sexta-feira, 24 de maio de 2019

6 curiosidades sobre Nossa Senhora Auxiliadora


1. Maria era chamada de “Auxiliadora” pelos primeiros cristãos  
Os primeiros cristãos na Grécia, Egipto, Antioquia, Éfeso, Alexandria e Atenas costumavam chamar a Santíssima Virgem Maria de “Auxiliadora”, em grego é “Boeteia”, e significa “a que traz auxílios vindos do Céu”. O primeiro Padre da Igreja que chamou a Virgem Maria de “Auxiliadora” foi São João Crisóstomo, no ano 345, em Constantinopla. O santo disse: “Vós, Maria, sois o auxilio potentíssimo de Deus”. Também foi reconhecida com este nome por Proclo Lício, no ano 476, e por Sebas de Cesária, em 532.                                 

2. Maria Auxiliadora intercedeu nas batalhas de Lepanto e Viena                      
Em 1572, o Papa São Pio V, depois da vitória do exército cristão sobre os turcos muçulmanos, na Batalha de Lepanto, ordenou celebrar-se no dia 7 de Outubro a festa do Santo Rosário e que nas Ladainhas fosse invocada “Maria, Auxílio dos cristãos”. Naquele ano, Nossa Senhora livrou prodigiosamente toda a cristandade da destruição de um exército maometano de 282 barcos e 88 mil soldados. Em 1683, os turcos atacaram Viena durante o pontificado de Inocêncio XI. Sob o comando do Rei da Polónia, João Sobieski, com um exército inferior, derrotou o exército turco confiando na ajuda de Maria Auxiliadora. Pouco tempo depois, fundaram a Associação de Maria Auxiliadora, que actualmente está em mais de 60 países.          

3. A festa nasceu durante a Revolução Francesa 
A história do estabelecimento da festa de Nossa Senhora Auxiliadora remete a alguns anos depois da Revolução Francesa, a qual havia realizado um grande golpe à Igreja. O Papa Pio VII foi preso no Palácio de Fontainebleau pelo imperador francês Napoleão Bonaparte e dedicou as suas orações à Maria Santíssima, “Auxílio dos Cristãos”, para que protegesse a Igreja. As preces do Papa foram ouvidas e, em 1814, Napoleão assinou a sua abdicação. Em 1815, quando a Igreja tinha recuperado a sua posição e poder espiritual, o Papa instituiu a festa de Nossa Senhora Auxiliadora, no dia 24 de maio, para perpetuar a memória do seu retorno a Roma depois do seu cativeiro em França.           

4. A festa de Nossa Senhora Auxiliadora é celebrada na Ucrânia desde o século XI           
O nome “Auxiliadora” foi dado à Virgem Maria, na Ucrânia, desde 1030 por ter libertado aquela região da invasão de tribos pagãs. Desde então, a Igreja Ortodoxa nesse País celebra a festa de Nossa Senhora Auxiliadora no dia 1 de Outubro.              

5. Maria Auxiliadora apareceu a São João Bosco            
São João Bosco foi um grande propagador do amor a esta devoção mariana, porque a própria Virgem Maria lhe apareceu em 1860 e assinalou o lugar em Turim onde queria que fosse construído um templo em sua homenagem. Do mesmo modo, pediu para ser homenageada com o título de “Auxiliadora”. Em 1863, São João Bosco começou a construção da igreja com alguns centavos, mas com a intercessão da Santíssima Virgem Maria, a 9 de Junho de 1868, apenas 5 anos depois, foi realizada a consagração do templo. O Santo costumava dizer: “Cada tijolo deste templo corresponde a um milagre da Santíssima Virgem Maria”. A partir daquele Santuário, começou a espalhar pelo mundo a devoção a Maria sob o título de Auxílio dos Cristãos.          

6. Três Papas eram devotos de Nossa Senhora Auxiliadora 
O Papa João XXIII cultivou uma especial devoção a Nossa Senhora Auxiliadora, cuja imagem, tirada de um número do Boletim Salesiano, estava na parede perto da sua cama. Proclamou-a Padroeira do Concílio com o título de Auxilium Christianorum, Auxilium Episcoporum, e, em 28 de Maio de 1963, gravemente doente, abençoou com profunda emoção as duas coroas destinadas ao quadro da Auxiliadora na Basílica do Sagrado Coração de Roma. Por sua parte, João Paulo II costumava visitar a Igreja de Santo Estanislau Kostka, dos Salesianos, em Cracóvia, entre os anos 1938 e 1944, e muita vez rezou na Capela de Nossa Senhora Auxiliadora. Nesta igreja, no dia 3 de Novembro de 1946, celebrou uma das suas primeiras missas como sacerdote.
O Papa Francisco, durante a sua visita apostólica a Turim, em 2015, por ocasião dos 200 anos do nascimento do fundador dos Salesianos, São João Bosco, contou que durante a sua infância foi educado num colégio Salesiano e aprendeu a amar Nossa Senhora Auxiliadora: “Eu lá aprendi a amar a Virgem, os Salesianos formaram-me na beleza, no trabalho, e, acredito que este é um carisma deles, formaram-me na afectividade e isso era uma característica de Dom Bosco”, assegurou.  

[Fonte: ACI Digital]

Dom Bosco, Nossa Senhora Auxiliadora e o sonho dos nove anos



Naquela idade tive um sonho, que me ficou profundamente gravado na mente por toda a vida. Parecia-me estar ao pé de casa num pátio bastante espaçoso, onde se encontrava uma multidão de rapazes, que se divertiam. Alguns riam, outros jogavam, outros blasfemavam. Ao ouvir aquelas blasfémias, lancei-me imediatamente no meio deles dando murros e dizendo palavras para os fazer calar. Naquele momento apareceu um homem venerando, em idade viril, nobremente vestido. Um manto branco cobria-o por completo; mas a sua face era tão luminosa, que eu não conseguia fixá-lo com os olhos. Chamou-me pelo nome e mandou-me pôr-me à frente daqueles rapazes acrescentando estas palavras: “Não com pancadas, mas com a mansidão e com a caridade é que deverás conquistar estes teus amigos. Por isso começa imediatamente a instruí-los sobre a fealdade do pecado e sobre a beleza da virtude”.        

Confuso e assustado, disse que eu era um pobre e ignorante rapaz, incapaz de falar de religião àqueles jovenzinhos. Naquele momento, aqueles rapazes cessando rixas, alarido e blasfémias, reuniram-se todos à volta d’Aquele que falava.                  

Quase sem saber o que dizia, “Quem sois vós, – perguntei –, que me ordenais coisas impossíveis?”. “Exactamente por te parecerem impossíveis, deves torná-las possíveis com a obediência e com a aquisição da ciência”. “Onde, com que meios poderei adquirir a ciência?”. “Dar-te-ei a mestra sob cuja guia podes tornar-te sábio, e sem a qual toda a sabedoria se torna estultícia”.           

- Mas quem sois vós, que falais deste modo?           
- Eu sou o filho d’Aquela que a tua mãe te ensinou a saudar três vezes ao dia.        
- A minha mãe diz-me que não ande com pessoas que não conheço, sem licença sua; por isso dizei-me o vosso nome.  
- O meu nome pergunta-o à minha mãe.      

Naquele momento vi a seu lado uma senhora de majestoso aspecto, vestindo um manto todo resplandecente, como se cada ponto seu fosse uma estrela fulgidíssima. Vendo-me cada vez mais confuso nas minhas perguntas e respostas, fez-me sinal para me aproximar dela e, tomando-me com bondade pela mão, disse-me: “olha”. Olhando dei-me conta que os rapazes tinham fugido todos e, em vez deles, vi uma multidão de cabritos, cães, gatos, ursos e vários outros animais. “Eis o teu campo, eis onde deves trabalhar. Torna-te humilde, forte e robusto; e aquilo que neste momento vês suceder com estes animais, deverás fazê-lo com os meus filhos”.       

Voltei então o olhar e eis que, em vez de animais ferozes, apareceram outros tantos mansos cordeiros que, todos a saltitar, corriam ao redor como para fazer festa àquele homem e àquela senhora. Naquele momento, sempre em sonho, comecei a chorar, e supliquei àquela personagem que falasse de modo que eu compreendesse, dado que eu não sabia o significado daquilo. Então ela colocou a mão na minha cabeça, dizendo-me: “A seu tempo, tudo compreenderás”.        

