quinta-feira, 2 de maio de 2019

Roberto de Mattei: “A Igreja deixou-se conquistar pelo espírito do mundo”



Como avaliaria os seis anos de pontificado do Papa Francisco?

Creio que não se pode isolar o pontificado do Papa Francisco de um contexto histórico que inclui os últimos sessenta anos da vida da Igreja. Estamos a viver a fase final de um processo que vem de longe e que no seu culmine também revela a sua verdadeira natureza.          

O caminho que chega ao fim sob o pontificado do Papa Francisco é o de uma progressiva mundanização da Igreja. Refiro-me como mundanização à extinção do espírito metafísico e sobrenatural e ao triunfo do secularismo mesmo dentro da Igreja. Isso começou quando, na época do Concílio Vaticano II, a Igreja começou a mudar o seu relacionamento com o mundo. Hoje, os homens da Igreja parecem mais interessados em resolver problemas políticos e sociais do que em proclamar a lei do Evangelho ao mundo. Mas, ao renunciar a pregar o bem primário da salvação das almas, a Igreja deixou-se conquistar pelo espírito do mundo, o que é contrário ao espírito do Evangelho.  

Em mais de uma ocasião advertiu para os perigos da “papolatria”, chegando, inclusive, a qualificá-la de “extremamente perigosa”. Como definiria esse termo e quais são as suas consequências?        

A papolatria é a adoração indevida de um homem que é o Vigário de Cristo na terra e, como tal, deve ser respeitado e venerado, mas não é o sucessor de Cristo e não pode ser objecto de adoração. Há adoração quando se considera que tudo o que o Papa diz e faz é perfeito e infalível, sem distinguir entre o homem e a instituição que ele representa. Pensa-se que a doutrina da Igreja está em perpétua evolução, porque coincide com o magistério do Pontífice. O magistério perene é substituído pelo “vivente”, expresso por um ensinamento pastoral, que se transforma numa regula fidei mutável, mas considerada sempre infalível.              

Repudio qualquer forma de conciliarismo ou galicanismo, o que limitaria a autoridade do Romano Pontífice, mas uma certa papolatria favorece esses erros porque leva à atribuição injusta ao Papado, ou à Igreja, das responsabilidades por tantos fracassos, escândalos e erros dos homens que o governam ou governaram.                 

Numas declarações afirmou que o pontificado do Papa Francisco criou uma “confusão no interior da Igreja”, tendo inclusivamente falado da abertura a um “possível cisma”. Como se materializa esse confronto?         

O cisma, como diz a etimologia da palavra, é uma separação. A separação, no entanto, não é em si mesma um mal e a unidade nem sempre é um bem em si mesmo. O que é prejudicial é a separação da verdade do Evangelho, do bem das almas, dos ensinamentos de Jesus Cristo, de que a Igreja é guardiã. Mas se os homens da Igreja se distanciarem deste ensinamento, há necessidade de se separar dos maus pastores, sem nunca questionar o princípio de autoridade em que se baseia a Igreja.                      

No século XVI, a grande maioria dos católicos ingleses caiu em cisma e, depois, em heresia por não se ter separado do episcopado e do clero que, por sua vez, não quis separar-se do rei Henrique VIII, que se havia separado de Roma. Hoje, os bons católicos, para evitar o cisma e a heresia, devem separar-se dos pastores maus e seguir os bispos e o clero que permanecem fiéis ao Magistério da Igreja. A Comissão Teológica do Vaticano, num documento de 2014, recorda que: “Advertidos pelo seu sensus fidei, os crentes individuais podem vir a rejeitar um ensinamento dos seus pastores legítimos se não reconhecerem nesse ensinamento a voz de Cristo, o Bom Pastor”.            

No passado mês de Fevereiro, nos dias que antecederam a famosa cimeira sobre os abusos a menores dentro da Igreja, participou numa conferência onde falou das “questões sobre a crise moral da Igreja”… 

A 19 de Fevereiro de 2019, o mesmo dia da manifestação de Acies ordinata, na Piazza San Silvestro, em Roma, e da conferência de imprensa que se seguiu, os cardeais Raymond Leo Burke e Walter Brandmüller publicaram um comunicado a denunciar “aquele ambiente de materialismo, relativismo e hedonismo, no qual se questiona abertamente a existência de uma lei moral absoluta, isto é, sem excepção.       

