quinta-feira, 18 de julho de 2019

França: quadruplicaram os ataques contra as igrejas



Vandalismo, roubos, incêndios criminosos, profanações e ataques de vários tipos, são cada vez mais frequentes nas igrejas dos Alpes, aqueles mesmos maravilhosos edifícios que os amantes de ciclismo costumam ver, hoje em dia, através das imagens televisivas das várias etapas do Tour de France.        

Os media franceses, “finalmente”, segundo os católicos, começam a abrir debates sobre as causas destes ataques, procurando compreender quem possam ser os criminosos e quais sejam as comunidades católicas mais visadas. Também se tenta entender o que representa esta onda cristianofóbica sobre a cultura francesa e sobre cristianismo local.    

Os ataques contra as igrejas católicas, de acordo com os dados do Ministério do Interior de França, quadruplicaram entre 2008 e 2019. Um dado divulgado recentemente é muito significativo: houve 228 violentos ataques anti-cristãos só no trimestre Janeiro-Março de 2019. Em todo o ano de 2018, a polícia francesa referiu 129 furtos e 877 episódios de vandalismo em locais católicos, principalmente igrejas e cemitérios, dados que levaram a França a tornar-se o país europeu com mais ataques anti-cristãos, a Europa onde a cristianofobia aumenta, como confirmado pelo Observatory on intolerance and discrimination against christians in Europe nos seus diversos relatórios e no Twitter.   

Aguardando uma posição sobre a cristianofobia da parte de Monsenhor Éric de Moulins-Beaufort, um parisiense de 57 anos, teólogo e Arcebispo de Reims, escolhido, em Abril último, como novo Presidente da Conferência Episcopal Francesa, o seu antecessor mencionou, embora suavemente, o problema. Assim, se Monsenhor Moulins-Beaufort parece mais interessado em inaugurar mesquitas, a criticar os católicos e a exortar os muçulmanos como mais devotos, o seu antecessor, Monsenhor Georges Pontier, actual Arcebispo emérito de Marselha, explicou à revista Le Point que não queria «desenvolver um discurso ligado à perseguição», porque os católicos «não querem lamentar-se», falando dos ataques mas minimizando-os, apesar dos dados serem claros.          

«As comunidades estão chocadas e são forçadas a sentir-se vulneráveis. Os ataques multiplicaram-se dramaticamente nos últimos anos e estão a ocorrer em praticamente todos os cantos de França: áreas urbanas e rurais, grandes cidades e pequenas vilas, do mesmo modo», escreveu o renomado jornalista americano Richard Bernstein, num ensaio, para a RealClearInvestigations, intitulado “Os ataques anti-cristãos em França quadruplicaram silenciosamente. Porquê?”.         

O antigo correspondente do New York Times citou o político Henri Lemoigne que falou de “consternação real” depois que alguém na região da Mancha, que administrou durante anos, invadiu uma igreja local e profanou o Corpo e o Sangue de Cristo, contido nas partículas consagradas, arremessando para o chão todo o conteúdo do Tabernáculo.  

“As pessoas sentem que os seus valores estão sob ataque, até mesmo as suas próprias vidas”, como, aliás, já aconteceu no caso do Padre Jacques Hamel, morto em 2016 enquanto celebrava a Santa Missa, em Saint-Étienne-du-Rouvray, na Normandia, por dois homens muçulmanos que tinham prometido lealdade ao Estado Islâmico do ISIS.   

O que surpreende os analistas não-franceses é o facto que estes ataques foram acolhidos com “relativa tranquilidade” na laicíssima França. Como observou Richard Bernstein, “a Igreja Católica francesa oficial optou por minimizar os ataques”, no entanto, as chamas que atingiram Notre-Dame, em Abril, e as especulações sobre as causas desse incêndio, mostraram ao mundo – pelo menos incidentalmente – a cristianofobia que avança em França.      

Entre os principais jornais franceses, apenas o conservador Le Figaro publicou uma substancial investigação sobre a cristianofobia na primeira página. Outros publicaram alguns artigos sobre acidentes individuais. A ausência de um alarme público palpável levou a revista Causeur a publicar uma série de artigos sobre os ataques sob o título geral de “Explosão de ataques anti-cristãos: as vítimas de que ninguém fala”.

Mas porquê que estes actos de cristianofobia aumentam? As respostas são complicadas. Aqueles que minimizam os actos de vandalismo, ou seja, a maioria dos meios de comunicação e muitos políticos, apontam que os ataques estão ligados a crimes de pequeno calibre. Aqueles que estão preocupados com os ataques, no entanto, rejeitam fortemente tal perspectiva. Há algum tempo atrás, Le Figaro escrevia, a propósito de vários actos de vandalismo, que «esta não é obra de ladrões».     