Dito isto, um ruído acordou-me e tudo desapareceu. Fiquei atónito. Parecia-me ter as mãos doridas dos murros que tinha dado, e a cara a doer das bofetadas recebidas; depois aquele personagem, aquela senhora, as coisas ditas e ouvidas ocuparam-me de tal maneira a mente que naquela noite não me foi possível voltar a adormecer.        

De manhã, apressei-me a narrar cuidadosamente aquele sonho, primeiro aos meus irmãos, que se puseram a rir, depois à minha mãe e à avó. Cada qual dava ao mesmo a sua interpretação. O meu irmão José dizia: “Vais ser pastor de cabras, de ovelhas ou de outros animais”. A minha mãe: “Quem sabe se não serás padre”. António com dureza: “Talvez virás a ser chefe de bandidos”. Mas a avó, que sabia bastante teologia e era totalmente analfabeta, deu a sentença definitiva dizendo: “Não se deve ligar a sonhos”. Eu era da opinião da minha avó, mas nunca mais me foi possível tirar aquele sonho da cabeça. O que passarei a expor de seguida dará algum significado a isto. Sempre calei tudo; os meus familiares não ligaram.

São João Bosco, in Memórias do Oratório

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Oração infalível a São José



Esta oração foi encontrada no 50.º ano de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Em 1505, foi enviada pelo Papa ao Imperador Carlos, quando ia para a Batalha de Lepanto. Aquele que ler esta oração, ouvi-la ou guardá-la consigo nunca morrerá de morte súbita ou se afogará, nem será atingido por veneno ou cairá nas mãos do inimigo, nem será queimado em qualquer fogo ou rendido na batalha. Reze esta oração durante nove manhãs por qualquer intenção: é conhecida por nunca ter falhado.       
           
Ó São José, cuja protecção é tão grande, tão forte e tão imediata diante do trono de Deus, a vós confio todas as minhas intenções e desejos. Ajudai-me, São José, com a vossa poderosa intercessão, a obter todas as bênçãos espirituais por intercessão do vosso Filho adoptivo, Jesus Cristo Nosso Senhor, de modo que, ao confiar-me, aqui na terra, ao vosso poder celestial, Vos tribute o meu agradecimento e homenagem. Ó São José, eu nunca me canso de contemplar-Vos com Jesus adormecido nos vossos braços. Não ouso aproximar-me enquanto Ele repousa junto do vosso coração. Abraçai-O em meu nome, beijai por mim o seu delicado rosto e pedi-Lhe que me devolva esse beijo quando eu exalar o meu último suspiro. São José, padroeiro das almas que partem, rogai por mim! Ámen.   

terça-feira, 21 de maio de 2019

Discurso de encerramento da Marcha pela Vida



Queridos Amigos, 

Agradeço a todos pelo extraordinário espectáculo que hoje nos ofereceis. A Marcha pela Vida cresce. Cresce no número: queremos fugir ao baile dos números, mas somos muitos mais do que nos anos anteriores.

Cresce com um impacto nacional e internacional, como é evidente nas mensagens de vídeo que recebemos: a maior emissora católica americana está a transmitir em todo o mundo a nossa marcha.       

Mas o que especialmente cresce é a nossa consciência de combater uma grande batalha moral e civil, é a nossa determinação a não recuar, a não aceitar compromissos, porque não são possíveis compromissos sobre a vida humana inocente. Não se pode aceitar que uma só criança seja retirada com violência do ventre da mãe. E subscreve-se este crime quando se aceita uma lei que prevê o aborto.       

Queremos revogar esta lei. É evidente que o objectivo requererá algum tempo, mas, enquanto isso, começamos a desmantelar a lei peça por peça.

E a primeira peça a desmantelar é a do financiamento: não é admissível que, todos os anos, para matar os nossos filhos nos hospitais, gastemos entre 200 e 300 milhões de euros. Quando temos uma saúde que não funciona: qualquer um de nós teve a experiência, uma consulta urgente, uma ecografia, um controlo… se queremos fazê-lo rapidamente, temos de pagar porque os tempos de espera são, muitas vezes, dramáticos. Poderíamos fazer uma longa lista das coisas que não funcionam na área da Saúde. Mas se uma mulher decide fazer um aborto, é imediatamente hospitalizada e tudo é comparticipado, tudo lhe é pago. Mas será possível que, se se quiser abortar, se tenha um tapete vermelho e tudo seja fácil e organizado, e se se quiser continuar com a gravidez o caminho tenha tantos obstáculos e seja particularmente oneroso?  

Certamente estamos aqui porque somos a favor da vida, porque amamos a vida, porque a vida é um dom precioso que todos nós aqui presentes recebemos porque nos foi dado por Deus e porque tivemos pais que amavam a vida.                    

Mas estamos aqui hoje também para protestar contra as leis injustas, contra as leis que matam pessoas inocentes, que matam pessoas que não podem reagir, que não se podem defender.              

Temos diante de nós um movimento ideológico organizado que prega e pratica a cultura da morte, que, depois de ter introduzido o aborto, quer passar ao infanticídio e à eutanásia. A justificação para o aborto, há quarenta anos, era que o embrião que se desenvolvia no útero da mãe não era um ser humano, mas apenas um coágulo indistinto de células, sem alma, sem uma identidade humana.           

O progresso da ciência demonstrou que, desde o primeiro momento da concepção, aquele ser humano tem a sua identidade própria, tem em si características que são únicas e irrepetíveis: é um Homem!      

Os abortistas que quiseram a introdução da lei 194, em Itália, mentiam quando negavam a identidade humana ao feto; e que foi uma mentira deliberada demonstra-o o facto de que se ontem exigiam a supressão desse embrião, hoje pedem a morte do ser humano até aos nove meses, quando está perfeitamente formado, e até mais tarde. Ontem diziam que o aborto era lícito porque não matava um Homem, hoje dizem que se pode matar um Homem pelos interesses da comunidade, repetindo o raciocínio de Caifás: «Nem vos dais conta de que vos convém que morra um só homem pelo povo, e não pereça a nação inteira» (cf. Jo 11, 50). É o raciocínio com que se justifica a eutanásia activa: os idosos são inúteis, são um fardo para a comunidade: “é melhor que pereça algum desses, e não pereça a nação inteira”.                       

Rejeitamos este sofisma de Caifás com todas as nossas forças e temos diante dos nossos olhos o Cordeiro inocente, Nosso Senhor Jesus Cristo, injustamente condenado e imolado. Também neste caso não houve ninguém que o defendesse e até mesmo Pedro se colocou da outra parte.           

Na Argentina, está-se a desenvolver, como ouvimos, um grande movimento contra o aborto; no Brasil, o novo governo bloqueou todos os pedidos de legalização do aborto, nos Estados Unidos, acaba de ser aprovada, no Alabama, uma lei fortemente restritiva, que praticamente proíbe o aborto. E outros Estados estão a caminhar na mesma direcção. Não há dúvida de que isso se deve à constância, à perseverança com a qual todos os anos centenas de milhares de americanos saem às ruas para protestar contra a lei Roe/Wade. Bem, devemos também nós fazer a mesma coisa. Ano após ano, devemos continuar a sair às ruas, devemos ter clara a ideia de que a lei 194 deve ser abolida na sua totalidade, assim como na América querem abolir a Roe/Wade.    

Isto mostra que o processo histórico não é irreversível, porque a história é feita pelo livre arbítrio dos homens e pela intervenção de Deus.   

Estamos aqui na praça como cidadãos italianos que amam o seu país e sabem que um Estado que permite leis que matam os seus filhos destrói o futuro da nação. A Itália sempre foi vista como o berço da vida, das famílias numerosas. Muitos estrangeiros observam: não vemos mais crianças em Itália, vemos pessoas cada vez mais idosas. De facto, a alegria de viver que caracterizava o nosso país está-se a extinguir.  

Mas, assim como os restantes cidadãos, a maioria de nós somos católicos e orgulhosos de sê-lo. Devemos desejar uma sociedade que respeite a lei natural e divina e devemos amar uma sociedade que reconheça a realeza social de Cristo, porque esse é o fim último da nossa acção.    

