

Médicos austríacos defendem a Comunhão na boca



Vinte e um médicos católicos austríacos escreveram uma carta que dirige um apelo à Conferência Episcopal nacional para que seja revogada a proibição de receber a Sagrada Comunhão na boca, proibição aplicada desde que foi anunciado que a Comunhão na mão seria a única forma permitida para a distribuição da hóstia consagrada.   

Enquanto que as medidas de bloqueio determinadas pelo COVID-19 são gradualmente revogadas em toda a Europa e as Missas são reabertas ao povo, várias Conferências Episcopais, em países como a Itália e a Áustria, decidiram obrigar os sacerdotes a distribuir a Sagrada Comunhão apenas na mão, embora a Comunhão de joelhos e na boca seja a prática tradicional da Igreja Católica.  

Para os católicos de mentalidade tradicional, esta obrigação é equivalente a uma total proibição de receberem a Comunhão. Para estes, são inaceitáveis o desrespeito e o risco de profanação.

Os vinte e um médicos católicos austríacos que assinaram a carta citaram, a sustentar, a opinião profissional do professor Filippo Maria Boscia, Presidente da Associação dos Médicos Católicos Italianos, que declarou: «A Comunhão na boca é mais segura do que na mão».      

Segundo os médicos subscritores, na liturgia católica tradicional – ou seja, o rito tridentino – as medidas preventivas para impedir a disseminação do coronavírus estão mais amplamente presentes do que no Novus Ordo, como quando o padre é obrigado a manter o polegar e o indicador unidos a partir do momento em que consagrou o pão, usando-os apenas para tocar a hóstia, daquele momento em diante, até ao momento em que, mais uma vez, purifica as mãos.

Os médicos comentaram que «os sacerdotes que celebram o rito tradicional têm experiência na administração da Comunhão na boca e praticamente nunca têm contacto com a boca de quem comunga. Todavia, se tal acontecesse, um sacerdote, tendo em conta a situação actual, pode interromper a distribuição da Comunhão para limpar as mãos».    

Os médicos observaram que, quando os fiéis se ajoelham para receber a Comunhão, a contaminação por gotículas é menos provável porque o rosto do sacerdote não está ao mesmo nível que o do fiel que comunga.        

«Do ponto de vista higiénico, é absolutamente incompreensível para nós o motivo pelo qual a Comunhão na boca foi proibida na Áustria. Consideramos esta forma de distribuição mais segura do que a Comunhão na mão», escrevem os médicos, sublinhando que as contaminações são, na maior parte, resultado de mãos sujas, como escreveu o Dr. Boscia quando enfatizou: «O que é certo é que as mãos são as partes do corpo mais expostas aos patógenos».           

Os médicos católicos austríacos concluem a carta recordando que a Congregação para o Culto Divino reconheceu o direito dos fiéis de receberem a Comunhão na boca, sem excepções.       

Jeanne Smits     

Através de Aldo Maria Valli      

terça-feira, 30 de junho de 2020

A Vós, Senhor, eu me confio!



Não desagrada a Deus que, por vezes, vos queixeis suavemente a Ele. Não temais dizer-Lhe: «Porque Vos retirastes para longe, Senhor? (cf Sl 9, 22, LXX) Bem sabeis que Vos amo e que a nada mais aspiro que ao vosso amor. Por caridade, socorrei-me e não me abandoneis».

Se a desolação se prolongar e a vossa angústia se extremar, uni a vossa voz à de Jesus, desse Jesus que morre  na cruz, e dizei, implorando a piedade divina: «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?» (Mt 27, 46). Mas aproveitai esta prova, primeiro para mais vos abaixardes, sabendo que quem ofendeu a Deus não merece consolações; e depois, para avivar ainda mais a vossa confiança, recordai que Deus tem sempre em vista o vosso bem em tudo quanto faz ou permite, e que, por isso, todas as coisas cooperam para o bem (cf Rom 8, 28) da vossa alma. Quanto mais vos sentirdes esmagado pela dor e o desânimo, mais deveis armar-vos de grande coragem e exclamar: «O Senhor é a minha luz e a minha salvação, a quem temerei?» (Sl 26, 1). Sim, Senhor, sois Vós que me iluminais e sereis Vós a salvar-me; confio-me a Vós, «em Vós deposito a minha esperança, não serei confundido para sempre» (Sl 30, 2, LXX).

Deste modo, estabelecei-vos na paz, ciente de que «ninguém esperou no Senhor e foi confundido» (Si 2, 11, Vulg), ninguém se perdeu depois de ter depositado a sua confiança em Deus.

Santo Afonso Maria de Ligório, in Maneira de conversar com Deus    

segunda-feira, 29 de junho de 2020

«A Igreja é uma instituição divina e tudo nela deve partir de Deus» – Viganò



A pedido do Arcebispo Carlo Maria Viganò, o Dies Iræ traduz e publica, em exclusivo para Língua Portuguesa, uma entrevista que Mons. Viganò concedeu a Phil Lawler.