O clericalismo é nomeado como a causa do abuso sexual, mas a primeira e mais importante responsabilidade do clero não está no abuso de poder, mas em ter-se afastado da verdade do Evangelho. A negação, mesmo pública, em palavra e acção, da lei divina e natural está na raiz do mal que corrompe certos ambientes da Igreja”. O próprio Bento XVI, no seu documento de 11 de Abril, retomou, em parte, essas questões, voltando às origens da crise, que remontam aos tempos do modernismo, antes mesmo do Concílio Vaticano II.               

Nessa conferência de imprensa disse que se durante a cimeira a questão da homossexualidade não fosse abordada, “seria um encontro destinado ao fracasso”. Dois meses depois, como avaliaria a cimeira que reuniu os presidentes de conferências episcopais de todo o mundo no Vaticano?                    

No seu recente documento, Bento XVI também admitiu que a reunião fracassou. De que outra forma poderemos explicar que o Papa emérito, que, renunciando ao pontificado, afirmara que queria passar o resto dos seus dias em silêncio e em oração, tenha tomado a séria decisão de intervir com um texto que, mesmo não sendo magistério pontifício, é-lhe semelhante na sua linguagem e, acima de tudo, no objecto que trata?                   

De facto, Bento XVI indicou uma solução para os problemas tratados na Cimeira Episcopal de Fevereiro completamente diferente da proposta pelos bispos e que foi feita pelo Papa Francisco depois da reunião. Para Bento XVI, a “receita” da cimeira vaticana para resolver o problema do abuso infantil é obviamente inadequada, a ponto de merecer uma contra-indicação que, para alguns, pareceu uma “invasão de campo”.               

Voltando à crise moral de que falámos anteriormente. Para um católico consciente desta crise, quem seria o seu modelo ou ponto de referência dentro da cúria? Quem, dentro da Igreja, ainda poderia ser definido como “bom pastor”?                                  

Não temos modelos dentro do Vaticano. O nosso ponto de referência não são os homens, que passam e mudam, mas a doutrina da Igreja, na sua integridade, como nos foi transmitida desde os tempos dos apóstolos, segundo a fórmula de São Vicente de Lérins, que nos diz que devemos acreditar no que sempre foi ensinado, em todas as partes e por todos, “in eodem dogmate, eodem sensu, eadem sententia”.           

Acredita que há esperança?         

Temos uma profunda confiança na superação desta crise, porque, ao longo da história, a Igreja sempre venceu as tempestades mais sérias. Essa confiança não se baseia nas nossas pobres forças, mas na acção invencível da Graça divina, que pode fazer tudo, até o que aos homens parece impossível. E devemos crer e esperar no triunfo da Igreja e na plena restauração da civilização cristã.                       

Há apenas um mês, o Papa Francisco afirmou que “a Igreja não teme a verdade”. O arcebispo Carlo Maria Viganó continua em paradeiro desconhecido e Francisco ainda não respondeu às suas denúncias. Crê que os actos da Santa Sé são coerentes com a declaração citada?                  

Se a Igreja não teme a verdade, não deve ter medo de dizê-la. Mas, infelizmente, os homens da Igreja deixaram de ensinar a verdade e contradizem-na com palavras e actos. A verdade é que os pastores da Igreja podem causar escândalos, exercer o mau governo, fracassar na sua missão, inclusive cair em cisma e na heresia. Quando isso acontece, tornam-se necessárias a denúncia pública e a correcção fraterna.

Foi isso que fez Mons. Carlo Maria Viganò, com o seu histórico testemunho, e é isso que esperamos que façam outros bispos e cardeais para o bem da Igreja. A manifestação de Acies ordinata foi um chamamento aos bispos silenciosos para terem a coragem de romper o silêncio. Alguns cardeais fizeram-no e estou convencido de que voltarão a falar. O Papa Francisco, no entanto, ainda não respondeu à denúncia de Mons. Viganò. O seu silêncio mostra uma atitude de desprezo para com aqueles que, por amor à Igreja, trazem à luz os escândalos e os erros. Mas que reforma é possível sem o valor da verdade? 

