quinta-feira, 4 de julho de 2019

«Estamos a experimentar uma conversão ao mundo, não a Deus»



O Cardeal Müller respondeu às perguntas do Catholic World Report sobre a situação na Alemanha, as tensões provocadas pela proposta de que alguns protestantes pudessem receber a Sagrada Comunhão, os contínuos conflitos sobre o ensinamento da Igreja sobre por que razão as mulheres não podem ordenadas sacerdotes e a homossexualidade. 

Desde 2014, tem havido dentro da Igreja um fluxo contínuo de conflitos e tensões que envolvem muitos bispos alemães. Qual é a razão desse fenómeno? Qual é a causa destes conflitos sobre a eclesiologia, a Sagrada Comunhão e outras questões relacionadas?    

Um grupo de bispos alemães, com o seu presidente (isto é, a Conferência Episcopal Alemã) à cabeça, vêem-se a si mesmos como os pioneiros da Igreja Católica na marcha para a modernidade. Eles consideram que a secularização e a descristianização da Europa é um desenvolvimento irreversível. Por esta razão, a Nova Evangelização, o programa de João Paulo II e de Bento XVI, é, do seu ponto de vista, uma batalha contra o curso objectivo da história, que se assemelha à luta de Dom Quixote contra os moinhos de vento. Estão à procura do lugar onde a Igreja possa sobreviver em paz. Portanto, todas as doutrinas da fé que se oponham à “corrente dominante” do consenso social devem ser reformadas.   

Uma consequência que deriva disto é a exigência da Sagrada Comunhão mesmo para aquelas pessoas que não professam a fé católica e também para aqueles católicos que não estão em estado de graça santificante. Também se incluem na agenda: uma bênção para as parelhas homossexuais, a inter-comunhão com os protestantes, a relativização da indissolubilidade do matrimónio sacramental, a introdução dos viri probati e, com isso, a abolição do celibato sacerdotal e a aprovação de relações sexuais antes e fora do matrimónio. Estes são os seus fins e, para alcançá-los, estão dispostos a aceitar inclusive a divisão entre os bispos da Conferência Episcopal.    

Os fiéis que levam a sério a doutrina católica são considerados conservadores, estão a ser expulsos da Igreja e expostos a uma campanha de difamação por parte dos meios de comunicação liberais e anti-católicos.        

Para muitos bispos, a verdade da revelação e da profissão da fé católica é apenas mais uma variável na política do poder intra-eclesial. Alguns deles citam acordos individuais com o Papa Francisco e pensam que as suas declarações, em entrevistas com jornalistas e figuras públicas que estão longe de serem católicos, oferecem uma justificação para “suavizar” as verdades da fé definidas e infalíveis (isto é, os dogmas). Dito isto, estamos a lidar com um processo flagrante de protestantização.             

O ecumenismo, em contraste, tem como fim a unidade de todos os cristãos, que já se realiza sacramentalmente na Igreja Católica. A mundanidade do episcopado e do clero no século XVI foi a causa da divisão da Cristandade, que é diametralmente oposta à vontade de Cristo, o fundador da única, santa, católica e apostólica Igreja. A doença da época é agora, supostamente, o remédio com o qual se quer superar a divisão. A ignorância da fé católica nesse tempo era catastrófica, especialmente entre os bispos e os papas, que se dedicavam mais à política e ao poder do que a testemunhar a verdade de Cristo.                   

Hoje, para muita gente, ser aceite pelos meios de comunicação é mais importante que a verdade, pela qual devemos sofrer. Pedro e Paulo sofreram o martírio por Cristo em Roma, o centro do poder naqueles dias. Não foram considerados heróis pelos governantes deste mundo, mas foram escarnecidos como Cristo na cruz. Não devemos esquecer a dimensão martirológica do ministério petrino e do ofício episcopal.    

Porquê que, especificamente, alguns bispos alemães querem permitir que seja dada a Sagrada Comunhão a alguns protestantes de forma regular?                 

Nenhum bispo tem autoridade para administrar a Sagrada Comunhão aos cristãos que não estão em plena comunhão com a Igreja Católica. Apenas numa situação de perigo de morte pode um protestante requerer a absolvição sacramental e a Sagrada Comunhão como viático, se professa plenamente a fé católica e, portanto, entra em plena comunhão com a Igreja Católica, mesmo que não tenha declarado a sua conversão oficialmente.                      

Infelizmente, hoje em dia, até mesmo alguns bispos desconhecem a fé católica na unidade da comunhão eclesial e sacramental e justificam a sua infidelidade à fé católica com uma suposta preocupação pastoral ou com explicações teológicas que, sem dúvida, contradizem os princípios da fé católica. Toda a doutrina e praxis deve fundar-se na Sagrada Escritura e na Tradição Apostólica e não deve contradizer os anteriores pronunciamentos dogmáticos do Magistério da Igreja. Este é o caso a que se refere a permissão para que cristãos não-católicos recebam a Comunhão durante a Santa Missa, para além da situação de emergência descrita anteriormente.

