sábado, 8 de junho de 2019

Discurso do Papa Pio XII aos jornalistas católicos



Aos jornalistas católicos participantes, em Roma, no Congresso Internacional.  

A importância da Imprensa católica que vós representais, dilectos filhos, neste Congresso Internacional, e a seriedade dos problemas propostos ao vosso estudo, levaram-Nos a revogar, para vos receber, a norma que, mesmo com o Nosso profundo lamento, tivemos que Nos impor de limitar, de suspender, ainda mais frequentemente, os Nossos discursos e as Nossas alocações durante o Ano Santo. Mas, desta vez, não poderíamos deixar de trazer o contributo da Nossa palavra ao grande tema da vossa reunião. É amplo e sugestivo: a Imprensa católica ao serviço da verdade, da justiça e da paz.                

Precisamente em vista de um dos aspectos essenciais de tal serviço, Nós consideramos oportuno confiar às vossas meditações alguns princípios fundamentais concernentes ao ofício da Imprensa católica diante da opinião pública. Com efeito, essa ocupa um lugar de destaque entre os que contribuem para a sua formação e difusão.            

De facto, a opinião pública é a prerrogativa de cada sociedade normal composta por homens que, conscientes da sua conduta pessoal e social, estão intimamente envolvidos na comunidade da qual são membros. Essa é em toda parte, em última análise, o eco natural, a ressonância comum mais ou menos espontânea dos acontecimentos e da situação actual nos seus espíritos e nos seus juízos.           

Onde não existe nenhuma manifestação da opinião pública, onde, sobretudo, a real inexistência deve ser notada, qualquer que seja a razão para explicar o seu silêncio ou a sua ausência, deve vislumbrar-se um vício, uma enfermidade, um mal da vida social.     

Também deixamos de parte, evidentemente, o caso em que a opinião pública é omissa num mundo onde até mesmo a justa liberdade é banida e onde apenas a opinião dos partidos do poder, a opinião dos líderes ou dos ditadores está autorizada a fazer ouvir a sua voz. Sufocar a dos cidadãos, reduzi-la ao silêncio forçado, constitui, aos olhos de cada cristão, um ataque ao direito natural do homem, uma violação da ordem do mundo como Deus a estabeleceu.          

Quem não percebe as angústias, a desordem moral em que um tal estado de coisas faz cair a consciência dos homens da Imprensa? Na realidade, esperávamos que as muito duras experiências do passado tivessem servido, ao menos, de lição para libertar definitivamente a sociedade de uma tirania tão escandalosa e para pôr fim a um ultraje tão humilhante para os jornalistas e para os seus leitores. Sim, não menos vivamente que vós, Nós desejávamo-lo e a Nossa decepção não foi menos amarga que a vossa.                  

Terrível situação! Igualmente deplorável e, talvez, ainda mais fatal por causa das suas consequências, é aquela dos povos nos quais a opinião pública permanece silenciosa, não porque é amordaçada por uma força externa, mas porque lhe faltam os seus pressupostos internos, que devem encontrar-se nos homens que vivem em comunidade.    

Nós reconhecemos na opinião pública um eco natural, uma ressonância comum, mais ou menos espontânea, dos factos e das circunstâncias no espírito e nos juízos das pessoas que se sentem responsáveis
​​e intimamente ligadas ao destino da sua comunidade. As Nossas palavras indicam quase tantas razões pelas quais a opinião se forma e se expressa tão dificilmente. O que hoje é chamado de opinião pública muitas vezes tem somente o seu nome, um nome sem sentido, algo como um vago ruído, uma impressão artificial e superficial; nada mais do que um eco espontâneo que surge na consciência da sociedade e dela emana.      

Mas onde procurar homens profundamente imbuídos do sentido da sua responsabilidade e da sua estreita solidariedade para com o ambiente em que vivem? Já não há tradição, nem um lar estável, nem segurança da existência, nada mais daquilo que poderia ter impedido a obra desagregadora e, com demasiada frequência, de destruição. Acrescente-se a isso o abuso da força das gigantescas organizações de massa que, prendendo o homem moderno na sua complicada engrenagem, sufocam facilmente toda a espontaneidade da opinião pública e reduzem-na a um conformismo cego e dócil de pensamentos e de juízos.       