O aborto atropela a lei divina e natural. Como imaginar que possa faltar a ajuda de Deus àqueles que, generosamente, se comprometem a defender a vida, material ou espiritualmente, qual é o primeiro bem que Deus nos deu, aquele de que todos os outros bens dependem?  

Nós temos uma imensa fé no êxito vitorioso da nossa batalha. A vitória que lemos nos olhos de tantos jovens e menos jovens que hoje marcharam connosco, nos olhos das crianças, que representam o futuro, e nos dos idosos, que não querem repetir os erros do passado.      

Nos olhos dos leigos, dos religiosos, dos grupos, das associações que, hoje, se manifestam. Constituímos uma grande família e rejeitamos qualquer tentativa de nos dividir e fragmentar, na convicção de que a união em torno da verdade constitui uma força irresistível: a força do bem que avança e que nada nem ninguém poderá parar. Portanto, reencontrar-nos-emos a 23 de Maio de 2020!      

Virginia Coda Nunziante, porta-voz da Marcha Nacional pela Vida

domingo, 19 de maio de 2019

Oração ensinada pelo Anjo de Portugal



Meus Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos.      
Peço-Vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e não Vos amam. 

Oração ensinada pelo Anjo de Portugal aos Pastorinhos de Fátima

Cristo é o Dia



Pela ressurreição de Cristo abre-se o abismo, os neófitos da Igreja renovam a terra, e o Espírito Santo abre as portas do Céu. Abre-se o abismo e restitui os seus mortos, na terra renovada germinam os ressuscitados, o Céu aberto recebe os que para ele ascendem. O ladrão sobe ao Paraíso, os corpos dos santos entram na cidade santa, os mortos voltam à região dos vivos, todos os elementos, por virtude da ressurreição de Cristo, se elevam a uma dignidade mais alta. O abismo restitui ao Paraíso os que nele estavam detidos, a terra envia ao Céu os que nela estavam sepultados, o Céu apresenta ao Senhor os que recebe nas suas moradas; e por um único e mesmo acto, a paixão do Salvador levanta o homem do abismo, eleva-o da terra e coloca-o no alto dos Céus. A ressurreição de Cristo é vida para os mortos, perdão para os pecadores, glória para os santos. Por isso, o santo profeta convida todas as criaturas a celebrarem a ressurreição de Cristo, exultando e alegrando-se neste dia do Senhor. A luz de Cristo é um dia sem noite, é um dia sem ocaso. O Apóstolo ensina-nos que este dia é o próprio Cristo, quando diz: A noite vai passando e já se aproxima o dia. Ele diz que a noite vai passando e não que ela ainda há-de vir, para fazer compreender que a aproximação da luz de Cristo afasta as trevas do demónio e dissipa a escuridão do pecado, vence com o seu esplendor eterno as sombras tenebrosas do passado e impede toda a infiltração dos estímulos pecaminosos. Este dia é o próprio Filho, sobre quem o Pai, que é o dia sem princípio, faz resplandecer o sol da sua divindade. Este é o dia que assim falava pela boca de Salomão: Eu fiz nascer no Céu uma luz inextinguível. Portanto, assim como ao dia do Céu não pode suceder a noite, assim as trevas do pecado não podem suceder à justiça de Cristo. O dia do Céu brilha eternamente e nenhuma obscuridade pode ofuscar o fulgor da sua luz. Assim a luz de Cristo resplandece e irradia a sua claridade, e sombra alguma do pecado a poderá obscurecer, como diz o evangelista João: A luz brilha nas trevas, e as trevas não a puderam vencer. Portanto, irmãos, devemos todos alegrar-nos neste santo dia. Ninguém se exclua desta alegria universal, apesar da consciência dos seus pecados; ninguém se afaste das orações comuns, embora sinta o peso das suas culpas. Por mais pecador que se sinta, ninguém deve neste dia desesperar do perdão. Temos a nosso favor um valioso testemunho: se o ladrão mereceu o Paraíso, como não há-de merecer o perdão o discípulo de Cristo?   

S. Máximo de Turim, in Sermões

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Fulton Sheen fala das mães



Uma esposa é, essencialmente, uma criatura do tempo; casada, pode vir a enviuvar; mas a mãe, essa, está fora do tempo. É a imagem do Eterno no tempo, a senhora do infinito no finito. Séculos e civilizações têm passado e só a mãe continua, agora e sempre, dá generosamente a vida. O homem trabalha para a sua geração, a mãe trabalha para a geração seguinte. O homem gasta a sua vida, a mãe renova-a.                    

Venerável Fulton Sheen

Muitas veredas, um só caminho!


Este é o caminho, caríssimos, em que encontramos a nossa salvação, Jesus Cristo, o pontífice das nossas oblações, o defensor e protector da nossa debilidade.                
Por Ele se voltam os nossos olhos para as alturas dos Céus; por Ele contemplamos, como num espelho, o rosto puríssimo e sublime de Deus; por Ele se abrem os olhos do nosso coração; por Ele a nossa inteligência, insensata e obscurecida, desabrocha para a luz; por Ele quis o Senhor fazer-nos saborear a ciência imortal, Ele que, sendo o esplendor da majestade de Deus, está tanto acima dos Anjos quanto mais eminente que o deles é o nome que recebeu em herança.           

Militemos, portanto, irmãos, com todas as nossas forças, sob as suas ordens irrepreensíveis. Ponhamos os olhos nesses soldados que combatem às ordens dos nossos comandantes. Quanta disciplina, quanta obediência, quanta submissão em executar o que se ordena! Não são todos prefeitos, ou chefes de mil, cem, cinquenta ou menos soldados ainda; mas cada um, na sua ordem e posto, cumpre as ordens do imperador e dos comandantes. Os grandes não podem passar sem os pequenos, nem os pequenos sem os grandes. Na colaboração recíproca está toda a vantagem.

Sirva-nos de exemplo o nosso corpo. A cabeça nada vale sem os pés, nem os pés sem a cabeça. Os membros do nosso corpo, ainda os mais insignificantes, são necessários e úteis ao corpo inteiro; mais ainda, cada um contribui, em perfeita subordinação, para salvar todo o corpo. Asseguremos, portanto, a salvação de todo o corpo que formamos em Cristo Jesus e cada um se submeta ao seu próximo segundo o dom de graça que lhe foi concedido.            

O forte proteja o fraco e o fraco respeite o forte; o rico seja generoso para com o pobre e o pobre louve a Deus por lhe ter proporcionado alguém que o auxilie na pobreza. O sábio manifeste a sua ciência não por palavras mas por boas obras; o humilde não dê testemunho de si mesmo, mas deixe isso ao cuidado dos outros. O que é casto de corpo não se vanglorie, sabendo que é de Deus que lhe vem o dom da continência.       

Consideremos, pois, irmãos, de que matéria fomos feitos, quem éramos e em que condições entrámos no mundo, de que túmulo e trevas nos fez sair Aquele que nos plasmou e criou, para nos introduzir no mundo que Lhe pertence, onde nos tinha preparado tantos benefícios ainda antes de termos nascido.     

Sabendo, portanto, que tudo isto recebemos de Deus, por tudo Lhe devemos dar graças. A Ele a glória pelos séculos dos séculos. Amen.         

Papa S. Clemente I, in Carta aos Coríntios

quinta-feira, 16 de maio de 2019

“Não precisamos de uma Igreja que seja uma sub-organização da ONU”



O Cardeal Gerhard Ludwig Müller, Prefeito emérito da Congregação para a Doutrina da Fé, não deixa ninguém indiferente. Tornou-se, muito relutantemente, num poderoso foco de atenção. Na sua recente visita a Madrid, por ocasião de uma solene liturgia da Ordem Constantiniana de São Jorge, da qual é o Grão-Prior, concedeu esta entrevista exclusiva à InfoVaticana. 

InfoVaticana (IV) – Eminência, falemos sobre o conceito de sinodalidade. Quais são as referências teológicas, segundo o Magistério da Igreja, da sinodalidade? Para que se está a utilizar na prática, na vida da Igreja, hoje, este conceito? Existe o risco de instrumentalizar esta prática para outras coisas?
         