Como vê, primeiro, a saúde da fé católica na Alemanha e, em segundo lugar, na Europa em geral? Acha que a Europa pode recuperar o sentido da sua primitiva identidade cristã?                   

Há muitas pessoas que vivem a sua fé, amam a Cristo e à sua Igreja e depositam as suas esperanças em Deus, na vida e na morte. Mas também, entre eles, há alguns que se sentem abandonados e traídos pelos seus pastores. Ser popular na opinião pública é hoje o critério para se ser supostamente bom bispo ou bom padre. Estamos a experimentar uma conversão ao mundo, não a Deus, contrariamente à afirmação do apóstolo Paulo: «Estarei eu agora a tentar persuadir homens ou a Deus? Ou será que estou a procurar agradar aos homens? Se ainda pretendesse agradar aos homens, não seria servo de Cristo» (Gl 1, 10).      

Precisamos de padres e bispos que sejam cheios de zelo pela casa de Deus, que se dediquem inteiramente à salvação dos seres humanos na peregrinação da fé até à nossa morada eterna. Não há futuro algum para o “cristianismo light”. Precisamos de cristãos com espírito missionário. 

A Congregação para a Doutrina da Fé reiterou recentemente o ensinamento milenar da Igreja de que as mulheres não podem ser ordenadas sacerdotes. Porquê que acha que este ensinamento, reiterado várias vezes nos últimos anos, continua a ser contestado por muitos na Igreja?         

Infelizmente, agora a Congregação para a Doutrina da Fé não é particularmente estimada e a sua importância para a primazia Petrina não é reconhecida. A Secretaria de Estado e o serviço diplomático da Santa Sé são muito importantes para a relação da Igreja com outros países, mas a Congregação para a Doutrina da Fé é mais importante para a relação da Igreja com a sua Cabeça, de quem toda a graça procede.

A fé é necessária para a salvação; a diplomacia papal pode conseguir muitas coisas boas no mundo. Mas a proclamação da fé e da doutrina não deve subordinar-se aos requisitos e às condições dos jogos de poder terreno. A fé sobrenatural não depende dos poderes terrenos. Na fé, é bastante claro que o sacramento da Ordem sacerdotal, nos seus três graus de bispo, sacerdote e diácono, só pode ser recebido validamente por homens católicos baptizados, porque apenas eles podem simbólica e sacramentalmente representar a Cristo como o esposo da Igreja. Se o ministério sacerdotal é entendido como uma posição de poder, então essa doutrina de reservar as Sagradas Ordens para os católicos do sexo masculino é uma forma de discriminação contra as mulheres.    

Mas essa perspectiva de poder e de prestígio social é falsa. Somente se virmos toda a doutrina da fé e dos sacramentos do ponto de vista teológico, em vez de em termos de poder, poderá a doutrina da fé referente aos pré-requisitos naturais para o sacramento da Ordem e do Matrimónio ser evidente para nós também. Apenas um homem pode simbolizar a Cristo, o noivo da igreja. Somente um homem e uma mulher podem simbolicamente representar a relação de Cristo com a igreja.     

Recentemente apresentou a edição italiana do livro de Daniel Mattson “Por que não me chamo gay”. O quê que o impressiona sobre o livro e a sua abordagem? Em que se diferencia de outras abordagens pró-gay ou de posições tomadas por alguns católicos? O se pode fazer para explicar, em termos positivos, o ensinamento da Igreja sobre a sexualidade, o matrimónio e outros assuntos relacionados?    

O livro de Daniel Mattson é escrito desde uma perspectiva pessoal. Baseia-se numa profunda reflexão intelectual sobre a sexualidade e o matrimónio, que o torna diferente de qualquer outro tipo de ideologia. Portanto, ajuda as pessoas que têm atracção por pessoas do mesmo sexo a reconhecer a sua dignidade e a seguir um caminho benéfico no desenvolvimento da sua personalidade e a não permitir que sejam usadas como peões pela exigência de poder dos ideólogos. Um ser humano é uma unidade interna de princípios organizacionais espirituais e materiais, e, consequentemente, uma pessoa é um sujeito que actua livremente, de uma natureza que é espiritual, corpórea e social.      

O homem é criado para a mulher, a mulher para o homem. O fim da comunhão conjugal não é o poder de um sobre o outro, mas a unidade num amor mútuo, no qual os dois crescem e, juntos, alcançam a sua meta em Deus. A ideologia sexual que reduz o ser humano ao prazer sexual é, de facto, hostil à sexualidade, porque nega o fim do sexo e o eros é o ágape. Um ser humano não pode permitir-se ser degradado ao estado de animal mais desenvolvido. É chamado ao amor. Apenas amando o outro para seu bem, encontro a minha própria essência; só então me liberto da prisão do meu egoísmo primitivo. Uma pessoa não se pode completar a si mesma à custa de outra.          

A lógica do Evangelho é revolucionária num mundo de consumismo e narcisismo. Porque só o grão de trigo que cai na terra e morre não fica só, mas produz muito fruto. «Quem se ama a si mesmo, perde-se; quem se despreza a si mesmo, neste mundo, assegura para si a vida eterna» (Jo 12, 15).

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