Não haverá, portanto, nessas desgraçadas nações, homens dignos desse nome? Homens marcados pelo selo de uma personalidade verdadeira, capazes de promover a vida interior da sociedade? Homens que, à luz dos princípios que estão no centro da vida, à luz das suas fortes convicções, saibam contemplar Deus, o mundo e todos os acontecimentos, grandes ou pequenos, que se sucedem? Homens feitos assim deveriam, pelo contrário, graças à rectidão do seu juízo e dos seus sentimentos, ser capazes de construir, pedra por pedra, a parede sólida sobre a qual a voz desses acontecimentos, ao bater, se repercutiria num eco espontâneo. Sem dúvida, ainda existem homens assim, infelizmente pouco numerosos e cada vez mais raros, pois, aos poucos, são substituídos por indivíduos cépticos, cansados, descuidados, sem firmeza nem carácter, facilmente manipulados por alguns «donos da situação»!        

O homem moderno exibe de bom grado atitudes independentes e casuais. Muitas vezes constituem apenas uma fachada, atrás da qual se escondem pobres seres, vazios, fracos, sem força espiritual para desmascarar a mentira, sem força de ânimo para resistir à violência daqueles que são capazes de pôr em movimento todas as descobertas da técnica moderna, toda a arte refinada da persuasão para privá-los da sua liberdade de pensamento e torná-los semelhantes às frágeis «canas agitadas pelo vento»[1].                                  

Alguém ousaria argumentar com segurança que a maioria dos homens é capaz de julgar, de avaliar os factos e as correntes com o devido peso, de modo a que a opinião seja guiada pela razão? No entanto, é esta uma condição «sine qua non» para que seja válida e saudável. Em vez disso, não se vê, talvez, esta maneira, que é a única maneira legítima de julgar os homens e as coisas de acordo com regras claras e justos princípios, ser repudiada como um obstáculo à espontaneidade e, ao contrário, serem colocados em posto de honra o impulso e a reacção sensíveis do instinto e da paixão como os únicos «valores de vida»? Sob a influência de tal preconceito, muito pouco resta da razão humana e da sua força de penetração no labirinto profundo da realidade. Os homens sensatos já não contam mais; restam aqueles cuja visão não vai além da sua limitada especialidade, nem acima do poder puramente técnico. Certamente, não é desses homens que se pode, no normal curso dos acontecimentos, esperar a educação da opinião pública, nem a firmeza diante de uma propaganda astuta que reivindica o privilégio de moldá-la à sua vontade. Em tal campo, os homens de espírito cristão, simples, recto, mas límpido, embora na maioria das vezes sem muitos estudos, são muito superiores a eles.      

Os homens, aos quais deveria competir a missão de esclarecer e de orientar a opinião pública, vêem-se muitas vezes, uns por causa da má vontade ou da própria incapacidade, outros devido à impossibilidade ou porque forçados, numa condição desfavorável para poderem desempenhar o próprio dever com liberdade e êxito. Uma tal condição difícil prejudica particularmente a Imprensa católica na sua actividade ao serviço da opinião pública. Uma vez que todas as deficiências, as incapacidades acima mencionadas, dependem da violação da organização natural da sociedade humana tal como Deus a quis, do enfraquecimento do homem que, formado à imagem do seu Criador e por Ele dotado de inteligência, fora colocado no mundo para governá-lo, permeado pela verdade, dócil aos preceitos da lei moral, do direito natural e da doutrina sobrenatural contida na revelação de Jesus Cristo.           

Nesta situação, o mal mais temido pelo jornalista católico é a pusilanimidade e o desânimo. Olhai para a Igreja: desde há quase dois mil anos, através de todas as dificuldades, contradições, incompreensões, perseguições abertas e subtis, jamais se deprimiu, jamais se deixou desencorajar. Tomai dela o exemplo. Considerai, nas deploráveis faltas
​​a que nos referimos, o duplo cenário do que não deve ser e do que deve ser a Imprensa católica.              

Em toda a sua forma de ser e de agir, a Imprensa católica deve opor um obstáculo insuperável ao retrocesso progressivo, ao desaparecimento das condições básicas de uma sã opinião pública, e consolidar e reforçar o que dela resta. Renunciar voluntariamente às fáceis vantagens de um vil interesse e de uma popularidade de baixa qualidade; saiba ela conservar-se, com enérgica e orgulhosa dignidade, inacessível a todas as tentativas directas ou indirectas de corrupção. Tenha a coragem
mesmo à custa de sacrifícios pecuniários de banir das suas colunas todos os anúncios, todas as publicidades injuriosas para a fé ou para os bons costumes. Ao fazê-lo, ganhará em valor intrínseco, acabará por conquistar a estima e, em consequência, a confiança; justificará o lema tantas vezes repetido: «Para cada lar católico, o jornal católico».     