Cardeal M
üller (CM) – Sinodalidade é um neologismo. Antes existia a colegialidade dos Bispos, o trabalho junto com o Papa. E havia os sínodos regionais, provinciais, o sínodo geral, o concílio ecuménico... Mas, teologicamente, é algo novo, com um pouco de invenção. A colaboração é natural entre todos os membros da Igreja. Por isso, não entendo qual é um sentido de sinodalidade que seja diferente do que já tivemos em toda a história da Igreja. Como se os processos pudessem mudar as ideias na Igreja. Mais importante que os processos é orientar-se para os princípios clássicos da Sagrada Escritura, da tradição apostólica, do magistério, nas declarações, definições infalíveis... Estes são os pontos de referência e não podemos mudar pouco a pouco a doutrina da Igreja para levá-la às ideias que são contra a Revelação.                        

IV – Neste sentido, falando de processos, não lhe preocupa o caminho sinodal da Igreja alemã como ponta de lança?      

CM –
Isto é uma loucura. Eles pensam que os abusos sexuais da parte de alguns clérigos teriam algo a ver com a interpretação da sexualidade ou com o celibato e o acesso das mulheres ao sacerdócio. O caso dos abusos é instrumentalizado para fazer outra agenda. É absolutamente falso. Não se pode aceitar isto porque os abusos têm muitas causas, entre outras a desorientação da moral. O fracasso da moral pessoal e também eclesiástica, dado que não se entendeu bem a disciplina eclesiástica. Um homem é sacerdote de Jesus Cristo para dar um bom exemplo aos demais. O sacerdote corre o risco de cair em tentação, de não respeitar os jovens na santidade da vida, na personalidade... Essas são as verdadeiras razões deste fracasso. A grande maioria dos padres são bons, não se pode culpar esses bons padres pela culpa pessoal de outras pessoas. Sabemos que há abusadores nas famílias, que há pais abusadores, mas não se pode dizer que a maioria desses perpetradores, daqueles que fazem essas coisas, são os pais. Porque a maioria dos pais são bons pais.           

IV – O texto de Bento XVI, sobre as causas da pedofilia na Igreja, acha que foi silenciado conscientemente pela argumentação usada pelo Papa emérito?  

CM –
Ele, Bento XVI, disse a verdade e alguns não querem ouvi-lo. Inventam algumas teorias que o Arcebispo Georg Gänswein e eu teríamos escrito esse texto. Foi o que eu li na imprensa. Ele, o Papa emérito, é mais capaz de escrever esses textos do que a maioria dos seus críticos. Ou seja, tem uma alta intelectualidade. E teve a experiência suficiente desde há 60 anos e também como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e, depois, como Papa. Os dois Papas, João Paulo II e Bento XVI, fizeram tudo o que podiam contra a pedofilia no clero. Há que reconhecer-lhes os méritos na luta contra esta praga. Os que os criticam são ideólogos. A maioria destes não leu, não estudou esta carta de vinte páginas ou mais. Apenas leram alguns títulos nos jornais que disseram que o Papa acusava a corrente de 68. Mas o Papa emérito não disse que são culpados, mas que prepararam a atmosfera da aniquilação da moral e da consciência.                  

IV – Está preocupado com o que poderá sair do Sínodo da Amazónia?             

CM –
O que vi até agora é muito supérfluo. A razão para a falta de sacerdotes não é o celibato, é a falta de preparação para a vocação, a vocação vem de Deus e compete-nos ouvir e dar a resposta ao chamamento de Deus, que é um acto espiritual. A Igreja tem que fomentar uma boa pastoral vocacional. O celibato é uma realidade espiritual e quem não pensa no Espírito de Deus não pode compreendê-lo. Como Jesus disse: as pessoas do mundo não entendem o que é o celibato, dar a própria vida e não viver em matrimónio, que é para nós um sacramento. Com o celibato damos também um testemunho na dimensão escatológica da esperança para a vida eterna. Porque a vida humana, cristã, não termina neste mundo terreno. Temos uma esperança mais além desta vida. Todos os que falam, que têm as aspirações neste Sínodo da Amazónia, falam apenas de alguns aspectos práticos. E não entram profundamente nos temas. Pensam mais segundo o mundo que num sentido espiritual.              

IV – Vossa Eminência escreveu vários livros sobre as mulheres e o sacerdócio. Houve uma comissão sobre o diaconado feminino. Acha que se vai abrir a via para o diaconado feminino e, portanto, no futuro, para o sacerdócio das mulheres?                       

CM –
Não. Dogmaticamente não é possível. O Papa não tem o poder e a autoridade de mudar os sacramentos. E nunca houve um diaconado sacramental das mulheres. Não se pode interpretar alguns dados da história nesse sentido e nunca a Igreja disse dogmaticamente que é possível que a mulher receba o sacramento da ordem. Existe apenas um sacramento da ordem: Bispo, Presbítero e Diácono, e não se pode separar, distinguir, o sacramento.         

IV – E é possível um caminho intermédio de um diaconado ministerial não-sacramental?                 

CM
Não. Porquê chamar-lhe diaconado ministerial? Criaria uma confusão nas palavras. Grandes grupos dos nossos cristãos são instruídos pela imprensa e não sabem distinguir teologicamente por uma falta de formação teológica. Para isso temos os ministérios. Ministérios laicais também. Igual para os homens e para a mulheres. Não tem sentido construir algo com o sentido de diaconia feminina, porque temos esta palavra – ministérios –, que procede do latim. Porquê criar confusão? A palavra diácono é um termo técnico para o primeiro grau do sacramento da ordem. Não podemos confundir terminologicamente.           

IV – Estamos num tempo em que a doutrina passou para segundo lugar. O primeiro foi ocupado por uma concepção singular, inclusive espiritual, da práxis. Qual é o papel da doutrina na vida cristã, na configuração da identidade católica?      

CM –
Há muitos, agora a Igreja, que não sabem o que é doutrina. Pensam que é uma teoria, uma espécie de pensamento. A doutrina da Igreja é o Evangelho de Jesus, é a doutrina de Jesus e dos Apóstolos e, por isso, é a apresentação, a verbalização do Logos, da Palavra de Deus. A doutrina da Igreja é a explicação da auto-revelação de Deus e não a nossa teoria sobre Deus ou sobre algumas questões na Igreja. É preciso distinguir entre a doutrina dogmática da Igreja e a doutrina académica dos teólogos. Nesta preparação da chamada reforma da Cúria, adiam a fé. Primeiro vem o Secretário de Estado, que dizem verbalmente que a Secretaria de Estado, com as relações com os Estados, a diplomacia e a burocracia vaticana, está mais ligada à suprema missão do Papa que a Doutrina da Fé. Isto é um absurdo. Essas são algumas tarefas mundanas, seculares. A missão espiritual vem de Jesus Cristo. Jesus Cristo não constituiu o Estado do Vaticano com o seu chefe, e esse chefe, com o seu Estado, governa a Igreja. É um absurdo. O oposto é a verdade. O Estado é apenas uma ajuda para garantir a independência, a liberdade do Papa contra as influências dos políticos. Mas não é a essência do ministério petrino. E como se pode dizer, entre os Dicastérios, que vem primeiro o da Evangelização e depois a Fé e a Doutrina da Fé? A Evangelização é a práxis e a Fé é a teoria. Que conceito de teoria e prática têm? O do sistema marxista? A Fé é a origem, é a raiz da justificação. Somente por meio da Fé em Jesus Cristo somos salvos. Sem Fé, ninguém pode agradar a Deus. A Fé é uma virtude infusa. O primeiro dom do Espírito Santo a cada um de nós é a Fé e a Esperança, o Amor. Não se pode dizer que a Fé é só uma teoria.                      

IV – Que outros aspectos da reforma da Cúria o preocupam?        

CM
– Também é muito problemático que tenham substituído as Congregações dos Cardeais, que representam a Igreja Romana, pelos Dicastérios. Agora só temos Dicastérios. Os Dicastérios são uma burocracia. A Cúria Romana não pode ser um aparato burocrático para ajudar o Papa, as Conferências, os Bispos... É uma realidade eclesiástica que representa a Igreja Romana. Colegiado com o Papa como seu corpo, está em primeiro lugar o Colégio Cardinalício. A Cúria é também uma forma do trabalho do Colégio Cardinalício. E, por isso, a Congregação é a expressão latina de sínodo. Falam da sinodalidade e terminam com as Congregações, e, em vez de sinodalidade ou Congregação, agora introduzem um termo burocrático. 