Phil Lawler: Em primeiro lugar, qual é sua opinião sobre o Vaticano II? Que, desde então, as coisas se deterioraram rapidamente é certamente verdade; mas se todo o Concílio é um problema, como é que tal pôde acontecer? Como se concilia essa posição com o que acreditamos na inerrância do Magistério? Como foi possível que todos os Padres Conciliares tenham sido enganados? Mesmo que apenas algumas partes do Concílio (por exemplo, Nostra Aetate, Dignitatis Humanae) são problemáticas, devemos colocar as mesmas questões. Muitos de nós afirmam há anos que o “espírito do Vaticano II” está errado. Vossa Excelência diz agora que esse falso “espírito” liberal reflecte exactamente o próprio Concílio?

Monsenhor Viganò:
Que o Concílio representa um problema, creio que não seja necessário demonstrá-lo: o simples facto de nos questionarmos sobre o Vaticano II e não sobre o Tridentino ou o Vaticano I, parece-me confirmar um dado evidente reconhecido por todos. Na realidade, mesmo aqueles que defendem cegamente o Concílio fazem-no prescindindo de todos os outros Concílios Ecuménicos, dos quais nem sequer um foi definido como concílio pastoral. E note-se: chamam-lhe o Concílio por excelência, quase como se fosse o único de toda a história da Igreja ou, pelo menos, considerando-o um unicum tanto para a formulação da sua doutrina quanto para a autoridade do seu magistério. Uma reunião que, diferentemente das que a precederam, se define precisamente como pastoral e declara que não deseja propor nenhuma nova doutrina, mas que, de facto, cria uma discriminação entre antes e depois, entre Concílio dogmático e Concílio pastoral, entre cânones inequívocos e vãos, entre anathema sit e piscadelas de olhos com o mundo.

Nesse sentido, acredito que o problema da infalibilidade do Magistério – (a inerrância que mencionou diz respeito às Sagradas Escrituras) – nem sequer se coloque, porque o Legislador, ou seja, o Romano Pontífice, em torno do Concílio que convocou, declarou solene e claramente que não queria usar a autoridade doutrinária que, querendo, poderia usar. Gostaria de salientar que nada é mais pastoral do que o proposto como dogmático, uma vez que o exercício do munus docendi na sua forma mais alta coincide com a ordem que o Senhor deu a Pedro de apascentar as Suas ovelhas e os Seus cordeiros. No entanto, essa oposição entre dogmático e pastoral foi feita precisamente por quem, no discurso de abertura do Concílio, quis dar uma severa acepção ao dogma e um significado mais suave, mais conciliador, à pastoral. Também encontramos a mesma abordagem nas intervenções de Bergoglio, onde ele identifica na pastoral uma versão soft do rígido ensinamento católico em matéria de Fé e de Moral, em nome do discernimento. É doloroso reconhecer que o recurso a um léxico equívoco, ou a termos católicos compreendidos em sentido impróprio, entrou na Igreja a partir do Vaticano II, que da leviandade – ou seja, da ambiguidade, a desejada imprecisão da linguagem – é o primeiro e mais emblemático exemplo. Tal aconteceu porque o Aggiornamento, termo também esse ambíguo e ideologicamente seguido pelo Concílio como um absoluto, colocara como principal prioridade o diálogo com o mundo.

Há um outro equívoco que deve ser esclarecido. Se, por um lado, João XXIII e Paulo VI declararam que não queriam comprometer o Concílio na definição de novas doutrinas e queriam que se limitasse a ser apenas pastoral, por outro lado é verdade que externamente – mediaticamente, dir-se-ia hoje – a ênfase dada aos seus actos foi enorme. Serviu para transmitir a ideia de uma presunta autoridade doutrinária, de uma implícita infalibilidade magisterial, que tinham sido claramente excluídas desde o início. Se tal aconteceu, foi para consentir que as suas instâncias, mais ou menos heterodoxas, fossem compreendidas como autorizadas e, portanto, acolhidas pelo clero e pelos fiéis. Mas seria suficiente para desacreditar os autores de tal engano, que ainda hoje se insurgem se se toca na Nostra Aetate, enquanto se calam diante daqueles que negam a divindade de Nosso Senhor ou a virgindade perpétua de Maria Santíssima. Lembremos que o Católico não adora um Concílio, nem o Vaticano II nem o Tridentino, mas a Santíssima Trindade, único Deus verdadeiro; não venera uma declaração conciliar ou uma exortação pós-sinodal, mas a Verdade que esses actos do magistério transmitem.