Mas, mesmo com a vantagem das melhores condições externas e internas em que possa desenvolver-se e difundir-se, a opinião pública não é, todavia, infalível, nem sempre absolutamente espontânea. A complexidade ou a novidade dos acontecimentos e das condições das coisas podem exercer uma influência considerável sobre a sua formação, sem mencionar que não se destaca facilmente seja de juízos preconcebidos, seja da corrente dominante das ideias, mesmo quando a reacção seria objectivamente justificada, mesmo quando se impusesse. E é aqui que a Imprensa tem uma tarefa eminente a cumprir para formar a opinião pública, não para dominá-la, mas para servi-la de maneira útil. 

Esta delicada empresa supõe, daqueles que se ocupam da Imprensa católica, competência, uma cultura geral, sobretudo filosófica e teológica, qualidades de estilo, o tacto psicológico. Mas, antes de mais nada, é-lhes indispensável o carácter. O carácter, isto é, em termos simples, o amor profundo e o inalterável respeito pela ordem divina, que abarca e anima todas as manifestações da vida; amor e respeito que o jornalista católico não se deve limitar a sentir e a nutrir no interior do próprio coração, mas deve cultivar no dos seus leitores. Em certos casos, a chama que assim arda será suficiente para reacender ou para reavivar neles a centelha quase extinta das convicções e dos sentimentos latentes no fundo das suas consciências. Noutros casos, a sua amplitude de opiniões e de juízos poderá abrir os seus olhos fixados, com excessiva timidez, em preconceitos tradicionais. Tanto nuns como noutros, o jornalista católico lembrar-se-á de «fazer» a opinião; mais do que isso, quererá servi-la.    

                        
Acreditamos que este conceito católico de opinião pública, do seu funcionamento e dos serviços que lhe são prestados pela Imprensa, é igualmente apropriado e necessário para abrir aos homens, segundo o vosso ideal, o caminho da verdade, da justiça e da paz.                  

Assim, com o seu comportamento diante da opinião pública, a Igreja apresenta-se como uma barreira diante do totalitarismo, que, pela sua própria natureza, é necessariamente o inimigo da verdadeira e livre opinião dos cidadãos. De facto, pela sua própria natureza, o totalitarismo nega essa ordem divina e a relativa autonomia que deve ser reconhecida em todos os campos da vida, uma vez que todos têm a sua origem em Deus.       

Esta oposição manifestou-se, uma vez mais, por ocasião de dois discursos[2], nos quais, recentemente, quisemos destacar a posição do juiz perante a lei. Falávamos, então, das normas objectivas do direito, do direito divino natural que garante, à vida jurídica dos homens, a autonomia exigida por uma viva e segura adaptação às condições de cada época. Que não nos tenham compreendido os totalitaristas, para os quais a lei e o direito nada mais são do que instrumentos nas mãos dos círculos dominantes, era expectável. Mas notar os mesmos mal-entendidos por parte de certos grupos que, durante muito tempo, se assumiram como campeões da concepção liberal da vida, que condenaram os homens pelo simples erro das suas ligações a leis e preceitos contrários à moral, é algo de muito surpreendente! Uma vez que, em última análise, o facto de o juiz, ao emitir uma sentença, se sinta vinculado pelo direito positivo e obrigado a interpretá-lo fielmente, não é, de modo algum, incompatível com o reconhecimento do direito natural; na verdade, é essa uma das suas exigências. Mas o que não se poderia legitimamente conceder é que essa restrição fosse estabelecida exclusivamente pelo acto do legislador humano do qual provém a lei. Seria reconhecer à legislação positiva uma pseudo-majestade que em nada se diferenciaria daquela que o racismo ou o nacionalismo atribuíam à produção jurídica totalitária, atropelando os direitos naturais das pessoas físicas e morais. Também cabe à Imprensa católica um espaço considerável para expressar, em fórmulas claras, o pensamento do povo, confuso, hesitante, embaraçado diante do mecanismo moderno da legislação positiva, perigoso mecanismo desde o momento em que se deixa de ver, nesta última, uma derivação do direito divino natural.          