IV – O que é que o motivou a fazer pública a sua Declaração de Fé?

CM –
Era necessário. Fala-se muito do clima, das mudanças climáticas, imigrantes... e tem que se falar sobre os temas da nossa fé cristã e católica. O Cardeal Kasper disse que o que eu tinha escrito eram alguns elementos arbitrariamente escolhidos por mim. Mas os temas são a Trindade, a Encarnação, a sacramentalidade da Igreja, a unidade entre fé e vida e a expectativa para a vida eterna, a dimensão escatológica. É, exactamente, o que o Símbolo diz, a Profissão de Fé. E estamos nisso. A Igreja, como o Papa sempre disse, não é uma ONG, a Igreja é a comunhão na Fé, unidos em Jesus Cristo, o filho de Deus. A palavra de Deus que se fez carne. Este é o centro da Igreja, o sacramento em Cristo para levar as pessoas à plena comunhão com Deus e entre si, para dar um exemplo ou um sinal de unidade para a humanidade. Isto é a Igreja. Não precisamos de uma Igreja que seja uma sub-organização da ONU.       

IV – Gostaria de lhe perguntar sobre a formação teológica dos Sacerdotes e dos Bispos. Quais são as consequências de uma ausência de formação teológica e doutrinal dos Sacerdotes e dos Bispos?        

CM –
Os Bispos e os Sacerdotes são os servidores da Palavra. Por isso têm que conhecer a Palavra. A inteligência da Fé não é uma realidade que vem de fora para a Fé, vem de dentro, da Fé. A Fé é um acto também racional. Cremos com a nossa razão e com a nossa vontade nascida da graça. Mas é um acto verdadeiramente humano. E temos que estar preparados para dar uma resposta a todos aqueles que nos perguntam pela racionalidade da esperança que existe em nós. Temos essa grande tradição da teologia, da intelectualidade, da Fé. Todos os grandes mestres, especialmente São Tomás de Aquino, falaram do Bispo como o mestre da palavra, como o que ensina a palavra e tem que conhecer todos os elementos da Fé. Não tem que ser um teólogo especialista como na universidade. Mas tem que ter esse nível. Tem que ser capaz de discutir com os professores de teologia. Tem que se informar todos os dias, ler a Bíblia, estudar a Bíblia, os grandes textos e documentos da tradição apostólica. E conhecer os teólogos actuais. Toda a discussão que temos hoje, a antropologia, a falsa antropologia, que define o homem só como um ser biológico. Temos que dar respostas convincentes à intelectualidade de hoje. Não é suficiente ser ministro do culto, o ritualismo, isso não é suficiente. Ou repetir algumas frases comuns. Tem que ser capaz de penetrar nas questões. É por isso que precisamos de um estudo da teologia profundo e também de uma formação permanente.   

IV – Na sua biografia há um capítulo destacado com a sua ligação a Gustavo Gutiérrez, com quem também elaborou uma teologia sobre os pobres. Hoje estamos num momento em que os pobres adquiriram um protagonismo singular como objecto prioritário do discurso da Igreja no sentido do Evangelho de que os pobres estão no centro da mensagem. Mas não se está a utilizar este discurso para algo mais?                      

CM –
Tudo pode ser explorado por parte da ideologia. Mas a Fé cristã, católica, não é uma ideologia. É a experiência da realidade de Deus no nosso meio. Esta é a Fé católica. Os pobres no mundo não são uma realidade marginal. É um grande tema, porque esses pobres são milhões, vivem abaixo do nível da dignidade humana. Com a força da Fé e o espírito do Amor, devemos preocupar-nos com o desenvolvimento integral da humanidade. Não pode ser que alguns poucos sejam riquíssimos e outros não tenham nada. As riquezas do mundo são dadas para todos. A Doutrina Social da Igreja e a teologia da libertação, na linha de Gustavo Gutiérrez, dizem que isto não é ideologia marxista, mas que nos faz questionar como podemos falar de Deus diante destas injustiças, desigualdades e sofrimentos. A luta contra a estrutura da pobreza, contra a falta de dignidade humana, pertence à missão da Igreja, à diakonía.   

Gabriel Ariza     
Uma tradução de Dies Iræ.

A “expropriação proletária” do Cardeal Krajewski



A 12 de Maio, o Cardeal Konrad Krajewski, esmoler do Papa Francisco, reactivou a electricidade num prédio ilegalmente ocupado na Rua da Santa Croce in Gerusalemme, no centro de Roma. Para fazê-lo, teve que romper os lacres colocados pela ACEA, a empresa pública que, a 6 de Maio, tinha cortado a electricidade devido às contas não pagas pelos ocupantes nos últimos cinco anos, que ultrapassam os 300 mil euros. A responsabilidade pela falta de pagamento e pela ocupação ilegal do edifício é da associação Action-Diritti in movimento, um centro social dirigido por um militante de extrema-esquerda, Andrea Alzetta, conhecido como “Tarzan”, repetidamente denunciado por violação de domicílio, destruição de edifício e resistência a um funcionário público. O representante do Papa Bergoglio cometeu um acto mais sério de quanto se possa imaginar.                 

Em Itália, o artigo 349 do Código Penal pune qualquer pessoa que viole os selos apostos pela autoridade com pena de prisão de seis meses a três anos. Além disso, sendo a reactivação abusiva, configura-se no gesto do esmoler pontifício o crime de roubo de energia. O Cardeal Krajewski violou, portanto, a lei e gabou-se publicamente, declarando, em tom de desafio, que estava pronto para assumir as responsabilidades. Mas, além do aspecto penal, estamos diante da canonização do princípio segundo o qual é lícito violar a legalidade no interesse próprio ou de grupos sociais.             

É o princípio, numa palavra, da “expropriação proletária”, praticada pelos Tupamaros, pelas Brigadas Vermelhas e pelos anti-globalistas. A certeza do direito e o respeito pelas leis são as únicas barreiras que protegem a comunidade civil da anarquia e da violência, mas o que têm em comum o Cardeal Krajewski, saudado pelo La Republica como um novo Robin Hood, o ex-Presidente do Município de Riace, Mimmo Lucano, recebido como uma estrela na Universidade La Sapienza, ou o líder dos “desobedientes”, Luca Casarini, recentemente investigado por favorecimento de imigração ilegal, é o desprezo pelas leis do Estado em nome de uma ética política que pouco ou nada tem a ver com a cristã.                

No caso de contraste entre o direito positivo e a lei natural, é, certamente, a última que prevalece. Mas a nossa sociedade nega a existência de uma moralidade objectiva e absoluta à qual apelar para recusar as leis civis em contraste com ela. Hoje existe o positivismo jurídico, para o qual é bom e justo apenas o que a lei estabelece como tal. Além disso, o Cardeal não apenas não agiu em nome da lei natural, mas violou-a, porque o Decálogo proíbe de roubar e o furto viola esse mandamento.           

Sábado, 18 de Maio, realizar-se-á, em Roma, a nona edição da Marcha pela Vida para renovar o protesto contra a lei 194, de 22 de Maio de 1978, que, em quarenta anos, fez seis milhões de vítimas em Itália. Esta lei nega um mandamento da lei divina que proíbe de matar o inocente. A resposta dos abortistas é que a lei 194 é uma lei do Estado e, como tal, deve ser plenamente respeitada. Se para salvar uma criança do aborto fosse cometida a mínima ilegalidade, não haveria justificação de qualquer tipo para o culpado. Os militantes pró-vida são proibidos de impedir as mulheres do aborto, como acontece no Canadá, onde Mary Wagner já cumpriu cinco anos de prisão simplesmente porque tentava trazer rosas vermelhas, informações e orações às clínicas abortistas.            