Pergunta-me: “Como foi possível que todos os Padres Conciliares tenham sido enganados?”. Respondo-lhe com base na minha experiência daqueles anos e nas palavras dos Irmãos com quem me confrontei. Ninguém poderia imaginar que, dentro do corpo eclesial, houvesse forças hostis tão poderosas e organizadas que pudessem rejeitar os esquemas preparatórios, perfeitamente ortodoxos, preparados pelos Cardeais e Prelados de segura fidelidade à Igreja, substituindo-os por um conjunto de erros habilmente dissimulados por trás de discursos extensos e deliberadamente equívocos. Ninguém poderia acreditar que, sob as abóbadas da Basílica Vaticana, se pudessem convocar os estados gerais que decretariam a abdicação da Igreja Católica e a instauração da Revolução (como recordei num escrito precedente, o Cardeal Suenens definiu o Vaticano II o 1789 da Igreja!). Os Padres Conciliares foram objecto de um clamoroso engano, de uma fraude habilmente perpetrada com o recurso aos meios mais subtis: encontraram-se em minoria nos grupos linguísticos, excluídos das reuniões convocadas ao último momento, pressionados a dar o seu placet fazendo-os acreditar que assim o queria o Santo Padre. E aquilo que os inovadores não conseguiam obter na Aula Conciliar, conseguiam-no nas Comissões e nos Conselhos, graças também ao activismo de teólogos e peritos acreditados e aclamados por uma poderosa máquina mediática. Há uma enorme quantidade de estudos e documentos que testemunham esta sistemática mens maliciosa, por um lado, e o optimismo ingénuo ou o descuido dos bons, por outro. A actividade do Coetus Internationalis Patrum poderia ter feito pouco ou nada quando as violações do regulamento por parte dos progressistas eram ratificadas na Sagrada Mesa.

Aqueles que alegaram que o “espírito do Concílio” representava uma interpretação heterodoxa do Vaticano II realizaram uma operação inútil e prejudicial, mesmo se ao fazê-lo eram movidos pela boa fé. É compreensível, para um Cardeal ou um Bispo, o querer defender a honra da Igreja e tentar não desacreditá-la diante dos fiéis e do mundo: pensava-se que o que os progressistas atribuíam ao Concílio fosse, na verdade, uma deturpação indevida, uma violação arbitrária. Mas se à época poderia ser difícil pensar que a liberdade religiosa condenada, por Pio XI, na Mortalium Animos pudesse ser afirmada pela Dignitatis humanae, ou que o Romano Pontífice pudesse ver usurpada a própria autoridade por um fantasmagórico Colégio Episcopal, hoje compreendemos que aquilo que no Vaticano II era habilmente dissimulado hoje é afirmado ore rotundo nos documentos papais, precisamente em nome da aplicação coerente do Concílio.

Por outro lado, quando se fala comumente do espírito de um evento, entende-se exactamente o que desse evento constitui precisamente a alma, a essência. Podemos, portanto, afirmar que o espírito do Concílio é o próprio Concílio, que os erros do pós- concílio estão contidos in nuce nos Actos Conciliares, exactamente como se diz com razão que o Novus Ordo é a Missa do Concílio, mesmo se, na presença dos Padres, se celebrava a Missa que os progressistas chamam de significativamente pré-conciliar. E, uma vez mais: se o Vaticano II realmente não representasse um ponto de ruptura, por que motivo falamos de Igreja pré-conciliar e de Igreja pós-conciliar, como se fossem duas entidades diferentes, definidas, na sua essência, precisamente pelo Concílio? E se o Concílio estivesse realmente alinhado com o Magistério ininterrupto e infalível da Igreja, porquê que é o único que apresenta graves e muito sérios problemas de interpretação, demonstrando a própria heterogeneidade ontológica em relação aos outros Concílios?

Na sua opinião, qual é a solução? Mons. Schneider sugere que um futuro Pontífice deva repudiar os erros; Vossa Excelência considera esta proposta inadequada. Mas, então, como se podem corrigir os erros, de modo a manter a autoridade do magistério de ensinar?

A solução, na minha opinião, está, acima de tudo, num acto de humildade que todos nós, a começar pela Hierarquia e pelo Papa, devemos realizar: reconhecer a infiltração do inimigo no seio da Igreja, a ocupação sistemática dos principais postos-chave da Cúria Romana, dos Seminários e das Universidades, a conspiração de um grupo de rebeldes – incluindo, na linha da frente, a desviada Companhia de Jesus – que conseguiram dar a aparência de legitimidade e de legalidade a um acto subversivo e revolucionário. Devemos também reconhecer a inadequação da resposta dos bons, a ingenuidade de muitos, o temor de outros, o interesse daqueles que, graças a essa conspiração, tiraram alguma vantagem.   

Antes da tripla negação de Cristo no pátio do sumo sacerdote, Pedro “flevit amare”, chorou amargamente. A tradição diz-nos que o Príncipe dos Apóstolos tinha dois sulcos na face por causa das lágrimas que derramou copiosamente durante o resto dos seus dias, arrependido da sua traição. Caberá a um seu Sucessor, ao Vigário de Cristo, na plenitude do seu poder apostólico, retomar o fio da Tradição onde foi cortado. Esta não será uma derrota, mas um acto de verdade, de humildade e de coragem. A autoridade e a infalibilidade do Sucessor do Príncipe dos Apóstolos emergirão intactas e reconfirmadas. De facto, essas não foram deliberadamente invocadas no Vaticano II, ao passo que o serão no dia em que um Pontífice tiver de corrigir os erros que aquela Assembleia permitiu, jogando sobre o equívoco de uma autoridade oficialmente negada, mas sub-repticiamente mostrada aos fiéis por toda a Hierarquia, a começar precisamente pelos Papas do Concílio.