O que é claro é que os ataques fazem luz sobre uma série de questões fundamentais que incomodam a França. Enquanto isso, a Igreja Transalpina é considerada um alvo fraco (devido à sua constante secularização e por causa dos escândalos sexuais que a afectaram) e fácil (é praticamente impossível controlar todos os milhares de igrejas espalhadas pela França. Estes lugares, segundo o filósofo Pierre Manent, são «menos defendidos e apresentam poucos riscos, e são muitos»).         

Já houve (mais de 500 em 2018, segundo o Ministério do Interior, um aumento de 74% em relação ao ano anterior) vários ataques contra locais e símbolos judaicos (estes são bem divulgados nos media) por extremistas islâmicos e teme-se que a mesma mão esteja por trás dos ataques anti-cristãos.       

Mas uma das razões pelas quais a cristianofobia é subestimada pelo governo francês é precisamente o medo de alimentar a chamada islamofobia, isto é, a preocupação de que algumas pessoas culpem instintivamente os muçulmanos pelos ataques e protagonizem represálias, embora não haja episódios conhecidos de represálias cristãs em solo francês.

“Para a maioria dos ataques, não temos ideia dos autores”, disse, à Bernstein, a ex-promotora norte-americana Ellen Fantini, que dirige o Observatório sobre Intolerância e Discriminação contra os Cristãos, em Viena. Segundo Fantini, “é seguro dizer que há muitos ataques que nada têm que ver com grupos extremistas”.       

«Enquanto cada ataque contra uma sinagoga, uma mesquita ou um cemitério judaico ou muçulmano é amplamente divulgado nos media e provoca um coro de denúncias», escreveu Elizabeth Levy, em Causeur, os ataques contra os locais cristãos «não causaram muita perturbação», no sentido que os media não lançaram notícias relacionadas com a cristianofobia, como fizeram, em vez, sobre os actos de pedofilia e de efebofilia cometidos por alguns clérigos, escândalos que foram intensamente contados pela imprensa francesa.         

Na sua lista anual de ataques anti-cristãos em França, o observatório de Fantini inclui também os protestos de feministas radicais, com mulheres posando completamente nuas diante de estátuas ou edifícios sagrados, como aconteceu em Lourdes.   

Nos poucos casos em que os vândalos foram encontrados e presos, muitos deles pareciam psicologicamente perturbados e, alguns deles, não tinham habitação. Segundo os artigos da imprensa francesa, mais de 60% dos autores identificados eram menores desenraizados. No entanto, o mesmo jornal Liberation, por exemplo, descobriu que cerca de 60% dos ataques contra edifícios sagrados, cemitérios ou outros objectos, diziam respeito a grafites com inscrições satânicas, símbolos anarquistas, suásticas ou slogans políticos.          

Mas alguns episódios não fazem pensar só a uma explosão de uma espécie de “feia franja social desesperada”. Como qualificar, de facto, os vândalos que incendiaram a enorme porta meridional da Igreja de Saint-Sulpice, no coração de Paris, destruindo um vitral e um baixo-relevo do século XVII, ou aquele rapaz de vinte e um anos que, em Nimes, desfigurou uma cruz com excrementos humanos em que inseriu pedaços da hóstia consagrada, ou aqueles jovens que, em Villeneuve-de-Berg, urinaram na pia baptismal da igreja local?              

«Estes não são actos isolados», escreveu a revista cristã Avenir de la Culture. «Testemunham um clima profundamente anti-cristão em França», um crescimento geral do ódio anti-cristão, uma raiva incrível contra a Igreja que, pelo menos em França, parece estar ligada a três motivos: a perda geral do sentido do sagrado (como também afirmou o historiador Jean-François Colosimo), o facto de que a maioria dos sacerdotes de orientação progressista perdeu a sua autoridade moral sobre as comunidades e, ao contrário, o facto de que a Igreja que permaneceu fiel ao Catecismo Católico é considerada a preservadora dos valores e modos de vida que muitos franceses consideram “antiquados”, “irrelevantes” ou, até mesmo, “um obstáculo” para as suas vidas. Neste sentido, os ataques às igrejas cristãs e aos cemitérios parecem estar ligados àquela que, muitas vezes, é genericamente definida como a “crise da Igreja”.  

Matteo Orlando

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