Para justificar o acto ilegal do esmoler do Papa foi invocado o artigo 54 do Código Penal, segundo o qual «não é punível quem cometeu o facto por ter sido forçado pela necessidade de se salvar a si mesmo ou a outros do perigo actual de danos graves à pessoa». Porém, nenhum Bispo ou Cardeal exorta à desobediência civil contra a lei 194 que impõe o homicídio de Estado. E, no entanto, tirar a vida a seres humanos inocentes é muito mais grave do que cortar a electricidade por uma semana aos habitantes de um prédio ilegitimamente ocupado.               

Roberto de Mattei

quarta-feira, 15 de maio de 2019

O aborto tardio provoca mais mortes em Nova Iorque que o homicídio



O aborto tardio é mais mortífero que o homicídio na cidade de Nova Iorque. Os engenheiros sociais conseguiram-no. E a situação, como aponta o LifeSiteNews, irá pior. As estatísticas revelam que, em 2015, morreram mais fetos de 21 semanas ou mais de gestação devido a um aborto intencional do que pessoas devido a homicídio na cidade de Nova Iorque. Os dados publicados pelos Centros para o Controlo e a Prevenção de Doenças (CDC), pelo Departamento de Polícia de Nova Iorque e pelo Federal Bureau of Investigation (FBI) revelam que o número de abortos a partir da vigésima primeira semana de gestação foi de 1485, enquanto que o número de homicídios não chegou a 400. Isso, proporcionalmente, significa que, a cada dia, faleceram 4,1 fetos de 21 semanas ou mais na cidade de Nova Iorque.              
Capital do aborto dos Estados Unidos
Embora o número 1485 seja surpreendentemente alto, esses abortos, com 21 ou mais semanas de gestação, representam apenas 2,3% dos 63610 abortos perpetrados na cidade em 2015. 63000 abortos anualmente! Um número inaceitavelmente alto se tivermos em conta que vivem oito milhões de pessoas em Nova Iorque.             

E é provável que esses números só aumentem, uma vez que Nova Iorque aprovou recentemente algumas das leis de aborto mais extremistas do mundo, eliminando o aborto do direito penal e permitindo-o até ao nascimento em alguns casos. A legislação também elimina os bebés da definição de homicídio do estado durante mais de 24 semanas.          

Segundo passo: infanticídio         
Os números são apresentados no contexto de um debate feroz sobre o aborto tardio e o infanticídio nos últimos meses. Trata-se de um tema, nesse sentido, que divide o mapa político americano em dois. Os abortistas são-no febrilmente, roçando a animosidade; e os pró-vida são-no até às últimas consequências, reticentes face a rodeios ou meias-tintas.

O debate foi retomado pelo Presidente Donald Trump, que pediu, no seu discurso sobre o Estado da União, que “o Congresso aprove uma legislação para proibir o aborto tardio de crianças que podem sentir dor no ventre da mãe”.             

[Fonte: InfoVaticana]

terça-feira, 14 de maio de 2019

Aquilo que não nos disseram sobre os atentados terroristas no Sri Lanka



O massacre do Sri Lanka, com 310 mortos e mais de 500 feridos, oferece-nos elementos de reflexão. Antes de mais, não podemos limitar-nos a falar genericamente de um trágico evento, ou de atentados terroristas, sem indicar a matriz religiosa. Isto, antes de mais, por amor e respeito às vítimas. Uma parte delas perderam a vida nas explosões que devastaram as igrejas enquanto os fiéis assistiam às celebrações litúrgicas da Santa Páscoa. Uma outra parte foram vítimas das bombas que explodiram em hotéis de luxo. Todas iguais diante da morte, cuja foice ceifa inexoravelmente a vida de todo o homem sem fazer distinção de idade, de sexo, de cultura, de religião ou de raça.          

Nem todos, porém, são iguais no momento que se segue imediatamente à morte, que é o julgamento divino diante do qual comparece toda a alma no momento em que se separa do corpo. Esse julgamento não iguala, mas divide, discrimina, representa o cumprimento daquela que foi a opção central da nossa vida: a favor ou contra Deus e a Sua lei, a Sua Igreja (aquela Igreja de que é Fundador e Cabeça Aquele será o nosso Juiz, perfeitamente justo e infinitamente misericordioso). Ninguém escapa ao juízo divino, que é diferente para cada um. À luz disto, que é a luz da fé, devemos dizer que todos aqueles que morreram nas igrejas estão, sem dúvida, no Paraíso, pois as suas mortes podem ser comparada às dos mártires, porque, de facto, foram assassinados por ódio à fé. O ISIS reivindicou o massacre e o governo do Sri Lanka confirmou que os atentados tinham uma matriz religiosa islâmica. É necessário dizê-lo, insisto, por amor e respeito às vítimas. Os terroristas odeiam a fé católica, atacaram homens e mulheres baptizados congregados para assistir às funções litúrgicas e para celebrar o ponto central da fé cristã: a Ressurreição de Jesus Cristo, Redentor da humanidade, único Salvador diante cujo nome se prostram o Céu e a Terra. As vítimas não tinham ideia de que iriam morrer, mas eram homens e mulheres de fé que participavam num acto religioso. O sangue que derramaram purificou as suas vidas.                  

Não se pode dizer o mesmo das vítimas que estavam nos hotéis. Não sabemos quantas destas eram cristãs, quantas eram crentes de outras religiões ou quantas, talvez a maioria, não criam em nenhuma religião. Talvez a maior parte vivessem imersas no hedonismo e no relativismo religioso. Sem dúvida que a algumas a morte terá conduzido à salvação eterna, mas a outras à condenação eterna.         

Os terroristas islâmicos escolheram como alvo os hotéis, para além das igrejas, considerando-os lugares de decadência e os hóspedes não foram mortos enquanto cristãos, mas enquanto ocidentais, já que o islão é uma religião política que vê no Ocidente laico e escolarizado a antítese ao próprio fanatismo religioso.            

Mas é claro que é diferente morrer ajoelhados numa igreja ou na cama de um quarto de hotel. Aqui tocamos num ponto que nos permite entender o que é o martírio. Santo Agostinho afirma que o que faz um mártir não é a morte, por mais cruel que seja, mas o motivo pelo qual se mata: o modo e o lugar em que se mata. Este princípio não se aplica apenas ao martírio, que é o testemunho cristão levado ao extremo da morte, mas a todo o sofrimento humano. Por exemplo, imaginemos duas pessoas que sofrem de uma doença mais ou menos grave. Uma delas aceita-a com resignação, oferece-a a Deus e participa, deste modo, nos sacrifícios da paixão de Cristo. A outra rejeita a doença, rebela-se contra o que chama o destino, blasfema contra Deus e desespera. A doença é a mesma, mas o primeiro paciente obterá grandes méritos, o segundo manchar-se-á de culpas graves.                                  

Vivemos tempos de perseguições e, para muitos, de martírio incruento, mas branco, como é definido aquele que se sofre pela fé católica sem derramar, necessariamente, o próprio sangue. É, no fundo, aquilo que sempre fizeram os Confessores da Fé que testemunharam a Verdade com a palavra e com o exemplo. Nem todos somos chamados a ser mártires, mas todos nós somos chamados a ser, no nosso pouco, com a palavra e com o exemplo, Confessores da Fé.                 

Roberto di Mattei

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Fátima



Nunca Deus fez e formou senão uma inimizade, mas esta é irreconciliável e há-de durar e mesmo aumentar até o fim do mundo: entre a Santíssima Virgem e o demónio. “Porei inimizades entre ti e a Mulher, entre a sua descendência e a tua; ela te esmagará a cabeça e em vão armar-lhe-ás ciladas ao calcanhar”, diz Deus à serpente no Paraíso. Portanto, para obter a paz para o mundo, não recorramos ao que nos dita a carne e o sangue, mas à Celeste Medianeira de todas as graças.   

Diz Nosso Senhor que Satanás não expulsa a Satanás. Não será, assim, o comunismo que livrará o mundo dos últimos redutos de resistência do nazismo, nem o liberalismo que nos livrará do comunismo. Somente a verdade nos libertará e esta verdade não a encontramos nessas doutrinas reiteradamente condenadas pela Santa Sé infalível, mas no fiel cumprimento dos mandamentos de Deus e da Igreja, que não precisa de salvadores, mas que, pelo contrário, oferece aos povos e aos governos o único porto de salvação que é Nosso Senhor Jesus Cristo.             