Quero recordar que, para alguns, o acima exposto poderá parecer excessivo, porque colocaria em discussão a autoridade da Igreja e dos Romanos Pontífices. No entanto, nenhum escrúpulo impediu de violar a Bula Quo primum tempore, de São Pio V, abolindo, de um dia para o outro, toda a Liturgia Romana, o venerável tesouro milenar de doutrina e espiritualidade da Missa Tradicional, o imenso património do canto gregoriano e da música sacra, a beleza dos ritos e das vestes sacras, desfigurando a harmonia arquitectónica, inclusive de insignes basílicas, removendo balaustradas, altares monumentais e tabernáculos: tudo se sacrificou no altar do coram populo da renovação conciliar, com a agravante de o ter feito só porque aquela Liturgia era admiravelmente católica e incompatível com o espírito do Vaticano II.

A Igreja é uma instituição divina e tudo nela deve partir de Deus e a Ele voltar. Não está em jogo o prestígio de uma classe dirigente, nem a imagem de uma empresa ou de um partido: aqui trata-se da glória da Majestade de Deus, de não negar a Paixão de Nosso Senhor na Cruz, dos sofrimentos e dos tormentos de Sua Santíssima Mãe, do sangue dos Mártires, do testemunho dos Santos, da eterna salvação das almas. Se, por orgulho ou obstinação infeliz, não soubermos reconhecer o erro e o engano em que caímos, teremos que prestar contas a Deus, que é tão misericordioso com o seu povo quando se arrepende, como implacável na justiça quando segue Lúcifer no non serviam.

† Carlo Maria Viganò

domingo, 28 de junho de 2020

«Quem vos recebe, a Mim recebe»



«Quem acolher este menino em meu nome, é a Mim que acolhe», diz o Senhor (Lc 9, 48). Quanto mais pequeno for esse irmão que se acolhe, mais Cristo estará presente nele. Porque, quando recebemos uma pessoa importante, é muitas vezes por vã glória que o fazemos; mas aquele que recebe um pequenino, fá-lo com uma intenção pura e por Cristo. «Eu era peregrino e recolhestes-Me», disse o Senhor. E ainda: «Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes» (Mt 25, 35.40). Tratando-se de um crente e de um irmão, por mais pequeno que seja, é Cristo que com ele entra. Abre, pois, a porta de tua casa e acolhe-O.   

«Quem recebe um profeta por ele ser profeta, receberá recompensa de profeta». Portanto, aquele que receber a Cristo, receberá a recompensa da hospitalidade de Cristo. Não ponhas em causa estas palavras, confia nelas. Ele próprio no-lo disse: «Neles, sou Eu que apareço». E para que não duvides, o Senhor decreta um castigo para aqueles que não O receberem, e honras para os que O receberem (Mt 25, 31s); ora, não o faria se não fosse pessoalmente tocado pela honra ou pelo desprezo. «Acolheste-Me», diz, «em tua casa, Eu receber-te-ei no Reino de meu Pai. Libertaste-Me da fome, Eu te libertarei dos teus pecados. Visitaste-Me quando estava preso, Eu te farei conhecer a libertação. Acolheste-Me quando era estrangeiro, Eu farei de ti um cidadão dos Céus. Deste-Me pão, Eu te darei o Reino como herança e tua plena propriedade. Ajudaste-Me em segredo, Eu proclamá-lo-ei publicamente, chamando-te meu benfeitor e a Mim, teu devedor». 

São João Crisóstomo, in Homilias sobre os Actos dos Apóstolos, n.º 45; PG 60, 318

sábado, 27 de junho de 2020

«Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa»



Que procuras? A felicidade. [...] Procuras uma coisa boa, mas que não existe neste mundo. [...] Tendo vindo até junto de nós, Cristo encontrou o que nós temos em abundância: penas, dores e a morte; é o que tens, e o que entre nós existe em abundância. Ele comeu contigo o que havia em abundância na pobre casa da tua infelicidade. Ele bebeu vinagre, ele provou fel (Jo 19, 29) – tudo quanto encontrou na tua pobre casa.

Mas convidou-te para a sua mesa magnífica, para a sua mesa do Céu, para a sua mesa dos Anjos, onde Ele mesmo é o pão (Jo 6, 34). Descendo até ti, e encontrando infelicidade na tua pobre casa, não desdenhou de Se sentar à tua mesa, tal como era, e prometeu-te a sua. [...] Assumiu a tua infelicidade, para te dar a sua felicidade. E dar-ta-á, pois prometeu-nos a sua vida.  

E aquilo que realizou é ainda mais incrível: deu-nos em penhor a sua própria morte. É como se nos tivesse dito: Convido-vos para a minha vida, onde ninguém morre, onde se encontra a verdadeira felicidade, onde o alimento não se corrompe, mas restaura, nunca falta e tudo preenche. Vede para onde vos convido: para a terra dos Anjos, para a amizade do Pai e do Espírito Santo, para uma refeição eterna, para a minha amizade fraterna. Enfim, convido-vos para Mim mesmo, convido-vos para a minha própria vida. Duvidais de que vos darei a minha vida? Tendes a minha morte como testemunho.   

