quarta-feira, 17 de julho de 2019

A Ordem de Malta mete água em muitas questões



Depois do artigo de Henry Sire e do de La Nuova Bussola, as cúpulas da Ordem de Malta emitiram um comunicado para refutar as questões que surgiram da administração alemã, da administração extraordinária e dos preservativos em Mianmar. Tudo, obviamente, sem nenhum fundamento real. Aqui está o porquê.          

A atmosfera não parece muito serena no interior da Ordem Soberana e Militar de Malta. Depois que Henry Sire, autor de The Dictator Pope, expulso da Ordem por este motivo, escreveu em OnePeterFive um artigo muito alarmado, no qual levantava hipóteses de mutações genéticas e talvez o desaparecimento da Ordem; e depois que La Nuova Bussola deu conta disso, enriquecendo-o com informações e matéria apropriada, os líderes da Ordem reagiram difundido uma declaração para rejeitar as numerosas questões abordadas pelo artigo de Henry Sire e pelo nosso. A declaração “magistral” foi difundida em todos os níveis da Ordem e, de facto, não foi recebida como ouro puro; a tal ponto que recebemos, por parte de pessoas com experiência e devidamente documentadas, que vivem a vida da Ordem, precisas refutações à refutação.                   

As cúpulas da Ordem sustentam que a Ordem Soberana e Militar não foi comissariada. Aqui está o que diz o comunicado: «A Ordem de Malta nunca foi comissariada pelo Vaticano. A Ordem de Malta mantém a sua independência e soberania. (…) Isto permitiu superar a crise (…) que detonou em Dezembro de 2016 fruto das decisões equivocadas do então Grão-Mestre encorajado pelos seus colaboradores que promoveram interesses pessoais, contrários à missão e ao espírito da Ordem».                     

A resposta é devastadora. «É verdadeiramente curioso que se tenda a escrever que a Ordem de Malta não foi objecto de “intervenção”. E como se deveria chamar à situação pela qual será nomeado um “delegado especial do Papa” numa terceira entidade que paralelamente se qualifica como “de direito internacional”?». Como se chama a situação em que o mesmo «delegado» assume, «de facto», o lugar do representante da Santa Sé junto daquele mesmo sujeito (Cardinalis Patronus) deixando-lhe, no entanto, o cargo formal, embora completamente interdito? Como se deveria chamar a situação através da qual o mesmo «delegado especial» se faz portador da disposição pela qual se congelam as vocações religiosas impedindo as profissões solenes e proibindo a admissão de novos candidatos ao noviciado? Como se deveria chamar a situação pela qual os professos – que são os verdadeiros Cavaleiros da Ordem de Malta – estão a ser continuamente desautorizados nas suas tarefas, favorecendo, ao invés, a nomeação de cavaleiros que fizeram a promessa de «obediência» aos superiores da Ordem? E, então, perguntamo-nos, se é verdade quanto se lê no artigo, porquê que o ex-Grão-Mestre Festing se teria demitido nas mãos do Papa? Fala-se, depois, de «decisões equivocadas» do então Grão-Mestre «encorajado pelos seus colaboradores que promoveram interesses pessoais». Mas em que sentido? Quem são esses «colaboradores», quais seriam esses «interesses pessoais»? Quais são as «decisões equivocadas»? Foi levado a cabo um processo respeitante a essas circunstâncias ou é apenas um processo às intenções, obviamente póstumas? E a história dos preservativos? E a carta do Papa, de 2 de Dezembro de 2016, ao Cardeal Burke e as infiltrações de que se falava? Parecem quase as justificações das crianças que, para não serem interrogadas, dizem que o avô morreu... pela vigésima vez.          

O segundo tema interessante diz respeito à história dos preservativos que, em 2016, desencadeou o conflito entre o poderosíssimo e tão patrocinado Grão-Chanceler Albrecht von Boeselager – que por causa disto não pediu a demissão – e o então Grão-Mestre, Fra’ Mathhew Festing, que, face à recusa do primeiro, o demitiu e, mais tarde, foi forçado pelo Papa Bergoglio a demitir-se, enquanto que Boeselager foi reintegrado. Boeselager sabia que a Malteser International distribuía preservativos? Um tribunal civil de Hamburgo julgou um caso entre Boeselager e Kath.net. No comunicado lemos: «A sentença do Tribunal Regional de Hamburgo não estabelece que o Grão-Chanceler Albrecht Boeselager tivesse conhecimento da distribuição dos pacotes de ajuda do Alto Comissariado das Nações Unidas contendo contraceptivos antes que esse facto fosse descoberto, pela Malteser International, em Novembro de 2013».      

Também aqui a resposta que é dada admite poucas respostas: «Sentença do Tribunal de Hamburgo. Pena que tudo o que se escreve já tenha sido negado por tantas publicações em Dagospia.com e que as fontes entrem em conflito com o que se lê». Não só isso. Fomos ver o que escreveu Kath.net após o processo: «O tribunal reconheceu o facto de que a Malteser International continuou a sustentar este esforço de assistência durante vários meses após a distribuição do fornecimento de preservativos no âmbito de um projecto em Mianmar, e isso também foi feito com o conhecimento e de acordo com a vontade do senhor Boeselager Um mandato temporário que Boeselager obteve, segundo uma informação de Kath.net, foi revogado neste assunto de crucial importância».                   