Eis a mensagem de Fátima. Aparecendo àqueles três obscuros pastorinhos, quis Deus manifestar o poder do seu braço, abatendo os poderosos e exaltando os puros e humildes de coração. Para alcançar a paz para o mundo, a Celeste Medianeira de todas as graças não propôs aos homens todo um programa de assistência material ou de reajustamento de fronteiras. Para obter a paz para o mundo, a Mãe de Deus veio-nos exortar a mudar de vida e a não mais afligir com o pecado a Nosso Senhor. Para alcançar a tranquilidade que tanto almejamos neste mundo conturbado pelas misérias e pelos sofrimentos, convida-nos a Virgem Santíssima a recitar o Santo Rosário e a fazer penitência pelos nossos pecados.        

Mas, por acaso, não estamos no século do rádio e da energia atómica? E não foram aqueles os remédios que, em plena Idade Média, a Santíssima Virgem confiou ao zelo de São Domingos contra os erros e devastações dos hereges albigenses? E essas três crianças de Fátima que usam cilícios como se ainda vivessem no tempo de um São Jerónimo ou de São Francisco de Assis! Não vê, então, a Santíssima Virgem que os tempos modernos não comportam essas velharias?     Certamente, a Rainha dos Céus não se deixa levar pelos remédios e opiniões dos sábios e orgulhosos desta terra. Ela não ignora que o seu Divino Filho é o mesmo ontem, hoje e para todo o sempre. E o problema do mal e das misérias humanas prende-se àquela mesma serpente antiga, ao eterno Pai da Mentira que roubou a paz e a felicidade terrena dos nossos primeiros pais.     

E ontem, como hoje, para a conquista da paz e da concórdia entre os homens, é preciso que, inicialmente, trabalhemos para que Cristo reine nos corações. Para obtermos esta graça, volvamo-nos para nossa Rainha e Advogada.   

Maria, sobretudo nestes últimos tempos, diz o Bem-aventurado Grignion de Montfort, deve, mais que nunca, reluzir de misericórdia, de força e de graça: de misericórdia, para fazer voltar e receber amorosamente os pobres pecadores e transviados que se hão-de converter e volver à Igreja Católica; de força contra os inimigos de Deus, os idólatras, cismáticos e ímpios obstinados que se hão-de rebelar de um modo terrível, para seduzir e fazer cair por meio de promessas e ameaças todos os que lhes forem contrários; deve reluzir de graça, finalmente, para animar e confortar os valentes soldados e fiéis servos de Jesus Cristo, que pugnarão pelos seus interesses.              

Ultramontanos e piedosos devotos da Rainha dos Anjos, unidos ao Papa e à Santíssima Virgem, não sejamos como aquele ridículo irado administrador de Vila Nova de Ourém que, há vinte e oito anos atrás, a 13 de Agosto de 1917, prendia os três pastorinhos de Fátima, impedindo-os de ir ao encontro aprazado com a Santíssima Virgem. Não impeçamos, através dos nossos actos e da nossa malícia, que se realizem as comunicações sobrenaturais entre o Céu e a terra. Pelo contrário, tenhamos abertos os corações às moções da divina graça e não poupemos esforços e sacrifícios e orações para que, através da Santíssima Virgem, Cristo volte imperar nas nossas almas, nas nossas famílias, em todas as nações.   

Dr. Plinio Corrêa de Oliveira (16 de Setembro de 1945)          

Fátima e a profecia de Pio XII



Suponha, meu caro amigo [dirigindo-se ao Conde Enrico Pietro Galleazzi], que o comunismo é apenas o mais visível dos órgãos de subversão contra a Igreja e contra a tradição da revelação divina, então assistiremos à invasão de tudo o que é espiritual: a filosofia, a ciência, o direito, o ensino, as artes, a imprensa, a literatura, o teatro e a religião.       

Estou obcecado pelas confidências da Virgem à pequena Lúcia de Fátima. Essa obstinação de Nossa Senhora, diante do perigo que ameaça a Igreja, é um aviso divino contra o suicídio que representaria a alteração da fé, na sua liturgia, na sua teologia e na sua alma.       

Ouço à minha volta os inovadores que querem desmantelar a Capela Sagrada, destruir a chama universal da Igreja, rejeitar os seus ornamentos, dar-lhe remorso do seu passado histórico. Pois bem, meu caro amigo, estou convicto que a Igreja de Pedro deve assumir o seu passado ou, então, cavará a sua sepultura.   

Dia virá em que o mundo civilizado renegará o seu Deus, em que a Igreja duvidará como Pedro duvidou. Ela será tentada a crer que o homem se tornou Deus, que o seu Filho é apenas um símbolo, uma filosofia como tantas outras, e, nas igrejas, os cristãos procurarão, em vão, a lâmpada vermelha em que Deus os espera. 

Mons. Georges Roche e Philippe St. Germain, in Pie XII devant l’Histoire   

domingo, 12 de maio de 2019

O catolicismo não é judaico-cristão



Tornou-se moda entre os cristãos referir-se à nossa religião com a denominação de judaico-cristã. A Igreja, na medida em que rompeu a sua conexão original com a Sinagoga, adaptou o seu magistério às exigências da civilização greco-latina e separou-se de tudo aquilo que, na tradição israelita, pudesse ter de hebraico. A atitude de Pedro e de Paulo ao tomar Roma como centro do seu apostolado foi, desde o começo, favorável a um entendimento profundo com as expressões mais notáveis da civilização helénico-romana.     

Política, arte, ciência, economia e língua vinham, agora, do mundo gentio greco-latino. De Israel conservava-se a Escritura e, com ela, o conteúdo da tradição revelada, mas examinado à luz dos princípios impostos pelo mistério do Verbo Encarnado. O encontro de gregos e cristãos foi decisivo para o futuro de uma assembleia religiosa cuja catolicidade dependia dessa união.         

Ninguém pode negar que o povo de Israel, como qualquer outro, teve usos e costumes que dependiam naturalmente do seu temperamento, das suas virtudes, dos seus vícios, das vicissitudes da sua história, da sua ignorância e dos seus conhecimentos. Separar isso dos conteúdos revelados tem sido a tarefa do Magistério da Igreja.                

O Símbolo de Niceia é uma condensação particularmente feliz desse discernimento e prepara, no início do século IV, a formulação de uma Teologia Dogmática que pouco terá que adicionar ao seu conteúdo essencial no decorrer dos séculos.            

Esse esforço exegético e o seu conteúdo dogmático nada devem à “forma mentis” israelita, mais inclinada às longas dissertações em torno dos artigos da fé, da interpretação da lei ou das visões apocalípticas, mas a uma clara precisão doutrinária onde aparece, com toda a sua força, o gosto greco-romano pela clareza e pela conclusão.                      

O núcleo da religião está constituído pela Revelação e essa, em sentido estrito, não é judia, ainda que o povo hebreu tivesse sido eleito por Deus para a sua recepção. Chamar os conteúdos revelados por Jesus de judaico-cristãos teria sentido se não fossem revelados, mas sim o fruto da espiritualidade hebreia, como foram as suas instituições, os seus cânticos, as suas visões e a sua história nacional. 

Jesus obrou em todo o momento como Deus feito homem e não como judeu. Reclamou para si uma autoridade e uma obediência que nenhum cidadão israelita poderia reclamar.     

Sócrates, Platão e Aristóteles são gregos na medula da sua espiritualidade e temos que agradecer à Hélade a herança dos seus respectivos ensinamentos. Mas Cristo é Deus e, embora encarnado no seio de uma Virgem hebreia, nem o seu espírito, nem as suas palavras estão circunscritas às fronteiras do povo onde nasceu. Na relação vital Cristo-Israel, o último é o veículo ou, se quiser, o meio através do qual ressoa a eternidade do Verbo.         

Assim como Deus elegeu o povo de Israel para que, do seu seio, nascesse o Messias, elegeu uma civilização para estabelecer sobre ela a sua Igreja. De Israel exigiu a lealdade à Aliança e, sobre os que foram fiéis, edificou a sua comunidade sacrificial. Da latinidade, tomaria as obras: o idioma, as ciências, o direito, a arte, os critérios políticos, económicos e militares. Numa palavra, tudo isso que a latinidade, assumindo o esforço genial dos gregos, plasmou com o seu génio peculiar.    

