quarta-feira, 8 de maio de 2019

A filha de Aldo Moro ao Papa: pare a beatificação de meu pai!



Maria Fida Moro, a filha mais velha de Aldo Moro, o político democrata-cristão assassinado pelas Brigadas Vermelhas, hoje em processo de beatificação, escreveu ao Santo Padre para lhe implorar que interrompa o que, diz, ameaça tornar-se “uma luta de gangues”.

“Santidade, imploro-lhe do fundo do coração que interrompa o processo de meu pai, Aldo Moro”, escreve Maria Fida, filha do político democrata-cristão assassinado, numa carta ao Papa que deve ser única nos anais da Igreja: uma filha que implora ao Santo Padre que não leve o seu próprio pai aos altares. 

“Porque ofende a verdade e a dignidade da pessoa que tal processo se tenha transformado, por estranhos à questão, numa espécie de guerra entre gangues para apropriar-se da própria beatificação instrumentalizando-a em seu favor”, continua a carta de Maria Fida.          

Aldo Moro era líder desse curioso partido que dominava a vida política italiana do pós-guerra, a Democracia Cristã, um totum revolutum de “sensibilidades” políticas cuja finalidade prioritária era que os comunistas não governassem Itália e que beneficiava da tutela informal da Santa Sé. De facto, Moro era um grande amigo pessoal de Paulo VI.   

Com a queda do muro de Berlim e o fim da Guerra Fria, o esquema deixou de fazer sentido e, assim como o poderoso Partido Comunista afundou, o seu rival acabou por se dissolver numa miríade de partidos, criando um panorama político algo caótico. Neste cenário, e visto que o partido mais votado pelos católicos praticantes italianos, a Liga de Matteo Salvini, não está em sintonia com o globalismo social-democrata e progressista defendido, com escassa dissimulação, pelo Vaticano, é lógico que em sectores clericais se olhe para trás com nostalgia e se façam tentativas para ressuscitar a DC.   

E, agora, a beatificação de Moro, denuncia a sua filha, corre o risco de se converter numa disputa para ver que bandeira política se levanta com o santo e se aproxima com ele aos altares da popularidade eleitoral.   

A “fábrica de santos”, que São João Paulo II privou das garantias processuais que a abrandava, mas também tornavam mais fiel o processo, funciona a toda velocidade e, para muitos, tornou-se excessivamente dependente de condições que pouco ou nada têm a ver com virtudes heróicas ou vidas evangélicas, mas sim bastante com a popularidade mundana do falecido e outras considerações non sanctas. A razão de ser de todo o processo era colocar um pouco de ordem e exactidão eclesiais nas venerações populares de pessoas com fama de santidade. Assim, Roma assegurava-se de que o povo fiel não pedia a intercessão de um hipócrita ou de um herege.       

Mas a existência de um cultus, de uma prévia fama de santidade e pedidos de intercessão em seu nome, ainda era considerada uma condição necessária, embora, a julgar pelas canonizações sem brilho do argentino Angelleli e dos seus companheiros “mártires”, não pareçam muito exigentes com essa cláusula. De facto, a precipitada e polémica canonização do bispo montonero[1] de La Rioja, na Argentina, é, para muitos, uma canonização do esquerdismo eclesial dos tempos próximos, assim como as canonizações de João XXIII e Paulo VI são uma canonização do Concílio Vaticano II.           

“O meu nome significa fé – conclui a filha de Moro – e estou absolutamente segura da Comunhão dos Santos e da vida eterna. E sei que o meu pai foi salvo para sempre na perfeita alegria da eternidade e que nenhuma fealdade pode feri-lo. Mas preferiria mil vezes que não fosse proclamado santo, embora o seja, se este for o preço”.                            

Carlos Esteban


[1] Os montoneros eram os membros de uma organização político-militar argentina de extrema-esquerda.

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