domingo, 19 de maio de 2019

Cristo é o Dia



Pela ressurreição de Cristo abre-se o abismo, os neófitos da Igreja renovam a terra, e o Espírito Santo abre as portas do Céu. Abre-se o abismo e restitui os seus mortos, na terra renovada germinam os ressuscitados, o Céu aberto recebe os que para ele ascendem. O ladrão sobe ao Paraíso, os corpos dos santos entram na cidade santa, os mortos voltam à região dos vivos, todos os elementos, por virtude da ressurreição de Cristo, se elevam a uma dignidade mais alta. O abismo restitui ao Paraíso os que nele estavam detidos, a terra envia ao Céu os que nela estavam sepultados, o Céu apresenta ao Senhor os que recebe nas suas moradas; e por um único e mesmo acto, a paixão do Salvador levanta o homem do abismo, eleva-o da terra e coloca-o no alto dos Céus. A ressurreição de Cristo é vida para os mortos, perdão para os pecadores, glória para os santos. Por isso, o santo profeta convida todas as criaturas a celebrarem a ressurreição de Cristo, exultando e alegrando-se neste dia do Senhor. A luz de Cristo é um dia sem noite, é um dia sem ocaso. O Apóstolo ensina-nos que este dia é o próprio Cristo, quando diz: A noite vai passando e já se aproxima o dia. Ele diz que a noite vai passando e não que ela ainda há-de vir, para fazer compreender que a aproximação da luz de Cristo afasta as trevas do demónio e dissipa a escuridão do pecado, vence com o seu esplendor eterno as sombras tenebrosas do passado e impede toda a infiltração dos estímulos pecaminosos. Este dia é o próprio Filho, sobre quem o Pai, que é o dia sem princípio, faz resplandecer o sol da sua divindade. Este é o dia que assim falava pela boca de Salomão: Eu fiz nascer no Céu uma luz inextinguível. Portanto, assim como ao dia do Céu não pode suceder a noite, assim as trevas do pecado não podem suceder à justiça de Cristo. O dia do Céu brilha eternamente e nenhuma obscuridade pode ofuscar o fulgor da sua luz. Assim a luz de Cristo resplandece e irradia a sua claridade, e sombra alguma do pecado a poderá obscurecer, como diz o evangelista João: A luz brilha nas trevas, e as trevas não a puderam vencer. Portanto, irmãos, devemos todos alegrar-nos neste santo dia. Ninguém se exclua desta alegria universal, apesar da consciência dos seus pecados; ninguém se afaste das orações comuns, embora sinta o peso das suas culpas. Por mais pecador que se sinta, ninguém deve neste dia desesperar do perdão. Temos a nosso favor um valioso testemunho: se o ladrão mereceu o Paraíso, como não há-de merecer o perdão o discípulo de Cristo?   

S. Máximo de Turim, in Sermões

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