Santo Agostinho, in Sermão 231

sexta-feira, 26 de junho de 2020

«Quero, fica purificado»



Tal como o agir, também o sofrimento [sob todas as suas formas] faz parte da existência humana. Este deriva, por um lado, da nossa finitude e, por outro, da súmula de erros que se acumularam ao longo da história e que ainda hoje não cessa de aumentar.

É preciso, obviamente, fazer tudo o que é possível para atenuar o sofrimento: impedir, na medida do possível, o sofrimento dos inocentes; amenizar as dores; ajudar a superar os sofrimentos psíquicos. Tudo isto são deveres, tanto de justiça como de amor, que se inserem nas exigências fundamentais da existência cristã e de todas as vidas verdadeiramente humanas. Na luta contra a dor física, conseguiram-se realizar grandes progressos; mas o sofrimento dos inocentes e também os sofrimentos psíquicos aumentaram no decurso destas últimas décadas.   

Sim, devemos fazer tudo para superar o sofrimento, mas eliminá-lo completamente do mundo não está nas nossas possibilidades humanas, simplesmente porque não podemos ultrapassar a nossa finitude e porque nenhum de nós é capaz de eliminar o poder do mal, do erro, que – como constatámos – é uma fonte contínua de sofrimento. Isto só Deus o poderia fazer: só um Deus que entra pessoalmente na História tornando-Se homem e sofrendo nela. Nós sabemos que este Deus existe e que, por isso, este poder que «tira os pecados do mundo» (Jo 1, 29) está presente no mundo. Pela fé na existência deste poder, surgiu na História a esperança da cura do mundo.     

Bento XVI, in Encíclica Spe Salvi, 36

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Viver assentes na rocha da fé


O justo, ou seja, aquele que, no Baptismo, se revestiu do homem novo, criado na justiça, vive, enquanto justo, da fé, da luz que lhe confere o sacramento da iluminação. Quanto mais vive da fé, mais vive uma verdadeira vida sobrenatural, mais realiza em si a perfeição da sua adopção divina. Reparai bem na expressão “ex fide”: o que quer ela dizer exactamente? Quer dizer que a fé deve estar na raiz de todos os nossos actos, de toda a nossa vida. Há almas que vivem “com fé”, “cum fide”; têm fé e não se pode negar que a pratiquem, mas só se recordam eficazmente da sua fé em determinadas ocasiões [...].

Quando, porém, a fé é viva, forte e ardente, quando vivemos de fé, ou seja, quando nos orientamos em tudo pelos princípios da fé, quando a fé se encontra na raiz de todas as nossas acções e é o princípio interior de toda a nossa actividade, nessa altura, tornamo-nos fortes e estáveis, a despeito de todas as dificuldades, contrariedades e tentações que possamos sentir. E porquê? Porque, pela fé, julgamos todas as coisas como Deus as vê, as julga e as avalia, participando da infalibilidade, da imutabilidade e da estabilidade divinas.

É precisamente isso que Nosso Senhor nos diz: «Todo aquele que ouve as minhas palavras e as põe em prática», ou seja, que vive da fé, «é como o homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as torrentes e sopraram os ventos contra aquela casa; mas ela não caiu, porque», acrescenta Jesus, «estava fundada sobre a rocha».

Beato Columba Marmion, in A nossa fé, vitória sobre o mundo

quarta-feira, 24 de junho de 2020

«João não era a luz, mas veio para dar testemunho» (Jo 1, 8)



O facto de o nascimento de João ser comemorado quando os dias começam a diminuir e o do Senhor quando os dias começam a aumentar tem um significado simbólico. Com efeito, o próprio João revelou o segredo desta diferença. As multidões tomavam-no pelo Messias em razão das suas virtudes eminentes, e alguns consideravam que o Senhor não era o Messias, mas um profeta, devido à fragilidade da sua condição corporal. E João declarou: «Convém que Ele cresça e que eu diminua» (Jo 3, 30). E o Senhor cresceu verdadeiramente, porque, quando foi olhado como profeta, deu a conhecer aos crentes do mundo inteiro que era o Messias. João diminuiu, porque aquele que as pessoas julgavam ser o Messias lhes apareceu, não como Messias, mas como anunciador do Messias.

É normal, pois, que a luz dos dias comece a diminuir a partir do nascimento de João, dado que a sua reputação de divindade havia de desaparecer, assim como o seu Baptismo. E também é normal que a luz dos dias recomece a aumentar a partir do nascimento do Senhor, pois Ele veio à Terra trazer aos pagãos as luzes de um conhecimento que, até então, só os judeus possuíam em parte, e difundir por todo o mundo o fogo do seu amor.

S. Beda, o Venerável, in Homilia II, 20; CCL 122, 328-330

terça-feira, 23 de junho de 2020

«O caminho que conduz à vida»


Meus bem-amados, eis o caminho pelo qual encontrámos a salvação: Jesus Cristo, o Sumo Sacerdote que apresenta as oferendas, o protector e auxílio da nossa fraqueza (Heb 10, 20; 7, 27; 4, 15). Por Ele fixamos o olhar no alto dos Céus; por Ele contemplamos, como que num espelho, a face pura e sublime do Pai; por Ele se abriram os olhos do nosso coração; por Ele, a nossa inteligência limitada e obscura desabrocha para a luz; por Ele, quis o Mestre dar-nos a saborear a sabedoria imortal, Ele que é «resplendor da glória do Pai [...], tão superior aos anjos quanto superior ao deles é o nome que recebeu em herança» (Heb 1, 3-4) [...].

