domingo, 30 de junho de 2019

Não, a Missa Tradicional não se está a “impor”!


Tornou-se uma espécie de teimosia ortodoxa dizer, dentro dos círculos católicos tradicionais, que, no fim, estamos destinados a ganhar as guerras da liturgia e da doutrina, mas isso não acontecerá sem evangelização. As comunidades tradicionais são fortalezas onde nos refugiamos, mas não podemos permanecer felizes simplesmente vivendo atrás das muralhas. 

Ouvi muitíssimos participantes da Missa Tradicional, incluindo sacerdotes, afirmar, em muitas ocasiões, que o Novus Ordo está a morrer. Há razões para pensar que a Igreja tornará à Tradição na sua liturgia. Uma pesquisa conduzida pelo Padre Donald Klosier, pelo Dr. Sha Balizet Fisher e por Bryan William, do LiturgyGuy.com, revelou alguns dados muito interessantes em relação à assistência à Missa Tradicional e ao Novus Ordo, mostrando que os fiéis que assistem à Missa Tradicional estão muito apegados à doutrina moral católica, enquanto que um grande número daqueles que assistem ao Novus Ordo não estão. Por exemplo, 99% dos católicos tradicionais disseram assistir semanalmente à Missa, em comparação com apenas 22% dos “católicos Novus Ordo”. 2% dos católicos tradicionais aceitam a contracepção na sua vida, em comparação com 89% dos católicos Novus Ordo.                                            
Os dados do Centro de Investigação Aplicada no Apostolado (CARA, na sua sigla em inglês), um grupo de investigação da Conferência dos Bispos Católicos (USCCB, na sua sigla em inglês), descrevem-nos um quadro sombrio. Desde 1970, quando o CARA começou a recolher dados e a Missa Novus Ordo foi introduzida, o número de Paróquias nos Estados Unidos diminuiu em mil. O número de Paróquias sem sacerdote residente aumentou de 571 para 3533. O número de auto-denominados “ex-católicos” aumentou de 3,5 milhões para 26,1 milhões e o número de sacerdotes diminuiu de 59192 para 36580. São perdas significativas, é claro, e são indicadores de problemas sérios dentro da Igreja, mas aqueles que estão a ponderar escrever o obituário da Igreja pós-conciliar podem pensar em deixar descansar as suas canetas.               

Tenho notado que aqueles que passam toda a sua vida religiosa dentro das comunidades católicas tradicionais, ou que estiveram fora de comunidades do Novus Ordo por um longo período de tempo, são tentados a ter uma visão tendenciosa de quão grande é o movimento. A Missa Tradicional está a crescer, com certeza, mas vamos examinar bem os números para obtermos uma perspectiva maior. Os dados do Centro de Investigação Aplicada no Apostolado mostram-nos que há 36580 sacerdotes nos Estados Unidos, dos quais 25254 são sacerdotes diocesanos, a grande maioria deles, provavelmente superior a 95%, celebram apenas a Missa Novus Ordo. Em comparação, a Fraternidade Sacerdotal de São Pedro, o Instituto de Cristo Rei, o Instituto do Bom Pastor e a Fraternidade Sacerdotal São Pio X (a maior das comunidades tradicionais) têm um total de, aproximadamente, 1035 sacerdotes em todo o mundo. São 25254 padres diocesanos nos Estados Unidos em contraste com 1035 padres tradicionalistas em todo o mundo. No mesmo site LiturgyGuy.com, a pesquisa que examina as atitudes dos católicos que assistem à Missa Tradicional compara-os com os católicos que assistem à Missa Novus Ordo e esses mesmos autores da pesquisa observam que os católicos da Missa Tradicional assistem, pelo menos, a 489 Missas dominicais em todo o país, e, em qualquer Domingo, estima-se que 100 mil católicos assistem à Missa Tradicional nos Estados Unidos.             

Este é, inquestionavelmente, um passo à frente de onde se encontrava a Missa Tradicional há 10 ou 20 anos atrás. É uma melhoria, sem dúvida. Mas comparemos as 489 Missas Tradicionais com as 17 mil Missas em todo o país. Das 489 Missas Tradicionais, nem todas estão inseridas no total de 17 mil Missas por todo o país (não se contam as da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, por exemplo); mesmo que fossem contadas, aumentaria apenas a percentagem total em 0,003%. Estima-se que 100 mil fiéis assistem às Missas Tradicionais todas as semanas, os tradicionalistas têm famílias muito mais numerosas que as famílias que assistem ao Novus Ordo e que apoiam os métodos contraceptivos (pelo menos, é o que os dados indicam), e a juventude parece ter uma maior preferência pela tradição que as gerações passadas, mas 100 mil fiéis não é um número tão grande se considerarmos que cerca de 556 mil Confirmações foram ministradas no ano passado.                                            

O propósito destas comparações não é desmoralizar os meus irmãos e irmãs que assistem à Missa Tradicional, já que eu gostaria de ver a sua proliferação. Pelo contrário, o meu desejo é dissipar a complacência e recordar que temos uma tarefa diante de nós. Temos muito trabalho a fazer. Não podemos ficar descansados e querer deixar que a Missa Tradicional faça todo o trabalho, esperando que simplesmente apareçam novos fiéis. A conversão requer um diálogo que seja persuasivo.             