Henry Sire, por sua vez, cita o veredicto do tribunal: «A impressão convincente é que o Requerente (Boeselager) sabia que os preservativos tinham sido distribuídos em operações de auxílio da Malteser International usando os pacotes de assistência do ACNUR. O Tribunal considera que um leitor imparcial poderia, de facto, ser levado a acreditar que o Requerente (Boeselager) era efectivamente responsável por todas as acusações feitas contra ele, o que necessariamente implica a sua plena consciência de todas as circunstâncias relevantes. Na sua sentença, o Tribunal observa que, na realidade, a impressão que tem é verdadeira».       

Que mais se pode dizer? Parece singular, na verdade, que, diante desta validação externa apresentada num tribunal civil, Albrecht von Boeselager ainda seja Grão-Chanceler. Seria interessante, entre outras coisas, saber quais foram os resultados da investigação interna que levou Fra’ Matthew Festing a pedir a Boeselager que se demitisse. Talvez a Ordem os dê a conhecer, num esforço de transparência e honestidade.       

Por razões de espaço não podemos apresentar a contra-argumentação na sua totalidade, mesmo se alguns aspectos – uma problemática doação de origem suíça, o ukase contra a Missa vetus ordo, as demissões de muitos membros romanos e outros ainda – mereceriam atenção. Mas não podemos ignorar o que é uma questão central e que também recaiu sobre elementos que somos obrigados a passar ao lado. Ou seja, o domínio do partido alemão. Sobre este assunto a refutação afirma: «No último Capítulo Geral (1 e 2 de Maio de 2019) de 67 com direito a voto, apenas 3 eram alemães, em comparação com 16 italianos, 6 ingleses, 5 franceses. Entre os 6 eleitos para o Soberano Conselho de Governo da Ordem, apenas dois pertenciam à Associação Alemã».         

Talvez tivessem feito melhor não tocando no assunto. Porque a contra-argumentação parece, mais uma vez, decisiva: «É verdadeiramente mistificante a acusação sobre a suposta hegemonia alemã». Já de si faz rir que uma ordem de cavalaria e nobiliárquica com mais de 900 anos de história esteja a defender-se dizendo «não, não é verdade, não fomos nós». Com maior razão é verdadeiramente patético que inventem números fazendo o que é comumente chamado de “contas à merceeiro” quando no Capítulo Geral intervieram os alemães ou pró-alemães Albrecht Freiherr von Boeselager (Grão-Chanceler, alemão), Erich von Lobkowicz (Presidente da Associação Alemã), Joannes von Lobkowicz (irmão do ex-Procurador da Boémia), János Esterházy de Galántha (Recebedor do Grande Tesouro, de família húngara, mas nascido e criado na Alemanha, como demonstra o seu perfil biográfico no site oficial da Ordem), Winfried Graf Henckel von Donnersmarck (membro do Soberano Conselho, que vive na Suíça, mas de família austro-húngara), Norbert Salburg-Falkenstein (Procurador da Áustria, cuja esposa é alemã), Martin von Walterskirchen von zu Wolfsthal (Presidente da Associação Suíça, alemão), Benedicta Lindberg, nascida Benedicta Gräfin von Plettenberg (Presidente da Associação Escandinava, casada com o sueco Ulf Lindberg e que não se excluem parentescos com os von Boeselager).    

Portanto, para além do facto de que não é verdade que os alemães no último Capítulo Geral fossem apenas três – como nas anedotas – mostra objectivamente que o cargo de Grão-Chanceler, através de proximidades e conivências, tem um controlo político sobre o órgão de governo e sobre a vida da Ordem, favorecendo, por exemplo, a constante participação da Associação Libanesa (liderada por Marwan Sehnaoui, embora seja membro da comissão de vigilância nomeada por Parolin) e a exclusão da Associação Maltesa, considerada não-alinhada; não permitindo à Associação dos Cavaleiros Italianos a presença com voto, citando a justificação formal de que não é uma verdadeira Associação Nacional e que a Itália já estaria representada pelos três Grão-Priorados, que agora são governados por procuradores não-professos; fazendo com que, actualmente, a Associação Canadiana, com as suas posições mais próximas dos professos, esteja a ser marginalizada, como também são as posições da Associação Norte-Americana.        

Contudo, para além do facto de que numa estrutura orgânica como a Ordem de Malta, que se rege por laços de nobreza de sangue, constitui um sofisma formalista sustentar que apenas quem tenha o bilhete de identidade alemão o seja, e não os outros, deve-se notar que a hegemonia – como eles mesmos a definem – se pode exercer de vários modos, muitas vezes de modo subtil e em segredo. De facto, talvez “sobretudo” dessa maneira.      

Último detalhe “de família”: Georg von Boeselager (sim, o irmão de Albrecht) é membro do Conselho de Superintendência para as Obras de Religião (IOR) desde 15 de Dezembro de 2016. A nomeação chega com uma nota da Secretaria de Estado. Mas esta também é uma coincidência. Claro.           

Marco Tosatti

1 comentário:

«Tudo me é permitido, mas nem tudo é conveniente» (cf. 1Cor 6, 12).
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