Consideremos o nosso corpo: a cabeça não é nada sem os pés, assim como os pés não são nada sem a cabeça; os membros mais insignificantes que temos são necessários e benéficos para todo o corpo; e todos contribuem para a salvação do corpo inteiro, colaborando numa submissão que os unifica (1 Cor 12, 12ss). Asseguremos, portanto, a salvação do corpo místico que formamos em Cristo Jesus, e que cada um de nós se submeta ao seu próximo, segundo o carisma que recebeu. Que o forte se preocupe com o fraco e que o fraco respeite o forte; que o rico ajude o pobre e que o pobre dê graças a Deus que lhe concedeu alguém para o compensar da sua indigência; que o sábio mostre a sua sabedoria não por palavras mas por boas acções; que o humilde não dê testemunho de si mesmo, mas deixe a outro esse cuidado; que aquele que é casto na sua carne não se glorie, sabendo que é outro que lhe concede a continência.

Pensemos pois, meus irmãos, na forma como nascemos: que éramos nós quando viemos ao mundo? De que túmulo, de que escuridão nos tirou Aquele que nos formou, nos criou e nos introduziu neste mundo, que Lhe pertence? Ele já nos tinha preparado os seus benefícios antes mesmo de nascermos. Visto que tudo isto recebemos d’Ele, devemos dar-Lhe graças por tudo.

São Clemente de Roma, in Carta aos Coríntios, §§ 36-38

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Segui o caminho do Céu!



Dia após dia, segui o caminho de Deus, mantendo-O estreitamente ligado a vós pelas suas promessas; com efeito, Ele próprio declarou, por meio dos apóstolos, a todos os que procuram a sua vontade e os seus testemunhos (cf. Sl 118, 31, LXX), que estaria com eles até ao fim do mundo (cf. Mt 28, 20), onde nem caminhos nem vestígios fossem conhecidos (Sl 76, 20), como disse o divino David nos seus cânticos. Porém, está presente de forma invisível aos olhos da inteligência, dando-Se a ver àqueles que têm um coração puro e conversando com eles. Segui, pois, o vosso caminho. [...]       

Tomai as asas do amor de Deus para voardes como as nuvens (cf. Is 60, 8), elevados acima das armadilhas deste mundo. Ungi os vossos pés com o óleo da alegria (cf. Sl 44, 8) e da temperança. Não atravanqueis o caminho estreito do Senhor com os vossos passos preguiçosos. Se, na vossa pusilanimidade, tendes sede, bebei da água da paciência (cf. Ecl 15, 3); se, na vossa atonia espiritual, tendes fome, comei do pão que alimenta e fortifica o coração do homem (cf. Sl 103, 15): a palavra da sabedoria e da coragem. Recolhei o hábito e estai prontos a agir, olhar para o alto e não carregueis sobre vós esses fardos esmagadores que são os vossos maus quereres; pois, àquele que faz a viagem da Terra até ao Céu, basta-lhe seguir o seu caminho com diligência, sem se sobrecarregar com pesos suplementares. [...]       

Sede fortes no Senhor; subi à montanha de Deus, à sua morada santa (cf. Is 2, 3), com Isaías, o profeta da voz poderosa. Que ninguém fique para trás, que ninguém se sente; ajudai-vos uns aos outros, todos enraizados em firme caridade.  

São Teodoro Estudita, in Catequese 11

domingo, 21 de junho de 2020

«O que escutais ao ouvido, proclamai-o sobre os telhados»



Não comecei este trabalho por mim próprio; foi Cristo Senhor que me ordenou que viesse passar o resto dos meus dias junto dos irlandeses pagãos – se o Senhor assim quiser e se Ele me guardar dos maus caminhos. [...] Mas não confio em mim próprio enquanto resido neste corpo de morte (cf 2 Pe 1, 13; Rm 7, 24). [...] Não levei uma vida perfeita como outros fiéis, mas confesso-o ao meu Senhor e não me envergonho na sua presença. Porque eu não minto: depois que O conheci na minha juventude, o amor de Deus cresceu em mim, assim como o seu temor, e até ao presente, pela graça do Senhor, «guardei a fé» (2 Tm 4, 7).   

Que se ria, pois, e me insulte quem quiser; eu não me calarei nem esconderei «os sinais e as maravilhas» (Dn 6,27) que o Senhor me mostrou muitos anos antes de se terem realizado, pois Ele conhece todas as coisas. Por isso, dou sem cessar graças a Deus, que tantas vezes perdoou os meus disparates e a minha negligência, e não Se irritou uma única vez comigo, a quem fez bispo. O Senhor «teve piedade» de mim «em favor de milhares e milhares de homens» (Ex 20, 6), porque viu que eu estava disponível. [...] Com efeito, muitos foram os que se opuseram a esta missão; falavam mesmo entre si nas minhas costas e diziam: «Porque se lança ele nesta tarefa tão perigosa, entre estrangeiros que não conhecem a Deus?». Não era por malícia que se exprimiam assim; eu próprio, o confirmo: por causa da minha rudeza, não conseguem compreender porque fui nomeado bispo. E eu próprio demorei a reconhecer a graça que estava em mim; mas tudo isso se tornou claro.      