A 17 de Abril disse: “outra imagem simbólica é sobreposta àquela do fogo de Notre-Dame: a cena do Papa Francisco, Vigário de Cristo, que beija os pés de três líderes muçulmanos do Sudão, pedindo-lhes que «o fogo da guerra se apague de uma vez para sempre». Isto aconteceu no dia 11 de Abril, no final do retiro espiritual no Vaticano, concebido pelo arcebispo cismático de Canterbury, Justin Welby. Imediatamente depois, no primeiro dia da Semana Santa, a catedral francesa, a mais famosa e visitada do mundo depois de São Pedro, foi devorada pelas chamas”…       

A riqueza do simbolismo permite-nos fazer leituras diferentes do mesmo evento. No caso do fogo de Notre Dame, falou-se, com razão, da imagem do cristianismo queimado e degradado (Marcello Veneziani), do símbolo da conflagração espiritual na Igreja (Mons. Schneider) e assim sucessivamente. Impressionou-me a cena da agulha que desapareceu entre as chamas, e vi ali o simbólico colapso espiritual daqueles que, hoje, estão no topo da Igreja.
      

A 4 de Fevereiro, o Papa Francisco assinou a declaração de Abu Dhabi, segundo a qual “o pluralismo e a diversidade de religiões” são “uma sábia vontade divina com a qual Deus criou o ser humano”. A 11 de Abril, no Vaticano, Francisco prostrou-se diante de três líderes muçulmanos do Sudão e beijou os seus pés a pedir a paz. Essas palavras e gestos constituem uma profunda humilhação para a Igreja. Parece que a Igreja perece num grande incêndio, mas somente o topo é consumido pelo fogo, a estrutura resiste. A Igreja é mais forte do que as chamas que a cercam.  

Em muitas ocasiões defendeu a importância da família cristã. Apenas há um mês atrás, realizou-se, em Verona, o Congresso Mundial da Família com o objectivo de celebrar e defender a família natural, no entanto, o evento não teve o apoio do Vaticano. A que acha que isso se deveu?      

A Irmã Lúcia de Fátima disse ao Cardeal Caffarra que a batalha decisiva do nosso tempo se desenvolveria em torno da família. O Vaticano não apoiou o Congresso da Família porque a família não é a sua prioridade. A prioridade parece ser dar as boas-vindas aos imigrantes. Mas o primeiro acolhimento que temos que fazer é àqueles que estão por perto; às crianças que não podem nascer; aos idosos a que querem encurtar as suas vidas; aos doente abandonados nos hospitais, mas, sobretudo, a todos aqueles que se vêem privados do pão da Verdade e são abandonados na ignorância e na confusão.                     

Hoje em dia, por outro lado, o acolhimento do migrante é entendido como a negação do primado da civilização ocidental e o papel desempenhado pelos missionários e conquistadores, civilizadores das sociedades selvagens que praticavam o canibalismo e o sacrifício humano. Receio que a ideia do próximo Sínodo sobre a Amazónia seja que os europeus cometeram um acto de violência contra os povos indígenas da América Latina. A torre da Catedral de Notre Dame é também o símbolo deste ódio que a Igreja, hoje, parece ter de si mesma.      

Neste domingo [28 de Abril] são as eleições gerais da Espanha e daqui a um mês serão as eleições europeias. O que deveria de ter em conta um católico na hora de votar?         

Não acredito que nenhum partido político na Europa represente a fé e a moral católicas. Mas também tenho a certeza de que existem muitas forças políticas que lutam abertamente contra a fé e a moral da Igreja. Essas forças políticas também devem ser combatidas com o voto. É, portanto, uma questão de escolher as partes que não negam explicitamente a lei divina e natural nos seus programas.             

No entanto, o futuro das nações europeias não se joga nas urnas, mas na batalha diária que devemos travar para restaurar a cultura e os costumes cristãos. Na Europa existe a tentação de delegar nos políticos as batalhas em defesa da nossa identidade religiosa e cultural como se isso não fosse da nossa conta. Em vez disso, devemos exercer um controlo crítico sobre a nossa classe política, multiplicando as iniciativas públicas que expressam a nossa voz. As Marchas pela Vida, como a internacional que acontecerá, em Roma, no dia 18 de Maio, vão nessa direcção.

[Tradução de Dies Iræ. Fonte: Correspondencia Romana]

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