Temos que evangelizar e temos que convencer. Quando crescia com o Novus Ordo, não fazia a menor ideia de que o Rito Antigo não tivesse sido extinto, como me quiseram fazer crer. Já sendo menino, na minha escola católica, o Concílio Vaticano II e os seus “frutos” foram-me apresentados como algo que fora aceite por unanimidade, algo inquestionavelmente positivo e apenas com bons frutos. Nunca tive a menor ideia de que havia opiniões que se opunham a esta percepção. E suspeito que um grande número de católicos estão na mesma situação, mas claramente muitos deles anseiam muito mais.                           

O facto de tantos católicos do Novus Ordo deixarem a Igreja por causa do protestantismo, supostamente mais desafiante, é prova disso. Precisamos que lhes apresentar isso. Temos que lhes apresentar esse desafio, já que para as comunidades tradicionais o catolicismo ainda é um desafio e um chamamento à acção. Isso não acontecerá se permanecermos enclausurados nas nossas paróquias, a salvo na nossa bolha de Missa Tradicional, esperando que as conversões aconteçam sem esforço algum da nossa parte. Como escreveu Monsenhor Charles Pope: “Na minha própria Arquidiocese, apesar de disponibilizarmos a Missa Tradicional em cinco lugares diferentes, nunca fomos capazes de atrair mais que um total de cerca de mil pessoas. Isso é apenas 0,5% do número total de católicos que assistem à Missa nesta Diocese todos os Domingos”. Isto não convence os Bispos de que a Missa Novus Ordo não é a liturgia do futuro e que a Missa Tradicional é o melhor caminho a seguir.                        

Analisemos deste modo: muitas vezes temos a sensação exagerada de que a Missa Tradicional é muito solicitada porque há pessoas que têm que viajar uma hora ou mais para assistir. “Se tivéssemos uma Missa Tradicional na nossa cidade…”, lamentamo-nos. Talvez a melhor maneira de analisar seja a seguinte: pensemos em quantos católicos residem a menos de uma hora da paróquia onde é disponibilizada a Missa Tradicional e a ela não assistem, apesar de terem esse tesouro tão próximo deles. Monsenhor Pope continua: “Se nós, que amamos a Missa Tradicional, pensámos que a Missa faria a sua própria evangelização sozinha, estamos errados. É bela e digna de Deus de várias maneiras. Mas, num mundo de prazeres e diversões momentâneas, devemos mostrar o valor perene de uma liturgia tão bela. A verdade é que uma liturgia antiga, falada numa língua antiga e na maioria das vezes em voz baixa, não é algo que a maioria das pessoas modernas apreciará imediatamente. E o mesmo com muitas das verdades da nossa própria Fé, que nos chamam ao sacrifício, a morrer para nós mesmos e a rejeitar os prazeres momentâneos do pecado pela eterna glória do Céu. Frequentemente, devemos argumentar com um mundo céptico e grosseiro”.      

O Novus Ordo está em apuros, é verdade, mas, se está a morrer, terá décadas, talvez séculos, de doença prolongada antes de sucumbir por completo. Não podemos esperar que isso aconteça. Se realmente sentimos que as falhas da Igreja moderna devem ser curadas, devemos convencer disso os nossos irmãos católicos. Devemos sair da nossa zona de conforto, de dentro das nossas comunidades tradicionais, para convencer as pessoas.               

Muitas vezes, a atitude das comunidades tradicionais, a minha incluída, é: “Porquê que a hierarquia da Igreja não vê o que está errado se é demasiado óbvio que devemos regressar à Tradição e à ortodoxia?”. É óbvio para nós, mas, ao ver os números de maneira integral, para aqueles que ainda não estão de acordo connosco a resposta é menos clara. Devemos estar dispostos a apresentar os nossos argumentos e precisamos dos números para sustentar esses argumentos. A batalha pelo futuro da Igreja Católica está longe de terminar. Seria um erro desembainhar a espada prematuramente!                               

Dan Banke          

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