Agora, explico com simplicidade aos meus irmãos e aos companheiros que acreditaram em mim porque preguei e continuo a pregar (2 Cor 13, 2), com o fim de fortificar e confirmar a sua fé. Possais vós ambicionar também as metas mais elevadas e realizar as obras mais excelentes. Isso será a minha glória, porque «um filho sábio é a glória do seu pai» (Pr 10, 1).

São Patrício, in Confissão, 43-47          

sábado, 20 de junho de 2020

O cumprimento da Lei



A graça permaneceu velada no Antigo Testamento, mas foi revelada no Evangelho de Cristo quando chegaram os tempos previstos por Deus para a revelação da sua bondade. […] Comparando estas duas épocas, notamos uma diferença profunda. No sopé do Sinai, o povo, tomado de pavor, não ousava aproximar-se do local onde Deus dava a sua lei (Ex 19); pelo contrário, no cenáculo, o Espírito Santo desceu sobre aqueles que estavam reunidos aguardando a realização da promessa (Act 2). Ali, o dedo de Deus trabalhou em tábuas de pedra (Ex 31, 18); aqui, no coração dos homens (Lc 11, 20). […]         

«A realização perfeita da lei é o amor» (cf. Mt 5,17). Esse amor de caridade não estava escrito nas tábuas de pedra, mas «derramou-se nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Rm 5,5). Portanto, a lei de Deus é a caridade (Rm 13,10). O desejo da carne não se submete à lei de Deus; nem sequer é capaz disso (cf. Rm 8,17). Foi para reprimir o desejo da carne que as obras de caridade foram escritas nas tábuas de pedra; era a lei das obras, a letra que mata aqueles que praticam o mal. Mas, quando a caridade se espalhou no coração dos crentes, apareceu a lei da fé e o Espírito que dá a vida aos que amam.         

Vede como a diferença entre essas duas leis se conjuga perfeitamente com as palavras do apóstolo Paulo: «É evidente que sois uma carta de Cristo, confiada ao nosso ministério, escrita, não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo; não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, que são os vossos corações» (2 Cor 3, 6.5). E tudo isso é admiravelmente confirmado pelo profeta Jeremias: «Dias virão em que firmarei uma nova aliança com a casa de Israel e a casa de Judá – oráculo do Senhor. Não será como a Aliança que estabeleci com seus pais. […] Imprimirei a minha lei no seu íntimo e gravá-la-ei no seu coração» (Jr 31, 31s).        

Santo Agostinho de Hipona, in O espírito e a letra, 27-33

sexta-feira, 19 de junho de 2020

Recebei-me no Vosso divino coração



Agora, meu amor, meu Rei e meu Deus, meu bem-amado Jesus, recebei-me na misericordiosa protecção do Vosso divino coração, e prendei-me ao Vosso amor, para que eu viva inteiramente para Vós. Fazei-me mergulhar no vasto mar da Vossa profunda misericórdia, confiai-me às entranhas da Vossa bondade superabundante. Lançai-me na chama devoradora do Vosso divino amor e fazei-me passar em Vós até queimar e reduzir a cinzas a minha alma e o meu espírito.  E, na hora da minha morte, remetei-me para a providência da Vossa paternal caridade.     

Ó meu doce Salvador, consolai-me pela visão da Vossa dulcíssima presença, reconfortai-me pelo gosto do precioso resgate com que me adquiristes. Chamai-me a Vós com a voz intensa do Vosso amor, recebei-me ao calor do Vosso perdão infinitamente misericordioso. Pelo sopro da doçura do Vosso Espírito, eflúvio de suavidade, atraí-me a Vós, puxai-me para Vós e atraí-me. No abraço da união perfeita, fazei-me mergulhar no gozo eterno de Vós e fazei-me ver-Vos, possuir-Vos e gozar para sempre de Vós na maior felicidade, porque a minha alma foi seduzida por Vós, ó Jesus, mais caro de todos quantos são caros. Ámen.    

Santa Gertrudes de Helfta, in Exercícios IV, SC 127     

19 de Junho – Dia mundial de oração, penitência e jejum



LADAINHA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.

Pai Celeste, que sois Deus, tende piedade de nós.
Filho, Redentor do mundo, que sois Deus, tende piedade de nós.
Espírito Santo, que sois Deus, tende piedade de nós.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.