Em que consiste esse génio e porquê que Deus pôs os seus olhos em Roma para que fosse a cabeça da sua Igreja? É um velho princípio de sabedoria teológica admitir que os desígnios da Providência são inescrutáveis. Atrever-me-ia a afirmar que a importância política de Roma, o seu génio universal e essa disposição prática que mostrou no governo de outros povos não deixaram de entrar nos desígnios da Providência, nem careceram de forças para que Roma fosse eleita como instrumento da expansão universal da Igreja Católica.   

Roma foi erigida por inspiração do Espírito Santo e porque a sua eleição supunha a adopção do instrumento apto para expandir a fé e conservá-la no idioma mais adequado pela sua essencialidade e pela sua precisão enunciativa. Essas são as virtudes que permitiram a permanência das verdades contidas no traditum e a possibilidade de que fossem claramente explicadas a todas as inteligências.    

Uma das piores tentações que ameaçam o cristão de hoje é renunciar à férula romana para substituí-la por um angelismo de um Evangelho sem fundamento civilizador. Nestes tempos, nasceu a ideia peregrina de renunciar às categorias intelectuais greco-latinas para favorecer, como se diz, um utópico encontro semântico com outras civilizações.           

Roma, e a civilização que nasceu do seu encontro com a revelação cristã, foi escolhida por muitas razões que ignoramos, mas é preciso perceber que a civilização latina foi a mais adequada, pelas suas condições, para cumprir a missão universal da Igreja.       

A civilização latina, enquanto recebeu o influxo da religião católica, começou o grande périplo de uma transformação cultural solicitada pela pressão misteriosa da Graça. Os efeitos transfiguradores da vida sobrenatural não só se fazem sentir sobre a alma individual, influem também sobre as actividades do espírito como a ciência, a economia, a arte e a política, sob a influência do homem sobrenaturalmente regenerado.    

A humilitas é a consciência de finitude e de dependência total perante Deus que descobre o único caminho verdadeiro pelo qual pode transitar o nosso reencontro com o Absoluto. A questão social, como se diz hoje, não se poderá resolver jamais se não é na figura da generosa entrega dos fortes ao serviço dos mais fracos.                         

A fé, a esperança e a caridade não são virtudes imbecis e com uma exagerada propensão a crescer em terrenos covardes. Requerem, antes de tudo, uma boa vontade e uma inteligência dócil ao dado revelado e pouco influída pelo desejo constante de justificar más paixões e interesses baixos. Se pensarmos bem, para ser um bom cristão é necessário uma limpeza de alma pouco comum e isso, no fim das contas, implica em nobreza.                   

A aproximação destes dois termos, judaico-cristão, aplicado às verdades reveladas por Deus, traz consequências lamentáveis porque relativiza o conteúdo religioso, fazendo-o depender da civilização hebreia, e isso não é católico, embora venha com a pretensão de ser muito protestante e moderno. Tampouco é aceitável se o aplicamos à nossa civilização que é, essencialmente, greco-latina.                      

Rúben Calderón Bouchet

sábado, 11 de maio de 2019

“Onde está o Amor, aí há um olhar”



Maria, Senhora nossa!

Debruçai, uma vez mais, sobre nós, o Vosso olhar de Amor
para não perdermos o rasto do Amor de Deus,
para ousarmos confiar no caminho que nos é proposto por Deus.

Para não deixarmos de acreditar que o tesouro da
nossa alma é fazer a vontade de Deus.

Sempre que a nossa alma vacilar, tomai-nos pela mão e
levai-nos de volta à casa do Amor de Deus!

Ricardo de São Victor, místico medieval

A Santa Missa e o imenso poder do sacerdote



Tanto pelo seu cerimonial quanto pelo sacrifício que nela se realiza – a renovação e perpetuação do próprio holocausto do Calvário –, a Santa Missa é um mistério tão sublime que a sua grandeza e esplendor, a sua santidade e profundidade, a sua nobreza e excelência ultrapassam o conhecimento dos mortais. No entanto, tudo isso está contido nessa celebração que é o centro da Igreja Católica Apostólica Romana enquanto instituição divina.              

A Missa, pela sua acção sacrifical, representa simbolismo único ao indicar que o próprio Deus enviou a Vítima para redimir e salvar o género humano. No Gólgota, Jesus Cristo morreu uma só vez por todos, com o derramamento do seu sangue e da sua morte física. No altar, essa imolação é renovada diariamente, de forma incruenta, e os seus infinitos frutos são aplicados aos membros da Igreja, misticamente, sob as espécies do pão e do vinho. 

O santo sacrifício tem por finalidade honrar a Deus como convém num acto de adoração, render-Lhe graças pelos benefícios recebidos, aplacá-Lo e dar-Lhe a devida satisfação pelos nossos pecados, a fim de alcançarmos todas as graças necessárias à nossa eterna salvação.        

Missa significa enviada, de acordo com São Tomás de Aquino. “Ide, o envio está feitoou, no sentido literal, ide, foi enviada. Daí deriva o nome de missa. “Ite missa est”, a Vítima é enviada por meio de um Anjo para que seja aceite por Deus.                    

Nesse acto litúrgico adornado e enriquecido por sinais, gestos, orações, reverências e cruzes há uma beleza encantadora para a piedade cristã. O que se realiza não são apenas simbolismos, mas uma realidade, pois o próprio Cristo é sacerdote e vítima, através da acção ministerial do celebrante. Até as alfaias sacerdotais utilizadas nesse cerimonial embelezam a Missa pela variedade de simbolismos. O sinal da cruz na casula do paramento romano indica tratar-se de um sacrifício que está a ser renovado.                     

Cabe salientar que a Missa tradicional é de uma riqueza incomparável no campo litúrgico, exegético, moral e teológico, constituindo um verdadeiro tratado dessas matérias. Invoca a intercessão dos santos, da Virgem Maria e dos santos exponenciais do sacrifício do Antigo Testamento, que se perpetua ao longo dos séculos.          

Com efeito, não há um acto mais excelente na Terra do que a Missa, por se tratar do sacrifício do Homem-Deus que se renova nos nossos altares debaixo das espécies do pão e do vinho, sendo o sacrifício da antiga Lei prefigura do sacrifício de Cristo. Por isso, exclamava o Salmista que as suas delícias estavam na casa de Deus, a alegria da sua juventude.  

Então, o júbilo dos filhos de Deus é o de se encontrar com o Senhor dos Exércitos, que Se imola e Se oferece a Deus Pai. Ao estarem na casa do Senhor, os seus pés não param, porque a casa de Deus está edificada como uma cidade cujas partes estão em perfeita e mútua união.     

No seu livro As excelências da Santa Missa, São Leonardo de Porto-Maurício, da Ordem dos Frades Menores, narra que Santo Isidoro, simples lavrador, tomava o cuidado de nunca faltar à Missa pelas manhãs. Deus, para demonstrar-lhe o quanto prezava essa devoção, mandava os seus anjos lavrar o campo de Isidoro enquanto ele se encontrava na igreja. Não é de esperar que Deus faça, para o comum dos fiéis, milagres tão sensíveis e de tal monta, mas de muitas maneiras Ele recompensá-los-á por esse acto de piedade.

Outro exemplo citado na mesma obra é o de São Venceslau, Rei da Boémia, que, com muita humildade, fazia questão de acolitar diariamente a Missa. Além de presentear as igrejas com jóias preciosas do seu tesouro, costumava confeccionar, com as próprias mãos, as hóstias destinadas ao Santo Sacrifício. E, sem diminuir em nada a sua dignidade real, cultivava um trigal e, desde a preparação da terra até à colheita, ele próprio moía os grãos, preparava a farinha e as hóstias e apresentava-as aos sacerdotes para se tornarem o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade de Jesus Cristo.          

Como é bom o Senhor, que fez maravilhas e Se entregou a nós em sacrifício para expiação dos nossos pecados! Não há como explicar e nem sequer realçar a grandeza do sacerdócio católico, porque é outro Cristo que imola em união com Ele esse sacrifício perene que liga Deus aos homens. Com efeito, nem os Anjos possuem tal poder!         

P. David Francisquini