Esta concepção católica de opinião pública e de serviço que lhe presta a Imprensa é também uma garantia sólida para a paz. A Imprensa toma uma decidida posição em favor da justa liberdade e do direito dos homens ao seu próprio juízo, mas considera-os à luz da lei divina. Isso significa que qualquer um que entenda colocar-se lealmente ao serviço da opinião pública, seja a autoridade social ou a própria Imprensa, deve absolutamente impedir qualquer mentira ou alvoroço. Não é evidente que tal disposição de espírito e de vontade reage com eficácia ao clima de guerra? Por outro lado, quando a pretensa opinião pública é desejada, imposta, com boas ou com más maneiras, quando as mentiras, os preconceitos parciais, os artifícios de estilo, os efeitos de voz e de gestos, o abuso do sentimento tornam ilusório o justo direito dos homens ao seu próprio juízo, às suas próprias convicções, então cria-se uma atmosfera pesada, doentia, artificial que, no decorrer dos acontecimentos, de improviso, tão fatalmente como os terríveis procedimentos químicos, hoje em dia demasiado conhecidos, sufoca ou atordoa os mesmos homens e obriga-os a dar os seus bens e o seu sangue pela defesa e o triunfo de uma causa falsa e injusta. Na realidade, a paz está em perigo precisamente onde a opinião pública cessa de funcionar livremente.            

Finalmente, gostaríamos de acrescentar uma outra palavra sobre a opinião pública no âmbito da própria Igreja (naturalmente, em questões deixadas à livre discussão). Disto não se podem surpreender se não aqueles que não conhecem a Igreja ou que a conhecem mal. De facto, é um corpo vivo, e faltaria algo na sua vida se faltasse a opinião pública: falta essa cujo demérito recairia sobre os Pastores e sobre os fiéis. Mas também aqui a Imprensa católica pode fazer um serviço muito útil. Em tal serviço, porém, muito mais do que em qualquer outro, o jornalista deve ter o carácter de que falámos, feito de inalterável respeito e de profundo amor para com a ordem divina, ou seja, neste caso, para com a Igreja tal como existe, não só nos desígnios eternos, mas enquanto vive concretamente cá em baixo, no espaço e no tempo, divina, sim, mas formada de membros e de órgãos humanos.                                      

Se possui este carácter, o jornalista católico saberá proteger-se tanto de um servilismo mudo como de uma crítica descontrolada. Concorrerá, com firme sabedoria, para a formação de uma opinião católica na Igreja, sobretudo quando, como acontece hoje, essa opinião oscila entre dois pólos igualmente perigosos, um espiritualismo ilusório e irreal e um realismo desagregador e materialista. Afastando-se destes dois extremos, a Imprensa católica deverá exercer, entre os fiéis, a sua influência sobre a opinião pública na Igreja. Só assim se poderão evitar todas as ideias falsas, por excesso ou por defeito, acerca da missão e das possibilidades da Igreja na ordem temporal e, nos nossos dias, particularmente na questão social e no problema da paz.                           

Não queremos terminar sem dirigir o Nosso pensamento a tantos homens verdadeiramente grandes, honra e glória do jornalismo e da Imprensa católica dos tempos modernos. Há mais de um século que estão diante de nós como modelos de actividade espiritual; mais ainda: das suas fileiras levantaram-se, hoje, verdadeiros mártires da santa causa, confessores valorosos em meio das dificuldades espirituais e temporais da existência. Bendita seja a sua memória! Que a sua memória seja, para vós, um conforto e um incentivo para cumprirdes o vosso árduo, mas importante, dever.                       

Confiando que, seguindo o seu exemplo, cumprireis fielmente e com fruto o vosso, concedemos-vos, de todo o coração, dilectos filhos, a Nossa Bênção Apostólica.  

Papa Pio XII (17 de Fevereiro de 1950)          

Tradução exclusiva, para Língua Portuguesa, de Dies Iræ.


[1] Mt 11, 7
[2] Discurso sobre o conceito cristão do direito e a aplicação da lei injusta, dirigido ao Congresso de Juristas Católicos Italianos, 6 de Novembro de 1949; AAS 41 (1949) 597-604.

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