Coração de Jesus, Filho do Pai eterno, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, formado pelo Espírito Santo no seio da Virgem Mãe, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, unido substancialmente ao Verbo de Deus, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, majestade infinita, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, templo santo de Deus, tende piedade de nós
Coração de Jesus, tabernáculo do Altíssimo, tende piedade de nós
Coração de Jesus, casa de Deus e porta do Céu, tende piedade de nós
Coração de Jesus, fornalha ardente de caridade, tende piedade de nós.
Coração de Jesus, receptáculo de justiça e de amor, tende piedade de nós
Coração de Jesus, cheio de bondade e de amor, tende piedade de nós
Coração de Jesus, abismo de todas as virtudes, tende piedade de nós
Coração de Jesus, digníssimo de todo o louvor, tende piedade de nós
Coração de Jesus, Rei e centro de todos os corações, tende piedade de nós
Coração de Jesus, no qual estão todos os tesouros da sabedoria e ciência, tende piedade de nós
Coração de Jesus, no qual habita toda a plenitude da divindade, tende piedade de nós
Coração de Jesus, no qual o Pai põe todas as suas complacências, tende piedade de nós
Coração de Jesus, de cuja plenitude todos nós participamos, tende piedade de nós
Coração de Jesus, desejado desde toda a eternidade, tende piedade de nós
Coração de Jesus, paciente e de muita misericórdia, tende piedade de nós
Coração de Jesus, rico para todos que vos invocam, tende piedade de nós
Coração de Jesus, fonte de vida e santidade, tende piedade de nós
Coração de Jesus, propiciação por nossos pecados, tende piedade de nós
Coração de Jesus, saturado de opróbrios, tende piedade de nós
Coração de Jesus, esmagado de dor por causa dos nossos pecados, tende piedade de nós
Coração de Jesus, feito obediente até à morte, tende piedade de nós
Coração de Jesus, atravessado pela lança, tende piedade de nós
Coração de Jesus, fonte de toda a consolação, tende piedade de nós
Coração de Jesus, nossa vida e ressurreição, tende piedade de nós
Coração de Jesus, nossa paz e reconciliação, tende piedade de nós
Coração de Jesus, vítima dos pecadores, tende piedade de nós
Coração de Jesus, salvação dos que em vós esperam, tende piedade de nós
Coração de Jesus, esperança dos que morrem em vós, tende piedade de nós
Coração de Jesus, delícias de todos os santos, tende piedade de nós

Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, perdoai-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, ouvi-nos Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós.

Jesus, manso e humilde de coração. Fazei o nosso coração semelhante ao Vosso.

Oremos
Deus Omnipotente e Eterno, olhai o Coração do Vosso dilectíssimo Filho e os louvores e reparações que pelos pecadores Vos tem tributado; e aos que invocam a Vossa misericórdia, vós, aplacado, sede fácil no perdão, pelo mesmo Jesus Cristo que Convosco vive e reina para sempre, na unidade do Espírito Santo. Ámen.       

ACTO DE CONSAGRAÇÃO AO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

Ó Jesus dulcíssimo, ó redentor do género humano, olhai para nós, humildemente prostrados diante de vosso altar. Nós somos vossos, e vossos queremos ser, e para poder viver mais estreitamente unidos a vós, eis que cada um de nós, hoje, se consagra ao vosso sacratíssimo Coração. Muitos não vos conheceram; muitos, desprezando os vossos mandamentos, repudiaram-vos. Ó benigníssimo Jesus, tende misericórdia tanto de uns quanto de outros; e todos os que atraís ao vosso santíssimo Coração. Ó Senhor, sede o rei não só dos fiéis que nunca se afastaram de vós, mas também dos filhos pródigos que vos abandonaram; fazei que eles voltem, quanto antes, à casa paterna, para não morrerem de miséria e de fome. Sede rei dos que vivem no erro ou que por discórdia estão separados de vós: chamai-os ao porto da verdade e à unidade da fé, para que, dentro em breve, haja um só rebanho sob um só pastor. Sede finalmente o rei daqueles que estão envolvidos nas superstições dos pagãos, e não recuseis tirá-los das trevas para a luz e o reino de Deus. Concedei, ó Senhor, incolumidade e liberdade segura à vossa Igreja, concedei a todos os povos a tranquilidade da ordem: fazei que de uma extremidade à outra da terra ressoe esta única voz: sejam dados louvores àquele Coração divino do qual nos veio à salvação; a ele a glória e a honra pelos séculos dos séculos. Assim seja. 

ORAÇÕES DE FÁTIMA

Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que não creem, não adoram, não esperam e não Vos amam.      

Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Uma alma pura tem enorme poder



Não há coisa tão bela como uma alma pura. Quem o compreender, tudo fará para não perder a pureza. Uma alma pura é como uma pérola de grande beleza: enquanto está escondida dentro da ostra, no fundo do mar, não é admirada por ninguém; mas, quando é mostrada à luz do sol, brilha e atrai o olhar. A pureza vem do Céu; temos de pedi-la a Deus. Se Lha pedirmos, Ele conceder-no-la-á. E temos de ter o cuidado de não a perder. Para tal, fechemos o coração ao orgulho, à sensualidade e a todas as outras paixões.

Meus filhos, não imaginais o poder que tem uma alma pura aos olhos de Deus: ela obtém tudo o que quer. Uma alma pura é, diante de Deus, como um filho diante de sua mãe; Deus acaricia-a e beija-a, como faz a mãe a seu filho.

Três coisas há que nos permitem manter a pureza: a presença de Deus, a oração e os sacramentos.          

São João Maria Vianney, in Pensamentos Selectos